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Paulo Mendes Campos

Literatura

Além de ter sido um dos grandes cronistas de sua geração, Paulo Mendes Campos também foi poeta. O lirismo, o pensamento e a forma compõem a tríade que define sua poética.
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Poeta, cronista e tradutor. Paulo Mendes Campos pertenceu a uma geração de gigantes da literatura, mas entre seus contemporâneos, entre eles Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Rubem Braga e Fernando Sabino, foi quem melhor desempenhou o ofício de escrever crônicas, gênero no qual se destacou. Muito embora o tempo presente seja a matéria-prima da crônica, seus textos resistem ao tempo e oferecem para o leitor doses exatas de lirismo, característica também encontrada em seus poemas.

A poesia de Paulo Mendes Campos talvez tenha sido ofuscada pela genialidade do cronista, mas foi nesse gênero que o escritor iniciou sua vida literária: o primeiro livro, A palavra escrita, foi publicado em 1951. Sua obra poética inclui ainda Testamento do Brasil (1956), O domingo azul do mar (1958), Balada de amor perfeito e Arquitetura (editados no volume Poemas, 1979) e outros escritos publicados na imprensa. Apesar do apreço pelas formas fixas, sobretudo pelo soneto, seus poemas exploram possibilidades expressivas da linguagem poética, preocupação comum aos poetas da geração de 1945, da qual fez parte.

A forma, o pensamento e o lirismo compõem a tríade que define sua linguagem poética. A poesia de Paulo Mendes Campos mistura a tradição com a modernidade e, por isso, é clássica, mas também contemporânea. O tempo, a memória, a morte e outras questões relacionadas com a metafísica são temas constantes em sua obra, que também apresenta um discurso influenciado pela consciência crítica que conecta o poeta com a realidade de seu tempo. Para que você conheça um pouco da obra poética de um dos melhores poetas da geração de 1945, o Brasil Escola selecionou cinco poemas de Paulo Mendes Campos que sintetizam seu estilo peculiar e mostram o olhar sensível que o poeta lançou sobre a vida. Boa leitura!

Amor Condusse Noi Ad Nada

Quando o olhar adivinhando a vida
Prende-se a outro olhar de criatura

O espaço se converte na moldura
O tempo incide incerto sem medida

As mãos que se procuram ficam presas
Os dedos estreitados lembram garras
Da ave de rapina quando agarra
A carne de outras aves indefesas

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A pele encontra a pele e se arrepia
Oprime o peito o peito que estremece

O rosto a outro rosto desafia

A carne entrando a carne se consome
Suspira o corpo todo e desfalece

E triste volta a si com sede e fome.

Tempo-Eternidade

O instante é tudo para mim que ausente
do segredo que os dias encadeia
me abismo na canção que pastoreia
as infinitas nuvens do presente.

Pobre de tempo fico transparente
à luza desta canção que me rodeia
como se a carne se fizesse alheia
à nossa opacidade descontente.

Nos meus olhos o tempo é uma cegueira
e a minha eternidade uma bandeira
aberta em céu azul de solidões.

Sem margens sem destino sem história
o tempo que se esvai é minha glória
e o susto de minh´alma sem razões.

O suicida

Quando subiu do mar a luz ferida,
Ao coração desceu a sombra forte,

Um homem triste foi buscar a morte
Nas ondas, flor do mal aos pés da vida.

Com lucidez tremeu olhando tudo
Como um falcão de súbito no alto

Estremece sentindo o sobressalto
Do abismo que lhe fala porque é mudo.

Às vezes vou ali, fico a pensar
Na paz que lhe faltou e que me falta

E no confuso alarme do meu fim.

O infinito silêncio me diz –– “salta”,
Enquanto faz-me a brisa respirar

O fumo da cidade atrás de mim.

Relógio de sol

De todas as minhas façanhas
a que me dói mais lentamente
é sentir nas minhas entranhas
o meu coração arbitrário
girando em sentido contrário
à parábola do poente.

Três Coisas

Não consigo entender 
O tempo 
A morte 
Teu olhar 

O tempo é muito comprido 
A morte não tem sentido 
Teu olhar me põe perdido 

Não consigo medir 
O tempo 
A morte 
Teu olhar 

O tempo, quando é que cessa? 
A morte, quando começa? 
Teu olhar, quando se expressa? 

Muito medo tenho 
Do tempo 
Da morte 
De teu olhar 

O tempo levanta o muro. 

A morte será o escuro? 

Em teu olhar me procuro. 

_____________________
*A imagem que ilustra o artigo foi feita a partir da capa do livro Carta a Otto ou um Coração em agosto, de Paulo Mendes Campos. Publicação do Instituto Moreira Salles.


