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Iorubás

Os iorubás são um dos principais grupos étnicos da África. Atualmente milhões de iorubás vivem na África Ocidental. Esse povo contribuiu com a formação da cultura brasileira.

Mulheres iorubás com roupas tradicionais de sua cultura.
Mulheres iorubás com roupas tradicionais de sua cultura.[1]
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Os iorubás são um dos principais grupos étnicos da África, vivendo principalmente na África Ocidental, sobretudo na Nigéria. Inicialmente os iorubás eram agricultores e, no século VI, passaram a edificar cidades em toda a região sul do Rio Níger. Nessa época diversos orixás já eram cultuados pelos iorubás.

Ifé, a mais importante cidade iorubá, possuía grandes artesãos que produziam em metal, madeira e marfim. Desde a chegada dos primeiros europeus à região, no século XV, o artesanato iorubá passou a ser valorizado na Europa.

Durante sua história milenar os iorubás edificaram diversos reinos e impérios, o último deles, o Império de Oió, só foi desfeito no século XIX. No Brasil os iorubás tiveram forte influência na formação cultural, contribuindo na construção da nossa língua, culinária e religiosidade.

Leia também: Cultura africana — tradições, religião, diversidade étnica e outras curiosidades

Tópicos deste artigo

Resumo sobre iorubás

  • Os iorubás são um povo que habita, há milhares de anos, a região ao sul do Rio Níger.

  • A religião iorubá possui como divindades os orixás, que regem a vida terrena e cósmica.

  • Candomblé e umbanda são duas religiões brasileiras que cultuam os orixás.

  • A cultura iorubá tem forte influência na cultura brasileira, sobretudo na culinária e religiosidade.

  • As primeiras cidades iorubás foram edificadas há 1.500 anos.

  • Os iorubás são conhecidos como grandes ferreiros. Também se destacam na produção de esculturas de madeira e marfim.

  • A agricultura é praticada pelos iorubás há mais de 2 mil anos. Os principais alimentos cultivados eram o inhame, dendê e quiabo.

  • Atualmente a maior parte dos iorubás vive na Nigéria. Eles são o segundo maior grupo étnico do país, atrás dos hauçás.

Quem são os iorubás?

Os iorubás são um grupo étnico africano que atualmente ocupa os territórios da atual Nigéria, Gana, Benin e Togo. Cerca de 40 milhões de pessoas na África possuem como língua materna a língua iorubá|1|.

Há cerca de 2 mil anos os iorubás viviam em aldeias, geralmente governadas por um monarca que contava com o auxílio de um conselho. Essas aldeias praticavam a agricultura, cujo principal alimento era o inhame. Também criavam gado e produziam vinho de palma, extraído do dendezeiro e de outras palmeiras.

Por volta de 1.500 anos atrás os iorubás edificaram suas primeiras cidades. Com o passar dos séculos essas cidades formaram reinos e impérios iorubanos, como o Reino de Ifé, Reino de Benin e Império de Oió.

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A primeira grande cidade iorubá foi Ifé, construída ainda no século VI. Os achados arqueológicos mostram que a região próxima da cidade possuía diversas minas de ferro e que a cidade era uma espécie de entreposto entre o comércio da costa africana e do interior, por onde passavam produtos como dendê, ferro, peixes secos e noz de cola.

Veja também: Por que a diversidade cultural no Brasil é tão notável?

Principais características dos iorubás

Língua iorubá

A língua Iorubá é uma das línguas do tronco linguístico nigero-congolês. Vale lembrar que um tronco linguístico possui diversas línguas. O tronco latino, do qual a língua portuguesa faz parte, por exemplo, conta ainda com línguas como o espanhol, francês, italiano e romeno.

Durante a diáspora africana muitos iorubás foram escravizados e levados para a América, principalmente para a região do Caribe e do Nordeste do Brasil. No nosso país, algumas palavras iorubás foram integradas à língua portuguesa falada por aqui, como acarajé, gogó, fubá e jabá.

Em muitos terreiros do Brasil, locais sagrados do candomblé e da umbanda, a língua iorubá é utilizada nas canções e em saudações aos orixás. Em alguns terreiros todos os rituais são realizados em iorubá. Em 2018, a Bahia declarou a língua iorubá como patrimônio imaterial devido à sua importância para a cultura do estado.

