Simbolismo

Literatura

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O simbolismo foi uma tendência literária que nasceu na França, com as teorias estéticas de Charles Baudelaire, e floresceu principalmente na poesia, em diversas partes do mundo ocidental, no final do século XIX. É o último movimento antes do surgimento do modernismo na literatura, por isso é também considerado pré-moderno.

Como o nome aponta, a poesia simbolista propunha um resgate dos símbolos, isto é, de uma linguagem que compreendesse uma universalidade. O poeta é, aqui, um decifrador dos símbolos que compõem a natureza ao seu redor. Contra a superficialidade material do corpo, a objetividade do realismo e as descrições animalescas do naturalismo, o simbolismo quer mergulhar no espírito, que se relaciona a algo maior, a uma instância coletiva universal, a uma transcendência.

Desenho de livros, papel, tinta e pena, símbolos que evocam o fazer literário.
Desenho de livros, papel, tinta e pena, símbolos que evocam o fazer literário.

Saiba mais: Linguagem literária: qual é a diferença?

Contexto histórico

A literatura simbolista foi uma reação às correntes cientificistas e positivistas do último quartel do século XIX. A Europa vivenciava a ebulição da Segunda Revolução Industrial, que trazia consigo, além do capitalismo financeiro, as ideologias do empirismo e do determinismo. Trata-se de uma concepção técnico analítica do mundo, em que a realidade é apreendida apenas pela quantificação e análise de dados, em prol do desenvolvimento da técnica.

Havia um otimismo predominante no avanço da indústria, expresso na ideia do progresso. Os simbolistas, entretanto, percebem no surgimento das metrópoles, acompanhado da miséria, da sujeira industrial e da exploração da força de trabalho, uma decadência desesperada, uma morbidez que nada tem de progressista.

Por isso, direcionam sua lírica não para as descrições objetivas, mas para uma tentativa de conciliação entre matéria e espírito, tentativa de resgate de uma humanidade deteriorada. Por essa postura, foram também chamados “decadentistas” e “malditos”.

Os simbolistas questionaram as conclusões racionalistas e mecânicas em voga na época, pois elas não davam espaço à existência do sujeito, servindo apenas como combustível para a ascensão da burguesia industrial. Buscavam algo além do materialismo e além do empirismo: um sentido de universalidade, que seria recuperado por meio da linguagem poética. Buscavam, ao contrário da impessoalidade numérica e tecnológica, os valores transcendentais — o Bom, o Verdadeiro, o Belo.

Leia também: Romantismo: movimento estético que se baseava nos valores burgueses

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Características do simbolismo

  • Uso de pausas, reticências, espaços em branco e rupturas sintáticas para representar o silêncio metafísico;
  • Sinestesia: construção de versos que descrevem sons, aromas e cores, pois os cinco sentidos são instrumentos de captação dos símbolos ao redor;
  • Temáticas voltadas à interioridade humana, ao êxtase do espírito;
  • Vocabulário etéreo e remissões ao Nada e ao Absoluto;
  • Presença comum de antíteses e oposições, graças às tentativas de encarnar o que é divino e espiritualizar o que é terreno: o poema é a forma de conciliação entre os planos material e espiritual;
  • Entendimento da poesia como uma visão da existência;
  • Presença da religiosidade, não somente cristã como também oriental, compondo a busca simbolista da transcendência;
  • Descrições crepusculares, presença simultânea de luz e sombra;
  • Imagens sombrias, lúgubres, decadentes;
  • Afrouxamento do rigor métrico parnasiano, dando espaço para metrificações irregulares e versos livres;
  • Conceito musical do poema.

O poema “Correspondências”, de Charles Baudelaire, tem no seu próprio título a ideia central do simbolismo: a linguagem simbolista pretende estabelecer uma correspondência entre o plano material e o plano transcendental, entre o divino e o profano.

Correspondências

A Natureza é um templo vivo em que os pilares
Deixam filtrar não raro insólitos enredos;
O homem o cruza em meio a um bosque de segredos
Que ali o espreitam com seus olhos familiares.

Como ecos longos que à distância se matizam
Numa vertiginosa e lúgubre unidade,
Tão vasta quanto a noite e quanto a claridade,
Os sons, as cores e os perfumes se harmonizam.

