Carlos Drummond de Andrade

Literatura

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Carlos Drummond de Andrade nasceu em Itabira, Minas Gerais, em 31 de outubro de 1902. Em 1919, estudante interno do colégio Anchieta, em Nova Friburgo, foi expulso por “insubordinação mental”. Publicou seu primeiro livro — Alguma poesia — em 1930. Trabalhou no gabinete do ministro da Educação e Saúde Pública Gustavo Capanema e aposentou-se como chefe de seção da Diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (DPHAN), em 1962.

Autor pertencente à segunda fase do modernismo brasileiro, Drummond apresenta uma poesia com liberdade formal e temática sociopolítica. No entanto, seus textos são marcados, principalmente, por temas do cotidiano, que, mesmo culturalmente localizados, assumem um caráter universal. O poeta, ganhador do Prêmio Jabuti, no Brasil, e do Prêmio Morgado de Mateus, em Portugal, morreu em 17 de agosto de 1987, no Rio de Janeiro.

Leia também: Mario Quintana – poeta associado à segunda fase do modernismo

Biografia de Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade, em 1970.
Carlos Drummond de Andrade, em 1970.

Carlos Drummond de Andrade nasceu em Itabira, Minas Gerais, em 31 de outubro de 1902. Em 1910, começou a estudar no Grupo Escolar Dr. Carvalho Brito, em sua cidade natal. Em 1916, iniciou seus estudos no internato e colégio Arnaldo, em Belo Horizonte. Já em 1918, foi morar em Nova Friburgo, no estado do Rio de Janeiro, para estudar, como interno, no colégio Anchieta. Ali permaneceu apenas um ano, pois foi expulso, oficialmente, por “insubordinação mental”, após ter um atrito com seu professor de português.

Em 1923, iniciou o curso de Farmácia na Escola de Odontologia e Farmácia de Belo Horizonte, concluído em 1925. Entretanto não teve interesse em exercer a profissão. Assim, em 1926, trabalhou como professor de geografia e português, em Itabira, e foi um dos fundadores do periódico modernista A Revista. Nesse mesmo ano, voltou a Belo Horizonte para ser redator no Diário de Minas, e, em 1929, tornou-se auxiliar de redação e, posteriormente, redator do Minas Gerais, órgão oficial do Estado.

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Foi em 1930 que o poeta publicou seu primeiro livro — Alguma poesia — de forma independente, ou seja, com recursos próprios. Ainda em 1930, começou a trabalhar como oficial de gabinete de Gustavo Capanema (1900-1985), então secretário de Interior e Justiça de Minas Gerais, para, em 1934, tornar-se chefe de gabinete de Capanema, agora ministro da Educação e Saúde Pública. Assim, só teve reconhecimento nacional como escritor em 1942, com a publicação de Poesias.

Em 1945, tornou-se codiretor do periódico comunista Tribuna Popular, mas deixou o cargo meses depois, por discordância com as diretrizes do jornal. Nesse ano, começou a trabalhar na Diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (DPHAN), onde se aposentaria, como chefe de seção, em 1962.

Recebeu os seguintes prêmios:

  • Prêmio da Sociedade Felipe d’Oliveira, pelo conjunto da obra, em 1946;

  • Prêmio Jabuti, em 1968;

  • Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA), em 1973;

  • Prêmio Estácio de Sá, de jornalismo, em 1980;

  • Prêmio Morgado de Mateus, de poesia, em Portugal, também em 1980.

Em 1982, recebeu o título de doutor honoris causa da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Morreu, no Rio de Janeiro, em 17 de agosto de 1987.

Características literárias de Carlos Drummond de Andrade

Drummond fez parte da segunda fase do modernismo brasileiro, que durou de 1930 a 1945. As obras desse período possuem as seguintes características:

  • Temática contemporânea

  • Crise existencial

  • Conflito espiritual

  • Temática sociopolítica

  • Liberdade linguística

  • Liberdade formal

  • Realismo

Estátua de Carlos Drummond de Andrade, no Rio de Janeiro. [1]
Estátua de Carlos Drummond de Andrade, no Rio de Janeiro. [1]

O autor possui também, como característica individual, a temática do cotidiano, e ainda consegue, com base no particular, atingir o universal. Queremos dizer, com isso, que o sentido de seus poemas ultrapassa as fronteiras. O que podemos verificar em seu poema “Toada do amor”:

[...]

