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Fernando Pessoa e seus heterônimos

Literatura

Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis são os heterônimos de Fernando Pessoa, um dos maiores escritores da literatura em língua portuguesa.
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Fernando Pessoa nasceu no dia 13 de junho de 1888, na cidade de Lisboa, Portugal. Levou uma vida anônima e solitária e morreu em 1935, vítima de uma cirrose hepática.
Quando falamos desse genioso artista, é necessário fazermos uma distinção entre todos os poemas que assinou com o seu verdadeiro nome (poesia ortônima) e todos os outros, atribuídos aos seus heterônimos: Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis.

A questão da heteronímia resulta de características pessoais referentes à personalidade de Fernando Pessoa: o desdobramento do “eu”, a multiplicação de identidades e a sinceridade do fingimento, uma condição que patenteou sua criação literária e que deu origem ao poema que segue:

Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração

Pessoa, Fernando. Lírica e dramática, In: Obras de Fernando Pessoa

Veja também: Os melhores poemas de Fernando Pessoa

Heterônimos de Fernando Pessoa

  • Alberto Caeiro

É uma poesia aparentemente simples, mas que na verdade esconde uma imensa complexidade filosófica, a qual aborda a questão da percepção do mundo e da tendência do homem em transformar aquilo que vê em símbolos, sendo incapaz de compreender o seu verdadeiro significado.

A Criança

A criança que pensa em fadas e acredita nas fadas
Age como um deus doente, mas como um deus.
Porque embora afirme que existe o que não existe
Sabe como é que as cousas existem, que é existindo,
Sabe que existir existe e não se explica,
Sabe que não há razão nenhuma para nada existir,
Sabe que ser é estar em um ponto
Só não sabe que o pensamento não é um ponto qualquer.

  • Ricardo Reis

O médico Ricardo Reis é o heterônimo “clássico” de Fernando Pessoa, pois observa-se em toda sua obra a influência dos clássicos gregos e latinos baseada na ideologia do “Carpe Diem”, diante da brevidade da vida e da necessidade de aproveitar o momento.

Anjos ou Deuses

Anjos ou deuses, sempre nós tivemos,
A visão perturbada de que acima
De nos e compelindo-nos
Agem outras presenças.
Como acima dos gados que há nos campos
O nosso esforço, que eles não compreendem,
Os coage e obriga
E eles não nos percebem,
Nossa vontade e o nosso pensamento
São as mãos pelas quais outros nos guiam
Para onde eles querem E nós não desejamos.

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  • Álvaro de Campos

Heterônimo futurista de Fernando Pessoa, também é conhecido pela expressão de uma angústia intensa, que sucedeu seu entusiasmo com as conquistas da modernidade. Na fase amargurada, o poeta escreveu longos poemas em que revela um grande desencanto existencial. Como podemos observar em Tabacaria:

Tabacaria

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada. (...).

 

Leia também: Cinco poemas da Literatura Portuguesa

Modernismo em Portugal

Ao falar de Fernando Pessoa, é de suma importância relembrarmos primeiramente o Modernismo em Portugal.

Como toda estética literária advém de um contexto histórico e político, o Modernismo português surgiu sob um clima de grande instabilidade interna, com greves sucessivas e as dificuldades trazidas pela eclosão da Primeira Guerra Mundial.

O assassinato do rei Carlos X, em 1908, foi o ponto de partida para a proclamação da República. Com isso, surgiu a necessidade de defender as colônias ultramarinas, razão pela qual o povo português manifestou todo o seu saudosismo de maneira acentuada.

A lembrança das antigas glórias marítimas e a lamentação pelo desconcerto que dominou o país após o desaparecimento de Dom Sebastião serviram de berço para o nascimento de uma revista que representaria o Modernismo propriamente dito, a revista “Orpheu”, publicada em 1915. Para saber mais, leiaOrfismo: a primeira fase do modernismo em Portugal.


Fazendo parte dela estavam presentes figuras artísticas importantíssimas, tais como Mário de Sá-Carneiro, Luís Montalvor, José de Almada-Negreiros e Fernando Pessoa.

Seu conteúdo baseava-se no questionamento dos valores estabelecidos estética e literariamente, na euforia frente às invenções oriundas da Revolução Industrial e na libertação de todas as regras e convenções referentes à produção artística da época.
 

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*Créditos da imagem: Georgios Kollidas / shutterstock

Por Vânia Duarte
Graduada em Letras

Fernando Pessoa - O poeta de vários desdobramentos
Fernando Pessoa - O poeta de vários desdobramentos

Gostaria de fazer a referência deste texto em um trabalho escolar ou acadêmico? Veja:

DUARTE, Vânia Maria do Nascimento. "Fernando Pessoa e seus heterônimos "; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/literatura/fernando-pessoa-seus-heteronimos.htm. Acesso em 16 de setembro de 2019.

Lista de Exercícios
Questão 1

Relacione os fragmentos a seguir de acordo com as características dos heterônimos de Fernando Pessoa:

I.

(...) Mas serenamente 
Imita o Olimpo 
No teu coração. 
Os deuses são deuses 
Porque não se pensam.”

II.

(...) Começo a conhecer-me. Não existo. 
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram, 
ou metade desse intervalo, porque também há vida ... 
Sou isso, enfim (...)”.

III.

“(...) Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...

Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,

mas porque a amo, e amo-a por isso,

Porque quem ama nunca sabe o que ama

Nem sabe por que ama, nem o que é amar ...

Amar é a eterna inocência,

E a única inocência não pensar...”.

IV.

“(...) Será que em seu movimento

A brisa lembre a partida,

Ou que a largueza do vento

Lembre o ar livre da ida?

Não sei, mas subitamente

Sinto a tristeza de estar

O sonho triste que há rente

Entre sonhar e sonhar.”

( ) Bernardo Soares.

( ) Álvaro de Campos.

( ) Alberto Caeiro.

( ) Ricardo Reis.

a) IV, II, III e I.

b) I, II, IV e III.

c) III, I, IV e II.

d) II, IV, I e III.

Questão 2

A tirinha acima estabelece uma interessante relação dialógica com o poema de Fernando Pessoa, Eu sou do tamanho do que vejo
A tirinha acima estabelece uma interessante relação dialógica com o poema de Fernando Pessoa, Eu sou do tamanho do que vejo

Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo...

Por isso minha aldeia é grande como outra qualquer

Porque sou do tamanho do que vejo

E não do tamanho da minha altura...

(Alberto Caeiro)

A tira de Hagar e o poema de Alberto Caeiro (um dos heterônimos de Fernando Pessoa) expressam, com linguagens diferentes, uma mesma ideia: a de que a compreensão que temos do mundo é condicionada, essencialmente,

a) pelo alcance de cada cultura.

b) pela capacidade visual do observador.

c) pelo senso de humor de cada um.

d) pela idade do observador.

e) pela altura do ponto de observação.

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