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Elegia

Literatura

Tipo de poema que tem como assunto a tristeza e a nostalgia, a elegia encontrou na Literatura Brasileira grandes representantes, entre eles Drummond e Manuel Bandeira.
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Para compreender melhor a Literatura, é imprescindível conhecer um pouco mais sobre os gêneros literários e suas subdivisões. Os gêneros literários são agrupados de acordo com critérios semânticos, sintáticos, fonológicos, contextuais, entre outras propriedades formais, elementos que são responsáveis por organizar em famílias textos que apresentem algum tipo de similaridade.

Entre os gêneros literários, o gênero lírico é aquele que melhor explora a subjetividade e a musicalidade. Sua principal característica é a presença de um eu lírico, voz poética que se manifesta em poema, que, por sua vez, pode apresentar diferentes formas. A mais conhecida é o soneto, mas existem outras, como a elegia.

A elegia é um gênero poético caracterizado mais pela temática do que por uma estrutura formal: tem como assuntos principais a tristeza dos amores interrompidos pela morte ou pela infidelidade. As primeiras elegias apresentavam uma métrica específica, com emprego de dísticos formados de versos hexâmetros. Contudo, a elegia pode ser desenvolvida em versos livres, mas sempre reconhecida em virtude de sua temática peculiar.

No século XVI, a elegia tornou-se um dos gêneros poéticos mais populares. Embora Sá de Miranda tenha sido o primeiro escritor português de elegias, foi Luís de Camões o principal representante do gênero, autor de quatro elegias consideradas as melhores escritas em língua portuguesa:

À morte de D. Miguel de Meneses, filho de D. Henrique de Meneses, governador da Casa Cível, que morreu na Índia:

Que novas tristes são, que novo dano,
que mal inopinado incerto soa,
tingindo de temor o vulto humano?

Que vejo as praias húmidas de Goa
ferver com gente atónita e torvada
do rumor que de boca em boca soa.

É morto D. Miguel – ah, crua espada! –
e parte da lustrosa companhia
que se embarcou na alegre e triste armada,

e de espingarda ardente e lança fria
passado pelo torpe e iníquo braço
que nessas altas famas injuria.

Não lhe valeu rodela ou peito de aço,
nem ânimo de Avós altos herdado,
com que se defendeu tamanho espaço;

não ter-se em derredor todo cercado
de corpos de inimigos, que exalavam
a negra alma do corpo traspassado;

não com palavras fortes, que voavam
a animar os incertos companheiros
que, fortes, caem e tímidos viravam.

(Fragmento)

Na literatura brasileira, Fagundes Varela, poeta ultrarromântico, foi o mais importante autor de elegias. Uma delas, Cântico do Calvário, é considerada sua obra-prima, tendo como tema o sofrimento do poeta diante da perda do filho ainda pequeno. São versos que comovem e que certamente estão entre os mais tristes de nossa literatura:

Cântico do Calvário

À Memória de Meu Filho 
Morto a l l de Dezembro 
de 1863.


Eras na vida a pomba predileta 
Que sobre um mar de angústias conduzia 
O ramo da esperança. — Eras a estrela 
Que entre as névoas do inverno cintilava 
Apontando o caminho ao pegureiro. 
Eras a messe de um dourado estio. 
Eras o idílio de um amor sublime. 
Eras a glória, — a inspiração, — a pátria, 
O porvir de teu pai! — Ah! no entanto, 
Pomba, — varou-te a flecha do destino! 
Astro, — engoliu-te o temporal do norte! 
Teto, caíste! — Crença, já não vives! 

Correi, correi, oh! lágrimas saudosas, 
Legado acerbo da ventura extinta, 
Dúbios archotes que a tremer clareiam 
A lousa fria de um sonhar que é morto!

(Fragmento)

No século XX, outros poetas brasileiros resgataram os versos elegíacos, apropriando-se mais de seu conteúdo temático do que de sua métrica. Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira estão entre os poetas que se destacaram na produção de elegias, evocando em seus poemas temas como a melancolia e a nostalgia. Desses dois autores, selecionamos para você dois poemas que bem representam esse interessante gênero poético. Boa leitura!

Drummond e Bandeira aproveitaram-se do conteúdo temático da elegia para escrever poemas com versos livres *
Drummond e Bandeira aproveitaram-se do conteúdo temático da elegia para escrever poemas com versos livres *

Elegia 1938

Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.

Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.

Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.

Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.

Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.

Carlos Drummond de Andrade

Elegia para minha mãe

Nesta quebrada de montanha, donde o mar
Parece manso como em recôncavo de angra,
Tudo o que há de infantil dentro em minh'alma sangra
Na dor de ter visto, ó Mãe, agonizar!

Entregue à sugestão evocadora do ermo,
Em pranto rememoroso o teu lento matírio
Até quando exalaste, à ardente luz de um círio,
A alma que se transia atada ao corpo enfermo.

Relembro o rosto magro, onde a morte deixou
Uma expressão como que atônita de espanto
(Que imagem de tão grave e prestigioso encanto
Em teus olhos já meio inânimes passou?)

Revejo os teus pequenos pés... A mão fransina...
Tão musical... A fronte baixa... A boca exangue...
A duas gerações passara já teu sangue,
 - Eras avó -, e morta eras uma menina.

No silêncio daquela noite funeral
Ouço a voz de meu pai chamando por teu nome.
Mas não posso pensar em ti sem que me tome
Todo a recordação medonha do teu mal!

Tu, cujo coração era cheio de medos
 - Temias os trovões, o telegrama, o escuro -
Ah, pobrezinha! um fim terrível o mais duro,
É que te sufocou com implacáveis dedos.

Agora que me despedaça o coração
A cada pormenor, e o revivo cem vezes,
E choro neste instante o pranto de três meses
(Durante os quais sorri para tua ilusão!),

Enquanto que a buscar as solitárias ânsias,
As mágoas sem consolo, as vontades quebradas,
Voa, diluindo-se no longe das distâncias,
A prece vesperal em fundas badaladas!

Manuel Bandeira

*Imagem feita a partir de capas de livros dos autores citados.


Por Luana Castro
Graduada em Letras

Gostaria de fazer a referência deste texto em um trabalho escolar ou acadêmico? Veja:

PEREZ, Luana Castro Alves. "Elegia"; Brasil Escola. Disponível em <http://brasilescola.uol.com.br/literatura/elegia.htm>. Acesso em 24 de maio de 2017.

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