Poema

Literatura

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Poema é um texto literário escrito em versos, que são distribuídos em estrofes. Esses versos podem ser regulares, brancos ou livres. Se for composto por versos regulares, esse texto poderá apresentar diversos tipos de rimas. Também pode ser narrativo, dramático ou lírico.

Com relação às diferenças entre poema e poesia, o poema se refere a uma estrutura textual, enquanto a poesia está relacionada ao conteúdo do texto.

Leia também: Cinco poemas de Manuel Bandeira

O que é poema?

Poema é um texto literário escrito em versos. Assim, estruturalmente, ele se opõe à prosa, já que ela não admite versos.

  • Exemplo de poema

Logias e analogias

No Brasil a medicina vai bem
mas o doente ainda vai mal.
Qual o segredo profundo
desta ciência original?
É banal: certamente
não é o paciente
que acumula capital.

Cacaso

  • Exemplo de prosa

Hoje, no trem, vim com o Apocalipse. É um sujeito magro, esgrouviado, sempre com a barba por fazer. As calças sujas e curtas dão o talhe exato de suas pernas, que são finas, parecendo somente de ossos. O curioso é que o Apocalipse, de fisionomia de símio velho domesticado, bondoso, etc. etc., tem três filhos: um está na Escola do Realengo; outro no ginásio, e o outro, no mosteiro de São Bento. (Trecho do livro Diário íntimo, de Lima Barreto.)

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Características do poema

Um poema apresenta:

- Versos:

  • regulares: com métrica e rima;

  • brancos: com métrica e sem rima;

  • livres: sem métrica e sem rima.

- Estrofes:

  • dístico: dois versos;

  • terceto: três versos;

  • quadra ou quarteto: quatro versos;

  • quinteto ou quintilha: cinco versos;

  • sexteto ou sextilha: seis versos;

  • sétima ou septilha: sete versos;

  • oitava: oito versos;

  • novena ou nona: nove versos;

  • décima: dez versos.

O poema também pode apresentar rima:

  • externa: sons semelhantes no final de diferentes versos;

  • interna: rima entre a palavra final de um verso e outra do interior do verso seguinte;

  • rica: entre palavras pertencentes a diferentes classes gramaticais;

  • pobre: entre palavras pertencentes à mesma classe gramatical;

  • emparelhada: AABB;

  • alternada ou cruzada: ABAB;

  • interpolada ou oposta: ABBA;

  • mista: outro tipo de combinação, como ABACD;

  • aguda: entre palavras oxítonas ou monossílabas tônicas;

  • grave: entre palavras paroxítonas;

  • esdrúxula: entre proparoxítonas;

  • perfeita, soante ou consoante: correspondência completa de sons;

  • imperfeita, toante ou assoante: sem correspondência completa de sons.

Exemplo

O poeta Vinicius de Moraes dominava a arte de fazer poemas.|1|
O poeta Vinicius de Moraes dominava a arte de fazer poemas.|1|

A seguir vamos analisar a estrutura do Soneto de fidelidade (1939), de Vinicius de Moraes (1913-1980):

De tudo, ao meu amor serei atento (A)
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto (B)
Que mesmo em face do maior encanto (B)
Dele se encante mais meu pensamento. (A)

Quero vivê-lo em cada vão momento (A)
E em seu louvor hei de espalhar meu canto (B)
E rir meu riso e derramar meu pranto (B)
Ao seu pesar ou seu contentamento. (A)

E assim, quando mais tarde me procure (C)
Quem sabe a morte, angústia de quem vive (D)
Quem sabe a solidão, fim de quem ama (E)

Eu possa me dizer do amor (que tive): (D)
Que não seja imortal, posto que é chama (E)
Mas que seja infinito enquanto dure. (C)

Esse soneto é composto de versos regulares, já que possui metrificação, isto é, todos os versos apresentam dez sílabas poéticas (decassílabos), e as seguintes rimas:

  • externas: atento/pensamento, tanto/encanto, momento/contentamento, canto/pranto, procure/dure, vive/tive, ama/chama;

  • ricas: atento/pensamento, tanto/encanto, ama/chama;

  • pobres: momento/contentamento, canto/pranto, procure/dure, vive/tive;

  • interpoladas ou opostas: ABBA (estrofes 1 e 2);

  • graves: atento/pensamento, tanto/encanto, momento/contentamento, canto/pranto, procure/dure, vive/tive, ama/chama;

  • perfeitas, soantes ou consoantes: atento/pensamento, tanto/encanto, momento/contentamento, canto/pranto, procure/dure, vive/tive, ama/chama.

