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Gentrificação

Gentrificação é um processo de transformação de áreas urbanas que leva ao encarecimento do custo de vida e aprofunda a segregação socioespacial nas cidades.

Exemplo do processo de gentrificação em Cluj, na Romênia.
A gentrificação modifica a paisagem urbana e o perfil social dos bairros, provocando sua valorização mercadológica e a expulsão de antigos moradores.
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Gentrificação é um processo de transformação e supervalorização de uma determinada área da cidade, promovendo um aumento no custo de vida. Essa dinâmica imposta atrai um novo perfil de moradores — uma população de maior poder aquisitivo —, ao mesmo tempo que expulsa seus antigos residentes, que partem em busca de bairros mais acessíveis economicamente. Diante disso, a gentrificação aprofunda a segregação socioespacial e evidencia a falta de um planejamento urbano mais eficaz nas cidades.

Saiba mais: Mobilidade urbana — as condições que viabilizam a circulação de pessoas, mercadorias e cargas nas cidades

Tópicos deste artigo

Resumo sobre gentrificação

  • Gentrificação é um fenômeno socioespacial urbano caracterizado pelo aumento do custo de vida em determinadas áreas da cidade e pela saída de antigos moradores desse local.

  • O termo gentrificação foi cunhado pela socióloga britânica Ruth Glass na década de 1960.

  • A gentrificação tem como causas interesses de mercado, a revitalização com o propósito de refuncionalizar um bairro ou região da cidade e o aumento do potencial turístico da área.

  • Com a elevação do custo de vida e também do preço dos imóveis e dos aluguéis, antigos moradores tendem a deixar a área, que passa a atrair uma população de maior poder aquisitivo.

  • A gentrificação aprofunda a segregação socioespacial dos centros urbanos.

  • Esse fenômeno não está restrito às regiões centrais da cidade. No Brasil temos exemplos de gentrificação na periferia, como aconteceu no Vidigal, no Rio de Janeiro (RJ).

  • Os impactos da gentrificação se estendem ao meio ambiente, com a maior circulação de veículos particulares e maior impermeabilização do solo pelo aumento das áreas construídas, por exemplo.

  • Solucionar o problema da gentrificação demanda ação do poder público no planejamento urbano e na garantia de espaços justos e democráticos nas cidades.

O que é gentrificação?

Gentrificação é um processo de transformação das paisagens urbanas em determinados bairros da cidade que garante novas funções aos edifícios e espaços urbanos (refuncionalização), o que atrai um novo perfil de moradores e provoca alteração no custo de vida nessas áreas, tornando-o mais elevado. Com isso, antigos residentes, notadamente aqueles com menor poder aquisitivo, acabam deixando esses bairros em busca de locais com custo de vida mais acessível.

→ Videoaula: O que é gentrificação?

Origem da gentrificação

A origem da gentrificação enquanto termo empregado nos estudos sobre as cidades é datada da década de 1960. Esse termo foi cunhado pela socióloga britânica Ruth Glass (1912-1990) ao identificar e explicar o processo de transformação socioespacial em bairros operários da cidade de Londres a partir de meados do século XX. A palavra “gentrificação” é derivada do inglês gentrification, que, em tradução livre, significa “enobrecimento”.

Causas da gentrificação

A determinação das causas da gentrificação não é uma tarefa fácil nos estudos sobre o tema, tendo em vista a discordância observada nos escritos de vários urbanistas e geógrafos que se dedicam à compreensão do espaço urbano.|1|

Entre as principais causas apontadas para a gentrificação está a recuperação de áreas que estariam, em tese, abandonadas, seja pelo poder público, seja por antigos proprietários de casas ou comerciantes que se mudaram de uma determinada localidade em direção a outra, não dando uma nova função ou manutenção apropriada aos edifícios. Isso acontece em bairros que abrigavam indústrias ou atividades econômicas que entraram em declínio, sendo bastante comum nos centros das cidades.

No entanto, essas áreas nem sempre se encontram abandonadas. Além dos moradores que permaneceram, prédios residenciais e casas se tornam mais baratos e economicamente viáveis para outra parcela da população, que se muda para essas áreas. Existem casos também de edifícios ocupados por famílias de mais baixa renda que não têm condições de arcar com os custos de aluguéis ou mensalidades e ali se instalam.

