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Poesia Marginal

Literatura

A Poesia Marginal, também chamada de Geração Mimeógrafo, eclodiu nos anos setenta, deixando um interessante legado para muitos poetas e escritores.
Paulo Leminski, Sérgio Sampaio, Torquato Neto, Tom Zé, Waly Salomão e Chacal: representantes da “cultura marginal” *
Paulo Leminski, Sérgio Sampaio, Torquato Neto, Tom Zé, Waly Salomão e Chacal: representantes da “cultura marginal” *
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Trabalho de Hélio Oiticica que define em poucas palavras o movimento conhecido como poesia marginal
Trabalho de Hélio Oiticica que define em poucas palavras o movimento conhecido como poesia marginal

A frase de Hélio Oiticica — artista performático, pintor e escultor —, define bem o período cultural conhecido como Movimento Marginal, que influenciaria a produção cultural no Brasil nos anos setenta. A Geração Mimeógrafo, ou Poesia Marginal, contou com importantes nomes que divulgaram a nova concepção artística na literatura brasileira (inovação encontrada também no Concretismo), fruto das primeiras rupturas literárias apresentadas pelos escritores modernistas da segunda década do século XX.

A poesia de mimeógrafo ficou conhecida por esse nome porque muitos poetas recorriam ao mimeógrafo (máquina para realizar cópias, com um original escrito ou desenhado em relevo) para reproduzirem seus textos e livros. O método quase artesanal era um processo alternativo de criação, produção e distribuição do poema, que substituía os meios tradicionais de circulação das obras, como editoras e livrarias. Vendidos de mão em mão, os livros eram comercializados a baixo custo para um público restrito que frequentava eventos relacionados com a cultura marginal, assim conhecida por estar fora dos cânones literários e à margem da crítica literária.

Na literatura e na poesia, a marginália foi representada por nomes como Paulo Leminski, José Agripino de Paula, Waly Salomão, Francisco Alvim, Torquato Neto e Chacal. No campo musical, já que a marginália foi um movimento que influenciou as diversas artes, os principais nomes desse período foram Sérgio Sampaio, Tom Zé, Jorge Mautner, Jards Macalé e Luiz Melodia, que posteriormente foram rotulados pela imprensa como “compositores malditos” da MPB, epíteto ingrato e nada simpático para aqueles que não encontravam espaço nas grandes gravadoras de discos da época.

O inconformismo com os moldes literários impostos pela academia e com a chamada “cultura oficial” brasileira, responsável por deixar à margem toda produção cultural que estava fora dos padrões, foi a força motriz para esse grupo de artistas criativos que subverteram a mesmice ao propor uma constante inovação poética. A Poesia Marginal não ganhou um capítulo só seu nos livros didáticos de Literatura Brasileira, mesmo porque nunca foi considerada um movimento literário, e sim um movimento de poesia, mas ainda assim deixou um legado para diversos poetas e escritores. Selecionamos três “poemas marginais” para você ler com os olhos e mergulhar em uma interessante experiência sensorial. Boa leitura!

Amor bastante

quando eu vi você 
tive uma ideia brilhante 
foi como se eu olhasse 
de dentro de um diamante 
e meu olho ganhasse 
mil faces num só instante

Não pare agora... Tem mais depois da publicidade ;)

basta um instante 
e você tem amor bastante

um bom poema 
leva anos 
cinco jogando bola, 
mais cinco estudando sânscrito, 
seis carregando pedra, 
nove namorando a vizinha, 
sete levando porrada, 
quatro andando sozinho, 
três mudando de cidade, 
dez trocando de assunto, 
uma eternidade, eu e você, 
caminhando junto

Paulo Leminski

Rápido e rasteiro

Vai ter uma festa

que eu vou dançar 

até o sapato pedir pra parar.

aí eu paro

tiro o sapato

e danço o resto da vida.

Chacal

SALA SUNYATA

Ó, tabula rasa.
Nada vezes nada, noves fora nada. 
Sol nulo dos dias vãos. Lua nula das noites vãs.

Eis que atingi o ponto Nadir. 
Se todas as coisas nos reduzem a
                                               ZERO
é daí do
                                               ZERO

                                               que temos que partir.
 

Waly Salomão

*A imagem que ilustra o artigo foi feita a partir de capas de discos e livros dos artistas citados.


Por Luana Castro
Graduada em Letras

Gostaria de fazer a referência deste texto em um trabalho escolar ou acadêmico? Veja:

PEREZ, Luana Castro Alves. "Poesia Marginal"; Brasil Escola. Disponível em <https://brasilescola.uol.com.br/literatura/poesia-marginal.htm>. Acesso em 19 de abril de 2019.

Lista de Exercícios
Questão 1

FDV (Faculdade de Direito de Vitória)

Acerca da poesia marginal dos anos 70, é INCORRETO afirmar que:

a) ela se desenvolveu em pleno regime militar, porém não ousou contestar quaisquer valores impostos pela ditadura.

b) nasceu do interesse de jovens escritores pela poesia justamente após o AI-5 que, dentre outros procedimentos, impôs uma censura severa aos textos escritos, falados ou cantados.

c) Ana Cristina César, Chacal, Antônio Carlos Brito, Paulo Leminski são alguns de seus representantes.

d) foi considerada "marginal", dentre outros motivos, pela forma como os textos eram distribuídos, ou seja, à margem da política editorial vigente.

e) alguns textos eram mimeografados, outros xerocopiados ou impressos em antigas tipografias suburbanas.

Questão 2

UFSC - 2013

As aparências revelam

Afirma uma Firma que o Brasil

confirma: “Vamos substituir o

Café pelo Aço”.

Vai ser duríssimo descondicionar

o paladar

Não há na violência

que a linguagem imita

algo da violência

propriamente dita?

CACASO. As aparências revelam. In: WEINTRAUB, Fabio (Org). Poesia marginal. São Paulo: Ática, 2004. p. 61. Para gostar de ler 39.

Com base na leitura do poema, assinale a(s) proposição (ões) correta (s) acerca da Poesia Marginal:

I. Entre as temáticas das quais se ocupou a poesia marginal da década de 1970, havia espaço para painéis sociais, para a memória afetiva e a pesquisa poética e para o registro literário da intimidade. Sem grandes exageros, a única regra era atender aos princípios da norma padrão da língua.

II. Os versos “Vai ser duríssimo descondicionar / o paladar” podem ser entendidos metaforicamente como uma referência a sacrifícios impostos à população, obrigada a acomodar-se a uma nova ordem econômica.

III. Nos poemas reunidos em Poesia marginal, os autores enfocam a denúncia e a crítica social de uma maneira sisuda, sem apelar para o humor, pois visam conferir credibilidade ao que é dito.

IV. A frase “Vamos substituir o Café pelo Aço” pode ser interpretada como uma referência à abertura do país para a exportação de minérios, defendida por empresários e pelo Governo à época da Ditadura Militar.

V. No primeiro e segundo versos, no jogo de palavras “Afirma”, “Firma” e “confirma”, repete-se o segmento firma; isso pode ser interpretado como uma referência à influência das grandes empresas nas políticas estatais.

VI. Na estrofe final, observa-se como Cacaso procura desvincular a linguagem das práticas sociais, ao propor que não há violência nas palavras em si, mas apenas na realidade a que elas se referem.

a) II, IV e V.

b) I, III e V.

c) II, V e VI.

d) I, II e IV.

e) Apenas VI.

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