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O Ateneu

Literatura

“O Ateneu”, obra do escritor naturalista Raul Pompeia, conta a história de Sérgio, um menino que, aos 11 anos, passa a estudar, como interno, no renomado Colégio Ateneu.
Raul Pompeia, autor de “O Ateneu”, foi um escritor pertencente ao Naturalismo brasileiro.
Raul Pompeia, autor de “O Ateneu”, foi um escritor pertencente ao Naturalismo brasileiro.
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O Ateneu é um romance do escritor Raul Pompeia. Nessa obra, o narrador-personagem Sérgio conta, em caráter memorialístico, a sua experiência como interno no Ateneu, um colégio onde estudam os filhos da rica burguesia carioca do século XIX. Nessa instituição, o menino de 11 anos vai aprender a viver em uma sociedade corrupta, onde sobrevivem os mais fortes.

Raul Pompeia, nascido em 12 de abril de 1863, tornou-se um dos principais representantes do Naturalismo no Brasil. Portanto, O Ateneu está estruturado sobre a teoria determinista de que o meio em que vivem os personagens é responsável pela formação de seu caráter. Assim, com essa obra, o autor, que se matou em 25 de dezembro de 1895, entrou para a história da literatura brasileira.

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Resumo da obra O Ateneu

  • Romance naturalista de 1888.

  • Escrito por Raul Pompeia.

  • Apresenta visão determinista.

  • Prosa de caráter memorialístico.

  • Narrador-personagem: Sérgio.

  • Espaço da narrativa: colégio interno Ateneu.

  • Tempo da narrativa: século XIX.

  • Temáticas: educação, homoerotismo, religião e corrupção humana.

Videoaula com análise do livro O Ateneu

Análise do livro O Ateneu

  • Personagens do livro O Ateneu

— Internos:

  • Américo;

  • Barbalho;

  • Barreto;

  • Bento Alves;

  • Cândido;

  • Egbert;

  • Emílio;

  • Franco;

  • Malheiro;

  • Rebelo;

  • Ribas;

  • Sanches;

  • Sérgio.

  • Ângela: camareira de D. Ema.

  • Aristarco: diretor.

  • Bataillard: professor de Ginástica.

  • Dr. Cláudio: professor.

  • Ema: esposa de Aristarco.

  • João Numa: inspetor.

  • Mânlio: professor de Português.

  • Silvino: inspetor.

  • Venâncio: professor de Inglês.

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  • Enredo da obra O Ateneu

O livro começa com a seguinte fala do pai do protagonista: “Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Ateneu. Coragem para a luta”. Sérgio tem 11 anos e vai iniciar seus estudos em um renomado colégio interno de nome Ateneu, cujo diretor é o Dr. Aristarco Argolo de Ramos. Nessa instituição, que recebe os estudantes ricos do Rio de Janeiro, estuda “a fina flor da mocidade brasileira”.

Capa do livro O Ateneu, de Raul Pompeia, publicado pela editora FTD. [1]
Capa do livro O Ateneu, de Raul Pompeia, publicado pela editora FTD. [1]

Em seguida, é narrado o primeiro dia de aula de Sérgio, quando Aristarco apresenta o colégio ao menino e a seu pai. Porém, quando o pai de Sérgio vai embora, a criança tem vontade de chorar, mas consegue conter as lágrimas, pois tem a consciência de que precisa ser forte. Nesse dia, ele conhece professores e colegas de turma, como Rebelo e Sanches. Rebelo é quem adverte Sérgio sobre os colegas do Ateneu:

Aí vão as carinhas sonsas, generosa mocidade... Uns perversos! Têm mais pecados na consciência que um confessor no ouvido; uma mentira em cada dente, um vício em cada polegada de pele. [...]. São servis, traidores, brutais, adulões. Vão juntos. Pensa-se que são amigos... Sócios de bandalheira! Fuja deles, fuja deles. Cheiram a corrupção, empestam de longe. Corja de hipócritas! Imorais! Cada dia de vida tem-lhes vergonha da véspera.”

Então, lhe dá este conselho: “[...]; faça-se forte aqui, faça-se homem. Os fracos perdem-se”. E revela que os “rapazes tímidos, ingênuos, sem sangue, são brandamente impelidos para o sexo da fraqueza”. Ele está insinuando que os mais fracos são sujeitados sexualmente. Por isso, aconselha Sérgio a “não admitir protetores”.

Assim, quando Barbalho puxa a blusa de Sérgio, que quase cai, o protagonista reage, pega um pedaço de telha e arremessa contra o outro, que se desvia. Mas, à noite, Sérgio lhe dá uma bofetada, e eles iniciam uma luta corporal, terminada quando são avisados da iminente chegada de um dos inspetores.

Ao tomar banho em um “tanque” (ou piscina) do colégio, Sérgio quase se afoga. Porém, é salvo pelo Sanches. Assim, a repugnância inicial que o protagonista sentia pelo garoto se transforma em gratidão e amizade. E, contrariando o conselho de Rebelo, Sérgio acaba por admitir um protetor, que o ajuda bastante nos estudos, mas demonstra interesse sexual em Sérgio, que, por fim, o rejeita.

