Francisca Júlia

Literatura

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Francisca Júlia, escritora parnasiana, nasceu em 31 de agosto de 1871. Escreveu para jornais como o Correio Paulistano, além de outros periódicos. Seu primeiro livro — Mármores —, publicado em 1895, teve boa recepção da crítica, mas também sofreu acusações de plágio ou imitação de poesias do cubano José María de Heredia, o que não impediu a consagração da autora, que, em 1904, tornou-se membro do Comitê Central Brasileiro da Societá Internazionale Elleno-Latina.

Apesar de apresentar traços simbolistas em algumas de suas poesias, Francisca Júlia é considerada uma poetisa do parnasianismo brasileiro. Portanto, seus poemas apresentam objetividade, descritivismo e rigor formal. A autora publicou também Livro da infância (1899) e Esfinges (1903). Mas o final de sua vida foi mais romântico do que parnasiano, pois, quando o marido faleceu, vítima de tuberculose, a escritora também morreu, em 1 de novembro de 1920, possivelmente devido a um suicídio.

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Biografia de Francisca Júlia

Francisca Júlia
Francisca Júlia

Francisca Júlia nasceu em 31 de agosto de 1871, na cidade de Eldorado Paulista. Seu pai era advogado, e sua mãe, professora. Quando tinha oito anos de idade, a poetisa e sua família mudaram-se para a cidade de São Paulo, para que a menina pudesse estudar. Porém, em 1891, quando publicou seu primeiro poema em O Estado de S. Paulo, recebeu a crítica negativa de Severiano de Rezende (1871-1931), que aconselhava a escritora a não escrever mais poesia e realizar outras ocupações, tais como os “trabalhos de agulha”.

De 1892 a 1895, Francisca Júlia escreveu para o Correio Paulistano, além de periódicos do Rio de Janeiro, onde seus versos geraram a dúvida se seu autor era realmente uma mulher ou um homem que usava pseudônimo feminino. Seu primeiro livro — Mármores — foi publicado em 1895. A recepção dessa obra foi bastante positiva em São Paulo e no Rio de Janeiro, e recebeu elogios inclusive de Olavo Bilac (1865-1918). Porém, houve aqueles que acusaram a autora de copiar ou imitar o poeta cubano José María de Heredia (1842-1905). Isso, no entanto, não impediu a consagração da poetisa em sua época. Tanto que, em 1898, fez parte do júri do Concurso de Poesia do Correio Paulistano.

Em 1899, Livro da infância foi publicado pelo governo de São Paulo e adotado em escolas da época. Em 1902, Francisca Júlia ajudou a fundar a revista Educação. Em 1904, tornou-se membro do Comitê Central Brasileiro da Societá Internazionale Elleno-Latina, de Roma. Em 1906, morando na cidade de Cabreúva, passou a ajudar a mãe em seu trabalho como professora, ou mesmo cuidando dos afazeres domésticos. Foi convidada a participar da Academia Paulista de Letras em 1907, mas a autora rejeitou o convite, por não acreditar em academias.

A poetisa começou a ter um envolvimento mais profundo com as questões metafísicas. Em 1908, realizou palestra intitulada A feitiçaria sob o ponto de vista científico, em Itu. Logo depois, ficou doente, devido à intoxicação por ácido úrico, que lhe provocava alucinações, levando Francisca Júlia a acreditar, no início, que estava se tornando médium. Em 1920, o marido da escritora morreu, vítima de tuberculose. No dia em que ele foi sepultado, 1 de novembro, morreu também Francisca Júlia, em um provável suicídio. No enterro da poetisa, estavam presentes Oswald de Andrade (1890-1954), Menotti del Picchia (1892-1988), Guilherme de Almeida (1890-1969) e Di Cavalcanti (1897-1976).

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Características literárias de Francisca Júlia

Apesar de apresentar traços simbolistas em algumas poesias, a obra de Francisca Júlia possui características do parnasianismo:

  • antirromantismo;
  • objetividade;
  • descritivismo;
  • rigor formal: metrificação e rimas;
  • alienação social: indiferença a questões sociais;
  • arte pela arte;
  • metalinguagem;
  • distanciamento do eu lírico;
  • referências greco-romanas.

