O que é preconceito?

O que é?

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Preconceito é o ato de julgar algo ou alguém antes de conhecer o objeto de juízo. Podemos aplicar o termo preconceito às mais diversas situações cotidianas, como o preconceito formulado por aquele tipo de comida que você não experimentou e julga pela aparência. No entanto, o objeto deste texto é o preconceito nas relações humanas.

Esse preconceito acontece das mais variadas formas e pelos mais variados motivos: pode ter origem na cor da pele, na religião, no país ou cidade de origem, na aparência física, no gênero, na sexualidade etc. Qualquer forma de preconceito nas relações humanas é prejudicial para o desenvolvimento de uma sociedade justa, democrática e igualitária.

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Significado de preconceito

A palavra preconceito une o prefixo “pré”, que significa anterior, ao sufixo “conceito”, que remete a significado ou juízo. Preconceito é um substantivo abstrato que designa o ato de julgar, ou seja, de emitir-se um juízo ou uma sentença sobre algo antes de conhecer-se o que se é julgado. Ver um prato e considerá-lo ruim por sua aparência ou por uma experiência prévia com os seus ingredientes isoladamente é uma forma de preconceito. Olhar para uma pessoa e julgá-la (positivamente ou negativamente) antes de conhecê-la é um tipo de preconceito. Julgar alguém pela cor de sua pele, por seu gênero, sexualidade, classe social, origem geográfica, aparência física, religião, comorbidades e deficiências, ou qualquer outro traço, também são formas de preconceito prejudiciais para a sociedade.

Vidas negras importam! O cartaz chama a atenção para a importância de lutar-se contra o racismo.
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Preconceito e discriminação

Apesar de socialmente ligados, os termos preconceito e discriminação têm significados diferentes. Enquanto o preconceito é o pré-julgamento, a discriminação é o ato de diferenciar, de dar tratamento diferente. A discriminação é a ausência de igualdade ou a manifestação das preferências, causando cisões sociais entre os indivíduos.

Nesse sentido, a discriminação pode ser uma manifestação do preconceito. Entenda que nem sempre o preconceito é visivelmente discriminatório. Às vezes, as ações discriminatórias aparecem nas entrelinhas, com pouca visibilidade. Esse é o caso do racismo estrutural, que não é uma forma de racismo escancarada, mas causa pequenas ações discriminatórias contra pessoas negras no cotidiano, e muitas vezes esse racismo é propagado inconscientemente por quem o pratica.

Separar, julgar e qualificar são ações comuns em nosso cotidiano, porém elas precisam ser delineadas com cuidado ao tratar-se das relações sociais, para que não resultem em ações preconceituosas. É normal que separemos as pessoas que queremos mais próximas de nós por afinidade e afeto. No entanto, essa separação deve acontecer após o conhecimento da pessoa, e não por um motivo preconceituoso. No fim, a discriminação por preconceito é o golpe final que machuca as vítimas que sofrem de racismo, lgbtfobia, misoginia e outras mazelas sociais.

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Preconceito no Brasil

Segundo a agência de notícias Observatório do Terceiro Setor, uma pesquisa|1| revelou o preconceito brasileiro em quatro principais eixos, considerados maiores entre o povo brasileiro: preconceito racial, lgbtfobia, sexismo e preconceitos pela aparência (principalmente a gordofobia). Eles aparecem na pesquisa como muitas vezes enraizados e não evidentes.

Os tipos de preconceito que mais se evidenciam são a lgbtfobia, em que 29% dos brasileiros da amostragem declaram-se preconceituosos, seguida pelo preconceito religioso (20% dos pesquisados assumem essa forma de pensamento), e o machismo, com que 7% dos consultados identificam-se. Vale lembrar que o preconceito religioso está, muitas vezes, relacionado ao racismo, considerando-se que a maior parte dos ataques preconceituosos acontece contra praticantes de religiões de matriz africana.

Entre os que não se assumem preconceituosos, foi constatado que frases preconceituosas continuam sendo proferidas por essas pessoas, o que constata o preconceito. 83% dos entrevistados não se consideram preconceituosos, mas 73% admitiram ter proferido algum comentário ou frase preconceituosa ou agressiva. A listagem aponta que o preconceito mais frequente entre os brasileiros é o machismo, com 61% dos entrevistados concordando com frases machistas. Seguindo, aparece o racismo, com 46%, a lgbtfobia, com 44%, e a gordofobia, com 30%.

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Exemplos de preconceito

O preconceito pode acontecer das mais variadas formas. Algumas delas aparecem em nossa sociedade com maior frequência, por isso foram listadas:

• Racismo: consiste no preconceito contra índios e negros (no caso dos países americanos, devemos incluir as populações indígenas na conta, pois a cor de sua pele é motivo de preconceito racial em lugares onde prevalecem socialmente os privilégios dos brancos). A herança da escravidão e da exploração de territórios habitados originalmente por suas populações nativas gerou esse tipo de preconceito, que perdura desde a colonização.