Por influência de Ribas, Sérgio se entrega à devoção e, ao ver o sofrimento e humilhação de Franco, torna-se amigo dele, mas, depois, percebe estar equivocado, pois imagina “generalizando errado, que a contemplação era um mal, que o misticismo andava traidoramente a degradar-me: a convivência fácil com o Franco era a prova”.

Sérgio agora se torna íntimo de Barreto, que mostra ao protagonista o lado cruel da religião, ao contrário de Ribas, que lhe mostrou o prazer da devoção. Barreto fala de castigos, inferno e demônios. Isso faz com que o narrador se afaste da fé e fique um tanto deprimido. Mas, após um feriado em companhia da família, ele recobra o ânimo e se entrega a uma espécie de anarquia.

Além disso, narra o ato de heroísmo de Bento Alves, de quem se torna amigo. Tal amizade leva o narrador a declarar que, “mesmo sem o caráter de abatimento que tanto indignava ao Rebelo, certa efeminação pode existir como um período de constituição moral”. E afirma que estimou o amigo “femininamente”, pois o outro era forte, corajoso e podia protegê-lo.

Bento Alves chega a dar flores a Sérgio e também briga com Malheiro por causa do amigo. Assim, depois de saber da luta corporal entre os dois rapazes, Sérgio tem a seguinte reação:

Por minha parte, entreguei-me de coração ao desespero das damas romanceiras, montando guarda de suspiros à janela gradeada de um cárcere onde se deixava deter o gentil cavalheiro, para o fim único de propor assunto às trovas e aos trovadores medievos.

A partir daí, Sérgio começa a narrar os fatos ocorridos em seu segundo ano no Ateneu e conta que chegou a Aristarco uma carta de amor entre dois meninos. A carta foi enviada por Cândido, que a assinou com o nome de Cândida. Aristarco descobre que o destinatário da carta é um tal Emílio e pune exemplarmente os dois estudantes.

Já a amizade entre Bento Alves e Sérgio chega ao fim de forma violenta, pois os dois acabam se agredindo em uma luta corporal. Tal acontecimento leva à saída de Bento Alves do colégio. Sérgio, então, inicia uma forte amizade com Egbert, um envolvimento amoroso que acaba quando Sérgio se encanta por D. Ema, a mulher do diretor: “Daí começou a esfriar o entusiasmo da nossa fraternidade”.

Na sequência, o narrador relata que Franco “andava adoentado desde a última vez que fora à prisão”, pois era sempre punido por suas más ações. Desse modo, o garoto acaba falecendo. No entanto, logo o Ateneu se entrega aos festejos para comemorar a estátua, o busto feito em homenagem a Aristarco.

Mais tarde, Sérgio adoece, pois adquire um sarampo, e vai para a enfermaria. Mas isso não é motivo de infelicidade para o protagonista, pois ele recebe os cuidados de sua amada D. Ema: “Bastava a sua presença para reanimar-me no leito”. E o narrador percebe que o que ele sente por ela não é o mesmo que ele sente por sua mãe.

Como a família de Sérgio está na Europa para cuidar dos “padecimentos” do pai, o rapaz é obrigado a passar suas férias no Ateneu. Mas o colégio pega fogo, e Sérgio se salva, pois sai às pressas da enfermaria. E ficamos sabendo que o incêndio, supostamente, foi provocado por Américo, um aluno novo, que não se conformava em viver ali.

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  • Elementos psicológicos da obra O Ateneu

O livro pode ser visto como um longo fluxo de consciência do protagonista Sérgio, já que o tempo da narração, isto é, quando o narrador conta a história, está distante do tempo da narrativa, ou seja, quando a história contada acontece. Portanto, o narrador, já adulto, relembra o período escolar de sua infância.

Nessa perspectiva, ele pode analisar os fatos já ocorridos e as reações dos personagens, como é possível perceber no início da obra, quando Aristarco, o diretor do colégio, é apontado pelo narrador como um homem vaidoso, que gosta de condecorações, cujos gestos “calmos, soberanos, eram de um rei”. O narrador o considera uma espécie de enfermo, “desta enfermidade atroz e estranha: a obsessão da própria estátua”.

Aristarco é mais empresário do que educador e conhece a dissimulação como forma de atingir os seus objetivos:

Sua diplomacia dividia-se por escaninhos numerados, segundo a categoria de recepção que queria dispensar. Ele tinha maneiras de todos os graus, segundo a condição social da pessoa. As simpatias verdadeiras eram raras. No âmago de cada sorriso, morava-lhe um segredo de frieza que se percebia bem.

Ao descrever o estudante Sanches como detentor de uma “meiguice viscosa de crápula antigo”, o narrador sugere mais um comportamento dissimulado. A mesma dissimulação está presente nas atitudes de Rebelo, que, ao mesmo tempo que aparenta uma “brandura patriarcal”, sabe produzir “injúrias e maldições” para se defender.