Há aromas frescos como a carne dos infantes,
Doces como o oboé, verdes como a campina,
E outros, já dissolutos, ricos e triunfantes,

Com a fluidez daquilo que jamais termina,
Como o almíscar, o incenso e as resinas do Oriente,
Que a glória exaltam dos sentidos e da mente.

(Charles Baudelaire, As flores do mal, 1857, trad. Ivan Junqueira)

A evocação da espiritualidade está presente já no primeiro verso, em que a Natureza, iniciada em letra maiúscula, como uma entidade, é caracterizada como um templo vivo, ou seja, há uma vida espiritual oculta por trás da existência material das coisas. O homem cruza esse templo vivo em meio a um bosque de símbolos. E esses símbolos olham os homens com familiaridade — pois aqueles geralmente são convencionais, isto é, existem por causa de seu sentido coletivo.

O poeta fala em ecos, sons, cores e perfumes: é a presença da captação sinestésica dos símbolos. A linguagem poética é a decifradora, a que estabelece uma ponte, uma correspondência entre o mundo material e o mundo do espírito. A referência ao almíscar, incenso e resinas do Oriente também retoma essa sensibilidade sinestésica, bem como faz referência a um universo espiritual, que faz uso dessa prática aromática como contato com o transcendental.

É possível verificar as típicas características simbolistas também em Cruz e Sousa, principal expoente brasileiro do movimento:

Imortal atitude

Abre os olhos à Vida e fica mudo!
Oh! Basta crer indefinidamente
Para ficar iluminado tudo
De uma luz imortal e transcendente.

Crer é sentir, como secreto escudo,
A alma risonha, lúcida, vidente...
E abandonar o sujo deus cornudo,
O sátiro da Carne impenitente.

Abandonar os lânguidos rugidos,
O infinito gemido dos gemidos
Que vai no lodo a carne chafurdando.

Erguer os olhos, levantar os braços
Para o eterno Silêncio dos Espaços
e no Silêncio emudecer olhando...

(Cruz e Sousa, Últimos sonetos, 1905)

O poema começa com a sugestão ao sentido da visão: abrindo os olhos à Vida (também o recurso das letras maiúsculas como evocação simbólica do vocábulo), tudo se ilumina, tudo tende à transcendência. A segunda estrofe equipara a fé à sensibilidade, e despreza o aspecto material, carnal da existência, preferindo a exaltação do espírito — a alma risonha abandona “o sujo deus cornudo”, “sátiro da Carne”.

Na terceira estrofe, Cruz e Sousa passa a descrever emanações sensoriais auditivas — rugidos e gemidos da existência mortal fazem oposição ao “eterno Silêncio dos Espaços” que aparece na última estrofe, seguindo a cadência de antíteses e paradoxos simbolista.

Simbolismo na Europa

É na França da última metade do século XIX que surge o simbolismo, caracterizado por ser uma escola de “poetas malditos” e “decadentes”, boêmios, frequentadores da noite parisiense e não raro apresentando comportamentos escandalosos.

  • Charles Baudelaire (1821-1867)

Retrato do poeta Charles Baudelaire, importante poeta simbolista.[1]
Retrato do poeta Charles Baudelaire, importante poeta simbolista.[1]

Sua publicação intitulada As flores do mal, lançada em 1857, é considerada precursora do movimento simbolista. Sua teoria das correspondências concebe o mundo visível como uma correspondência de um mundo invisível e superior, que deve ser alcançado pelo poeta por meio de seu trabalho com a linguagem, e acabou por inspirar ou preconizar o simbolismo francês, que surgiria como movimento algum tempo depois.

A descrição etérea do poente no poema “Harmonia da tarde”, proposta de um mundo que evapora, repleto de sons e aromas e da evocação de um Universo que concebe mais do que a mera apresentação objetiva do movimento da terra em torno do Sol, é um exemplo da influência que Baudelaire exercerá na corrente literária simbolista:

Harmonia da tarde

Chegado é o tempo em que, vibrando o caule virgem,
Cada flor se evapora igual a um incensório;
Sons e perfumes pulsam no ar quase incorpóreo;
Melancólica valsa e lânguida vertigem!

Cada flor se evapora igual a um incensório;
Fremem violinos como fibras que se afligem;
Melancólica valsa e lânguida vertigem!
É triste e belo o céu como um grande oratório.

