Escândalo Watergate

História Geral

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O escândalo Watergate foi um dos maiores escândalos da história da política dos Estados Unidos. Ele estourou quando cinco homens foram presos tentando invadir a sede do Partido Democrata com o intuito de plantar escutas telefônicas, em junho de 1972. O caso levou dois jornalistas do The Washington Post — Carl Bernstein e Bob Woodward — a investigarem mais detalhes a seu respeito.

Um informante do FBI, conhecido como Garganta Profunda, auxiliou os dois jornalistas na investigação, sendo descoberto que o presidente sabia da espionagem. O líder máximo do país passou a ser investigado pelo FBI, e as descobertas de que ele tentou obstruir a investigação colocaram-no em situação de sofrer impeachment. Nixon, no entanto, renunciou à presidência em agosto de 1974.

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Contexto histórico

O contexto histórico da presidência de Richard Nixon era, no mínimo, agitado. O movimento pelos direitos civis dos afro-americanos ainda atuava com força no país, e, apesar de algumas conquistas significativas para os negros nos Estados Unidos, o historiador Sean Purdy define os ganhos como contraditórios, pois as estruturas sociais norte-americanas continuavam essencialmente segregacionistas|1|.

Além disso, os Estados Unidos estavam envolvidos com a Guerra do Vietnã, conflito em que o país interveio sob a justificativa de fornecer auxílio ao Vietnã do Sul para impedir o avanço dos comunistas do Vietnã do Norte. Essa guerra era extremamente impopular nos Estados Unidos, sobretudo nas camadas mais pobres.

Richard Nixon, inclusive, utilizou-se dessa impopularidade da guerra em sua campanha, pois anunciava que renunciaria à intervenção militar na situação vietnamita. Uma vez eleito, as promessas não foram cumpridas, pois, como afirma o historiador Victor G. Kiernan, já em 1969, seu governo levava a guerra para o Camboja e reiniciava o bombardeio no Vietnã do Norte|2|.

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A continuidade dos Estados Unidos nessa guerra aumentou a impopularidade dela, e números da época apontam que a rejeição era bastante alta. Em 1971, cerca de 61% da população norte-americana eram contrários ao conflito; ainda no mesmo ano, cerca de 90 mil jovens haviam desertado. Além disso, a resistência contra ordens de superiores era alarmante, e dentro do próprio exército existiam jornais alternativos que circulavam entre os soldados com críticas contra a guerra|3|.

Esse contexto evidenciava que a continuidade da guerra por conta do governo Nixon não era bem vista, e mostrava também que existia todo um movimento de oposição às políticas praticadas pelos Estados Unidos. Trata-se de um período de força dos movimentos sociais, e essa mobilização deu-se em diversas formas, além da luta dos afro-americanos e dos opositores da guerra.

Houve também crescimento de movimentos de contracultura, como os hippies, do movimento feminista, e do movimento dos trabalhadores. O governo de Nixon, de certa forma, é uma reação conservadora a isso, pois ele se baseava no lema de manter-se sempre “a lei e a ordem” nos Estados Unidos|4|.

Escândalo Watergate

Em 17 de junho de 1972, a sede do Partido Democrata foi invadida por homens que queriam plantar escutas telefônicas no local.
Em 17 de junho de 1972, a sede do Partido Democrata foi invadida por homens que queriam plantar escutas telefônicas no local.

Em 17 de junho de 1972, meses antes da eleição para a presidência dos Estados Unidos, um grupo de cinco homens foi pego tentando grampear o escritório da sede do Partido Democrata, localizada no Hotel Watergate, em Washington, capital dos Estados Unidos. O grupo foi descoberto porque o segurança do hotel identificou uma movimentação suspeita e chamou a polícia.

A ação da polícia prendeu cinco homens, que eram Virgilio Gonzalez, Bernard Barker, James McCord, Eugenio Martínez e Frank Sturgis. Na posse deles estavam equipamentos que serviriam para implantar escutas telefônicas com o objetivo de obter informação para usá-las contra os democratas. O caso foi registrado pela imprensa norte-americana, mas, em geral, não recebeu muita atenção a princípio.