• Machismo, sexismo ou misoginia: consiste no preconceito causado pela instauração e manutenção do poder patriarcal na sociedade. É a discriminação da mulher de várias formas, desde as mais estruturais, como a diferença de remuneração e a maior credibilização dos homens, até as mais evidentes, como o assédio, o estupro, o feminicídio e a violência doméstica.

A luta feminista busca a equidade de gênero.
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• Intolerância religiosa: consiste no preconceito motivado pela religião. Crenças religiosas tradicionais e dogmáticas tendem a defender o ponto de vista de suas leis e códigos como universais. Quando pessoas e instituições passam a atacar membros de outras religiões, isso se torna uma forma de preconceito. No Brasil, a intolerância religiosa está fortemente ligada ao racismo por atacar, principalmente, pessoas que professam a fé em religiões de matriz africana. No mundo, a intolerância religiosa está fortemente ligada ao antissemitismo, praticado contra povos que professam a fé no judaísmo e no islamismo.

• Xenofobia: o preconceito contra estrangeiros também é uma forma recorrente de discriminação. O sentimento nacionalista exagerado e as crises sociais tendem a intensificá-lo.

• Preconceitos estéticos, como a gordofobia: a sociedade cria padrões estéticos, muitos impossíveis de serem atingidos pela maior parte das pessoas. A criação de padrões estéticos e ideais de beleza acompanha a humanidade desde os tempos mais remotos. No entanto, há um movimento de intensificação dessa ação que faz parte de um jogo de dominação do sistema capitalista, que, ao impor padrões de maneira cada vez mais incisiva, cria também uma indústria de serviços de suporte ao alcance do chamado corpo perfeito. Quem mais sofre com isso são as pessoas consideradas gordas. A gordofobia afeta psicologicamente a vítima, causando estresse, ansiedade e abaixando a sua autoestima, além de incentivar o aparecimento de comportamentos compulsivos e distúrbios alimentares, como a bulimia e a anorexia.

• Lgbtfobia: neologismo criado para incluir o preconceito sexual a categorias marginalizadas em nossa sociedade, lésbicas, gays, bissexuais, transsexuais e travestis, a lgbtfobia é a manifestação de preconceito e discriminação contra essa população. Embasadas em uma moral tradicional e religiosa, muitas pessoas não aceitam o fato de que o comportamento heteronormativo não é o único possível e existente, e não aceitam o fato de que pessoas LGBTQ têm seu direito de existir e de manifestar sua sexualidade tanto quanto pessoas heterossexuais e cisgênero (que se identificam com o gênero alinhado ao seu corpo biológico, seriam o oposto de transgênero).

• Preconceito contra idosos: a população idosa também tem se tornado alvo de preconceito. Eles sofrem tanto com a crença incapacitante dos outros (que acreditam que idosos não têm capacidade de exercer tarefas normais do cotidiano, como dirigir ou trabalhar) quanto com a exclusão no mercado de trabalho quando ainda não estão aposentados.

• Preconceito contra portadores de necessidades especiais: tanto deficientes físicos quanto deficientes cognitivos, além de pessoas que possuem transtornos como o autismo moderado ou severo, sofrem diariamente com o preconceito. A discriminação contra essas pessoas pode ocorrer como ocorre com os idosos, com a crença incapacitante dos outros e com um sentimento de piedade, como também pode ocorrer por meio do isolamento, do medo e da desinformação das pessoas que evitam aproximar-se de deficientes.

• Preconceito por origem social: essa forma, tão enraizada no Brasil, é manifestada pelas elites financeiras contra as populações desfavorecidas. Esse tipo de preconceito nutre um falso sentimento de superioridade dos ricos contra os pobres, que resulta na crença de que o pobre é inferior, é propenso à violência e tem a obrigação de ser subserviente. Programas humorísticos da TV brasileira conseguiram captar esse tipo de preconceito por meio de personagens como o político Justo Veríssimo, eternizado pelo humorista Chico Anysio, que soltava o bordão “eu quero que pobre se exploda”, e o metido a rico Caco Antibes, interpretado por Miguel Falabela no humorístico Sai de baixo, que dizia ter “horror a pobre”.

Notas

|1| Confira os dados clicando aqui.


Por Francisco Porfírio
Professor de Sociologia

Gostaria de fazer a referência deste texto em um trabalho escolar ou acadêmico? Veja:

PORFíRIO, Francisco. "O que é preconceito?"; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/o-que-e/o-que-e-sociologia/o-que-e-preconceito.htm. Acesso em 13 de agosto de 2020.

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