Stalinismo

História Geral

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O stalinismo é definido pelos historiadores como um regime totalitário que existiu na União Soviética, entre 1927 e 1953, e foi construído pelo líder do país Josef Stalin. Esse governo realizou transformações profundas, na URSS, e realizou uma implacável perseguição aos seus opositores.

A coletivização das terras soviéticas, a industrialização do país, a perseguição aos opositores por meio dos expurgos e a resistência ferrenha contra os nazistas durante a Segunda Guerra Mundial foram acontecimentos marcantes durante esse período. Os crimes cometidos durante o stalinismo só foram denunciados após a morte de Stalin.

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Características do stalinismo

O consenso dos historiadores é que o stalinismo foi um regime totalitário. Algumas das características básicas desse governo são:

  • Economia controlada inteiramente pelo Estado;
  • Governo discricionário, baseado unicamente nas vontades do líder;
  • Culto à personalidade de Stalin;
  • Criação de um grande aparato de propaganda política;
  • Criação de um regime de terror que impôs perseguição aos opositores do regime;
  • Perseguição à religião;
  • Militarização da sociedade;
  • Burocratização do serviço público;
  • Imposição de censura etc.
O culto ao líder era uma característica forte do stalinismo e todas as repartições públicas tinham uma imagem de Stalin.[1]
O culto ao líder era uma característica forte do stalinismo e todas as repartições públicas tinham uma imagem de Stalin.[1]

Disputa pelo poder

Os historiadores consideram que Stalin tornou-se governante efetivo da União Soviética a partir de 1927. A disputa pelo poder foi iniciada quando a saúde de Lenin começou a se deteriorar, entre 1922 e 1923, por conta de um derrame. Naquele momento, quatro postulantes disputavam a posição de novo secretário-geral da União Soviética: Stalin, Kamenev, Zinoviev e Trotsky.

Nesse momento, Stalin já tinha uma posição privilegiada no interior do partido, mas não era o favorito de Lenin. O historiador William P. Husband afirma que, antes de morrer, Lenin  preocupava-se com a possibilidade de Stalin ser o seu sucessor por ser muito rude|1|. Após quatro anos de disputa pelo poder, Stalin firmou-se no poder ao garantir a expulsão de seus adversários do partido.

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Uma vez estabelecido enquanto figura incontestável no poder, Stalin começou a realizar as mudanças que desejava fazer. Seus focos foram acabar com as classes sociais, voltando-se contra os ricos, industrializar a União Soviética, planificar a economia e silenciar seus opositores.  Iniciava-se então o stalinismo.

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Economia stalinista

A economia stalinista era uma economia inteiramente planificada, ou seja, estava concentrada nas mãos do Estado. Stalin interveio diretamente na agricultura, realizando transformações profundas nessa área e investiu maciçamente na industrializando exigindo um grande esforço da população nos dois casos.

  • Plano Quinquenal

Quando Stalin assumiu o poder, em 1927, a indústria soviética ainda era frágil e, por isso, Stalin impôs um plano que cobrava um grande esforço de todo o país para promover uma industrialização em escala acelerada. O plano de industrialização da União Soviética ficou conhecido como Plano Quinquenal, um plano que criava metas que o país deveria alcançar a cada cinco anos.

O primeiro plano quinquenal foi lançado em 1929 e substituiu a Nova Política Econômica, o antigo plano econômico soviético. Stalin aboliu as iniciativas de abertura da economia soviética para o capital privado, voltou-se contra as classes sociais mais ricas, aumentou impostos de empresas privadas e passou a exigir um grande esforço dos trabalhadores para promover a industrialização.

O Plano Quinquenal priorizou o desenvolvimento de áreas relacionadas à indústria pesada, como a metalurgia e siderurgia, além de dar grande atenção para a extração de combustíveis fósseis e para a produção de energia elétrica. O Estado soviético passou a cobrar que metas extremamente exigentes fossem alcançadas e isso exigiu um esforço enorme dos trabalhadores.

O historiador Eric Hobsbawm define que as exigências feitas pelo governo stalinista exigiam “sangue, esforço, lágrimas e suor” da população soviética|2|. O grande esforço pela industrialização, por sua vez, gerou milhões de novos empregos e aumentou a quantidade de proletários na União Soviética, o grupo que mais apoiava o regime.

Apesar das duras exigências, os resultados, porém, foram expressivos, e a produção industrial da União Soviética aumentou consideravelmente. O sucesso dos planos quinquenais foi tão grande que, em poucos anos, a União Soviética tinha se transformado em uma grande potência industrial. O poderio industrial e o grau de exigência dos trabalhadores soviéticos durante o stalinismo foram percebidos, principalmente, nos anos da guerra.