Um dos jornais que divulgou esse acontecimento na época foi o The Washington Post. Dois jornalistas que trabalhavam para ele ficaram intrigados com o caso e começaram a investigá-lo. Logo eles conseguiram uma fonte de dentro do FBI que confirmava ou negava todas as informações que eles obtinham.

Esse informante ficou conhecido na época como Garganta Profunda. Os dois jornalistas eram Carl Bernstein e Bob Woodward, e a investigação realizada por eles descobriu uma trama de conspiração extensa que envolvia diretamente a comitê de reeleição do presidente Richard Nixon, conhecido como Creep (Commitee for the Re-Election of the President, em inglês).

O indício que ligava o comitê de reeleição com os invasores da sede do Partido Democrata foi um depósito para a conta bancária de Bernard Barker de 25 mil dólares. Em seguida a investigação conduzida pelos jornalistas do The Washington Post descobriu que o comitê de Nixon possuía um caixa dois, isto é, dinheiro não declarado, usado para financiar as operações de espionagem. No caso da invasão do escritório em Watergate, o objetivo era obter informação dos democratas para usá-las contra eles na eleição de 1972.

A investigação da invasão da sede do Partido Democrata foi realizada por dois jornalistas do “The Washington Post”.[2]
A investigação da invasão da sede do Partido Democrata foi realizada por dois jornalistas do “The Washington Post”.[2]

A repercussão do caso não abalou a posição de Nixon, e ele foi reeleito com uma vitória expressiva contra George McGovern, o candidato democrata. A vitória em novembro não impediu que a investigação continuasse, mas, além da imprensa, o caso seria acompanhado pelo Federal Bureau of Investigation, mais conhecido como FBI.

As investigações prosseguiram sob responsabilidade do FBI, e, à medida que elas avançavam, mais próximas do presidente chegavam. Um inquérito no Senado foi aberto em fevereiro de 1973, e, em abril, três assessores do presidente renunciaram. Em maio, as sessões da investigação no Senado começaram a ser transmitidas por televisão.

Em julho de 1973, foi descoberto que as conversas no interior do Salão Oval na Casa Branca eram gravadas. Nixon resistiu em divulgar as gravações, mas, por ordem da Suprema Corte dos Estados Unidos, foi obrigado a entregá-las. Os áudios foram editados, mas, ainda assim, pôde comprovar-se que o presidente agiu diretamente para obstruir a Justiça. Além disso, ao longo das investigações, concluiu-se que a invasão da sede do Partido Democrata em Washington foi realizada com o consentimento dele.

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Pentagon papers: o precedente

Os historiadores consideram que o escândalo de Watergate teve um precedente: o caso do pentagon papers. Esse caso aconteceu em 1971 e pode ser resumido como um vazamento de documentos secretos que demonstravam as ações realizadas pelos Estados Unidos no sudoeste da Ásia nos últimos 20 anos.

Esses documentos faziam parte de um estudo feito por ordem de Robert McNamara, secretário de Defesa dos Estados Unidos, mas eram altamente secretos. Eles eram relativos às ações norte-americanas no Vietnã e foram estudados por Daniel Ellsberg, um analista militar que trabalhava para o Pentágono.

Ellsberg tinha participado do projeto que elaborou o estudo pedido por McNamara. O resultado final desse estudo foi um calhamaço com cerca de sete mil páginas distribuídas em 43 volumes. Após participar do projeto e estudar os volumes produzidos, Ellsberg decidiu que as informações contidas ali deveriam ser de conhecimento público.

Os documentos secretos foram vazados, por Ellsberg, para o The New York Times, um dos maiores jornais dos Estados Unidos. A divulgação deles criou uma situação embaraçosa para o governo Nixon, que tentou proibi-la acionando a Justiça, mas foi derrotado na ação promovida contra o jornal.

