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Linguagem literária

A linguagem literária é subjetiva, conotativa, ficcional e não necessariamente utilitária.

Ilustração de uma criança navegando nas águas de um livro como representação da linguagem literária.
O caráter artístico dos textos é obtido pelo emprego da linguagem literária.
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A linguagem literária é caracterizada por elementos como subjetividade, conotação, ficcionalidade e ausência de função utilitária. Desse modo, ela se opõe à linguagem não literária, isto é, objetiva, denotativa, não ficcional e com função utilitária. Os elementos literários da linguagem dão ao texto um caráter artístico.

Leia também: O que é literatura?

Tópicos deste artigo

Resumo sobre a linguagem literária

  • A linguagem literária é conotativa, subjetiva e não apresenta função utilitária.

  • O caráter artístico dos textos é obtido pelo emprego da linguagem literária.

  • A linguagem literária pode ser lírica, narrativa, dramática ou mesmo descritiva.

  • Diferentemente da linguagem literária, a linguagem não literária é denotativa, objetiva e apresenta função utilitária.

Características da linguagem literária

A linguagem literária não necessariamente é utilitária, já que uma obra literária não é escrita com uma função específica a ser cumprida. Ela possui um caráter subjetivo, isto é, a percepção particular do autor acerca de determinado fato, ideia ou emoção. Além disso, ela pode apresentar múltiplos significados. Por fim, possui teor ficcional, pois mostra a visão do autor ou da autora acerca da realidade. E, como se sabe, cada um vê a realidade de forma única.

Exemplos de linguagem literária

  • Exemplo 1

Veja esta estrofe do poema “Os doentes”, do escritor Augusto dos Anjos (1884-1914):

Como uma cascavel que se enroscava,
A cidade dos lázaros dormia...
Somente, na metrópole vazia,
Minha cabeça autônoma pensava!|1|

Observe que o texto não tem uma utilidade específica. Para que ele foi escrito? Não há uma resposta única para essa pergunta. Afinal, uma bula de remédio, por exemplo, tem uma utilidade; mas um texto literário, na forma como existe, não tem. A função do texto literário dependerá da percepção de cada leitora e leitor.

A subjetividade autoral, que leva ao caráter ficcional da linguagem, também pode ser constatada. Temos uma visão particular do autor acerca de uma cidade. Isso torna a linguagem fictícia, tanto que passamos a chamar a voz que enuncia o poema de eu lírico, um conceito literário que pretende destacar o caráter ficcional do texto poético.

Por fim, o aspecto conotativo do texto é perceptível na comparação entre uma cidade e uma cascavel. Desse modo, quem estiver lendo tal estrofe precisa associar as características de uma cascavel com a “cidade dos lázaros”. Diferentemente de uma bula de remédio, a estrofe de um texto poético não é tão clara.

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  • Exemplo 2

Outro exemplo de linguagem literária é o “Capítulo 200”, do romance Quincas Borba, do escritor Machado de Assis (1839-1908):

Poucos dias depois morreu... Não morreu súdito nem vencido. Antes de principiar a agonia, que foi curta, pôs a coroa na cabeça, — uma coroa que não era, ao menos, um chapéu velho ou uma bacia, onde os espectadores palpassem a ilusão. Não, senhor; ele pegou em nada, levantou nada e cingiu nada; só ele via a insígnia imperial, pesada de ouro, rútila de brilhantes e outras pedras preciosas. O esforço que fizera para erguer meio corpo não durou muito; o corpo caiu outra vez; o rosto conservou porventura uma expressão gloriosa.

— Guardem a minha coroa, murmurou. Ao vencedor...

A cara ficou séria, porque a morte é séria; dois minutos de agonia, um trejeito horrível, e estava assinada a abdicação.|2|

É possível afirmar que esse trecho possui linguagem literária, pois apresenta os mesmos aspectos da estrofe anteriormente analisada, sendo eles ausência de função utilitária, subjetividade autoral, ficcionalidade e conotação. Perceba que, ao final, o narrador fala da “abdicação”, já que o personagem, louco, acreditava ser um imperador. Nesse caso, a “abdicação” é metáfora para a morte.

Importância da linguagem literária

A linguagem literária é o que faz um texto ser artístico e não apenas funcional. Ela está associada ao poder imaginativo da humanidade. Por meio dessa linguagem, artistas conseguem expressar ideias, emoções, sensações e sentimentos de uma forma que não seria possível se usassem apenas a linguagem objetiva, isto é, não literária.

Pintores trabalham com as formas e as cores. Atores e dançarinos, com os movimentos do corpo. Cantores, com o som da voz. Músicos, com os sons dos instrumentos. Já escritores, com a palavra. Portanto, o texto literário utiliza a palavra não só como instrumento de comunicação mas também de expressão artística.