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  • Coletivização da terra

Trabalhadores do Turcomenistão recebendo sua parte em dinheiro referente ao seu trabalho em uma fazenda coletiva.
Trabalhadores do Turcomenistão recebendo sua parte em dinheiro referente ao seu trabalho em uma fazenda coletiva.

A coletivização da terra foi outro grande esforço realizado pelo Estado stalinista no âmbito da agricultura. Revolucionou-se a forma como a produção agrícola acontecia e atacou-se as classes de camponeses ricos que existiam no interior soviético. A coletivização da terra foi feita à força, e a resistência a esse processo foi tratada com brutalidade.

A coletivização da terra foi imposta junto do primeiro Plano Quinquenal, em 1929, e pode ser definida, basicamente, como processo de expropriação de terra, abolindo a propriedade privada no campo e transformando tudo em propriedade do Estado. A função dos camponeses era a de aderir às terras tomadas pelo Estado e alcançar as metas de produção estabelecida.

As terras tomadas eram transformadas em fazendas coletivas e tudo que existia nelas, como as ferramentas, as sementes e o gado, pertenciam ao Estado. A tomada de terras gerou resistência, sobretudo dos camponeses ricos, conhecidos como kulaks. Essa oposição ao processo de coletivização foi tão grande que só na Ucrânia foram registrados quase 1 milhão de atos contrários, só no ano de 1930 |3|.

A ação de Stalin contra os kulaks era simples: o desejo era acabar com essa classe. Quanto mais eles resistiam, mais dura tornava-se a ação estatal, e as medidas tomadas pelo Estado contra essa classe foram de colocá-los para trabalhar em terras inferiores, transferi-los para locais longe de suas casas ou enviá-los para campos de trabalho forçado, caso resistissem.

O historiador Timothy Snyder afirma que, no total, cerca de 1,7 milhão de kulaks foram deportados para campos de concentração|4|, e Lewis Siegelbaum afirma que cerca de 3 milhões de pessoas passaram por um processo de deskulakização|5|. Algo importante a ser abordado é que, do ponto de vista do governo stalinista, qualquer camponês que resistia à coletivização era considerado um kulak.

A coletivização foi, no entanto, desastrosa. As metas estipuladas eram tão altas que, frequentemente, os camponeses tinham suas sementes tomadas pelo Estado. Além disso, as fazendas coletivas mostraram-se, em grande parte, não tão produtivas quanto se esperava. O resultado óbvio disso foi a fome.

Os historiadores discutem se a fome causada pela coletivização foi proposital ou não, e o historiador Timothy Snyder sugere que, pelo menos no caso ucraniano, a fome foi proposital. O objetivo disso era enfraquecer a população para acabar com qualquer tipo de oposição às políticas stalinistas.

O resultado da Grande Fome que atingiu a União Soviética foi terrível, e Timothy Snyder aponta que, até 1933, cerca de 5,5 milhões de pessoas haviam morrido de fome e aproximadamente metade dessas mortes aconteceu só na Ucrânia|6|. Essa fome que levou à morte de milhões de ucranianos ficou conhecida como Holodomor.

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Grande Terror

O Grande Terror é a fase do stalinismo que se estendeu de 1936 a 1939 e também é conhecida como Grande Expurgo. Mas é importante frisar que os expurgos stalinistas não aconteceram exclusivamente nesse período, eles aconteceram durante todos os anos do stalinismo, mas foram maiores nesse período citado.

Os expurgos realizados no stalinismo eram ações dignas do “autocrata de ferocidade, crueldade e falta de escrúpulos excepcionais” que era Stalin na definição de Eric Hobsbawm|7|. Os expurgos promovidos durante o stalinismo tinham como grande objetivo eliminar elementos não-marxistas, eliminar minorias étnicas que resistiam ao poder de Moscou e eliminar a oposição no interior do partido.

Aconteceram expurgos contra a intelligentsia, as elites intelectuais que ocupavam postos de comando, mas que não eram da classe proletária. Houve também expurgos em locais, como a Ucrânia contra a minoria polonesa, houve expurgos no campo, no interior do partido, no exército soviético etc.

Esses expurgos poderiam resultar no envio de pessoas para as gulags, campos de trabalho forçado que eram construídos em locais remotos da Sibéria e do Cazaquistão. Outros, porém, eram rapidamente executados pela NKVD, a polícia secreta soviética. O saldo de execuções durante todos os anos de stalinismo ultrapassaram a casa dos milhões, mas, durante o Grande Terror, esse número foi de 681.692, segundo Timothy Snyder|8|, e 685.660, segundo Lewis Siegelbaum|9|.

Os historiadores discutem as motivações de Stalin ao ter promovido essa quantidade gigantesca de expurgos, e dois eixos apontam dois motivos: destruir qualquer tipo de oposição ao seu regime, fosse ela motivada por questões econômica, políticas, étnicas, ideológicas etc., fosse para acabar com a burocratização no interior do Estado soviético.