Além disso, o poema apresenta as seguintes estrofes:

  • quartetos: estrofes 1 e 2;

  • tercetos: estrofes 3 e 4.

Veja também: Gênero lírico – a legítima expressão da subjetividade

Tipos de poema

  • Poema épico ou narrativo

Conta uma história, em forma de versos, e apresenta todas as características do gênero narrativo, como narrador, personagens, tempo e espaço. Um exemplo desse tipo de poema é o trecho seguinte do livro O Uraguai (1769), de Basílio da Gama (1741-1795):

Fumam ainda nas desertas praias

Lagos de sangue tépidos e impuros

Em que ondeiam cadáveres despidos,

Pasto de corvos. Dura inda nos vales

O rouco som da irada artilheria.

MUSA, honremos o Herói que o povo rude

Subjugou do Uraguai, e no seu sangue

Dos decretos reais lavou a afronta.

[...]

  • Poema dramático

Não apresenta a voz de um narrador, pois a história se desenrola a partir das falas dos personagens, estruturadas em forma de versos, como no trecho a seguir de Morte e vida severina (1956), livro de João Cabral de Melo Neto (1920-1999):

O RETIRANTE EXPLICA AO LEITOR QUEM É E A QUE VAI

O meu nome é Severino,

não tenho outro de pia.

Como há muitos Severinos,

que é santo de romaria,

deram então de me chamar

Severino de Maria;

como há muitos Severinos

com mães chamadas Maria,

fiquei sendo o da Maria

do finado Zacarias.

Mas isso ainda diz pouco:

há muitos na freguesia,

por causa de um coronel

que se chamou Zacarias

e que foi o mais antigo

senhor desta sesmaria.

[...]

  • Poema lírico

Manifesta ideias, emoções ou desejos. Não apresenta características do gênero dramático nem conta uma história, como se vê no poema Teus olhos, de Junqueira Freire (1832-1855):

Que lindos olhos
Que estão em ti!
Tão lindos olhos
Eu nunca vi...

Pode haver belos
Mas não tais quais;
Não há no mundo
Quem tenha iguais.

[...]

Têm tal encanto
Os olhos teus!
— Quem pode mais?
Eles ou Deus?

Veja também: Haicai: um poema de origem japonesa

Como se faz um poema?

Para fazer um poema, é preciso responder a estas duas perguntas:

  1. O poema será narrativo, dramático ou lírico?

Se for narrativo ou dramático, você precisa criar um enredo, personagens, e definir onde e quando se passará a ação. Além disso, deve escolher um tipo de narrador — observador, onisciente ou personagem — para o poema narrativo, o que não é necessário para o poema dramático. Mas se for lírico, você deve ignorar todos esses elementos e se centrar em uma ideia, emoção ou desejo sobre o qual quer falar.

  1. O poema terá versos regulares, brancos ou livres?

Se tiver versos regulares ou brancos, é preciso metrificar. Então, você vai ter que escolher que tipo de versos regulares utilizar. Você pode escolher a redondilha, menor (cinco sílabas) ou maior (sete sílabas), o decassílabo (dez sílabas) ou o alexandrino (doze sílabas), por exemplo. Esses são os mais usados, mas há outras opções.

No caso dos versos regulares, é preciso também pensar nas rimas: externas, internas, ricas, pobres, emparelhadas, alternadas (cruzadas), interpoladas (opostas), mistas, agudas, graves, esdrúxulas, perfeitas ou imperfeitas. Já no caso dos versos livres, você não precisa se preocupar nem com a metrificação nem com as rimas, porém, seja qual for o tipo de versos escolhido, o conteúdo deve ser atrativo.

Dicas

  1. Na metrificação, a contagem de sílabas do verso é feita até a última sílaba tônica: “De-le- se en-can-te- mais- meu- pen-sa-men-to”. Assim, nesse verso de Vinicius de Moraes, contamos dez sílabas poéticas.

  2. Ainda na metrificação, quando a última sílaba de uma palavra termina com som de vogal e a primeira sílaba da palavra seguinte começa com som de vogal, na contagem é possível juntar essas sílabas, que, em vez de duas, serão consideradas apenas uma: “De-le- se en-can-te- mais- meu- pen-sa-men-to”.

