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Hebreus

História Geral

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Os hebreus são um povo de origem semita que, segundo a narrativa bíblica, estabeleceu-se em Canaã por meio do patriarca Abraão. Ao longo de sua história, os hebreus migraram para o Egito, retornaram a Canaã, reconquistaram a terra dos cananeus e filisteus e, depois de serem conquistados por uma série de povos, passaram a fugir da região por conta da violência romana.

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A história hebraica e as fontes históricas

A história hebraica é bastante peculiar, porque muitas pessoas a identificam pela grande força da tradição judaico-cristã na formação religiosa do Brasil. Sabemos que os hebreus eram um povo seminômade que se fixou em Canaã, na Antiguidade, e uma parte da história desse povo é narrada na Bíblia, o livro sagrado dos cristãos.

A Bíblia, assim como outros documentos oriundos da Antiguidade, são tratados pelos historiadores como fontes históricas. Isso não significa, entretanto, que tudo o que está na Bíblia é considerado impreterivelmente como verdade histórica, uma vez que existe todo um trabalho de apreciação para comprovar a veracidade dos eventos mencionados.

Sendo assim, algumas das passagens bíblicas sobre a história dos hebreus são entendidas como míticas e não necessariamente como verdades e acontecimentos históricos. Essas considerações são parte do ofício dos historiadores, uma vez que a história moderna possui métodos de comprovação dos acontecimentos. De toda forma, essa prática de historiadores também é encontrada na Antiguidade, e historiadores, como Tucídides, já procuravam diferenciar acontecimentos reais de testemunhos míticos.

Outro fato que deve ser levado em consideração é que os hebreus começaram a registrar a sua história somente depois que se tornaram o povo mais poderoso de Canaã|1|. Sendo assim, muitos dos relatos foram feitos a posteriori de quando de fato aconteceram. Por isso, na história, é importante tratar os relatos históricos da Bíblia com certa ressalva.

A Bíblia é um documento importante no estudo da história hebraica, mas não é a única fonte de estudo da história dos hebreus. Os historiadores trabalham com outras fontes, como vestígios arqueológicos, registros feitos por outros povos etc.

De onde vieram os hebreus?

Abraão é considerado o grande patriarca dos hebreus.[1]
Abraão é considerado o grande patriarca dos hebreus.[1]

Os relatos bíblicos contam que os hebreus são descendentes diretos de Abraão e vieram da Mesopotâmia para Canaã, por volta do século XX a.C. Nesse relato, Abraão era um pastor seminômade que morava em Ur, quando recebeu uma profecia de Deus que o fez abandonar a sua terra em busca de uma “terra prometida”.

A historiadora Karen Armstrong afirma que é difícil fazer a comprovação sobre muitos dos relatos sobre a história de Abraão, uma vez que foram escritos quase mil anos depois de terem ocorrido|2|. Inclusive, existem historiadores que tratam os israelitas como um povo que surgiu no seio dos cananeus. De toda forma, no relato bíblico, vimos que os hebreus eram um povo estrangeiro que se estabeleceu em Canaã.

A fixação aconteceu no Vale do Rio Jordão, trecho conhecido por possuir terras mais férteis. Os hebreus ainda viviam uma vida de seminomadismo e tinham um contato frequente com os cananeus, povos originários da região. Esse contato fez com que muitos hebreus adotassem a adoração de Javé, o deus hebraico, mas de outros deuses também, como El, um deus cananeu.

Essa primeira fase da história hebraica é conhecida como período dos patriarcas, sendo Abraão, Isaque e Jacó os grandes patriarcas hebreus. Os hebreus sobreviviam da criação de animais, como ovelhas, e também cultivavam víveres. Existiam aqueles que moravam em regiões mais desérticas, bem como existiam aqueles que se instalavam em locais com solos férteis.

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Ida ao Egito

Moisés teria sido o líder que libertou os hebreus da escravidão no Egito, por volta de 1300 a.C.
Moisés teria sido o líder que libertou os hebreus da escravidão no Egito, por volta de 1300 a.C.

A respeito desse período, a tradição bíblica ainda fala sobre a migração dos hebreus para a região do Egito, supostamente, por volta de 1700 a.C. Os motivos seriam uma escassez de alimentos que afetou toda a região de Canaã. O objetivo da mudança para o Egito seria o de estabelecer-se nas terras férteis das margens do Rio Nilo.

Essa ida ao Egito foi alvo de diversos questionamentos a começar pelo fato de que, novamente, o relato bíblico não responde a todas as perguntas dos historiadores e, portanto, é encarado mais como uma mito de criação, um mito que mais deu certo sentido à história hebraica do que necessariamente verdade histórica. Karen Armstrong fala que a história do Êxodo é mais um mito que demonstra um surgimento do povo e da nação de Israel|3|.