É preciso ressaltar que a repugnância que, a princípio, Sérgio sente por Sanches está associada a uma espécie de “homofobia instintiva” do personagem, retratada como um processo natural, de acordo com as teorias científicas defendidas na época. Porém, ao aceitar a proteção de Sanches, Sérgio se entrega à passividade, já que o outro é inteligente e o ajuda nos estudos.

Dessa forma, Sérgio se mostra psicologicamente frágil, pois é extremamente influenciável, como demonstra seu envolvimento com os assuntos religiosos, por influência de Ribas, e também quando ele assume uma postura feminina, em sua transição para a vida adulta, ao se envolver homoeroticamente com Bento Alves.

Todas essas experiências vão formando o caráter de Sérgio, que vê a fraqueza e a força como sinônimas, respectivamente, de feminino e masculino. Por fim, como narrador distante temporalmente dos fatos narrados, ele sugere que, na formação psicológica de um homem, é preciso vivenciar e superar o seu lado feminino para dar lugar à força masculina.

Isso fica evidente quando as experiências homoeróticas de Sérgio no Ateneu dão lugar ao interesse por mulheres, a partir de seu encantamento por D. Ema. Desse modo, o narrador indica que Sérgio precisou vivenciar o homoerotismo como uma espécie de ensaio para a sua futura vida heterossexual e que suas experiências, portanto, fizeram parte do seu amadurecimento psicológico.

  • Ambientação da obra O Ateneu

A história de O Ateneu se passa em um colégio interno para meninos, na cidade do Rio de Janeiro, no século XIX. Assim, esse romance naturalista, escrito em 1888, traz a tese determinista de que o meio escolar é um espaço corruptor.

  • Estrutura da obra O Ateneu

O livro é um romance dividido em doze capítulos e narra, em tempo cronológico, as experiências do protagonista e narrador Sérgio, durante o tempo em que ele estudou no Ateneu. Desse modo, a partir de uma perspectiva memorialística, o narrador-personagem relata, no primeiro capítulo, o seu ingresso na instituição, com 11 anos de idade. Já nos próximos capítulos, mostra os fatos vivenciados, que corroboram a sua tese. Termina a obra ao narrar, no último capítulo, o fim do Ateneu.

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Crítica social da obra O Ateneu

O romance O Ateneu, uma das principais obras do Naturalismo brasileiro, utiliza a teoria determinista para criticar o ambiente corruptor dos internatos do século XIX. Portanto, o autor se prende à ideia de que o meio em que o indivíduo está inserido pode influenciar seu comportamento.

No caso dessa obra, Sérgio, o protagonista da história, recebe a má influência de seus colegas de escola. Dessa forma, o ambiente escolar é retratado como um espaço degenerante, onde a criança perde a inocência para ingressar na vida adulta. Nesse sentido, a crítica se estende à sociedade carioca e brasileira da época.

Afinal, se aquela era a formação típica dos chefes de família da elite burguesa, a conclusão é de que os membros da sociedade carioca eram seres corruptos, educados para a dissimulação, a desonestidade, o jogo de interesses e para, enfim, seguirem a lei do mais forte, aquele capaz de qualquer coisa para triunfar, em benefício próprio.

Raul Pompeia, autor de O Ateneu

Raul Pompeia nasceu em 12 de abril de 1863, em Angra dos Reis. Mais tarde, com 11 anos de idade, o romancista passou a estudar, em regime de internato, no Colégio Abílio, na cidade do Rio de Janeiro. Em seguida, estudou no Colégio Pedro II. Por fim, na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em São Paulo.

Durante seu período como estudante de Direito, o escritor se tornou abolicionista e republicano. Após se formar, decidiu não exercer a profissão. Assim, enveredou pela carreira jornalística, além de ser professor na Escola de Belas Artes e diretor da Biblioteca Nacional, mas, ao apoiar o autoritário presidente Floriano Peixoto (1839-1895), entrou em desavença com alguns importantes intelectuais da época.

Devido, possivelmente, ao fato de não suportar a perseguição política, o autor se matou em 25 de dezembro de 1895, no Rio de Janeiro. Ele deixou obras vinculadas ao Naturalismo brasileiro, estilo de época caracterizado pela objetividade, antirromantismo e por uma visão determinista da realidade, em que a raça, o meio e o momento histórico influenciam o destino dos personagens.

O escritor Raul Pompeia publicou os seguintes livros:

  • Uma tragédia no Amazonas (1880);

  • Um réu perante o futuro (1880);

  • Canções sem metro (1881);

  • As joias da Coroa (1882);

  • O Ateneu (1888);

  • Alma morta (1888);

  • Agonia (1895).

Créditos da imagem

[1] Editora FTD (reprodução)


Por Warley Souza
Professor de Literatura 

Gostaria de fazer a referência deste texto em um trabalho escolar ou acadêmico? Veja:

SOUZA, Warley. "O Ateneu"; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/literatura/o-ateneu.htm. Acesso em 24 de setembro de 2021.

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