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O guarani

O guarani é uma das obras mais famosas de José de Alencar, fazendo parte do Romantismo. Ela é marcada pela subjetividade, além de apresentar caráter nacionalista e indianista.

Ilustração de um grupo de indígenas na capa do livro O guarani, de José de Alencar.
Capa do livro O guarani, de José de Alencar, publicado pela L&PM Editores. [1]
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O guarani é uma obra do escritor cearense José de Alencar. De forma idealizada, esse romance conta a história de amor entre Ceci (filha de um colonizador) e Peri (indígena brasileiro). Com esse relacionamento inter-racial, o narrador cria a ideia de que o povo brasileiro é fruto do amor e da harmonia entre portugueses e indígenas.

Essa narrativa é uma das principais obras do romantismo brasileiro, estilo de época marcado pela idealização e pelo nacionalismo. Seu autor, José de Alencar, nasceu em Fortaleza, mas era bastante conhecido no Rio de Janeiro, onde morou. Além de escritor, Alencar também foi advogado e deputado.

Leia também: Iracema — resumo e análise de outro importante romance de José de Alencar

Tópicos deste artigo

Resumo sobre O guarani

  • O escritor brasileiro José de Alencar nasceu em 1829 e faleceu em 1877.

  • O livro O guarani conta a história de amor entre Ceci e o indígena Peri.

  • Esse romance indianista faz parte do Romantismo brasileiro.

  • Ele apresenta idealização amorosa e elementos de caráter nacionalista.

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Análise da obra O guarani

Personagens da obra O guarani

  • D. Antônio de Mariz: pai de Ceci.

  • D. Lauriana: esposa de D. Antônio.

  • D. Diogo de Mariz: filho de D. Antônio.

  • Cecília ou Ceci: protagonista.

  • D. Isabel: sobrinha de D. Antônio.

  • Álvaro de Sá: bandeirante e pretendente de Ceci.

  • Loredano: bandeirante e vilão da história.

  • Outros bandeirantes:

    Bento Simões;

    Martim Vaz;

    Rui Soeiro;

    Vasco Afonso;

    Aires Gomes.

Tempo da obra O guarani

A ação da narrativa se passa em 1603 e 1604, início do século XVII, portanto. No mais, a obra conta com um tempo cronológico, de forma a mostrar uma sequência cronológica de fatos.

Espaço da obra O guarani

A ação se passa no Rio de Janeiro, quando a cidade “tinha-se fundado havia menos de meio século, e a civilização não tivera tempo de penetrar o interior”. Nesse espaço, “via-se à margem direita do rio uma casa larga e espaçosa, construída sobre uma eminência, e protegida de todos os lados por uma muralha de rocha cortada a pique”.

Essa casa era de propriedade de D. Antônio de Mariz, “fidalgo português de cota d’armas e um dos fundadores da cidade do Rio de Janeiro”. Ele é pai da protagonista da narrativa, a idealizada Cecília ou Ceci. Assim, esse é o espaço principal da história de amor entre a fidalga Ceci e o índigena Peri.

Narrador da obra O guarani

A obra conta com um narrador em terceira pessoa, onisciente. Portanto, ele sabe de todos os detalhes acerca da vida dos personagens, inclusive seus anseios e pensamentos mais íntimos.

Enredo da obra O guarani

 Indígena manuseando um arco e flecha em pitura de Jean-Baptiste Debret.
Peri é um habilidoso guerreiro, filho da floresta. Ele representa o herói nacional. [2]

O romance O guarani, publicado, pela primeira vez, em 1857, começa com a descrição do rio Paquequer. À margem desse rio, está construída “uma casa larga e espaçosa”, protegida “de todos os lados por uma muralha de rocha cortada a pique”. É a casa de D. Antônio de Mariz, fidalgo português, um dos fundadores da cidade do Rio de Janeiro.

Ele é pai da heroína Ceci. E, alguns suspeitam, é também pai de sua sobrinha Isabel, talvez “fruto dos amores do velho fidalgo por uma índia que havia cativado em uma das suas explorações”. Outro personagem é o bandeirante Álvaro, o pretendente de Ceci. Ele faz parte da mesma caravana que Loredano, um vilão italiano.

A caminho da casa de D. Antônio, os cavaleiros presenciam uma cena peculiar. Um indígena que confronta “uma onça enorme; de garras apoiadas sobre um grosso ramo de árvore, e pés suspensos no galho superior, encolhia o corpo, preparando o salto gigantesco”.

Depois de ferir a onça com suas flechas, o indígena, ou seja, o herói Peri, luta com o animal:

Esta luta durou minutos; o índio, com os pés apoiados fortemente nas pernas da onça, e o corpo inclinado sobre a forquilha, mantinha assim imóvel a fera, que há pouco corria a mata não encontrando obstáculos à sua passagem.