Fremem violinos como fibras que se afligem,
Almas ternas que odeiam o nada vasto e inglório!
É triste e belo o céu como um grande oratório;
O sol se afoga em ondas que de sangue o tingem.
 

Almas ternas que odeiam o Nada vasto e inglório
Recolhem do passado as ilusões que o fingem!
O sol se afoga agora em ondas que de sangue o tingem...
Fulge a tua lembrança em mim qual ostensório!

(Charles Baudelaire, As flores do mal, 1857, trad. Ivan Junqueira)

Baudelaire escreveu também ensaios em que usou a palavra modernidade para descrever as mudanças trazidas pelo impacto do desenvolvimento da indústria em uma Europa que rapidamente transformava-se. Foi um dos primeiros autores a dar essa sugestão, chamando atenção de seus contemporâneos para a conscientização de si mesmos enquanto modernos.

É considerado um pioneiro do que depois se entendeu por modernismo, por sua tendência a desprezar aquilo que fora concebido como cultura clássica, roupa que já não servia ao seu tempo presente, efêmero, da produção e urbanização em larga escala.

Principais obras de Baudelaire: As flores do mal (1857) — poesia; Curiosidades estéticas (1869) — prosa; Pequenos poemas em prosa (1869).

  • Stéphane Mallarmé (1842-1898)

Autor conhecido por seu hermetismo: a complexidade do mundo que se erigia perpassa a construção de seus versos, guiados pela temática da impossibilidade e por uma busca perpétua da perfeição da forma, em constante angústia que o leva a propor jogos de composição poética, cuja genialidade foi reconhecida tardiamente.

Foi um grande influenciador das vanguardas literárias e está entre os precursores da poesia concreta, principalmente pelo poema longo “Um jogo de dados”, escrito em versos livres e em tipografia revolucionária para a época.

“Tristeza de verão”, por sua vez, é um dos diversos exemplos de textos do autor relacionados à tradição simbolista:

Tristeza de verão
O sol, na areia, aquece, ó brava adormecida,
O ouro da tua coma em banho langoroso,
Queimando o seu incenso em tua face aguerrida,
E mistura aos teus prantos um filtro amoroso.

Desse branco fulgor a imóvel calmaria
Te faz dizer, dolente, ó carícias discretas,
‘Jamais nós dois seremos uma múmia fria
Sob o antigo deserto e as palmeiras eretas!’

Porém os teus cabelos, rio morno, imploram
Para afogar sem medo a nossa alma triste
E encontrar esse Nada que em teu ser não medra.

Degustarei o bistre que teus cílios choram
Para ver se ele doa àquele que feriste
A insensibilidade do azul e da pedra.

(Stéphane Mallarmé, 1864, trad. Augusto de Campos)

No exemplo destacam-se como elementos tipicamente simbolistas: as descrições sinestésicas do calor do sol em analogia ao incenso; a presença da morbidez da múmia em contraste com a visão solar, vital; o componente da tristeza, sinal do descompasso com o mundo contemporâneo; a temática do Nada, aspiração do esvaziamento absoluto; e o trabalho com o simbólico evocado pelos termos “azul” e “pedra” como veiculadores de insensibilidade.

Principais obras de Mallarmé: Poesias (1887); e Divagações (1897) — ensaios em prosa.

  • Paul Verlaine (1844-1896)

Grande influenciador do brasileiro Alphonsus de Guimaraens, Verlaine é conhecido por seus tons outonais e sua constante tentativa de conciliação entre um comportamento reprovável (o autor chegou a atirar no próprio amante, o célebre Rimbaud) e uma aspiração mística com ares de pureza transcendental.

É ele, aliás, quem propõe o termo “poeta maldito”. Além de sonetos, compôs também em prosa e em versos livres. Apesar de o poeta nunca ter se entendido como vinculado a nenhuma corrente, sua obra tem nítidos matizes da escola simbolista:

Canção de outono

Estes lamentos
Dos violões lentos
Do outono
Enchem minha alma
De uma onda calma
De sono.

E soluçando,
Pálido, quando
Soa a hora,
Recordo todos
Os dias doidos
De outrora.

E vou à toa
No ar mau que voa.
Que importa?
Vou pela vida,
Folha caída
E morta.