Religião iorubá

A religião iorubá é a religião dos orixás, como são chamadas as divindades dessa religião. Existem diversos orixás, entre eles estão Olodumarê, Iemanjá, Xangô, Oxóssi, Ogum, Iansã e Oxum.

Estátuas de orixás, divindades dos iorubás, em um lago na Bahia.
Estátuas de orixás no Dique do Tororó, em Salvador. Os orixás são divindades da religião iorubá.[2]

Cada orixá possui características diferentes e atua em aspectos diferentes da vida humana.

  • Olodumarê é o orixá da criação, criador de todo o universo e de tudo o que existe nele, inclusive os outros orixás. Ele não é cultuado diretamente, mas indiretamente, através do culto aos outros orixás.

  • Iemanjá é a orixá das águas salgadas, e seu nome “Yêyé omo ejá”, algo como “mãe dos peixes”, mostra sua relação com o mar. No Brasil ela é considerada a protetora dos navegantes e é associada à Nossa Senhora dos Navegantes.

  • Xangô é o orixá dos raios e trovões, também responsável pela justiça. É considerado um orixá bondoso e justo, mas que pune aqueles que não obedecem às leis. Muitos historiadores defendem que Xangô realmente existiu, sendo um dos primeiros alafins do Império de Oió. Após sua morte ele passou a ser cultuado pelos iorubás.

  • Oxóssi é o orixá da caça, da estratégia e das florestas. Ele geralmente é representado com um arco e flecha e a ele são associadas as cores verde e azul.

  • Ogum é o orixá da guerra e da metalurgia. São atributos de Ogum a força, a inteligência estratégica, a coragem, o esforço e a perseverança. Na religião iorubá ele é o orixá que ensinou aos humanos a metalurgia.

  • Iansã é uma orixá guerreira, que auxiliou Ogum na metalurgia e na guerra, se tornando sua esposa. Ela é considerada a orixá dos ventos, das tempestades e da guerra. Ela tem como objeto um eruexim, um instrumento que consiste em um cabo, de madeira ou chifre, com pelos de rabo de cavalo na ponta. Com o eruexim ela forma os ventos, afasta os maus espíritos e abre o caminho para que os humanos entrem em contato com seus ancestrais e orixás.

  • Oxum é a orixá das águas doces, como cachoeiras, lagos e rios. Também se relaciona com o ouro, metal geralmente encontrado em suas águas.

Cultura iorubá

A cultura iorubá começou a se formar há milhares de anos, sendo muito rica e diversa.

  • Metalurgia

Os iorubás são conhecidos pela sua refinada metalurgia, que passou a ser praticada por volta do século VI a.C. No início a metalurgia iorubá produzia armas, como ponta de flechas e lanças, e ferramentas para a agricultura e uso cotidiano, como foices, facas e uma espécie de enxada.

O local onde o ferro, o bronze e o latão eram forjados ou fundidos era considerado sagrado para os iorubás. Esses espaços eram associados a Ogum, orixá que ensinou aos iorubás como trabalhar com os metais.

Os conhecimentos necessários para forjar e fundir o ferro eram transmitidos de pai para filho, e os ferreiros desfrutavam de grande prestígio social na sociedade iorubá. A metalurgia produzia estatuetas, painéis, joias e objetos utilizados em rituais.

A imagem abaixo exemplifica a arte iorubá em metais. O Edan, feito de bronze ou latão, é um elemento muito presente na metalurgia iorubá. Um edan é composto de duas estátuas, masculina e feminina. Elas são geralmente ligadas por correntes que, na imagem, estão ausentes.

Duas estátuas da cultura iorubá.
Edan, arte iorubá em metal, composto de duas estátuas, masculina e feminina.[3]

A partir do século XV a arte iorubá em metalurgia passou a ser muito valorizada na Europa. Além de metais os iorubás eram exímios escultores em marfim e madeira. No século XIX, após a conquista inglesa, milhares de objetos da metalurgia iorubá foram levados para a Europa, parte deles teve como destino coleções privadas e outros museus.