Obras de Francisca Júlia

  • Mármores (1895)

  • Livro da infância (1899)

  • Esfinges (1903)

  • Alma infantil — em coautoria com Júlio César da Silva (1912)

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Poemas de Francisca Júlia

No poema “Dança de centauras”, do livro Esfinges, o eu lírico descreve as centauras e relata as suas ações. Na primeira estrofe, esses seres mitológicos são descritos. Na segunda, além do caráter descritivo, há também a indicação de suas ações, “em lutas e torneios”. Na terceira estrofe, a alegria e a liberdade são substituídas pela tensão da fuga. Na quarta estrofe, descobrimos que a ameaça se chama Hércules.

Dança de centauras

Patas dianteiras no ar, bocas livres dos freios,
Nuas, em grita, em ludo, entrecruzando as lanças,
Ei-las, garbosas vêm, na evolução das danças
Rudes, pompeando à luz a brancura dos seios.

A noite escuta, fulge o luar, gemem as franças;
Mil centauras a rir, em lutas e torneios,
Galopam livres, vão e vêm, os peitos cheios
De ar, o cabelo solto ao léu das auras mansas.

Empalidece o luar, a noite cai, madruga...
A dança hípica para e logo atroa o espaço
O galope infernal das centauras em fuga:

É que, longe, ao clarão do luar que empalidece,
Enorme, aceso o olhar, bravo, do heroico braço
Pendente a clava argiva, Hércules aparece…

Quanto aos aspectos de estilo, o soneto apresenta rigor formal (metrificação — doze ou treze sílabas poéticas — e rimas), descritivismo (descrição das centauras e de Hércules), distanciamento do eu lírico (que não se coloca no poema), além de referências greco-romanas (centauras e Hércules).

Já o soneto “A florista”, do livro Mármores, descreve uma florista e indica suas ações:

A florista

Suspensa ao braço a grávida corbelha,
Segue a passo, tranquila... O sol faísca...
Os seus carmíneos lábios de mourisca
Se abrem, sorrindo, numa flor vermelha.

Deita à sombra de uma árvore. Uma abelha
Zumbe em torno ao cabaz... Uma ave, arisca,
O pó do chão, pertinho dela, cisca,
Olhando-a, às vezes, trêmula, de esguelha...

Aos ouvidos lhe soa um rumor brando
De folhas... Pouco a pouco, um leve sono
Lhe vai as grandes pálpebras cerrando...

Cai-lhe de um pé o rústico tamanco...
E assim descalça, mostra, em abandono,
O vultinho de um pé macio e branco.

O poema apresenta rigor formal (metrificação — decassílabos — e rimas), descritivismo (descrição da florista e da ave) e distanciamento do eu lírico (que não se coloca no poema). Além disso, assim como no soneto anterior, é possível verificar a alienação social, isto é, o objetivo do texto é expressar a beleza, e não fazer críticas sociopolíticas.

Homenagem a Francisca Júlia

Escultura de Brecheret na capa do livro Musa impassível, de Márcia Camargos, publicado pela Imprensa Oficial de São Paulo. [1]
Escultura de Brecheret na capa do livro Musa impassível, de Márcia Camargos, publicado pela Imprensa Oficial de São Paulo. [1]

Em 1917, poetas de São Paulo decidiram homenagear Francisca Júlia com um busto de bronze oferecido à Academia Brasileira de Letras. Porém, a homenagem ficou só na intenção. No entanto, após a morte da escritora, o governo de São Paulo construiu um túmulo memorativo, no cemitério do Araçá, com uma estátua construída em homenagem à autora, obra de Victor Brecheret (1894-1955) — Musa impassível (1923). Mas, em 2006, a estátua foi retirada pela Pinacoteca do Estado de São Paulo para evitar a degradação e ser restaurada. Em 2007, uma réplica foi colocada em seu lugar, já que a original passou a fazer parte do acervo da Pinacoteca.

Crédito da imagem

[1] Imprensa Oficial do Estado de São Paulo (reprodução)  

 

Por Warley Souza
Professor de Literatura

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SOUZA, Warley. "Francisca Júlia"; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/literatura/francisca-julia.htm. Acesso em 27 de setembro de 2020.