(Paul Verlaine, 1866, trad. Guilherme de Almeida)

O trabalho com as aliterações dá ao poema uma musicalidade que evoca sinestesicamente o próprio som dos violões que descreve. O tom outonal, a resposta melancólica e pálida, a vida comparada a uma folha caída que voa com o vento ressoam a atmosfera simbolista.

Principais obras de Verlaine: Poemas saturninos (1866); e Os poetas malditos (1884).

  • Arthur Rimbaud (1854-1891)

Ícone da poesia francesa, Rimbaud recebeu influências de Verlaine e influenciou-o — os dois conheceram-se em meados dos anos 1870 e envolveram-se amorosamente, relacionamento que escandalizou a cidade à época. O caráter sensorial dos versos de Rimbaud eternizou-o canonicamente como um dos maiores poetas de seu tempo, embora tenha escrito apenas até os 20 anos de idade.

Retrato do jovem poeta Arthur Rimbaud.
Retrato do jovem poeta Arthur Rimbaud.

A eternidade

De novo me invade.
Quem? — A Eternidade.
É o mar que se vai
Como o sol que cai.

Alma sentinela,
Ensina-me o jogo
Da noite que gela
E do dia em fogo.

Das lides humanas,
Das palmas e vaias,
Já te desenganas
E no ar te espraias.

De outra nenhuma,
Brasas de cetim,
O Dever se esfuma
Sem dizer: enfim.

Lá não há esperança
E não há futuro.
Ciência e paciência,
Suplício seguro.

De novo me invade.
Quem? – A Eternidade.
É o mar que se vai
Com o sol que cai.

(Arthur Rimbaud, trad. Augusto de Campos)

A musicalidade dos versos, o trabalho com o domínio do simbólico (noite, fogo, mar, sol) e a temática da existência mortal com a dimensão transcendental da Eternidade e da alma são características do simbolismo nesse poema de Rimbaud.

Principais obras de Rimbaud: Iluminações, 1872 (poesia); e Uma temporada no inferno, 1873 (poemas em prosa).

Simbolismo no Brasil

O movimento simbolista brasileiro incorporou, grosso modo, os procedimentos composicionais do simbolismo francês. No entanto, as cenas noturnas de boemia e o epíteto de malditos são substituídos por uma literatura de tons mais religiosos e litúrgicos.

  • João da Cruz e Sousa (1863-1898)

Figura central do Simbolismo brasileiro, Cruz e Sousa nasceu em Florianópolis. Filho de escravos alforriados, mas, tendo participado de uma educação formal elitizada, sua obra revela uma erudição inconciliável com a situação racial de um Brasil que acabara de abolir oficialmente a prática escravista.

É a partir da publicação de Missais, livro de prosas líricas, e de Broquéis, escrito em versos, ambos publicados em 1893, que se percebe o desenvolvimento de uma estética simbolista no Brasil. Seu trabalho traz grande novidade ao procedimento literário brasileiro: aliterações, prolongamentos sonoros, rompimento com o rigor parnasiano da métrica, ressonâncias internas, entre outros.

Carnal e místico

Pelas regiões tenuíssimas da bruma
vagam as Virgens e as Estrelas raras...
Como que o leve aroma das searas
todo o horizonte em derredor perfuma.

Numa evaporação de branca espuma
vão diluindo as perspectivas claras...
Com brilhos crus e fúlgidos de tiaras
as Estrelas apagam-se uma a uma.

E então, na treva, em místicas dormências,
desfila, com sidéreas latescências,
das Virgens o sonâmbulo cortejo...

Ó Formas vagas, nebulosidades!
Essência das eternas virgindades!
Ó intensas quimeras do Desejo...

(Cruz e Sousa, Broquéis, 1893)

“Carnal e místico” é uma sugestão da própria dualidade que os simbolistas pretendem conciliar. A imprecisão e a nebulosidade trazidas por Cruz e Sousa — bruma, diluição das perspectivas, Formas vagas — são temas característicos do simbolismo, bem como a sinestesia, evocada no “leve aroma das searas” que “todo o horizonte em derredor perfuma”, como se o autor construísse o poema com base em sensibilidades diversas. O uso das maiúsculas para dar valor absoluto a determinados termos também é um recurso recorrente do autor.

