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Naturalismo no Brasil

O naturalismo no Brasil é marcado pelo determinismo e pela zoomorfização. A primeira obra naturalista brasileira é O mulato, de Aluísio Azevedo, publicado em 1881.

Retrato de Aluísio Azevedo
Aluísio Azevedo é o principal autor do naturalismo no Brasil.
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O naturalismo no Brasil foi inaugurado em 1881, com a publicação da obra O mulato, de Aluísio Azevedo. A principal característica desse estilo de época é o determinismo, ou seja, o destino dos personagens é determinado pela raça, meio em que vivem e época em que estão inseridos.

Os personagens desse tipo de romance também sofrem zoomorfização, quando o narrador lhes atribui comportamentos animalescos. Essas duas características estão bastante evidentes em romances como O cortiço, de Aluísio Azevedo, e Bom-Crioulo, de Adolfo Caminha.

Leia também: Romantismo — movimento literário que marcou a ascensão da individualidade

Tópicos deste artigo

Resumo sobre o naturalismo no Brasil

  • O romance O mulato, de Aluísio Azevedo, inaugurou o naturalismo no Brasil em 1881.

  • A principal característica desse estilo de época é o determinismo.

  • Além de Aluísio Azevedo, são naturalistas escritores como Adolfo Caminha e Raul Pompeia.

  • O cortiço, de Aluísio Azevedo, é a principal obra naturalista brasileira.

Quais são as características do naturalismo no Brasil?

O mulato, livro de Aluísio Azevedo, foi publicado no ano de 1881. É, portanto, o primeiro romance naturalista brasileiro. No entanto, é O cortiço, do mesmo autor, que possui as principais características desse estilo de época, tais como:

  • Cientificismo: personagens e suas ações são construídos por meio de um olhar exageradamente científico.

  • Determinismo: o destino dos personagens é determinado por sua raça, meio em que vivem e tempo em que estão inseridos.

  • Biologismo: os aspectos biológicos dos personagens são mais importantes do que os psicológicos.

  • Predominância do instinto: o instinto dos personagens sobressai à razão, principalmente o instinto sexual.

  • Zoomorfização: características animalescas são associadas aos personagens, por meio de comparações ou descrição do comportamento deles.

  • Linguagem objetiva: o narrador busca retratar a realidade sem qualquer sentimentalismo.

  • Antirromantismo: oposição à idealização romântica, pois o texto naturalista pretende mostrar a realidade tal como ela é.

Por fim, devemos mencionar que as “teorias naturalistas” estão ultrapassadas, de forma que hoje algumas delas não passam de preconceitos. Podemos citar, como exemplo, a histeria feminina, a inferioridade racial e a “inversão sexual”. Dessa forma, mulheres, homossexuais e pessoas negras eram menosprezados em textos naturalistas.

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Principais autores do naturalismo no Brasil

Júlia Lopes de Almeida, escritora associada ao realismo e ao naturalismo.
Júlia Lopes de Almeida, escritora associada ao realismo e ao naturalismo.

Obras do naturalismo no Brasil

  • O mulato (1881), de Aluísio Azevedo.

  • O Ateneu (1888), de Raul Pompeia.

  • A carne (1888), de Júlio Ribeiro.

  • O cortiço (1890), de Aluísio Azevedo.

  • Bom-Crioulo (1895), de Adolfo Caminha.

  • A falência (1901), de Júlia Lopes de Almeida.

Leia também: Simbolismo — movimento literário do final do século XIX

Contexto histórico do naturalismo no Brasil

Quando o cientista britânico Charles Darwin (1809-1882) publicou o livro A origem das espécies, em 1859, o ser humano passou a ser visto como resultado de um processo natural de evolução, e não mais como uma criação divina. E, apesar das críticas dos conservadores, essa visão foi aceita por grande parte da comunidade científica.

No final do século XIX, portanto, o antropocentrismo predominou, ou seja, a valorização da razão. Assim, a perspectiva positivista não se ateve às terras europeias e logo chegou ao território brasileiro. Aqui, influenciou intelectuais, escritores e artistas, em um contexto político conturbado.

D. Pedro II (1825-1891) era o representante de uma monarquia enfraquecida, constantemente atacada pelo crescente movimento republicano. Imperava no Brasil o conservadorismo, representado por fazendeiros escravocratas, os quais resistiam aos abolicionistas, que almejavam o fim da escravatura, só alcançado em 1888.

Exercícios resolvidos sobre o naturalismo no Brasil

Questão 1

(Enem)

O Bom-Crioulo

Com efeito, Bom-Crioulo não era somente um homem robusto, uma dessas organizações privilegiadas que trazem no corpo a sobranceira resistência do bronze e que esmagam com o peso dos músculos. […] A chibata não lhe fazia mossa; tinha costas de ferro para resistir como um hércules ao pulso do guardião Agostinho. Já nem se lembrava do número das vezes que apanhara de chibata…

[…]

Entretanto, já iam cinquenta chibatadas! Ninguém lhe ouvira um gemido, nem percebera uma contorção, um gesto qualquer de dor. Viam-se unicamente naquele costão negro as marcas do junco, umas sobre as outras, entrecruzando-se como uma grande teia de aranha, roxas e latejantes, cortando a pele em todos os sentidos.

