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Mário de Sá-Carneiro

Literatura

Mário de Sá-Carneiro foi, ao lado de Fernando Pessoa, um dos expoentes do modernismo em Portugal e um dos maiores poetas da literatura portuguesa.
Mário de Sá-Carneiro nasceu em Lisboa, no dia 19 de maio de 1890, e faleceu em Nice, França, em 26 de abril de 1926
Mário de Sá-Carneiro nasceu em Lisboa, no dia 19 de maio de 1890, e faleceu em Nice, França, em 26 de abril de 1926
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As Coisas Secretas da Alma

Em todas as almas há coisas secretas cujo segredo é guardado até a morte delas. E são guardadas, mesmo nos momentos mais sinceros, quando nos abismos nos expomos, todos doloridos, num lance de angústia, em face dos amigos mais queridos - porque as palavras que as poderiam traduzir seriam ridículas, mesquinhas, incompreensíveis ao mais perspicaz. Estas coisas são materialmente impossíveis de serem ditas. A própria Natureza as encerrou - não permitindo que a garganta humana pudesse arranjar sons para as exprimir - apenas sons para as caricaturar. E como essas ideias-entranha são as coisas que mais estimamos, falta-nos sempre a coragem de as caricaturar. Daqui os “isolados” que todos nós, os homens, somos. Duas almas que se compreendam inteiramente, que se conheçam, que saibam mutuamente tudo quanto nelas vive - não existem. Nem poderiam existir. No dia em que se compreendessem totalmente - ó ideal dos amorosos! - eu tenho a certeza que se fundiriam numa só. E os corpos morreriam. 


Mário de Sá-Carneiro, in 'Cartas a Fernando Pessoa'

O fragmento que você leu acima é parte de uma das várias cartas trocadas entre Mário de Sá-Carneiro e Fernando Pessoa, dois dos mais importantes poetas da língua portuguesa e os maiores representantes do modernismo em Portugal. As cartas, meio pelo qual os dois grandes amigos comunicaram-se durante os anos de isolamento de Mário na França, foram publicadas postumamente em 1958, vide seu riquíssimo teor literário. Por intermédio das correspondências, podemos notar um poeta angustiado e atormentado pela ideia recorrente de suicídio, violência que cometeria aos trinta e seis anos de idade.

Mário de Sá-Carneiro nasceu em Lisboa, Portugal, no dia 19 de maio de 1890. Aos dois anos de idade, perdeu a mãe, e a dor da ausência materna acompanhou-o ao longo de sua breve vida. Após a morte da esposa, o pai de Mário, um militar da alta burguesia, entregou o filho aos cuidados dos avós e seguiu para uma vida de viagens, sempre custeando os estudos daquele que viria a ser uma das maiores vozes poéticas de Portugal. Aos vinte e um anos, Mário transferiu-se para Coimbra, onde ingressou na tradicional Faculdade de Direito, não tendo completado sequer o primeiro ano da graduação. Foi nessa época, o ano era 1912, que conheceu aquele que seria seu melhor amigo e confidente, Fernando Pessoa.

As correspondências trocadas com o amigo Fernando Pessoa foram publicadas trinta e dois anos após sua morte
As correspondências trocadas com o amigo Fernando Pessoa foram publicadas trinta e dois anos após sua morte

Em 1915, ao lado de Fernando Pessoa, Raul Leal, Luís de Montalvor, Almada Negreiros e o brasileiro Ronald de Carvalho, ajudou a fundar a revista Orpheu, primeira publicação a divulgar os ideais modernistas e as tendências culturais que circulavam na Europa no início do século XX. A revista não passou do segundo número, mas cumpriu o intuito de escandalizar a burguesia acostumada ao cânone literário vigente até os primeiros anos do século XX. Mário, por influência de Pessoa, aderiu a correntes de vanguarda, como o interseccionismo e o futurismo, exprimindo em sua poesia toda a sua dificuldade em assumir-se como adulto e de transpor as barreiras entre a realidade e a idealidade.

Em seus poemas transbordam a melancolia, o narcisismo, a frustração e o sentimento de abandono, esse último relacionado à morte prematura da mãe, fato que o marcou profundamente. Em Paris, onde iniciara os estudos na Universidade de Sorbonne, sua vida ganhou contornos dramáticos, tendo entregado-se a uma vida desregrada, fato que agravou sua já frágil saúde emocional. Abandonou os estudos e nesse período intensificou o contato com Fernando Pessoa, sempre relatando ao amigo o desejo de suicídio em cartas permeadas por uma linguagem irônica e autossarcástica, nas quais é possível observar uma intensa oscilação de humor do poeta de personalidade sensível e egoica.