  • Afonso Henriques da Costa Guimarães (1870-1921)

Mais conhecido como Alphonsus de Guimaraens, o autor latinizou seu nome em 1894, intenção mística e que o aproximava dos hinos católicos dos quais tanto gostava. Quando tinha apenas 17 anos, faleceu uma prima que ele muito amava e considerava como noiva. O episódio deixou-o obcecado com a temática da morte, que tanto atravessa seus versos. Há um perene desencanto com o mundo que se traduz em lamento mórbido, e que coexiste com uma temática religiosa, litúrgica.

Em “Ismália”, talvez seu poema mais famoso, Alphonsus delineia a dualidade matéria-espírito, fazendo uso de símbolos como a Lua, o céu, o mar, o sonho, o anjo, em sugestão nitidamente simbolista. Vida e morte, real e imaginário, claridade e escuridão: os versos são feitos de antagonismos, do lado claro e obscuro da humanidade, do carnal e do transcendente:

Ismália

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...

(Alphonsus de Guimaraens)

Leia mais: Cinco poemas de Alphonsus de Guimaraens

  • Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (1884-1914)

Difícil de encaixar-se em qualquer movimento literário, estando ao mesmo tempo fora e acima disso, Augusto dos Anjos retoma de Cruz e Sousa a dificuldade de adaptar-se ao cotidiano e a estrutura de alguns versos. No entanto a novidade trazida pelo poeta, entendido por Otto Maria Carpeaux como o mais original de todos os poetas brasileiros, era a mistura de uma terminologia científica com uma obra permeada por profunda tristeza e amargura.

Perturbado por uma enorme angústia metafísica, Augusto dos Anjos aproxima-se dos simbolistas pela ânsia da unidade, da superação de todos os contrastes matéria-espírito. Escreveu um único livro, intitulado Eu (1912), e morreu prematuramente, aos 30 anos, vítima de tuberculose.

Psicologia de um vencido

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme — este operário das ruínas —
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há-de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!

(Augusto dos Anjos)

O vocabulário patológico mistura-se às aspirações místicas — elementos químicos convivem com os signos do zodíaco. O mal-estar constante e mórbido traduz-se na única resolução possível: o fim da matéria.

Veja também: Entre o átomo e o cosmo - cinco poemas de Augusto dos Anjos

Resumo

  • Foi um movimento literário do final do século XIX, de origem francesa;
  • Buscava, por meio da palavra, a conexão entre o mundo material e espiritual;
  • Tinha temáticas transcendentes e metafísicas;
  • Sinestesia, vocabulário etéreo, antíteses e paradoxos, uso de pausas, aliterações e musicalidade rítmica são características dessas composições;
  • Principais autores europeus: Baudelaire, Mallarmé, Verlaine, Rimbaud;
  • Principais autores brasileiros: Cruz e Sousa, Alphonsus de Guimaraens, Augusto dos Anjos (este último tido como “pós-simbolista” ou “pré-moderno”).

Exercícios

1) (Enem)

Cárcere das almas

“Ah! Toda a alma num cárcere anda presa,
Soluçando nas trevas, entre as grades
Do calabouço olhando imensidades,
Mares, estrelas, tardes, natureza.

Tudo se veste de uma igual grandeza
Quando a alma entre grilhões as liberdades
Sonha e, sonhando, as imortalidades
Rasga no etéreo o Espaço da Pureza.

Ó almas presas, mudas e fechadas
Nas prisões colossais e abandonadas,
Da Dor no calabouço, atroz, funéreo!

Nesses silêncios solitários, graves,
que chaveiro do Céu possui as chaves
para abrir-vos as portas do Mistério?!”

(CRUZ E SOUSA, J. Poesia completa. Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura / Fundação Banco do Brasil, 1993.)

Os elementos formais e temáticos relacionados ao contexto cultural do simbolismo encontrados no poema “Cárcere das almas”, de Cruz e Sousa, são:

a) a opção pela abordagem, em linguagem simples e direta, de temas filosóficos.
b) a prevalência do lirismo amoroso e intimista em relação à temática nacionalista.
c) o refinamento estético da forma poética e o tratamento metafísico de temas universais.
d) a evidente preocupação do eu lírico com a realidade social expressa em imagens poéticas inovadoras.
e) a liberdade formal da estrutura poética que dispensa a rima e a métrica tradicionais em favor de temas do cotidiano.

