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Relativismo cultural

O relativismo cultural é uma perspectiva teórica que defende que cada cultura deve ser entendida e respeitada dentro de seu próprio contexto. Foi desenvolvido por Franz Boas.

Mulheres tailandesas com anéis no pescoço, um exemplo de relativismo cultural. Título: relativismo-cultural
O relativismo cultural permite uma compreensão mais profunda e respeitosa das diferentes culturas.[1]
Crédito da Imagem: shutterstock
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O relativismo cultural é um conceito fundamental na antropologia e sociologia que propõe a compreensão das culturas com base em seus próprios contextos e valores, sem julgamentos preconcebidos ou etnocêntricos. Essa abordagem desafia a ideia de valores universais e sustenta que não existem verdades absolutas no plano moral ou cultural. Diferenças nas normas de vestuário, práticas de higiene e organização familiar entre diferentes sociedades são exemplos de relativismo cultural.

Sua origem está ligada ao método da observação participante, desenvolvido por antropólogos como Franz Boas, que enfatizava a importância de se estudar culturas de maneira imersiva e empática, combatendo preconceitos etnocêntricos e promovendo uma visão mais igualitária das diversas culturas humanas. O relativismo cultural contribuiu para movimentos anticolonialistas, para a valorização de minorias étnicas e para a luta contra a discriminação.

Leia também: Etnocentrismo — visão de mundo que considera as demais culturas inferiores à sua

Tópicos deste artigo

Resumo sobre relativismo cultural

  • O relativismo cultural compreende e avalia práticas culturais e valores morais de uma sociedade com base em seu próprio contexto cultural.

  • O relativismo cultural desafia o etnocentrismo e a ideia de valores universais, defendendo que não existem verdades absolutas no plano moral ou cultural.

  • Sua origem remonta ao filósofo Protágoras, mas foi desenvolvido na antropologia moderna por Franz Boas e outros antropólogos.

  • O método da observação participante, pelo qual o pesquisador se insere no ambiente social estudado, foi crucial para o desenvolvimento do relativismo cultural.

  • Sua importância consiste em promover o respeito pelas culturas alheias e a objetividade no estudo de outras sociedades.

  • O etnocentrismo julga outras culturas com base nos padrões da própria sociedade, resultando em preconceito e discriminação.

  • Críticas ao relativismo cultural levantam a discussão sobre a universalidade dos Direitos Humanos e sua adaptação às especificidades culturais.

Videoaula sobre relativismo cultural

O que é relativismo cultural?

O relativismo cultural é uma perspectiva teórica fundamental na antropologia e em demais campos das ciências sociais. O relativismo cultural propõe a compreensão e a avaliação das práticas culturais e dos valores morais de uma sociedade com base em seu próprio contexto cultural, em vez de julgá-los com base em padrões externos.

O relativismo cultural parte do princípio de que aquilo que é considerado como verdadeiro, valorizado ou esperado em um sistema social talvez não o seja em outro. Esse é um fato bem documentado por antropólogos há séculos. A morte deliberada de uma criança é considerada assassinato na maioria das sociedades, mas, em outras, pode ser julgada uma prática legítima.

Um dos benefícios mais profundos de estarmos conscientes do relativismo cultural é que esse conceito solapa a opinião, muito comum, de que os costumes de dada sociedade na vida social estão radicados em uma suposta ordem natural das coisas, que seus códigos morais são universais e absolutamente corretos, ou que os gostos e preferências de seu povo são superiores.

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O relativismo cultural desafia a ideia de que existe um conjunto universal de valores ou práticas que podem ser aplicados a todas as culturas de maneira uniforme. Sustenta que não existem verdades absolutas no plano moral ou cultural, nem gostos ou preferências estéticas superiores e inferiores.

Em resumo, o relativismo cultural defende que cada cultura deve ser entendida e respeitada dentro de seu próprio contexto, sem ser comparada ou julgada pelos padrões de outra cultura. Isso significa que os valores, crenças e práticas de um grupo cultural são válidos em si mesmos e não podem ser avaliados e comparados usando métricas extraídas de outras culturas.

Veja também: Alteridade — reconhecimento de que existem pessoas e culturas diferentes

Origem do relativismo cultural

A origem do relativismo cultural é a própria ideia de que “o homem é a medida de todas as coisas”, como afirmou o filósofo Protágoras milhares de anos atrás. No entanto, muitos pesquisadores da antropologia moderna desenvolveram essa ideia ao ponto de transformá-la em uma teoria científica. A origem do relativismo cultural na antropologia moderna está muito ligada ao método da observação participante.

Método da observação participante

A observação participante é um método de pesquisa qualitativa que envolve o pesquisador se inserir no ambiente social que está sendo estudado, participando ativamente das atividades cotidianas dos sujeitos observados. Esse método permite ao pesquisador obter uma compreensão contextualizada das práticas culturais, comportamentos e significados atribuídos pelos membros da comunidade estudada.