No dia 26 de abril de 1926, hospedado em um hotel na cidade francesa de Nice, Mário de Sá-Carneiro cumpriu seu intento, dando cabo de uma existência marcada pelo sofrimento e pela angústia ao consumir vários frascos de estricnina. Dias antes, já atormentado pela ideia suicida, escreveu aquela que foi a sua última carta para Fernando Pessoa:

Meu querido Amigo.

A menos de um milagre na próxima segunda-feira, 3 (ou mesmo na véspera), o seu Mário de Sá-Carneiro tomará uma forte dose de estricnina e desaparecerá deste mundo. É assim tal e qual – mas custa-me tanto a escrever esta carta pelo ridículo que sempre encontrei nas “cartas de despedida”... Não vale a pena lastimar-me, meu querido Fernando: afinal tenho o que quero: o que tanto sempre quis – e eu, em verdade, já não fazia nada por aqui... Já dera o que tinha a dar. Eu não me mato por coisa nenhuma: eu mato-me porque me coloquei pelas circunstâncias – ou melhor: fui colocado por elas, numa áurea temeridade – numa situação para a qual, a meus olhos, não há outra saída. Antes assim. É a única maneira de fazer o que devo fazer. Vivo há quinze dias uma vida como sempre sonhei: tive tudo durante eles: realizada a parte sexual, enfim, da minha obra – vivido o histerismo do seu ópio, as luas zebradas, os mosqueiros roxos da sua Ilusão. Podia ser feliz mais tempo, tudo me corre, psicologicamente, às mil maravilhas, mas não tenho dinheiro. […]

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Mário de Sá-Carneiro, carta para Fernando Pessoa, 31 de Março de 1916.

Sua obra literária é composta pelos livros Princípio (novelas - 1912), Memórias de Paris (coletânea de memórias - 1913), A Confissão de Lúcio (romance - 1914), Dispersão (poesia - 1914) e o último publicado em vida, Céu em Fogo (novelas – 1915). As cartas trocadas com Fernando Pessoa foram compiladas e publicadas em dois volumes nos anos de 1958 e 1959, tornando-se objeto de análise para os estudiosos da literatura. Para que você conheça um pouco mais da poesia de Mário de Sá-Carneiro, o Brasil Escola apresenta para você um dos mais conhecidos poemas do escritor, cujo niilismo e desencanto renderam à literatura uma das mais belas contribuições. Boa leitura!

Loucura... é uma das novelas publicadas no livro Princípio. A Confissão de Lúcio é um conto que integra o livro homônimo de Mário de Sá-Carneiro
Loucura...
é uma das novelas publicadas no livro Princípio. A Confissão de Lúcio é um conto que integra o livro homônimo de Mário de Sá-Carneiro

Dispersão

Perdi-me dentro de mim 
Porque eu era labirinto, 
E hoje, quando me sinto, 
É com saudades de mim. 

Passei pela minha vida 
Um astro doido a sonhar. 
Na ânsia de ultrapassar, 
Nem dei pela minha vida... 

Para mim é sempre ontem, 
Não tenho amanhã nem hoje: 
O tempo que aos outros foge 
Cai sobre mim feito ontem. 

(O Domingo de Paris 
Lembra-me o desaparecido 
Que sentia comovido 
Os Domingos de Paris: 

Porque um domingo é família, 
É bem-estar, é singeleza, 
E os que olham a beleza 
Não têm bem-estar nem família). 

O pobre moço das ânsias... 
Tu, sim, tu eras alguém! 
E foi por isso também 
Que te abismaste nas ânsias. 

A grande ave dourada 
Bateu asas para os céus, 
Mas fechou-as saciada 
Ao ver que ganhava os céus. 

Como se chora um amante, 
Assim me choro a mim mesmo: 
Eu fui amante inconstante 
Que se traiu a si mesmo.

Não sinto o espaço que encerro 
Nem as linhas que projecto: 
Se me olho a um espelho, erro - 
Não me acho no que projecto. 

Regresso dentro de mim, 
Mas nada me fala, nada! 
Tenho a alma amortalhada, 
Sequinha, dentro de mim. 

Não perdi a minha alma, 
Fiquei com ela, perdida. 
Assim eu choro, da vida, 
A morte da minha alma. 