  • Culinária

Na culinária iorubá, os principais ingredientes são o inhame, feijões, dendê e o quiabo. Os iorubás desenvolveram diversas técnicas para o preparo de alimentos, como a fritura em óleo, o cozimento na fogueira, em chapas de ferro ou pedra, cozimento no vapor, entre outras. Um dos principais pratos consumidos pelos iorubás na atualidade é o iyán, uma espécie de bolinho feito com a mistura de uma farinha de inhame com água. O iyán é consumido com diversos molhos, antepastos ou ensopados.

O akará é um bolinho feito com massa de feijão e frito no azeite de dendê, sendo um alimento muito comum nas ruas da Nigéria. No Brasil o akará se transformou no acarajé, uma espécie de akará recheado com vatapá, caruru, vinagrete e camarão.

Bolinhos de akará, típicos da culinária iorubá.
O akará é o ancestral do acarajé, prato típico brasileiro.

O dendezeiro é muito importante para a culinária iorubá, com ele é produzido o azeite de dendê, no qual o acarajé é frito. Ainda com o dendezeiro os iorubás produzem o vinho de palma, bebida típica em diversas regiões da África. O vinho de palma extraído do caule do dendezeiro não possui álcool e é consumido pelas crianças. Depois de fermentado o vinho de palma passa a ser uma bebida alcoólica.

No Brasil o azeite de dendê é ingrediente fundamental em diversas receitas típicas, como a moqueca capixaba, o acarajé e o bobó de camarão.

Lendas iorubás

O mito da criação iorubá narra que Olodumaré, também chamado de Olorum, ordenou que Oxalá construísse a Terra. Durante quatro dias Oxalá jogou terra sobre os pântanos e águas que existiam, criando o Aiyê, o mundo dos humanos. Olorum enviou para essas terras o dendezeiro e criou o Sol e a chuva para que ele crescesse. Com o Sol e as chuvas surgiram as florestas, savanas e os vales. Oxalá utilizou barro para modelar um homem e uma mulher e soprou neles o emi, o sopro da vida.

Na tradição iorubá o local onde o mundo foi criado por Oxalá é a cidade de Ifé, a principal cidade dos iorubás, fundada por volta do ano 500. Oxalá designou 12 governantes para diferentes regiões do mundo, e um deles passou a governar Ifé.

Omolú é o orixá das doenças e da cura, associado ao magma e à lava dos vulcões. Conta a lenda que ele nasceu coberto de feridas e que por isso foi abandonado pela sua mãe em uma praia, onde suas feridas foram mordidas por um caranguejo. Iemanjá, vendo a criança sofrer, a acolheu, curou suas feridas e a transformou em um grande guerreiro, conhecedor de todas as curas.

Assim, Omolú passou a se vestir com um chapéu de palha que cobre todo o seu corpo. Em uma das versões da lenda ele faz isso para cobrir suas cicatrizes, em outra ele cobre o corpo por causa do seu brilho intenso.

Qual a diferença entre nagô e iorubá?

Muitos iorubás chegaram ao Brasil na época da escravidão, muitos deles no período final da escravidão, após a queda do Império de Oió. No nosso país os escravos iorubás eram conhecidos popularmente como nagôs, forma pela qual os membros da etnia fon chamavam os iorubás.

Saiba mais: Principais diferenças entre o candomblé e a umbanda

Iorubás na umbanda e no candomblé

O culto aos orixás chegou ao Brasil junto com os iorubás, na época da escravidão no Brasil Colônia e Império, e esse culto deu origem às duas principais religiões de matriz africana em nosso país, o candomblé e a umbanda. O candomblé é mais próximo do culto original iorubá e se originou provavelmente na região do Recôncavo Baiano, se espalhando para todo o Brasil.

No candomblé são feitas oferendas aos orixás, na maioria das vezes são ofertados alimentos e bebidas. As cerimônias ocorrem no terreiro, local de morada dos orixás. No candomblé as chamadas incorporações não são muito comuns e todos os rituais são acompanhados pela música.

Devotos do candomblé fazendo oferendas na praia, em texto sobre iorubás.
Os devotos do candomblé fazem oferendas aos orixás.[4]

A umbanda nasceu no Brasil em 1908, quando Zélio Fernandino de Moraes fundou essa religião. A palavra umbanda é de origem kimbundo e significa algo como “curandeirismo” ou “cura”. A umbanda mescla tradições iorubás, indígenas, católicas e kardecistas.