Tipos de linguagem literária

Veja, a seguir, os principais tipos de linguagem literária:

  • Linguagem lírica ou poética: é marcada pela presença de elementos plurissignificativos ou que causam certa estranheza. Ela está presente na poesia em verso ou em prosa.

  • Linguagem narrativa: também pode fazer parte de textos escritos em verso ou em prosa. A sua principal característica é a indicação sequencial de fatos.

  • Linguagem dramática: está presente em peças de teatro e roteiros de cinema. Ela tem um caráter mais instrucional, já que indica a ação dos atores e suas respectivas falas.

  • Linguagem descritiva: é marcada pela presença de elementos que descrevem lugares, pessoas, animais e objetos.

Importante: Os vários tipos de linguagem literária acabam se interconectando. A linguagem descritiva, por exemplo, pode estar em um texto narrativo, poético ou dramático. O mesmo podemos dizer das linguagens conotativa (de caráter figurativo), ficcional (que simula uma realidade) e não utilitária (sem função específica).

Acesse também: Quais são os gêneros literários?

Diferenças entre linguagem literária e não literária

Veja no quadro a seguir as principais diferenças entre linguagem literária e não literária:

Linguagem literária

Linguagem não literária

Não utilitária

Utilitária

Mais subjetiva

Mais objetiva

Conotativa

Denotativa

Ficcional

Não ficcional

Exemplos

Exemplos

Poesia, conto, romance, roteiro de cinema, peça teatral etc.

Receita, manual de instruções, relatório, texto didático etc.

Exercícios resolvidos sobre a linguagem literária

Questão 1

(Enem) Leia o que disse João Cabral de Melo Neto, poeta pernambucano, sobre a função de seus textos:

Falo somente com o que falo: a linguagem enxuta, contato denso; falo somente do que falo: a vida seca, áspera e clara do sertão; falo somente por quem falo: o homem sertanejo sobrevivendo na adversidade e na míngua. Falo somente para quem falo: para os que precisam ser alertados para a situação da miséria no Nordeste.”

Para João Cabral de Melo Neto, no texto literário,

A) a linguagem do texto deve refletir o tema, e a fala do autor deve denunciar o fato social para determinados leitores.

B) a linguagem do texto não deve ter relação com o tema, e o autor deve ser imparcial para que seu texto seja lido.

C) o escritor deve saber separar a linguagem do tema e a perspectiva pessoal da perspectiva do leitor.

D) a linguagem pode ser separada do tema, e o escritor deve ser o delator do fato social para todos os leitores.

E) a linguagem está além do tema, e o fato social deve ser a proposta do escritor para convencer o leitor.

Resolução:

Alternativa A

O autor defende “a linguagem enxuta, contato denso”, a qual, portanto, reflete o tema: “a vida seca, áspera e clara do sertão”. Assim, a linguagem enxuta está em harmonia com a vida seca, realidade sertaneja que o autor deve denunciar para determinados leitores: “os que precisam ser alertados para a situação da miséria no Nordeste”.

Questão 2

(Enem)

Se os tubarões fossem homens

Se os tubarões fossem homens, eles seriam mais gentis com os peixes pequenos?

Certamente, se os tubarões fossem homens, fariam construir resistentes gaiolas no mar para os peixes pequenos, com todo o tipo de alimento, tanto animal como vegetal. Cuidariam para que as gaiolas tivessem sempre água fresca e adotariam todas as providências sanitárias.

Naturalmente haveria também escolas nas gaiolas. Nas aulas, os peixinhos aprenderiam como nadar para a goela dos tubarões. Eles aprenderiam, por exemplo, a usar a geografia para localizar os grandes tubarões deitados preguiçosamente por aí. A aula principal seria, naturalmente, a formação moral dos peixinhos. A eles seria ensinado que o ato mais grandioso e mais sublime é o sacrifício alegre de um peixinho e que todos deveriam acreditar nos tubarões, sobretudo quando estes dissessem que cuidavam de sua felicidade futura. Os peixinhos saberiam que este futuro só estaria garantido se aprendessem a obediência.

Cada peixinho que na guerra matasse alguns peixinhos inimigos seria condecorado com uma pequena Ordem das Algas e receberia o título de herói.

BRECHT, B. Histórias do Sr. Keuner. São Paulo: Editora 34, 2006 (adaptado).

Como produção humana, a literatura veicula valores que nem sempre estão representados diretamente no texto, mas são transfigurados pela linguagem literária e podem até entrar em contradição com as convenções sociais e revelar o quanto a sociedade perverteu os valores humanos que ela própria criou. É o que ocorre na narrativa do dramaturgo alemão Bertolt Brecht mostrada. Por meio da hipótese apresentada, o autor

A) demonstra o quanto a literatura pode ser alienadora ao retratar, de modo positivo, as relações de opressão existentes na sociedade.

B) revela a ação predatória do homem no mar, questionando a utilização dos recursos naturais pelo homem ocidental.