  3. A redondilha é a escolha mais adequada para poemas com um conteúdo mais singelo.

  4. O decassílabo e o alexandrino são boas escolhas para poemas menos emotivos ou mais complexos, como o poema narrativo.

  5. Um tipo de rima não exclui o outro; portanto, você pode ter, em um mesmo poema, rimas ricas e pobres, por exemplo.

  6. No poema com versos regulares, é preciso ter a habilidade de adequar o conteúdo à forma, de escolher as palavras certas, sem comprometer a medida do verso e a rima.

  7. No poema com versos livres, o conteúdo torna-se ainda mais relevante.

Leia também: Rima perfeita e rima imperfeita

Diferenças entre poema e poesia

O poema é uma estrutura, isto é, um texto escrito em forma de versos, com metrificação ou não, com rimas ou não. Assim, opõe-se à prosa, que é a não utilização de versos na escrita de um texto. Já a poesia é o conteúdo, caracterizado pela plurissignificação, ambiguidade e estranheza. Dessa forma, pode haver uma poesia escrita em versos ou em forma de prosa, a chamada “prosa poética”.

Vamos analisar o soneto Versos a um cão, de Augusto dos Anjos (1884-1914):

Que força pôde, adstrita a embriões informes,
Tua garganta estúpida arrancar
Do segredo da célula ovular
Para latir nas solidões enormes?!

Esta obnóxia inconsciência, em que tu dormes,
Suficientíssima é, para provar
A incógnita alma, avoenga e elementar,
Dos teus antepassados vermiformes.

Cão! — Alma de inferior rapsodo errante!
Resigna-a, ampara-a, arrima-a, afaga-a, acode-a
A escala dos latidos ancestrais...

E irá assim, pelos séculos, adiante,

Latindo a esquisitíssima prosódia
Da angústia hereditária dos seus pais!

Depois de ler esse texto, é possível concluir que ele é um poema, devido ao fato de ser escrito em versos. Além disso, esses versos são metrificados (decassílabos) e apresentam rimas. Esse poema é uma poesia, provoca estranheza durante a sua leitura, pois ele é ambíguo e plurissignificativo. Mas, atenção, literatura e arte não são ciências exatas; sequer são ciências, está claro. O que queremos dizer é que, às vezes, o texto pode não ser tão ambíguo ou estranho, mas apresentar plurissignificação, isto é, extrapolar o sentido conotativo do texto.

Agora vamos ler um trecho de uma prosa poética de Cruz e Sousa (1861-1898) intitulada Som. Como você vai ver, esse texto não é um poema, pois foi escrito em forma de prosa; no entanto, é uma poesia, pois apresenta ambiguidade, estranheza e plurissignificação:

Trago todas as vibrações da rua, por um dia de sol, quando uma elétrica corrente de movimento circula no ar…

Mas, de todas as vibrações recolhidas, só me ficou, vivendo a música do som no ouvido deliciado, a canção da tua voz, que eu no ouvido guardo, para sempre conservo, como um diamante dentro de um relicário de ouro.

Cá está, cá a sinto harmonizar, alastrar em som o meu corpo, todo, como flexuosa serpente ideal, a tua clara voz de filtro luminoso, magnética, dormente como um ópio

Muitas vezes, por noite em que as estrelas marchetam o céu, tenho pulsado à sensação de notas errantes, de vagos sons que as aragens trazem.

As fundas melancolias que as estrelas e a noite fazem descer pelo meu ser, da amplidão silenciosa do firmamento, dão-me à alma abstratas suavidades, vaporosos fluidos, sinfonias solenes, misticismos, ondas imensas de inaudita sonoridade.

[...]

A poesia extrapola o senso comum.
A poesia extrapola o senso comum.

A esta altura, você deve estar se perguntando: “Existe, então, um poema que não é poesia?”. Para responder à sua pergunta, vamos ler, a seguir, um trecho de Os Lusíadas (1572), prosa em verso de Luís Vaz de Camões (1524-1580).

E como o Gama muito desejasse

Piloto pera a Índia, que buscava,

Cuidou que entre estes Mouros o tomasse,

Mas não lhe sucedeu como cuidava;

Que nenhum deles há que lhe ensinasse

A que parte dos céus a Índia estava;

Porém dizem-lhe todos que tem perto

Melindre, onde acharão piloto certo.

Acabamos de ler um poema, pois é um texto escrito em versos. Nesse caso, os versos são metrificados (decassílabos) e possuem rimas. Porém, não há estranheza, ambiguidade ou plurissignificação no conteúdo do texto, que é mais denotativo. Assim, ele não é uma poesia.