Zé Fernandino era jovem quando começou a falar com a voz de um idoso, o que preocupou seus familiares. Eles levaram o menino ao médico e, sem respostas, levaram-no para um centro espírita, onde a família foi informada de que ele incorporava um espírito chamado Caboclo das Sete Encruzilhadas. O espírito passou a instruir Zé Fernandino sobre como ele deveria criar a religião.

Assim como no catolicismo e no kardecismo, a caridade é de suma importância para os praticantes da umbanda. Nos rituais de umbanda é comum a incorporação dos orixás. Nessas incorporações o praticante pode ser curado, aconselhado ou ter sua vida diretamente modificada pelo orixá. Tabaco e bebidas alcoólicas são geralmente consumidos nos rituais da umbanda.

Ao contrário das religiões abraâmicas (islamismo, cristianismo e judaísmo), as religiões de matriz africana não possuem uma escritura sagrada, e a tradição oral é fundamental na transmissão de conhecimentos pelas gerações.

História dos iorubás

Os iorubás são descendentes de povos que se assentaram na região sul do Rio Níger. Por volta do ano 1000 a.C. os iorubás já cultuavam alguns dos orixás, como Iemanjá e Olodumaré, chamado também de Olorum.

Por volta do século VI, os iorubás fundaram a cidade de Ifé. Nas tradições orais, Ifé é o berço da civilização iorubá e teria sido criada pelos próprios orixás. Além de Ifé, diversas outras cidades foram edificadas pelos iorubás no primeiro milênio da nossa era, como Illa, Ondo e Owo.

A partir do século XIV, os iorubás edificaram a cidade de Oió. O terceiro governante de Oio, que recebia o título de alafim de Oió, foi Xangô. Após sua morte, Xangô foi deificado e se transformou em um orixá associado ao trovão e o relâmpago.

No século XVII a cidade de Oió iniciou um processo de conquistas militares, formando um império na região da atual Nigéria. O Império de Oió contava com um forte exército, uma poderosa cavalaria e armas de fogo que foram comercializadas com os europeus. O Império de Oió entrou em guerra com o Império de Benin, não conseguindo a vitória sobre este. Depois atacaram o Reino de Daomé, que acabou sendo conquistado pelas tropas de Oió.

O império de Oió era um importante entreposto localizado entre o litoral atlântico africano, o Sahel e as florestas equatoriais. De Oió partia o sal, artesanato em metal ou madeira, o ouro, noz de cola, marfim e escravos que eram transportados para diversas regiões da África. Pelas mesmas rotas chegavam até o Império Oió armas, cavalos, tecidos, louças, noz de cola, marfim e ouro.

O alafim de Oió era um monarca e governava em conjunto com um conselho, composto por chefes militares e líderes religiosos. No século XIX o Império Oió entrou em colapso após guerras civis motivadas por questões sucessórias e ataques de povos vizinhos, como do Reino de Daomé.

Nota

|1| MUSEU DE ANTROPOLOGIA PHOEBE A. HEARTS. Yoruba: Art and Culture. University of California, Berkeley, 2004. Disponível em: https://hearstmuseum.berkeley.edu/wp-content/uploads/TeachingKit_YorubaArtAndCulture.pdf

Créditos das imagens

[1] Ayo Emmanuel/ Shutterstock

[2] Bernard Barroso/ Shutterstock

[3] Wikimedia Commons

[4] Joa Souza/ Shutterstock

Fontes

POLI, Ivan. Antropologia dos orixás: a civilização iorubá a partir de seus mitos, seus orikis e sua diáspora. Editora Pallas, Rio de Janeiro, 2019.

VERGER, Pierre Fatumbi. Orixás. Editora Corrupio, Salvador, 2005.

Escritor do artigo
Escrito por: Jair Messias Ferreira Junior Pós-graduado em História pela Unicamp e professor da Educação Básica há mais de 20 anos. Também é formador de professores e produtor de materiais didáticos há mais de 10 anos.

Gostaria de fazer a referência deste texto em um trabalho escolar ou acadêmico? Veja:

JUNIOR, Jair Messias Ferreira. "Iorubás"; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/geografia/iorubas.htm. Acesso em 30 de maio de 2024.

De estudante para estudante


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