O vazamento não continha nenhuma informação que fosse prejudicial para o governo Nixon, mas abria um precedente perigoso: novos documentos secretos poderiam ser vazados. A reação de Nixon para impedir que isso acontecesse novamente é que levou ao escândalo de Watergate. O governo de Nixon formou uma unidade chamada The Plumbers, com o objetivo de obter informações privadas para atacar publicamente Ellsberg.

Esse grupo chegou a invadir o consultório do psiquiatra Lewis Fielding, uma vez que Ellsberg era seu paciente. Essa foi uma das ações ilegais promovidas pela administração de Nixon no sentido de obter informações privilegiadas de opositores. As ações de espionagem, por fim, tornaram-se públicas quando um grupo de cinco homens protagonizou o caso que deu início ao escândalo de Watergate.

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Carreira política de Nixon

O presidente Richard Nixon é, até hoje, o único presidente na história dos Estados Unidos que renunciou à presidência.[1]
O presidente Richard Nixon é, até hoje, o único presidente na história dos Estados Unidos que renunciou à presidência.[1]

O caso Watergate foi um dos maiores escândalos políticos da história dos Estados Unidos, levando o então presidente Richard Nixon a renunciar a sua posição em 1974. As ações praticadas pelo governo Nixon foram consideradas antidemocráticas, uma vez que o presidente norte-americano utilizava-se de meios ilegais — a espionagem — para combater seus opositores políticos.

Richard Nixon foi um político norte-americano que construiu sua carreira como um anticomunista ferrenho. Ele deslanchou sua carreira após a Segunda Guerra Mundial, durante o período da histeria macartista. Em 1950, ele foi eleito senador pela Califórnia, e, em 1952, recebeu o convite de Dwight D. Eisenhower para ser seu vice na disputa pela presidência em 1952.

Ele disputou a eleição presidencial em 1960, mas foi derrotado por John F. Kennedy, e retornou para a disputa em 1968. Concorrendo pelos republicanos, Nixon derrotou o candidato democrata, Hubert Humphrey, com pouco mais de 500 mil votos e um número superior de delegados dos Colégios Eleitorais. Isso fez dele o 37º presidente dos Estados Unidos.

Renúncia

A divulgação de que Nixon havia agido para obstruir a investigação do FBI tornou sua situação insustentável. O Partido Republicano abandonou-o, e, quando ele percebeu que não poderia reverter sua situação, optou pela renúncia. Em 8 de agosto de 1974, Nixon anunciou, em um pronunciamento transmitido na TV, a sua saída do governo.

Ele alegou tomar essa ação como forma de apressar a recuperação do país, e o vice dele, Gerald Ford, assumiu a presidência. No mês seguinte, ele livrou Nixon de responder por seus crimes ao conceder-lhe a anistia. Nixon foi o primeiro e único presidente na história dos Estados Unidos que renunciou ao cargo.

A identidade do informante que deu o caminho das pedras para os dois jornalistas do The Washington Post só foi revelada em 2005. Ele era o vice-presidente do FBI durante o governo Nixon e chamava-se William Mark Felt, e ele próprio confessou ter sido o informante.

Notas

|1| PURDY, Sean. O século americano. In.: KARNAL, Leandro (org.). História dos Estados Unidos. São Paulo: Contexto, 2008. p. 248-249.

|2| KIERNAN, Victor G. Estados Unidos: o novo imperialismo. Rio de Janeiro: Record, 2009. p. 344.

|3| PURDY, Sean. O século americano. In.: KARNAL, Leandro (org.). História dos Estados Unidos. São Paulo: Contexto, 2008. p. 250.

|4| Idem, p. 253.

Credito das imagens

[1] mark reinstein e Shutterstock

[2] Nicole Glass Photography e Shutterstock

 

Por Daniel Neves
Professor de História

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SILVA, Daniel Neves. "Escândalo Watergate"; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/historiag/escandalo-watergate.htm. Acesso em 04 de julho de 2020.