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Jorge de Lima

Literatura

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Jorge de Lima, poeta alagoano, está inscrito na história da literatura brasileira como um poeta muito engenhoso. Essa engenhosidade manifestou-se nas fases pelas quais sua poesia passou. Inicialmente, o poeta manifestou, em sua escrita, tendências do parnasianismo e do simbolismo.

Posteriormente, sua poesia, que expressara grande apreço pelo rigor formal parnasiano e pela efemeridade simbolista por meio de símbolos e expressões abstratas, enveredou-se para um teor temático mais regional, o que o aproxima da segunda fase do modernismo.

Leia mais: João Cabral de Melo Neto – conhecido como poeta-engenheiro pelas características de sua poesia

Jorge de Lima foi autor de uma obra plural, que apresenta traços de importantes de movimentos literários.
Jorge de Lima foi autor de uma obra plural, que apresenta traços de importantes de movimentos literários.

Biografia de Jorge de Lima

Jorge Mateus de Lima, conhecido no mundo literário como Jorge de Lima, nasceu em 23 de abril de 1893, em União de Palmares, cidade do interior de Alagoas. Foi pintor, desenhista, ilustrador, escultor, poeta, romancista e professor. Após ter feito seus primeiros estudos em sua cidade natal, Jorge de Lima mudou-se para Salvador (BA), onde ingressou no curso de Medicina. Deu prosseguimento à faculdade no Rio de Janeiro, onde concluiu o curso, em 1914.

Seu ingresso na literatura ocorreu muito cedo, por volta de 1910, ocasião a partir da qual começou a usufruir de certo prestígio, principalmente com o poema “Acendedor de lampiões”, texto com traços parnasianos. Sua estreia oficial, porém, foi em 1914, com a publicação da obra intitulada XIV alexandrinos. Após concluir o curso de Medicina no Rio de Janeiro, mudou-se, em 1917, para Belém do Pará, onde se casou.

Após o casamento, retornou a Maceió e se dedicou à medicina, à literatura e à política. Foi pai de dois filhos: Mário Jorge e Maria Tereza. Foi professor e diretor da Escola Normal e do Liceu Alagoano. Em 1921, foi eleito o Príncipe dos Poetas Alagoanos. Em 1926, ingressou na vida política, elegendo-se deputado estadual.

Em 1930, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde exerceu a medicina. Ainda nesse ano, tornou-se professor de Medicina da Universidade do Brasil e da Universidade do Distrito Federal. Paralelamente à carreira docente, Jorge de Lima atendia em seu consultório, que também funcionava como ateliê de arte, onde se reunia com artistas e intelectuais da época. Em 1946, elegeu-se vereador do Rio de Janeiro. Foi candidato cinco vezes à Academia Brasileira de Letras, não tendo sido eleito. Em 1952 foi eleito presidente da Sociedade Carioca de Escritores. Faleceu em 15 de novembro de 1953, no Rio de Janeiro.

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Estilo literário

A obra poética de Jorge de Lima apresentou, em suas primeiras publicações, influência do parnasianismo e do simbolismo. Posteriormente, Jorge de Lima aderiu ao modernismo, o que fez com que sua poesia passasse a apresentar temas nativistas de origem popular e africana. Depois, sua poesia expressou uma tendência ao misticismo, fase em que seus poemas apresentaram traços de religiosidade. As características mais recorrentes de suas poesias podem ser assim sistematizadas:

  • Predileção pelo rigor formal, expresso na busca pelo equilíbrio rítmico e métrico;

  • Temas ligados ao Nordeste e às tradições afrodescendentes;

  • Temas ligados à religiosidade católica;

  • Aspectos surrealistas e simbólicos;

  • Uso de metáforas e alegorias;

  • Vocabulário sofisticado;

  • Presença de paradoxos;

  • Tendência à universalidade e à atemporalidade.

Veja também: Mario Quintana – poeta que reproduziu a simplicidade e a reflexão em sua obra

Obras de Jorge de Lima

→ Poesia

  • XIV Alexandrinos (1914)

  • O mundo do menino impossível (1927)

  • Poemas (1927)

  • Novos poemas (1929)

  • Poemas escolhidos (1932)

  • Tempo e eternidade (1935), com Murilo Mendes

  • A túnica inconsútil (1938)

  • Anunciação e encontro de Mira-Celi (1943)

  • Poemas negros (1947)

  • Livro de sonetos (1949)

  • Obra poética (1950)

  • Invenção de Orfeu (1952)

  • Castro Alves - Vidinha (1952)

  • Antologia poética (1962)

→ Prosa

  • Salomão e as mulheres (1927)

  • O anjo (1934)

  • Calunga (1935)

  • A mulher obscura (1939)

  • Guerra dentro do beco (1950)

Poemas

O acendedor de lampiões

Lá vem o acendedor de lampiões da rua!
Este mesmo que vem infatigavelmente,
Parodiar o sol e associar-se à lua
Quando a sombra da noite enegrece o poente!

Um, dois, três lampiões, acende e continua
Outros mais a acender imperturbavelmente,
À medida que a noite aos poucos se acentua
E a palidez da lua apenas se pressente.

Triste ironia atroz que o senso humano irrita: —
Ele que doira a noite e ilumina a cidade,
Talvez não tenha luz na choupana em que habita.

Tanta gente também nos outros insinua
Crenças, religiões, amor, felicidade,
Como este acendedor de lampiões da rua!