Por fim, é preciso esclarecer que o termo “prosa” pode tanto se referir a uma estrutura de texto oposta ao verso quanto a um conteúdo mais objetivo. Portanto, ao dizermos que o trecho do poema de Camões é uma prosa em verso, estamos nos referindo a um conteúdo de prosa, ou seja, denotativo.

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Exercícios resolvidos

As questões 01 e 02 referem-se ao poema.

A DANÇA E A ALMA

A DANÇA? Não é movimento,
súbito gesto musical.

É concentração, num momento,
da humana graça natural.

No solo não, no éter pairamos,
nele amaríamos ficar.
A dança — não vento nos ramos:
seiva, força, perene estar.

Um estar entre céu e chão,
novo domínio conquistado,
onde busque nossa paixão
libertar-se por todo lado...

Onde a alma possa descrever
suas mais divinas parábolas
sem fugir à forma do ser,
por sobre o mistério das fábulas.

Carlos Drummond de Andrade. Obra completa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1964. p. 366.

Questão 01 (Enem)

A definição de dança, em linguagem de dicionário, que mais se aproxima do que está expresso no poema é

a) a mais antiga das artes, servindo como elemento de comunicação e afirmação do homem em todos os momentos de sua existência.

b) a forma de expressão corporal que ultrapassa os limites físicos, possibilitando ao homem a liberação de seu espírito.

c) a manifestação do ser humano, formada por uma sequência de gestos, passos e movimentos desconcertados.

d) o conjunto organizado de movimentos do corpo, com ritmo determinado por instrumentos musicais, ruídos, cantos, emoções etc.

e) o movimento diretamente ligado ao psiquismo do indivíduo e, por consequência, ao seu desenvolvimento intelectual e à sua cultura.

Resolução:

Alternativa “b”.

Segundo o poema de Drummond, a dança é uma “forma de expressão corporal que ultrapassa os limites físicos”, pois o eu lírico afirma que ela “Não é movimento,/ súbito gesto musical”, é “Um estar entre céu e chão,/ novo domínio conquistado,/ onde busque nossa paixão/ libertar-se por todo lado...”. Portanto, “possibilita ao homem a liberação de seu espírito”: “Onde a alma possa descrever/ suas mais divinas parábolas/ sem fugir à forma do ser,/ por sobre o mistério das fábulas”.

Questão 02 (Enem)

O poema “A Dança e a Alma” é construído com base em contrastes, como “movimento” e “concentração”. Em uma das estrofes, o termo que estabelece contraste com solo é:

a) éter.

b) seiva.

c) chão.

d) paixão.

e) ser.

Resolução:

Alternativa “a”.

A palavra “éter” opõe-se à palavra “solo”, já que o éter é algo volátil, instável, enquanto o solo é algo firme.

Questão 03 (Enem)

Quebranto

às vezes sou o policial que me suspeito
me peço documentos
e mesmo de posse deles
me prendo e me dou porrada

às vezes sou o porteiro
não me deixando entrar em mim mesmo
a não ser
pela porta de serviço
[…]


às vezes faço questão de não me ver
e entupido com a visão deles
sinto-me a miséria concebida como um eterno
começo

fecho-me o cerco
sendo o gesto que me nego
a pinga que me bebo e me embebedo
o dedo que me aponto
e denuncio
o ponto em que me entrego.

às vezes!…

CUTI. Negroesia. Belo Horizonte: Mazza, 2007 (fragmento).

Na literatura de temática negra produzida no Brasil, é recorrente a presença de elementos que traduzem experiências históricas de preconceito e violência. No poema, essa vivência revela que o eu lírico

a) incorpora seletivamente o discurso do seu opressor.

b) submete-se à discriminação como meio de fortalecimento.

c) engaja-se na denúncia do passado de opressão e injustiças.

d) sofre uma perda de identidade e de noção de pertencimento.

e) acredita esporadicamente na utopia de uma sociedade igualitária.

Resolução:

Alternativa “a”.

O eu lírico incorpora o discurso de seu opressor, quando se comporta como o policial e como o porteiro.

Créditos da imagem:

|1| rook76 / Shutterstock.com  

 

Por Warley Souza
Professor de Literatura

Gostaria de fazer a referência deste texto em um trabalho escolar ou acadêmico? Veja:

SOUZA, Warley. "Poema"; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/literatura/o-poema-caracteristicas-especificas.htm. Acesso em 29 de novembro de 2020.