A especulação imobiliária é também uma causa da gentrificação e é realizada por agentes privados interessados em ampliar o valor dos terrenos e prédios na área. Além dessa causa, o interesse de determinados grupos sociais e perfis profissionais por bairros ditos históricos e que apresentem símbolos culturais fortes acaba transformando essas localidades.

Também pensando no valor cultural e histórico de certas áreas da cidade, a gentrificação acontece tendo como base o potencial turístico e a capacidade de atrair novos visitantes para aquele local.

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Como ocorre o processo da gentrificação?

O processo de gentrificação ocorre mediante a reforma e revitalização de edifícios antigos degradados, em mau estado de conservação, e também pela construção de novos prédios residenciais, comerciais (como shoppings, cafeterias, restaurantes, boutiques etc.) e também de atividades culturais (como teatros e cinemas) nas áreas visadas.

Junto a esses elementos, observa-se a atração de um novo público interessado nesses serviços, bem como a mudança da população de maior poder aquisitivo para essas localidades, que se muda em decorrência das transformações efetivadas.

Consequências da gentrificação

Representação de consequências da gentrificação: atração de um público com maior poder aquisitivo e elitização dos espaços.
A expulsão dos antigos moradores e a elitização de espaços são consequências da gentrificação.

A gentrificação provoca uma mudança não somente na paisagem cultural de determinados bairros das cidades, mas sobretudo no perfil populacional daquela área. Levando em consideração o que vimos sobre a forma e as causas associadas ao processo de gentrificação, listamos a seguir algumas das principais consequências:

  • aumento do custo de vida, resultante da elevação no preço dos aluguéis e dos terrenos nas áreas que passaram pela gentrificação;

  • elitização (ou enobrecimento) de bairros em decorrência da instalação de uma população de maior poder aquisitivo;

  • expulsão dos antigos moradores, em especial os mais pobres, o que acontece principalmente em função do encarecimento dos aluguéis e dos serviços em geral. Assim, tem-se a ampliação da segregação do espaço urbano.

Confira nosso podcast: Favelização e segregação

Diferenças entre gentrificação e revitalização

A gentrificação e a revitalização são processos que acontecem no espaço urbano e se assemelham em muitos aspectos, mas apresentam causas e objetivos distintos:

  • Gentrificação: promove a transformação dos espaços e a sua consequente elitização, expulsando antigos moradores que não conseguem arcar com os custos de vida elevados decorrentes desse processo. A gentrificação é mais comum nas áreas centrais das cidades, embora não seja restrita a elas, e os agentes privados são os principais atuantes nesse processo.

  • Revitalização: denota novas funções a áreas e edificações abandonadas ou degradadas, dando a elas uma nova “vida”.|2| A revitalização não tem, portanto, o objetivo de atrair novo público ou modificar a dinâmica de uma área. Quanto a espaços e edifícios públicos, a revitalização é de responsabilidade do poder público municipal, estadual ou federal. Assim, a revitalização é voltada a uma construção ou área em específico (praças, canteiros, prédios, avenidas etc.), comumente atendendo a alguma demanda|3|, e não necessariamente imputa transformações em todo um bairro, como é o caso da gentrificação.

Gentrificação no Brasil

A gentrificação é um processo que aconteceu e acontece em diversos centros urbanos brasileiros, em especial nas metrópoles e grandes cidades. As causas para a gentrificação que ocorre nas cidades do Brasil estão comumente associadas ao turismo, em especial quando se trata da reconfiguração dos espaços urbanos para a recepção de eventos de larga escala, como foi o caso da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas Rio 2016, sediada na capital do Rio de Janeiro em 2016, por exemplo.

Outro aspecto importante a ser ressaltado da gentrificação no Brasil é o fato de que ela nem sempre ocorre no centro das cidades, incidindo também sobre as áreas periféricas.

Listamos a seguir os locais que passaram pela gentrificação em algumas cidades brasileiras:

  • região portuária do Rio de Janeiro (RJ), conhecida como projeto Porto Maravilha;

  • Vila Autódromo e bairro do Vidigal, na cidade do Rio de Janeiro (RJ). O segundo é considerado hoje um dos lugares mais caros para se viver no país|4|;

  • bairros como Santa Cecília, Vila Madalena, Anhangabaú e a Avenida Água Espraiada, na cidade de São Paulo (SP);

  • Cais Estelita e Bairro do Recife, na cidade de Recife (PE).