Quando o animal, quase asfixiado pela estrangulação, já não fazia senão uma fraca resistência, o selvagem, segurando sempre a forquilha, meteu a mão debaixo da túnica e tirou uma corda de ticum que tinha enrolada à cintura em muitas voltas.

Nas pontas desta corda havia dois laços que ele abriu com os dentes e passou nas patas dianteiras ligando-as fortemente uma à outra; depois fez o mesmo às pernas, e acabou por amarrar as duas mandíbulas, de modo que a onça não pudesse abrir a boca.

Álvaro quer casar-se com Ceci, mas é Isabel quem está apaixonada por Álvaro. Já Peri tem por Ceci um amor servil, é capaz de tudo por ela. O amor do indígena pela fidalga Cecília se configura, assim, no processo de vassalagem amorosa, ou seja, um servo submisso à sua senhora:

Para ele essa menina, esse anjo louro, de olhos azuis, representava a divindade na terra; admirá-la, fazê-la sorrir, vê-la feliz, era o seu culto; culto santo e respeitoso em que o seu coração vertia os tesouros de sentimentos e poesia que transbordavam dessa natureza virgem.

Mas, para complicar tudo, Loredano deseja a heroína:

Loredano desejava; Álvaro amava; Peri adorava. O aventureiro daria a vida para gozar; o cavalheiro arrostaria a morte para merecer um olhar; o selvagem se mataria, se preciso fosse, só para fazer Cecília sorrir.

Peri é íntimo da família de D. Antônio, desde que, em certa ocasião, salvou Ceci. Assim, “o fidalgo com a sua lealdade e o cavalheirismo apreciava o caráter de Peri, e via nele embora selvagem, um homem de sentimentos nobres e de alma grande”. Porém, D. Lauriana, mãe de Ceci, não gostava desse convívio.

Peri ouve uma conversa entre Loredano, Bento Simões e Rui Soeiro. Assim, descobre que o italiano pretende assassinar D. Antônio e sua esposa, além de roubar a filha do casal para fazer dela sua amante. Já Isabel, ficaria sob o domínio de Bento e Rui. Tudo isso se passa em 1604.

Álvaro se indispõe com Loredano, e o italiano quase o mata, não fosse Peri salvar o rapaz. Álvaro, no entanto, em vez de matar o vilão, faz Loredano “jurar que amanhã deixarás a casa de D. Antônio de Mariz, e nunca mais porás o pé neste sertão; por tal preço tens a vida salva”. Obviamente, o desonesto Loredano faz a jura.

Peri adverte D. Antônio de que os aimorés vão atacar a casa do fidalgo, por vingança. Afinal, D. Diogo matou uma indígena dessa tribo, mas sem querer. Em seguida, Isabel confessa a Álvaro que o ama. Mas o rapaz diz que só pode ser dela “um irmão” e que “esse título sinto que o mereço pela estima e pela afeição que me inspirais”.

Loredano e seus comparsas planejam o ataque à casa do fidalgo. Peri adverte Álvaro, mas o rapaz acha que o indígena está exagerando. Afinal, Peri não lhe informa os nomes dos “homens contra os quais tinha de defender Cecília”. Já D. Antônio, preocupado com o ataque dos aimorés, manda o filho ir para São Sebastião.

Para afastar Loredano, que ainda não foi embora, Álvaro o encarrega de ser um dos acompanhantes de Diogo, o filho de D. Antônio. Acompanham o rapaz outros três homens, além do italiano. Quando se vão, Peri revela os nomes dos traidores a Álvaro, pois entende que Bento e Rui também precisam partir.

Mas Loredano engana Diogo e volta às escondidas para pôr seu plano em ação. E orienta seus comparsas a matar Ceci caso ele, Loredano, seja morto. Assim, ela não vai poder ser de mais ninguém. Loredano invade o quarto de Ceci, enquanto ela dorme. Mas Peri, que protege sua “senhora”, acerta uma flecha na mão que pretendia tocar a virgem.

O vilão foge, em busca dos comparsas, e descobre que Bento Simões foi morto por Peri. O vilão então aproveita para jogar os outros homens contra o indígena: “Loredano percebeu o que passava no espírito dos aventureiros”. Diante de uma possível revolta, D. Antônio de Mariz tenta impor sua autoridade. Um grupo, no entanto, ainda está disposto a atacar.

Mas os aimorés atacam primeiro. A casa fica cercada pelos guerreiros, e Loredano busca maneiras de capturar Ceci. Nesse ponto, o amor entre Ceci e Peri é um fato, e Álvaro agora está apaixonado por Isabel. Assim, o guarani Peri vence todo o seu orgulho e se ajoelha diante do cacique dos aimorés para suplicar pela vida de seus “senhores”.

O indígena se torna prisioneiro dos aimorés. Porém, uma jovem aimoré se apaixona pelo herói e o liberta. Depois, ele é capturado novamente. E quando Peri vai ser morto pelo cacique, Álvaro atira no indígena inimigo, que cai sem vida. Peri, então, propõe levar Cecília dali, mas D. Antônio permite apenas se o indígena se tornar cristão. Num ato simbólico, o fidalgo batiza o indígena e lhe dá a permissão.