Não se deve xingar a vida,
a gente vive, depois esquece.
Só o amor volta para brigar,
para perdoar,
amor cachorro bandido trem.

[...]

Mariquita, dá cá o pito,
no teu pito está o infinito.

Nesses fragmentos, podemos identificar elementos universais, como o amor e o infinito (no caso, a reflexão), ao lado de elementos particulares, como os termos regionais “trem” e “pito”. Além disso, ao dizer que “no teu pito está o infinito”, o eu lírico associa o ato cotidiano de fumar a um momento de reflexão, em um tempo em que as pessoas paravam para fumar e, consequentemente, pensar na existência.

Leia também: Manuel Bandeira – autor que passou por diversas mudanças em sua obra

Obras de Carlos Drummond de Andrade

Poesia

  • Alguma poesia (1930)

  • Brejo das almas (1934)

  • Sentimento do mundo (1940)

  • Poesias (1942)

  • A rosa do povo (1945)

  • Novos poemas (1948)

  • Claro enigma (1951)

  • Viola de bolso (1952)

  • Fazendeiro do ar (1954)

  • A vida passada a limpo (1955)

  • Lição de coisas (1962)

  • Versiprosa (1967)

  • Boitempo (1968)

  • A falta que ama (1968)

  • Nudez (1968)

  • As impurezas do branco (1973)

  • Menino antigo (1973)

  • A visita (1977)

  • Discurso de primavera e algumas sombras (1977)

  • O marginal Clorindo Gato (1978)

  • Esquecer para lembrar (1979)

  • A paixão medida (1980)

  • Caso do vestido (1983)

  • Corpo (1984)

  • Eu, etiqueta (1984)

  • Amar se aprende amando (1985)

  • Poesia errante (1988)

  • O amor natural (1992)

  • Farewell (1996)

Prosa

  • Confissões de Minas (1944)

  • Contos de aprendiz (1951)

  • Passeios na ilha (1952)

  • Fala, amendoeira (1957)

  • A bolsa & a vida (1962)

  • A minha vida (1964)

  • Cadeira de balanço (1966)

  • Caminhos de João Brandão (1970)

  • O poder ultrajovem e mais 79 textos em prosa e verso (1972)

  • De notícias & não notícias faz-se a crônica (1974)

  • 70 historinhas (1978)

  • Contos plausíveis (1981)

  • Boca de luar (1984)

  • O observador no escritório (1985)

  • Tempo vida poesia (1986)

  • Moça deitada na grama (1987)

  • O avesso das coisas (1988)

  • Autorretrato e outras crônicas (1989)

Exemplos de textos de Carlos Drummond de Andrade

Como ficou evidente, a obra de Carlos Drummond de Andrade é extensa. Muitos poemas do autor caíram nas graças de leitoras e leitores, como o “Quadrilha”, do livro Alguma poesia. Nele é possível verificar-se a temática do cotidiano, isto é, a dinâmica das relações amorosas, que também é universal. Escrito em versos livres (sem métrica e sem rima), o poema demonstra a influência da primeira geração modernista:

Quadrilha

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi pra os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

Capa do livro “Sentimento do mundo”, de Carlos Drummond de Andrade, publicado pela editora Companhia das Letras. [2]
Capa do livro “Sentimento do mundo”, de Carlos Drummond de Andrade, publicado pela editora Companhia das Letras. [2]

Já “O operário no mar”, uma poesia em prosa publicada em seu livro Sentimento do mundo, traz a perspectiva sociopolítica muito comum à segunda geração do modernismo brasileiro. Nesse texto, a voz poética expõe a difícil condição social do operário, que vive uma realidade alienante e tão distante da realidade do eu lírico, como podemos perceber neste trecho:

Na rua passa um operário. Como vai firme! Não tem blusa. No conto, no drama, no discurso político, a dor do operário está na blusa azul, de pano grosso, nas mãos grossas, nos pés enormes, nos desconfortos enormes. Esse é um homem comum, apenas mais escuro que os outros, [...]. Adiante é só o campo, com algumas árvores, o grande anúncio de gasolina americana e os fios, os fios, os fios. O operário não lhe sobra tempo de perceber que eles levam e trazem mensagens, que contam da Rússia, do Araguaia, dos Estados Unidos. Não ouve, na Câmara dos Deputados, o líder oposicionista vociferando. [...]. Teria vergonha de chamá-lo meu irmão. Ele sabe que não é, nunca foi meu irmão, que não nos entenderemos nunca. E me despreza… Ou talvez seja eu próprio que me despreze a seus olhos. [...], quem sabe se um dia o compreenderei?

 

Por fim, também do livro Sentimento do mundo, o poema “Congresso Internacional do Medo” reflete o sentimento compartilhado por muitas pessoas, no mundo inteiro, durante o período que precedeu a Segunda Guerra Mundial (1939-1945):

Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.

Créditos das imagens

[1]Rodrigo S Coelho / Shutterstock

[2] Companhia das Letras (reprodução)


Por Warley Souza
Professor de Literatura

Gostaria de fazer a referência deste texto em um trabalho escolar ou acadêmico? Veja:

SOUZA, Warley. "Carlos Drummond de Andrade"; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/literatura/carlos-drummond.htm. Acesso em 24 de setembro de 2020.

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Lista de Exercícios
Questão 1

(UFOP-MG) Observe o texto abaixo:

Fazendeiro de cana

Minha terra tem palmeiras? Não.

Minha terra tem engenhocas de rapadura e cachaça

e açúcar marrom, tiquinho, para o gasto.

 [...]

Tem cana caiana e cana crioula,

cana-pitu, cana rajada, cana-do-governo

e muitas outras canas de garapas,

e bagaço para os porcos em assembleia grunhidora

diante da moenda

movida gravemente pela junta de bois

de sólida tristeza e resignação.

 

As fazendas misturam dor e consolo

em caldo verde-garrafa

e sessenta mil-réis de imposto fazendeiro.

                             Carlos Drummond de Andrade.

Assinale a alternativa incorreta:

Carlos Drummond de Andrade, neste poema, valendo-se das linguagens desenvolvidas pelo Modernismo:

a) retoma a linguagem do poema romântico, de maneira simétrica e linear, apontando a ideologia nele subjacente.

b) retoma parodisticamente um importante poema do Romantismo brasileiro.

c) faz, em relação ao romântico, uma ruptura ao nível da consciência e ao nível da linguagem.

d) satiriza o sentimento ufanista, comum aos poetas românticos.

e) desmitifica a visão ingênua dos românticos, operando uma leitura crítica da realidade.

Questão 2

(Famih – MG)

Cidadezinha qualquer

 

Casas entre bananeiras

mulheres entre laranjeiras

pomar amor cantar.

 

Um homem vai devagar.

Um cachorro vai devagar.

Um burro vai devagar.

 

Devagar... as janelas olham.

Eta vida besta, meu Deus.

                              Carlos Drummond de Andrade

Todas as características modernistas citadas abaixo podem ser identificadas no poema de Drummond, exceto:

a) Reaproveitamento do popular e do coloquial, uso de uma linguagem simples, fácil, próxima da expressão oral.

b) Concepção do poético como um texto aberto; um discurso que oferece multiplicidade de sentidos e interpretações.

c) Crítica ao mundo rural, ao universo primitivo, distante do progresso, da civilização mecânica e industrial.

d) Exploração do imprevisível, do inesperado; o corte brusco, a fragmentação de ideias possibilita o surgimento do humor.

e) Interesse pelo homem comum, ordem social e pela vida cotidiana.

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