Por Luana Castro
Graduada em Letras

Paulo Mendes Campos foi poeta, tradutor e cronista. Belo Horizonte, 1922 – Rio de Janeiro, 1991.*
Paulo Mendes Campos foi poeta, tradutor e cronista. Belo Horizonte, 1922 – Rio de Janeiro, 1991.*

Gostaria de fazer a referência deste texto em um trabalho escolar ou acadêmico? Veja:

PEREZ, Luana Castro Alves. "Paulo Mendes Campos"; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/literatura/paulo-mendes-campos.htm. Acesso em 22 de setembro de 2019.

Lista de Exercícios
Questão 1

(UFMT - 2006)

“Chatear” e “encher”

Um amigo meu me ensina a diferença entre “chatear” e “encher”. Chatear é assim: você telefona para um escritório qualquer na cidade.

— Alô, quer me chamar por favor o Valdemar?
— Aqui não tem nenhum Valdemar.
Daí a alguns minutos você liga de novo.
— O Valdemar, por obséquio.
— Cavalheiro, aqui não trabalha nenhum Valdemar.
— Mas não é do número tal?
— É, mas aqui nunca teve nenhum Valdemar.
Mais cinco minutos, você liga o mesmo número:
— Por favor, o Valdemar já chegou?

— Vê se te manca palhaço. Já não lhe disse que o diabo desse Valdemar nunca trabalhou aqui?
— Mas ele mesmo me disse que trabalhava aí.

— Não chateia.

Daí a dez minutos, ligue de novo.

— Escute uma coisa: o Valdemar não deixou pelo menos um recado?

O outro dessa vez esquece a presença da datilógrafa e diz coisas impublicáveis.

Até aqui é chatear. Para encher, espere passar mais dez minutos, faça nova ligação:
— Alô! Quem fala? Quem fala aqui é o Valdemar! Alguém telefonou para mim?

Paulo Mendes Campos, in Para gostar de ler - Crônicas

Na crônica são construídas relações envolvendo narrador e personagens. Sobre o assunto, assinale a afirmativa correta.

a) A fala – É, mas aqui nunca teve nenhum Valdemar. sinaliza o início da perda de paciência da pessoa que atende ao telefone.

b) Desde o início do texto, a pessoa que telefona mostra-se irritada com quem fala.

c) O uso do artigo o antes de Valdemar revela o distanciamento entre Valdemar e a pessoa que o procura.

d) O autor cria uma relação lúdica entre Valdemar e os funcionários do escritório.

e) A presença da datilógrafa é motivo para que o funcionário que atende ao telefone mantenha, durante a conversa, comportamento polido.

Questão 2

(UFMT – 2006)

“Chatear” e “encher”

Um amigo meu me ensina a diferença entre “chatear” e “encher”. Chatear é assim: você telefona para um escritório qualquer na cidade.

— Alô, quer me chamar por favor o Valdemar?
— Aqui não tem nenhum Valdemar.
Daí a alguns minutos você liga de novo.
— O Valdemar, por obséquio.
— Cavalheiro, aqui não trabalha nenhum Valdemar.
— Mas não é do número tal?
— É, mas aqui nunca teve nenhum Valdemar.
Mais cinco minutos, você liga o mesmo número:
— Por favor, o Valdemar já chegou?

— Vê se te manca palhaço. Já não lhe disse que o diabo desse Valdemar nunca trabalhou aqui?
— Mas ele mesmo me disse que trabalhava aí.

— Não chateia.

Daí a dez minutos, ligue de novo.

— Escute uma coisa: o Valdemar não deixou pelo menos um recado?

O outro dessa vez esquece a presença da datilógrafa e diz coisas impublicáveis.

Até aqui é chatear. Para encher, espere passar mais dez minutos, faça nova ligação:
— Alô! Quem fala? Quem fala aqui é o Valdemar! Alguém telefonou para mim?

Paulo Mendes Campos, in Para gostar de ler - Crônicas

Sobre a linguagem utilizada por Paulo Mendes Campos, assinale a afirmativa correta.

a) Os dêiticos aqui (linhas 4, 7, 9, 12 e 19) e aí (linha 13) são entendidos pelo leitor por referenciarem lugares em que estão os participantes do diálogo.

b) A crescente irritação do funcionário que atende ao telefone é percebida pelos impropérios proferidos ao longo da conversa.

c) O texto traz vocábulos e expressões caracteristicamente regionais: por obséquio; datilógrafa; cavalheiro; Vê se te manca, palhaço.

d) A linguagem utilizada no texto é predominantemente formal, adequada a um diálogo entre desconhecidos.

e) A fala – Aqui não tem nenhum Valdemar., reescrita na modalidade escrita padrão, fica: Nesse escritório, não tem Valdemar.

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