Agora Peri tem a função de, novamente, salvar sua amada: “Chegando à beira do rio, o índio deitou sua senhora no fundo da canoa, como uma menina no seu berço, envolveu-a na manta de seda para abrigá-la do orvalho da noite, e tomando o remo, fez a canoa saltar como um peixe sobre as águas”. Enquanto isso, a casa é incendiada pelos aimorés, e todos morrem, inclusive o vilão.

Veja também: O exagero, a idealização e o pessimismo da literatura ultrarromântica

Características da obra O guarani

O livro O guarani possui quatro partes. A primeira parte tem 15 capítulos. A segunda e a terceira, 14 capítulos cada uma. E, por fim, a quarta possui 11 capítulos, incluído o epílogo. Esse clássico da literatura brasileira é uma das principais obras do nosso romantismo, um estilo de época marcado pela subjetividade e idealização.

O guarani é um romance indianista e, por isso, apresenta as seguintes características:

  • formação de uma identidade brasileira;

  • o indígena é tido como herói nacional;

  • reconstrução do passado histórico;

  • natureza como símbolo nacional;

  • enaltecimento dos valores burgueses;

  • idealização do amor e da mulher;

  • vassalagem amorosa.

Saiba mais: Romance histórico — narrativa que mistura ficção e fatos históricos

Contexto histórico da obra O guarani

O guarani se passa no período colonial brasileiro, em que atuaram os chamados “bandeirantes”. Como nos diz Guilherme Grandi (doutor em História Econômica), tais indivíduos foram um dos “agentes históricos por excelência desse movimento de desbravamento, ocupação, povoamento e fundação de arraiais, vilas e cidades”.

Segundo o mesmo autor:

Uma vez estabelecidos, os povoados formados às margens dos caminhos terrestres e das rotas fluviais serviam de base de abastecimento e de ponto de pouso, chegada, ou de partida de aventureiros e exploradores que buscavam metais, gentio para prear e gêneros da terra com algum valor comercial apreciável e que, portanto, pudessem ser inseridos no circuito mercantil colonial.|1|

O Brasil estava sob a regência do rei da Espanha, o qual também era rei de Portugal, em um período que ficou conhecido como União Ibérica, que durou de 1580 a 1640. Nessa ocasião, portanto, houve a unificação entre as Coroas portuguesa e espanhola. Em tal contexto, transcorre a ação do romance O guarani.

José de Alencar — o autor de O guarani

O escritor José de Alencar, autor da obra O guarani.
O escritor José de Alencar, autor da obra O guarani.

José de Alencar nasceu no dia 1º de maio de 1829, na cidade de Fortaleza, no estado do Ceará. Dez anos depois, o menino e a família se mudaram para o Rio de Janeiro. Já em 1843, o jovem escritor foi morar em São Paulo, onde cursou a faculdade de Direito. De volta ao Rio, em 1850, trabalhou como advogado.

Também foi redator-chefe do Diário do Rio de Janeiro. E seu primeiro romance foi publicado em 1856 — Cinco minutos. Assim, ao lado da carreira de escritor, também exerceu o cargo de deputado e ministro da Justiça. O autor morreu em 12 de dezembro de 1877, no Rio de Janeiro. Para saber mais sobre esse autor, clique aqui.

Videoaula sobre José de Alencar

Créditos das imagens

[1] L&PM Editores (reprodução)

[2] Wikimedia Commons

Nota

|1| GRANDI, Guilherme. Sistema e meios de transporte em São Paulo a partir da obra de Sérgio Buarque de Holanda. História, São Paulo, v. 39, 2020.

Fontes

ABAURRE, Maria Luiza M.; PONTARA, Marcela. Literatura brasileira: tempos, leitores e leituras. 3. ed. São Paulo: Editora Moderna, 2015.

ABL. José de Alencar: biografia. Disponível em: https://www.academia.org.br/academicos/jose-de-alencar/biografia.

ALENCAR, José de. O guarani. São Paulo: Paulus, 2002.

CARDOSO, Alírio. A conquista do Maranhão e as disputas atlânticas na geopolítica da União Ibérica (1596-1626). Revista Brasileira de História, São Paulo, v. 31, n. 61, p. 317-338, 2011.

GRANDI, Guilherme. Sistema e meios de transporte em São Paulo a partir da obra de Sérgio Buarque de Holanda. História, São Paulo, v. 39, 2020.

 

Por Warley Souza
Professor de Literatura

Escritor do artigo
Escrito por: Warley Souza Professor de Português e Literatura, com licenciatura e mestrado em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Gostaria de fazer a referência deste texto em um trabalho escolar ou acadêmico? Veja:

SOUZA, Warley. "O guarani"; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/literatura/o-guarani.htm. Acesso em 27 de maio de 2024.

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