2) (PUC-Campinas)

"Ah! plangentes violões dormentes, mornos,
Soluços ao luar, choros ao vento...
Tristes perfis, os mais vagos contornos,
Bocas murmurejantes de lamento.

.......................................................................................

Sutis palpitações à luz da lua.
Anseio dos momentos mais saudosos,
Quando lá choram na deserta rua
As cordas vivas dos violões chorosos.
Quando os sons dos violões vão soluçando,
Quando os sons dos violões nas cordas gemem,
E vão dilacerando e deliciando,
Rasgando as almas que nas sombras tremem.

.......................................................................................

Vozes veladas, veludosas vozes,
Volúpias dos violões, vozes veladas,
Vagam nos velhos vórtices velozes
Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas."

As estrofes anteriores, claramente representativas do_____, não apresentam _____.

Assinale a alternativa que completa corretamente AS DUAS lacunas anteriores.

a) Romantismo - sinestesia

b) Simbolismo - aliterações e assonâncias

c) Romantismo - musicalidade

d) Parnasianismo - metáforas e metonímias

e) Simbolismo - versos brancos e livres.

Resolução comentada

  1. Alternativa c - a poesia de Cruz e Sousa apoia-se em um trabalho refinado com a linguagem poética, que se nota pelo uso dos decassílabos e pela musicalidade do poema mencionado. Está presente o tratamento metafísico de temas universais, como o mistério da existência.
  2. Alternativa e - o poema é um claro representante do simbolismo por sua tendência sinestésica, e não apresenta versos livres em sua composição, de rima regular.

 

Por Luiza Brandino
Professora de Literatura

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Lista de Exercícios
Questão 1

(ENEM – 2010)

Cárcere das almas

Ah! Toda a alma num cárcere anda presa,
Soluçando nas trevas, entre as grades
Do calabouço olhando imensidades,
Mares, estrelas, tardes, natureza.
Tudo se veste de uma igual grandeza
Quando a alma entre grilhões as liberdades
Sonha e, sonhando, as imortalidades
Rasga no etéreo o Espaço da Pureza.
Ó almas presas, mudas e fechadas
Nas prisões colossais e abandonadas,
Da Dor no calabouço, atroz, funéreo!
Nesses silêncios solitários, graves,
que chaveiro do Céu possui as chaves
para abrir-vos as portas do Mistério?!

(CRUZ E SOUSA, J. Poesia completa. Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura / Fundação Banco do Brasil, 1993.)

Os elementos formais e temáticos relacionados com o contexto cultural do Simbolismo encontrados no poema Cárcere das almas, de Cruz e Sousa, são:

a) a opção pela abordagem, em linguagem simples e direta, de temas filosóficos.

b) a prevalência do lirismo amoroso e intimista em relação à temática nacionalista.

c) o refinamento estético da forma poética e o tratamento metafísico de temas universais.

d) a evidente preocupação do eu lírico com a realidade social expressa em imagens poéticas inovadoras.

e) a liberdade formal da estrutura poética que dispensa a rima e a métrica tradicionais em favor de temas do cotidiano.

Questão 2

(Mackenzie)

“Ah! plangentes violões dormentes, mornos,
Soluços ao luar, choros ao vento…
Tristes perfis, os mais vagos contornos,
Bocas murmurejantes de lamento.
Sutis palpitações à luz da lua.
Anseio dos momentos mais saudosos,
Quando lá choram na deserta rua
As cordas vivas dos violões chorosos.
Quando os sons dos violões vão soluçando,
Quando os sons dos violões nas cordas gemem,
E vão dilacerando e deliciando,
Rasgando as almas que nas sombras tremem.
Vozes veladas, veludosas vozes,
Volúpias dos violões, vozes veladas,
Vagam nos velhos vórtices velozes
Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.”

As estrofes anteriores, claramente representativas do_____ , não apresentam _____ .

Assinale a alternativa que completa corretamente AS DUAS lacunas anteriores.

a) Romantismo – sinestesia

b) Simbolismo – aliterações e assonâncias

c) Romantismo – musicalidade

d) Parnasianismo – metáforas e metonímias

e) Simbolismo – versos brancos e livres

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