[…]

Marinheiros e oficiais, num silêncio concentrado, alongavam o olhar, cheios de interesse, a cada golpe.

— Cento e cinquenta!

Só então houve quem visse um ponto vermelho, uma gota rubra deslizar no espinhaço negro do marinheiro e logo este ponto vermelho se transformar numa fita de sangue.

CAMINHA, A. Bom-Crioulo. São Paulo: Martin Claret, 2006.

A prosa naturalista incorpora concepções geradas pelo cientificismo e pelo determinismo. No fragmento, a cena de tortura a Bom-Crioulo reproduz essas concepções, expressas pela

a) exaltação da resistência inata para legitimar a exploração de uma etnia.

b) defesa do estoicismo individual como forma de superação das adversidades.

c) concepção do ser humano como uma espécie predadora e afeita à morbidez.

d) observação detalhada do corpo para a identificação de características de raça.

e) apologia à superioridade dos organismos saudáveis para a sobrevivência da espécie.

Resolução:

Alternativa A

O narrador parece sugerir que a resistência de Bom-Crioulo se deve ao fato de ele ser negro. Daí pode surgir a ideia de que pessoas como esse personagem nasceram para serem exploradas, já que seriam capazes de suportar os mais duros castigos.

Questão 02

Analise os trechos do romance O cortiço, de Aluísio Azevedo, e marque a alternativa em que NÃO é possível identificar um traço de animalização.

a) “Odiavam-se. Cada qual sentia pelo outro um profundo desprezo, que pouco a pouco se foi transformando em repugnância completa. O nascimento de Zulmira veio agravar ainda mais a situação; a pobre criança, em vez de servir de elo aos dois infelizes, foi antes um novo isolador que se estabeleceu entre eles. Estela amava-a menos do que lhe pedia o instinto materno por supô-la filha do marido, e este a detestava porque tinha convicção de não ser seu pai.”

b) “E o mugido lúgubre daquela pobre criatura abandonada antepunha à rude agitação do cortiço uma nota lamentosa e tristonha de uma vaca chamando ao longe, perdida ao cair da noite num lugar desconhecido e agreste. Mas o trabalho aquecia já de uma ponta à outra da estalagem; ria-se, cantava-se, soltava-se a língua; o formigueiro assanhava-se com as compras para o almoço; os mercadores entravam e saíam: a máquina de massas principiava a bufar. E Piedade, assentada à soleira de sua porta, paciente e ululante como um cão que espera pelo dono, maldizia a hora em que saíra da sua terra, e parecia disposta a morrer ali mesmo, [...].”

c) “Os policiais, vendo que ela se não despachava, desembainharam os sabres. Bertoleza então, erguendo-se com ímpeto de anta bravia, recuou de um salto e, antes que alguém conseguisse alcançá-la, já de um só golpe certeiro e fundo rasgara o ventre de lado a lado. E depois embarcou para a frente, rugindo e esfocinhando moribunda numa lameira de sangue.”

d) “Fechava a fila das primeiras lavadeiras, o Albino, um sujeito afeminado, fraco, cor de espargo cozido e com um cabelinho castanho, deslavado e pobre, que lhe caía, numa só linha, até ao pescocinho mole e fino. Era lavadeiro e vivia sempre entre as mulheres, com quem já estava tão familiarizado que elas o tratavam como a uma pessoa do mesmo sexo; em presença dele falavam de coisas que não exporiam em presença de outro homem; [...].”

e) “Miranda nunca a tivera, nem nunca a vira, assim tão violenta no prazer. Estranhou-a. Afigurou-se-lhe estar nos braços de uma amante apaixonada; descobriu nela o capitoso encanto com que nos embebedam as cortesãs amestradas na ciência do gozo venéreo. Descobriu-lhe no cheiro da pele e no cheiro dos cabelos perfumes que nunca lhe sentira; notou-lhe outro hálito, outro som nos gemidos e nos suspiros. E gozou-a, gozou-a loucamente, com delírio, com verdadeira satisfação de animal no cio.”

Resolução:

Alternativa D

É possível apontar os seguintes traços de animalização: “instinto materno” (alternativa A), “o formigueiro assanhava-se” (alternativa B), “ímpeto de anta bravia” (alternativa C) e “satisfação de animal no cio” (alternativa E). Já o trecho da alternativa D não apresenta animalização, mas a visão preconceituosa de que o personagem Albino, por ser homossexual, é fraco e doentio.

 

Por Warley Souza
Professor de Literatura

Escritor do artigo
Escrito por: Warley Souza Professor de Português e Literatura, com licenciatura e mestrado em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Gostaria de fazer a referência deste texto em um trabalho escolar ou acadêmico? Veja:

SOUZA, Warley. "Naturalismo no Brasil"; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/literatura/naturalismo-no-brasil.htm. Acesso em 23 de maio de 2024.

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