A observação participante foi crucial para o desenvolvimento do relativismo cultural porque permitiu aos antropólogos estudar as culturas de maneira imersiva e empática. Ao viver entre os membros de uma comunidade e participar de suas atividades diárias, os pesquisadores puderam compreender as culturas de dentro para fora, respeitando seus contextos e significados próprios.

Essa abordagem ajudou a desmantelar preconceitos etnocêntricos e a promover uma visão mais igualitária e respeitosa das diversas culturas humanas.

Contribuições de Edward Sapir e Franz Boas

Na antropologia, a origem do relativismo cultural é geralmente associada a pensadores como Edward Sapir e Franz Boas, atuantes no final do século XIX e início do século XX.

Franz Boas foi um dos primeiros a se opor ao etnocentrismo e ao evolucionismo social, predominantes no início do século passado. Essas correntes de pensamento, como o positivismo de Auguste Comte e o darwinismo social, defendiam que a história humana seguia um caminho linear de progresso, com a cultura ocidental sendo vista como o ápice da civilização.

Franz Boas, ao contrário, argumentava que cada cultura deveria ser entendida em seus próprios termos, sem julgamentos preconcebidos ou hierarquias de valor. Ele introduziu o método etnográfico, que enfatiza a convivência do pesquisador com o povo estudado como um processo fundamental para a pesquisa antropológica. Essa abordagem permite uma compreensão mais profunda e respeitosa das diferentes culturas, valorizando a diversidade e combatendo preconceitos.

Franz Boas ajudou a desenvolver o conceito de relativismo cultural.
Franz Boas ajudou a desenvolver o conceito de relativismo cultural.

Boas e seus seguidores, como Margaret Mead, Bronislaw Malinowski e Claude Lévi-Strauss, desenvolveram e popularizaram o conceito de relativismo cultural. Segundo eles argumentam, não existe uma verdade absoluta no plano moral ou cultural, e os valores e práticas de uma sociedade só podem ser compreendidos dentro do contexto dessa própria sociedade.

A ideia de relativismo cultural também se relaciona com a teoria da relatividade de Albert Einstein, que sugere que dois observadores podem perceber o mesmo fenômeno de maneiras diferentes. Essa analogia foi utilizada para explicar como diferentes culturas podem ter sistemas de valores e práticas distintas, sem que uma seja necessariamente superior à outra.

Importância do relativismo cultural

A importância do relativismo cultural depende das suas consequências práticas. As consequências do relativismo cultural podem ser diversas e incluem:

  • o respeito sincero pelas culturas e sociedades dos outros povos;

  • o cuidado extremo com a objetividade ao estudar outras culturas; e

  • a recusa de interferir e modificar costumes e tradições de outros povos.

Desde o século passado, o relativismo cultural também contribuiu para movimentos anticolonialistas, a valorização das minorias étnicas, a luta contra a discriminação e a libertação da mulher em relação ao domínio masculino. Em outras palavras, o relativismo cultural promove uma compreensão mais inteligente da diversidade humana e a paz entre os povos.

Além disso, o relativismo cultural é importante por contradizer a opinião, muito comum, de que os costumes da vida social de um povo ou etnia são fixados por uma suposta ordem natural das coisas; ou de que os códigos morais de algumas sociedades, assim como seus gostos e preferências, seriam universalmente aceitos e absolutamente corretos.

A importância do relativismo cultural é ensinar que nossos conhecimentos, valores e gostos são consequência do nosso ponto de vista particular.

Homem caminhando sobre brasas em texto sobre relativismo cultural.
Valores e práticas de uma sociedade só podem ser compreendidos dentro do contexto dessa própria sociedade.[2]

Outro efeito de estarmos mais conscientes do relativismo cultural é que tendemos a ser menos cegos e arrogantes em relação a outras sociedades e menos rígidos e dogmáticos na avaliação da ideia de mudar a nossa própria sociedade. Compreender que o que aceitamos como “natural”, universal e imutável, na verdade, assume formas diferentes, tanto ao longo da história quanto entre sociedades, é uma experiência que pode nos tornar mais humildes e inteligentes.

A importância do relativismo cultural consiste em servir como uma ferramenta valiosa para a compreensão das complexidades das culturas humanas. Ao rejeitar o etnocentrismo, ele nos desafia a olhar além de nossos próprios preconceitos e a apreciar a diversidade cultural. No entanto, o relativismo cultural também exige um equilíbrio cuidadoso. Sem reflexão e debates, o respeito pelas diferenças culturais pode entrar em conflito com a defesa dos Direitos Humanos universais.

Exemplos de relativismo cultural

Exemplos de relativismo cultural, no Brasil, podem ser observados nas normas de vestuário e nos comportamentos. No Brasil, é comum que homens e mulheres usem roupas que deixam partes do corpo, como barriga e pernas, à mostra.

