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João Cabral de Melo Neto e a sua engenhosidade poética

Literatura

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Catar Feijão
Catar feijão se limita com escrever:
Jogam-se os grãos na água do alguidar
E as palavras na da folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo;
pois catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.

Ora, nesse catar feijão entra um, risco
o de que entre os grão pesados entre
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,

açula a atenção, isca-a com risco.
João Cabral de Melo Neto
 

Ao nos depararmos com o poema sentimos certa dificuldade em interpretá-lo, não é mesmo? Mas é natural que isso ocorra, pois trata-se de uma poesia introspectiva, baseada na reflexão, no desvendar da essência camuflada pela linguagem.

Mas primeiramente iremos conhecer quem foi este engenhoso poeta, para somente assim podermos nos inteirar de suas características pessoais.

João Cabral de Melo Neto (1920 - 1999) é o mais importante poeta da geração de 45. Nasceu em Recife e passou a infância em engenhos de açúcar em São Lourenço da Mata e Moreno. Desde cedo demonstrava interesse pela palavra, pela literatura de cordel nordestina e desejava ser crítico literário.

Em 1946 ingressou na carreira diplomática e, a partir de então, serviu em várias cidades do mundo: Barcelona, Londres, Sevilha, Madri, Porto, Rio de Janeiro, aposentando-se em 1990.

Sua obra apresenta duas linhas-mestras: a metapoética e a participante. A linha metapoética abrange os poemas de investigação do próprio fazer poético. E a participante é aquela que tem como tema o Nordeste, com todos os problemas voltados para a questão social, tais como a miséria, a indigência, a fome, entre outros.

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Uma das celebridades que retrata bem esta temática foi a obra Morte e Vida Severina, a qual revela a história de um retirante de 20 anos que sai em buscas de melhores condições de vida.

Dando prioridade à análise da poesia mencionada, percebemos que o artista parece não dialogar com um leitor comum, mas com os outros poetas. Podemos chamar isto de “Métrica do Intelecto”, no qual o “fazer poético” tem o seu sublime destaque.

Podemos perceber que ele utiliza um simples ato do cotidiano, que é o de catar feijão, e compara-o com a prática da escrita, ou seja, assim como os grãos devem ser minuciosamente escolhidos, as palavras devem ser muito bem articuladas para que haja clareza, no que se refere ao exercício da linguagem.

A afirmativa torna-se verídica ao analisarmos os seguintes versos:

“Joga-se os grãos na água do alguidar
E as palavras na folha de papel
E depois, joga-se fora o que boiar.”

Por Vânia Duarte
Graduada em Letras
Equipe Brasil Escola

Modernismo - Literatura - Brasil Escola

Gostaria de fazer a referência deste texto em um trabalho escolar ou acadêmico? Veja:

DUARTE, Vânia Maria do Nascimento. "João Cabral de Melo Neto e a sua engenhosidade poética "; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/literatura/joao-cabral-melo-neto-sua-engenhosidade-poetica.htm. Acesso em 22 de novembro de 2019.

Lista de Exercícios
Questão 1

(UEL-PR)Morte e vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, identifica-se como:

a) uma obra que, refletindo inovações e experimentações linguísticas do autor, torna tênues as barreiras entre a prosa e poesia.

b) um auto que explora a temática do nascimento como signo do ressurgir da esperança.

c) um auto de Natal que rememora a visita dos reis Magos e pastores ao Deus Menino.

d) um poema que encerra uma síntese das propostas vanguardistas contidas na obra geral do autor.

e) um conto cujo interesse se centraliza na preocupação do autor como problema da seca no Nordeste.

Questão 2

Entre os representantes da geração de 45 figura-se João Cabral de Melo Neto, cuja poesia abaixo se encontra demarcada. Dessa forma, leia e analise-a, fazendo a seguir algumas considerações acerca das características que demarcaram as produções literárias desse nobre representante de nossas letras.

Tecendo amanhã

Um galo sozinho não tece uma manhã:

ele precisará sempre de outros galos.

 De um que apanhe esse grito que ele

e o lance a outro; de um outro galo

que apanhe o grito de um galo antes

e o lance a outro; e de outros galos

que com muitos outros galos se cruzem

os fios de sol de seus gritos de galo,

para que a manhã, desde uma teia tênue,

se vá tecendo, entre todos os galos.

 

E se encorpando em tela, entre todos,

se erguendo tenda, onde entrem todos,

se entretendendo para todos, no toldo

(a manhã) que plana livre de armação.

A manhã, toldo de um tecido tão aéreo

que, tecido, se eleva por si: luz balão.

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