Região portuária do Rio de Janeiro, uma área que passou pelo processo de gentrificação.
Região portuária do Rio de Janeiro, com vista para o Museu do Amanhã e para a Ponte Rio-Niterói. [2]

Gentrificação no mundo

A gentrificação tem se tornado cada vez mais comum em países emergentes, com muitos exemplos acontecendo em cidades latino-americanas do México, Chile, Colômbia, Equador, Argentina e, é claro, no Brasil. Nesse grupo de países, o processo acontece em especial nos centros históricos, que são áreas de grande valor turístico, atraindo a atenção dos agentes privados.

Como vimos, no entanto, a gentrificação é um fenômeno global que está presente em diversos países, como exemplificamos a seguir:

  • Barcelona, na Espanha, onde a gentrificação atingiu alguns dos bairros mais tradicionais da cidade, que é hoje um dos principais exemplos do processo com propósitos turísticos;

  • centros históricos de Santiago (Chile) e Quito (Equador);

  • cidade de São Francisco, considerada uma das cidades mais afetadas pela gentrificação nos Estados Unidos. A região mais atingida é a da Ponte da Baía, que liga a cidade à sua vizinha, Oakland;

  • bairro Little Haiti, na cidade de Miami (Estados Unidos);

  • bairros na cidade de Xangai (China), importante centro econômico do país.

Críticas à gentrificação

A gentrificação ocasiona o aprofundamento das desigualdades socioespaciais existentes nas cidades e nos grandes centros urbanos e é justamente por esse motivo que o processo é alvo de críticas.

O encarecimento do custo de vida em bairros tradicionais faz com que moradores antigos tenham que deixar suas casas em busca de novas áreas para habitarem, ao mesmo tempo que impede a população de mais baixa renda a se instalar ou consumir os serviços daquela área em questão. Assim, a gentrificação é criticada por evidenciar e ampliar a segregação no espaço urbano.

Gentrificação e o meio ambiente

Os impactos da gentrificação são percebidos não somente no ordenamento socioespacial das cidades, mas recaem também sobre o meio ambiente. A gentrificação, em muitos casos, vem acompanhada da redução das áreas verdes nos bairros, da maior impermeabilização do solo pela ampliação das áreas construídas e da intensificação do trânsito de veículos particulares, além de outras transformações. Essas mudanças tendem a intensificar problemas ambientais típicos das cidades, como a poluição do ar, as ilhas de calor e as enchentes.

Possíveis soluções para a gentrificação

A gentrificação é um processo norteado por interesses públicos e privados, de modo que refrear a sua ocorrência nos centros urbanos depende não somente da atuação do mercado imobiliário e dos agentes econômicos como também da atuação da governança local.

Uma das principais medidas para conter esse processo tem relação com o planejamento do uso e ocupação do espaço mediante a elaboração ou reformulação do zoneamento urbano, ampliando e diversificando as áreas destinadas à construção nas cidades.|5|

A criação de espaços mais inclusivos, com a viabilização de moradias a preços justos e acessíveis a todas as camadas da população, é também medida que pode interromper o fluxo de expulsão ocasionado pela gentrificação. Deve-se ainda prezar pela manutenção dos espaços públicos destinados ao coletivo, que fazem das cidades um ambiente mais democrático.

Exercícios resolvidos sobre gentrificação

Questão 1

(Fuvest)

Em Barcelona, em 2012 e 2013, a cada 15 minutos uma família recebia ordem de despejo. Desde então, o panorama da habitação mudou totalmente. “(…) Estamos assistindo a uma onda de especulação imobiliária (…) que agora foca no aluguel”, explica Daniel Pardo da Associação de Moradores para um Turismo Sustentável. “Esse fenômeno pôs em marcha um processo acelerado e violento de expulsão de inquilinos”, acrescenta. Onde a pressão da especulação imobiliária internacional e a indústria do turismo causaram um aumento substancial nos preços dos aluguéis, os catalães têm hoje de gastar mais de 46% dos seus salários com o aluguel. Para os jovens até os 35 anos, a taxa de esforço aumenta até os 65% (…). “Não queremos que os habitantes de Barcelona sejam substituídos por pessoas com maior poder de compra”, diz a porta‐voz do Sindicato dos Inquilinos. Só em Barcelona, 15 fundos de investimento imobiliário possuem 3.000 apartamentos.

“Os habitantes querem a sua cidade de volta”. Reportagem de Ulrike Prinz para o Goethe‐Institut Madrid. Maio/2018. Adaptado.