Esse comportamento é amplamente aceito e faz parte da cultura brasileira, especialmente em regiões quentes. No entanto, em países árabes, tais vestimentas seriam consideradas inaceitáveis, pois as mulheres costumam se vestir de maneira mais conservadora, cobrindo a maior parte do corpo.

Mulheres usando burcas em texto sobre relativismo cultural.
Mulheres usando burcas em Kabul, no Afeganistão.[3]

Outro exemplo é o costume brasileiro de tomar banho diariamente, visto como uma prática essencial de higiene. Em outras culturas, como em alguns países europeus, a frequência dos banhos pode ser menor, e isso é perfeitamente normal dentro do contexto cultural dessas sociedades.

O relativismo cultural nos ensina que não há uma prática de higiene “superior” ou “inferior”, mas sim diferentes hábitos que fazem sentido dentro de cada contexto cultural.

Os sistemas de parentesco e as formas de organização familiar também são exemplos importantes. Em muitas sociedades ocidentais, a família nuclear (pais e filhos) é a unidade familiar predominante. Em contraste, em muitas culturas africanas e asiáticas, a família extensa, que inclui avós, tios, primos e outros parentes, desempenha um papel central. O relativismo cultural nos permite entender que essas diferentes formas de organização familiar são igualmente válidas e funcionais dentro de seus contextos culturais.

A relação com a natureza também é um aspecto importante. Muitas culturas indígenas têm uma relação de profundo respeito e harmonia com a natureza, vendo-a como um ser vivo com o qual se deve coexistir. Em contraste, a visão ocidental, muitas vezes, é mais utilitarista e materialista, vendo a natureza como um recurso a ser explorado. O relativismo cultural nos permite apreciar essas diferentes perspectivas e aprender com elas.

Saiba mais: O que é apropriação cultural e como ela acontece?

Diferenças entre relativismo cultural, etnocentrismo e positivismo

Em contraposição ao etnocentrismo, o relativismo cultural valoriza e respeita a diversidade cultural. O conceito de relativismo cultural surgiu com a antropologia moderna e a observação participante, e considera que todos os elementos de uma cultura são relativos ao seu contexto.

O relativismo cultural defende que não há culturas superiores ou inferiores, mas sim diferentes formas de realização humana. As culturas são vistas como equivalentes e não devem ser julgadas por padrões externos.

Prisioneiros em um campo de concentração nazista, em texto sobre relativismo cultural.
Prisioneiros em um campo de concentração nazista, em 1945. A Solução Final de Hitler foi justificada pelo etnocentrismo.

O etnocentrismo, por outro lado, é um preconceito resistente e difundido por todos os povos e tempos. Esse preconceito leva à formação de ideologias que justificam políticas imperialistas e discriminatórias. O etnocentrismo julga outras culturas e povos com base nos padrões da própria sociedade, resultando na rejeição e desvalorização do outro.

Exemplos históricos de etnocentrismo incluem a Solução Final de Hitler e a limpeza étnica nos Bálcãs. O etnocentrismo pode se manifestar de várias formas, desde a rejeição física até a assimilação cultural forçada, como a conversão dos judeus ao cristianismo no mundo ibérico.

O positivismo defende um caminho linear de progresso humano, com a cultura branca, cristã e ocidental como ápice, o que é rejeitado pelo relativismo cultural.

Críticas ao relativismo cultural

Embora o relativismo cultural seja amplamente aceito na antropologia, ele não está isento de críticas. Alguns críticos argumentam que ele pode levar ao relativismo moral, em que todas as práticas culturais são vistas como igualmente válidas, mesmo aquelas que podem ser prejudiciais ou opressivas.

Outros apontam que o relativismo cultural pode ser usado para justificar abusos de Direitos Humanos sob o pretexto de respeitar-se a diversidade cultural. Um dos principais debates é se os Direitos Humanos podem ser considerados universais ou se devem ser adaptados às especificidades culturais de cada sociedade.

Alguns argumentam que certos direitos fundamentais devem ser garantidos a todos os seres humanos, independentemente de sua cultura, enquanto outros defendem que a imposição de valores universais pode ser uma forma de imperialismo cultural.

Créditos das imagens

[1] SergeBertasiusPhotography/ Shutterstock

[2] Alp Galip/ Shutterstock

[3] kursat-bayhan/ Shutterstock

Fontes

BOAS, F. Antropologia cultural. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.

LÉVI-STRAUSS, C. Raça e história. Perspectiva: São Paulo, 2005.

Escritor do artigo
Escrito por: Rafael Pereira da Silva Mendes Licenciado e bacharel em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Atuo como professor de Sociologia, Filosofia e História e redator de textos.

Gostaria de fazer a referência deste texto em um trabalho escolar ou acadêmico? Veja:

MENDES, Rafael Pereira da Silva. "Relativismo cultural"; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/sociologia/relativismo-cultural.htm. Acesso em 20 de julho de 2024.

De estudante para estudante


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