O soneto “O acendedor de lampiões”, do livro XIV Alexandrinos (1914), está situado como um dos poemas mais importantes da primeira fase da obra de Jorge de Lima. Nesse poema, observa-se a construção de imagens que remetem o leitor a um cenário típico da poesia simbolista, o que pode ser inferido pelo uso de vocabulários com teor mais vago, como “sol”, “lua”, “sombra”, “noite”, “lua”, “luz”.

Em relação ao conteúdo, há, no poema, uma voz lírica em terceira pessoa que conduz o leitor a pensar no acendedor de lampiões, profissional comum na época em que não havia eletricidade nas cidades e a iluminação pública precisava ser acendida manualmente, como um ser humano revestido de subjetividade, o qual, apesar de ter a importante função de trazer luz às ruas, é comumente ignorado.

Essa negra Fulô

Ora, se deu que chegou

(isso já faz muito tempo)

no banguê dum meu avô

uma negra bonitinha

chamada negra Fulô.

Essa negra Fulô!

Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!

(Era a fala da Sinhá)

— Vai forrar a minha cama,

pentear os meus cabelos,

vem ajudar a tirar

a minha roupa, Fulô!

Essa negra Fulô!

Essa negrinha Fulô

ficou loco pra mucama,

para vigiar a Sinhá

pra engomar pro Sinhô!

Essa negra Fulô!

Essa negra Fulô

Ó Fulô! Ó Fulô !

(Era a fala da Sinhá)

vem me ajudar, ó Fulô,

vem abanar o meu corpo

que eu estou suada, Fulô!

vem coçar minha coceira,

vem me catar cafuné,

vem balançar minha rede,

vem me contar uma história,

que eu estou com sono, Fulô!

Essa negra Fulô!

"Era um dia uma princesa

que vivia num castelo

que possuía um vestido

com os peixinhos do mar.

entrou na perna dum pato

saiu na perna dum pinto

o Rei-Sinhô me mandou

que vos contasse mais cinco".

(Fragmento)

O extenso poema “Essa negra Fulô”, presente no livro Novos poemas (1929), expressa a fase modernista de Jorge de Lima, momento de sua produção literária em que o autor se volta para temáticas ligadas à região Nordeste e à cultura afro-brasileira. No fragmento em questão, que corresponde aos primeiros versos do poema, a voz enunciativa apresenta ao leitor a figura de “negra Fulô”, mulher escravizada que vivia na fazenda de seu avô, submetida aos caprichos patriarcais de seus senhores, prática comum na elite escravocrata do Brasil.

Poema do Cristão

Porque o sangue de Cristo

jorrou sobre os meus olhos,

a minha visão é universal

e tem dimensões que ninguém sabe.

Os milênios passados e os futuros

não me aturdem porque nasço e nascerei,

porque sou uno com todas as criaturas,

com todos os seres, com todas as coisas,

que eu decomponho e absorvo com os sentidos,

e compreendo com a inteligência

transfigurada em Cristo.

[...]

(Fragmento)

Nesse trecho do longo poema “Poema de Cristo”, presente no livro A túnica inconsútil (1938), nota-se a tendência espiritualista de Jorge de Lima. A voz lírica, em primeira pessoa, expressa sua fé cristã na redenção propiciada pelo sacrifício de Cristo. A referência a elementos cristãos foi uma constante na última fase da poesia de Jorge de Lima, momento em que o autor expressou sua fé católica por meio da produção poética.

Acesse também: Cinco poemas de Cecília Meireles

Frases de Jorge de Lima

  • “Nem tudo é épico e oitava-rima, pois muita coisa desabada tem seu sorriso cotidiano.”

  • “Ó vida tão confusa e tão lidada, ó sombra tão compacta e tão rochedo, de mim que choro que é que resta?”

  • “Antecedo-me, esbarro-me em mim mesmo. Filiei-me à eternidade sem querer, e agora vago como se vaga a esmo.”

  • “Era um poema nascendo, era um mistério, era um novo pecado se movendo.”

  • “Ó pai, sabei que eu já medi em palmos o meu tamanho pelos outros todos, pelas outras medidas, desmedidas, sombras desesperadas, desgrenhadas.”

  • “Antecedo-me, esbarro-me em mim mesmo. Filiei-me à eternidade sem querer, e agora vago como se vaga a esmo.”

Resumo sobre Jorge de Lima

Dados biográficos:

  • Data de nascimento: 23 de abril de 1893

  • Local de nascimento: União dos Palmares, Alagoas

  • 1914: conclusão do curso de Medicina

  • 1915: professor e diretor da Escola Normal e do Liceu Alagoano

  • 1919: eleição para deputado estadual por Alagoas

  • 1930: tornou-se professor de Medicina da Universidade do Brasil e da Universidade do Distrito Federal.

  • 1935: elegeu-se vereador do Rio de Janeiro.

  • 1940: agraciado com o Grande Prêmio de Poesia, da Academia Brasileira de Letras.

  • 1952: eleito presidente da Sociedade Carioca de Escritores.

  • Falecimento: 15 de novembro de 1953, no Rio de Janeiro

Características literárias:

  • conflito existencial e espiritual

  • rigor formal

  • maior liberdade formal como traço do modernismo

  • características simbolistas e parnasianas

  • características surrealistas

  • presença de símbolos católicos

  • presença de elementos da cultura afro-brasileira

Gostaria de fazer a referência deste texto em um trabalho escolar ou acadêmico? Veja:

GUIMARãES, Leandro. "Jorge de Lima"; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/literatura/jorge-lima.htm. Acesso em 23 de julho de 2021.

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