Os conceitos que explicam as dinâmicas urbanas descritas no excerto são:

A) financeirização e industrialização.

B) gentrificação e segregação.

C) aglomeração e conurbação.

D) industrialização e segregação.

E) conurbação e gentrificação.

Resolução:

Alternativa B

O texto descreve o processo de especulação imobiliária e transformação nos bairros de Barcelona em prol do turismo, expulsando antigos moradores em decorrência do aumento dos custos de vida. Assim, essas dinâmicas podem ser descritas como, respectivamente, gentrificação e segregação.

Questão 2

(Enem)

Desde 2009, a área portuária carioca vem sofrendo grandes transformações realizadas no escopo da operação urbana consorciada conhecida como Porto Maravilha. Parte importante na tentativa de tornar o Rio de Janeiro um polo de serviços internacional, a “revitalização” urbana deveria deixar para trás uma paisagem geográfica que ainda recordava a cidade do início do século passado para abrir espaço, em seu lugar, à instalação de modernas torres comerciais, espaços de consumo e lazer inéditos e cerca de cem mil novos moradores, uma nova configuração socioespacial capaz de alçar a área portuária do Rio de Janeiro ao patamar dos waterfronts de Baltimore, Barcelona e Buenos Aires.

LACERDA, L.; WERNECK, M.; RIBEIRO, B. Cortiços de hoje na cidade do amanhã. E-metropolis, n. 30, set. 2017.

As intervenções urbanas descritas derivam de um processo socioespacial que busca a:

A) intensificação da participação na competitividade global.

B) contenção da especulação no mercado imobiliário.

C) democratização da habitação popular.

D) valorização das funções tradicionais.

E) priorização da gestão participativa.

Resolução:

Alternativa A

O desenvolvimento do projeto do Porto Maravilha está associado à gentrificação da zona portuária do Rio de Janeiro, promovido durante a realização de grandes eventos internacionais na cidade com o propósito de ampliar a sua participação na competitividade global frente a outros importantes centros turísticos mundiais.

Notas

|1| ALCÂNTARA, Maurício Fernandes de. 2018. "Gentrificação". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível aqui.

|2| BRAGA, Emanuel Oliveira. Gentrificação. In: GRIECO, Bettina; TEIXEIRA, Luciano; THOMPSON, Analucia (Orgs.). Dicionário IPHAN de Patrimônio Cultural. 2. ed. rev. e ampl. Rio de Janeiro, Brasília: IPHAN/DAF/Copedoc, 2016. (verbete). ISBN 978-85-7334-299-4. Disponível aqui.

|3| COSTA, Emmanuel. O que é gentrificação e por que você deveria se preocupar com isso. COURB, 04 abr. 2016. Disponível aqui.

|4| DE SOUZA, Thayná. Vidigal é o sexto bairro mais caro do Brasil para se morar, diz pesquisa. Voz das Comunidades, 06 mar. 2022. Disponível aqui.

|5| REDAÇÃO. Como conter a gentrificação e ampliar o acesso à cidade? Summit Mobilidade Estadão, 06 abr. 2020. Disponível aqui.

Crédito de imagem

[1] Slrd Media / Shutterstock

[2] lazyllama / Shutterstock

 

Por Paloma Guitarrara
Professora de Geografia 

Escritor do artigo
Escrito por: Paloma Guitarrara Licenciada e bacharel em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e mestre em Geografia na área de Análise Ambiental e Dinâmica Territorial também pela UNICAMP. Atuo como professora de Geografia e Atualidades e redatora de textos didáticos.

Gostaria de fazer a referência deste texto em um trabalho escolar ou acadêmico? Veja:

GUITARRARA, Paloma. "Gentrificação"; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/geografia/gentrificacao.htm. Acesso em 22 de fevereiro de 2024.

De estudante para estudante


Lista de exercícios


Exercício 1

O espaço urbano é altamente dinâmico. Uma de suas transformações é caracterizada pela incorporação de novas funções por meio da construção de estruturas modernas e muito valorizadas.

O enunciado faz referência:

A) à urbanização.

B) à favelização.

C) ao encortiçamento.

D) ao crescimento urbano.

E) à gentrificação.

Exercício 2

O termo gentrificação, que indica mudanças no espaço urbano, surgiu pelos estudos da socióloga Ruth Glass, que observou o “enobrecimento” dos bairros operários em qual cidade?

A) Londres

B) Paris

C) São Paulo

D) Chicago

E) Tóquio