Não se sabe se essa migração aconteceu em grande número ou se apenas algumas tribos migraram. Acredita-se que a chegada dos hebreus ao Egito coincidiu com o momento em que os hicsos dominavam a região, o que garantiu uma boa recepção aos hebreus. Fala-se até de uma possível cooperação hebraica com os hicsos, e a expulsão deles acabou sendo prejudicial aos hebreus, uma vez que os egípcios supostamente teriam decidido vingar-se, escravizando todos os hebreus. Essa escravização teria se mantido até 1300 a.C., quando Moisés surgiu como libertador.

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Retorno e conquista de Canaã

Uma vez libertos, os hebreus retornaram a Canaã, evento esse conhecido como Êxodo. Historicamente, é impossível comprovar se essa migração teve, de fato, o grande número de pessoas conforme consta no relato bíblico. Acredita-se que a migração hebraica aconteceu, mas que teria sido mitificada.

O retorno a Canaã contou com um breve período em que os hebreus viveram como nômades na Península do Sinai. Quando chegaram em Canaã, encontraram a região ocupada pelos cananeus e pelos filisteus. Foi iniciada, então, de acordo com a narrativa bíblica, a campanha de conquista dessa terra.

A Bíblia aponta para uma campanha verdadeiramente militar, mas os historiadores sugerem que essa retomada de Canaã aconteceu de maneira mais lenta e menos impactante. O escritor André Chouraqui, por exemplo, aponta que a penetração israelita foi bem mais sutil, uma vez que militarmente o impacto não surtiu grandes efeitos|4|.

Já Karen Armstrong fala que os historiadores apontam a não existência de indícios que comprovem uma invasão israelita em larga escala. Outras evidências apontam para o surgimento de aldeias por volta de 1200 a.C ao norte de Jerusalém. Outros historiadores sugerem que houve uma conquista, mas ela não foi total, e existem também historiadores que sugerem que Israel surgiu no interior da sociedade cananeia|1|.

Por fim, essa presença hebraica em Canaã resultou na criação de Israel. Esse foi o período dos juízes, uma vez que a grande autoridade dos hebreus era chefes militares conhecidos como juízes.

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Monarquia hebraica

O último juiz hebreu teria sido Samuel, que, no final do século XI a.C., decidiu inaugurar a monarquia hebraica. A explicação para o surgimento da monarquia está relacionada com o enfraquecimento de assírios e egípcios. O enfraquecimento desses povos permitiu que outros povos se colocassem como ameaça aos hebreus, como os amonitas e os moabitas, além dos filisteus.

Surgiu, dessa forma, a necessidade de uma liderança forte, e a monarquia, com a nomeação de um rei, foi a saída encontrada para garantir a proteção do povo hebreu. A monarquia hebraica teria três grandes reis:

  • Saul (1030-1010 a.C.)

  • Davi (1010-970 a.C.)

  • Salomão (970-930 a.C.)

Os destaques da monarquia hebraica são as conquistas militares realizadas por Saul, embora a grande conquista militar dos hebreus tenha sido realizada no reinado de Davi, por volta do ano 1000 a.C. A cidade de Jebus, capital dos jebuseus, foi conquistada e renomeada como Ir Davi. Não se sabe se a conquista de Jebus deu-se por meio de uma campanha militar ou por meio de um golpe palaciano. Atualmente, conhecemos essa cidade como Jerusalém.

Davi idealizou o Templo de Jerusalém um lugar sagrado para os hebreus, mas quem realizou a construção desse templo foi o rei Salomão. O reinado de Salomão é considerado um período de prosperidade para os hebreus, uma vez que eles gozavam de um comércio próspero e de uma grande segurança garantida pelos exércitos hebraicos.

Diáspora

Depois do reinado de Salomão, o Reino de Israel enfraqueceu-se e, dividido em dois reinos, Judá e Israel, foi conquistado por uma sucessão de povos:

A conquista pelos caldeus, por exemplo, resultou na primeira destruição do templo e na escravização dos hebreus na Babilônia.

A segunda destruição do templo aconteceu durante o domínio romano, uma vez que os hebreus nunca aceitaram a presença romana e constantemente rebelavam-se. A procura pela independência dos hebreus teria sido um dos grandes assuntos da Palestina durante os tempos de Jesus, e acredita-se que sua traição foi pelo fato de que ele não quis aderir a uma revolta contra os romanos.

Os conflitos contra os romanos transformaram-se em guerras conhecidas como Guerras Romano-Judaicas. O Templo de Jerusalém passou pela sua segunda destruição em 70 d.C., e a repressão romana contra os judeus na Palestina foi tão grande que os hebreus começaram a fugir da região. Essa fuga recebeu o nome de diáspora.

Notas

|1| ARMSTRONG, Karen. Jerusalém: uma cidade, três religiões. São Paulo: Companhia das Letras, 2000, p. 46-47.

|2| Idem, p. 47.

|3| Idem, p. 54.

|4| CHOURAQUI, André. Os homens da Bíbia. São Paulo: Companhia das Letras, 1990, p. 38-39.

|5| ARMSTRONG, Karen. Jerusalém: uma cidade, três religiões. São Paulo: Companhia das Letras, 2000, p. 44-45.

Crédito da imagem

[1] jorisvo / Shutterstock

 

Por Daniel Neves Silva
Professor de História

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