Saudosamente recordo 
Uma gentil companheira 
Que na minha vida inteira 
Eu nunca vi... Mas recordo

A sua boca doirada 
E o seu corpo esmaecido, 
Em um hálito perdido 
Que vem na tarde doirada. 

(As minhas grandes saudades 
São do que nunca enlacei. 
Ai, como eu tenho saudades 
Dos sonhos que não sonhei!...) 

E sinto que a minha morte - 
Minha dispersão total - 
Existe lá longe, ao norte, 
Numa grande capital. 

Vejo o meu último dia 
Pintado em rolos de fumo, 
E todo azul-de-agonia 
Em sombra e além me sumo. 

Ternura feita saudade, 
Eu beijo as minhas mãos brancas... 
Sou amor e piedade 
Em face dessas mãos brancas... 

Tristes mãos longas e lindas 
Que eram feitas pra se dar... 
Ninguém mas quis apertar... 
Tristes mãos longas e lindas... 

E tenho pena de mim, 
Pobre menino ideal... 
Que me faltou afinal? 
Um elo? Um rastro?... Ai de mim!... 

Desceu-me na alma o crepúsculo; 
Eu fui alguém que passou. 
Serei, mas já não me sou; 
Não vivo, durmo o crepúsculo. 

Álcool dum sono outonal 
Me penetrou vagamente 
A difundir-me dormente 
Em uma bruma outonal. 

Perdi a morte e a vida, 
E, louco, não enlouqueço... 
A hora foge vivida, 
Eu sigo-a, mas permaneço... 

. . . . . . . . . . . . . . . 
. . . . . . . . . . . . . . . 

Castelos desmantelados, 
Leões alados sem juba... 

. . . . . . . . . . . . . . . 
. . . . . . . . . . . . . . . 

Paris, maio de 1913.


Por Luana Castro
Graduada em Letras

Gostaria de fazer a referência deste texto em um trabalho escolar ou acadêmico? Veja:

PEREZ, Luana Castro Alves. "Mário de Sá-Carneiro"; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/literatura/mario-sa-carneiro.htm. Acesso em 19 de agosto de 2019.

Lista de Exercícios
Questão 1

Um dos mais importantes poetas da literatura portuguesa, Mário de Sá-Carneiro tem sua obra associada ao

a) Trovadorismo.

b) Humanismo.

c) Classicismo.

d) Orfismo.

e) Presencismo.

Questão 2

Além-Tédio

Nada me expira já, nada me vive - 
Nem a tristeza nem as horas belas. 
De as não ter e de nunca vir a tê-las, 
Fartam-me até as coisas que não tive. 

Como eu quisera, emfim de alma esquecida, 
Dormir em paz num leito de hospital... 
Cansei dentro de mim, cansei a vida 
De tanto a divagar em luz irreal. 

Outrora imaginei escalar os céus 
À força de ambição e nostalgia, 
E doente-de-Novo, fui-me Deus 
No grande rastro fulvo que me ardia. 

Parti. Mas logo regressei à dor, 
Pois tudo me ruiu... Tudo era igual: 
A quimera, cingida, era real, 
A propria maravilha tinha côr! 

Ecoando-me em silêncio, a noite escura 
Baixou-me assim na queda sem remédio; 
Eu próprio me traguei na profundura, 
Me sequei todo, endureci de tedio. 

E só me resta hoje uma alegria: 
É que, de tão iguais e tão vazios, 
Os instantes me esvoam dia a dia 
Cada vez mais velozes, mais esguios... 

Mário de Sá-Carneiro, in 'Dispersão'

No poema acima, podemos identificar as principais características da obra de Mário de Sá-Carneiro. São elas, exceto:

a) A obra de Mário de Sá-Carneiro confunde-se com sua vida. Em seus versos, ele expressa uma angústia permanente.

b) A sinestesia, uma das maiores características da escola simbolista, é bastante utilizada por Mário de Sá-Carneiro em suas obras. O escritor lança mão das correspondências sensoriais tanto na poesia quanto na narrativa.

c) A melancolia, o narcisismo, a frustração e o sentimento de abandono, esse último está intimamente relacionado com a morte prematura da mãe de Mário de Sá-Carneiro.

d) Dificuldade em assumir-se como adulto e dificuldades para transpor as barreiras entre realidade e idealidade.

e) O fenômeno da heteronímia é uma das principais características de sua obra. Mário de Sá-Carneiro criou personalidades literárias distintas, entre elas Alberto Caeiro, Bernardo Soares, Ricardo Reis e Álvaro de Campos, esse último considerado o alter ego do escritor.

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