C) defende que a força colonizadora e civilizatória do homem ocidental valorizou a organização das sociedades africanas e asiáticas, elevando-as ao modo de organização cultural e social da sociedade moderna.

D) questiona o modo de organização das sociedades ocidentais capitalistas, que se desenvolveram fundamentadas nas relações de opressão em que os mais fortes exploram os mais fracos.

E) evidencia a dinâmica social do trabalho coletivo em que os mais fortes colaboram com os mais fracos, de modo a guiá-los na realização de tarefas.

Resolução:

Alternativa D

A linguagem literária utilizada no texto é responsável pela criação de uma alegoria que “questiona o modo de organização das sociedades ocidentais capitalistas, que se desenvolveram fundamentadas nas relações de opressão em que os mais fortes exploram os mais fracos”. Afinal, o texto de Brecht não está falando de tubarões e peixinhos, mas sim de opressores e oprimidos.

Questão 3

(Enem)

Quadrinho quadrado, de Xavier, C., em uma questão do Enem sobre linguagem literária.

XAVIER, C. Quadrinho quadrado. Disponível em: http://www.releituras.com.

Acesso em: 5 jul. 2009.

Tendo em vista a segunda fala do personagem entrevistado, constata-se que

A) o entrevistado deseja convencer o jornalista a não publicar um livro.

B) o principal objetivo do entrevistado é explicar o significado da palavra motivação.

C) são utilizados diversos recursos da linguagem literária, tais como a metáfora e a metonímia.

D) o entrevistado deseja informar de modo objetivo o jornalista sobre as etapas de produção de um livro.

E) o principal objetivo do entrevistado é evidenciar seu sentimento com relação ao processo de produção de um livro.

Resolução:

Alternativa E

Quando o famoso escritor argentino Jorge Luis Borges diz que “não aguentava mais escrever e reescrever e revisar e acrescentar e suprimir e reescrever e consertar palavrinhas e revisar e reescrever...”, seu objetivo é mostrar “seu sentimento com relação ao processo de produção de um livro”, ou seja, não aguentar mais escrever, reescrever e revisar. Assim, o texto verbal de C. Xavier não possui recursos da linguagem literária, como metáforas ou metonímias.

Notas

|1| ANJOS, Augusto dos. Eu e outras poesias. Porto Alegre: L&PM, 2010.

|2| MACHADO DE ASSIS. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.

 

Por Warley Souza
Professor de Literatura

Escritor do artigo
Escrito por: Warley Souza Professor de Português e Literatura, com licenciatura e mestrado em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Gostaria de fazer a referência deste texto em um trabalho escolar ou acadêmico? Veja:

SOUZA, Warley. "Linguagem literária"; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/literatura/linguagem-literaria.htm. Acesso em 24 de fevereiro de 2024.

De estudante para estudante


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Lista de exercícios


Exercício 1

Questão 111 – Enem 2013

Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o quê, mas sei que o universo jamais começou.

[...]

Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever. Como começar pelo início, se as coisas acontecem antes de acontecer? Se antes da pré-pré-história já havia os monstros apocalípticos? Se esta história não existe, passará a existir. Pensar é um ato. Sentir é um fato. Os dois juntos – sou eu que escrevo o que estou escrevendo. [...] Felicidade? Nunca vi palavra mais doida, inventada pelas nordestinas que andam por aí aos montes.

Como eu irei dizer agora, esta história será o resultado de uma visão gradual – há dois anos e meio venho aos poucos descobrindo os porquês. É visão da iminência de. De quê? Quem sabe se mais tarde saberei. Como que estou escrevendo na hora mesma em que sou lido. Só não inicio pelo fim que justificaria o começo – como a morte parece dizer sobre a vida – porque preciso registrar os fatos antecedentes.

LISPECTOR, C. A hora da estrela. Rio de Janeiro:  Rocco, 1998 (fragmento).

A elaboração de uma voz narrativa peculiar acompanha a trajetória literária de Clarice Lispector, culminada com a obra A hora da estrela, de 1977, ano da morte da escritora. Nesse fragmento, nota-se essa peculiaridade porque o narrador

a) observa os acontecimentos que narra sob uma ótica distante, sendo indiferente aos fatos e às personagens. 

b) relata a história sem ter tido a preocupação de investigar os motivos que levaram aos eventos que a compõem.

c) revela-se um sujeito que reflete sobre questões existenciais e sobre a construção do discurso.

d) admite a dificuldade de escrever uma história em razão da complexidade para escolher as palavras exatas.

e) propõe-se a discutir questões de natureza filosófica e metafísica, incomuns na narrativa de ficção.

Exercício 2

São características da linguagem literária, EXCETO:

a) Variabilidade.

b) Multissignificação.

c) Denotação.

d) Liberdade na criação.

e) Complexidade.

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