Eric Hobsbawm sugere que, durante os anos de stalinismo, o governo tenha sido responsável pela morte direta de 10 a 20 milhões de pessoas e apresenta um dado que aponta que a população soviética em 1937 era 16,7 milhões menor do que o previsto pelo governo, o que sugere que até esse ano, o número de mortes causadas pelo governo pode ter sido aproximadamente essa.

Segunda Guerra Mundial

A Segunda Guerra Mundial foi um capítulo especial da história do stalinismo. Poucas vezes na história, o mundo presenciou uma mobilização tão grande na defesa de uma terra contra um inimigo em comum. Os soviéticos chamam a Segunda Guerra Mundial de Grande Guerra Patriótica e, no conflito contra os alemães, os soviéticos mostraram seu poder de resistência e Stalin mostrou por que se autodenominou de “feito de ferro”. Ele teve nervos para aguentar toda a pressão da guerra, mas também exigiu um enorme sacrifício dos soviéticos.

A guerra entre alemães e soviéticos era algo iminente, apesar da existência de um acordo de não agressão entre os dois países. Stalin imaginava que o ataque viria em meados de 1942 e, por conta disso, ignorou diversos avisos acerca dos planos alemães para invadir o território soviético já em 1941. O historiador Antony Beevor alega que Stalin ignorou, provavelmente, mais de 100 advertências de que o ataque alemão era iminente já em 1941|10|.

Jornal soviético informando do início da guerra entre Alemanha e URSS.[2]
Jornal soviético informando do início da guerra entre Alemanha e URSS.[2]

Os alemães, por sua vez, animados pelas conquistas realizadas entre 1939 e 1941, realizaram um grande esforço para lançar o ataque contra os soviéticos em junho de 1941. A ideia era conquistar a URSS em até 12 semanas. O ataque foi organizado na Operação Barbarossa e mobilizou mais de 3 milhões de soldados, além de blindados, peças de artilharia e aviação de guerra.

Os soviéticos foram pegos despreparados e, por isso, os alemães avançaram continuamente pelo território soviético no verão de 1941. Em meados de dezembro, o ataque alemão tinha perdido força e a resistência soviética começou a equiparar-se com a força dos ataques alemães. Instigados por Stalin, os soviéticos transferiram milhares de indústrias do oeste soviético para a região dos Urais e milhões de soviéticos foram convocados das regiões mais inóspitas possíveis.

Com a capacidade industrial em crescimento, graças à mobilização de mulheres para trabalhar nas fábricas, e um volume gigantesco de soldados utilizados, os soviéticos – a um custo altíssimo – expulsaram os alemães de seus territórios. No auge, os soviéticos mantiveram mais de 11 milhões de soldados no front, e o custo da guerra cobrou dos soviéticos cerca de 25 milhões de vidas entre soldados e civis.

Em abril de 1945, no entanto, os soviéticos entravam em Berlim para derrubar o nazismo e, depois de semanas de batalha, conquistaram a capital alemã e colocavam fim ao nazismo. O esforço dos soviéticos venceu a guerra e somente aquela sociedade brutalizada após anos de stalinismo e décadas de privações seria capaz de suportar as exigências de Stalin e da guerra.

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Morte de Stalin

Stalin faleceu em 5 de março de 1953, vítima de um derrame cerebral.[3]
Stalin faleceu em 5 de março de 1953, vítima de um derrame cerebral.[3]

O stalinismo foi um regime construído de acordo com as vontades e os objetivos de Stalin. Quando o ditador soviético morreu, algumas das características desse regime permaneceram em vigor na União Soviética, outras, no entanto, foram abandonadas quando os crimes de Stalin foram denunciados e o culto à personalidade dele teve fim.

Os últimos anos de vida de Stalin foram marcados por grande culto à personalidade, uma vez que a vitória na guerra trouxe grande popularidade ao líder. Mesmo nos últimos anos do stalinismo, os expurgos continuaram e, após a Segunda Guerra, um dos grupos que começou a sofrer com a perseguição foram os judeus.

Stalin faleceu, no dia 5 de março, em decorrência de um derrame cerebral. A morte do líder comoveu a URSS, e seu funeral contou com a presença de milhares de pessoas. O líder que assumiu a URSS depois da morte de Stalin foi Nikita Kruschev, o responsável por denunciar os crimes cometidos pelo stalinismo.

Notas

|1| HUSBAND, William B. A Nova Política Econômica (NPE) e a experiência revolucionária. A construção do Estalinismo. In.: FREEZE, Gregory L. (org.). História da Rússia. Lisboa: Edições 70, 2017, p. 335.

|2| HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos: o breve século XX 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p. 371.

|3| SNYDER, Timothy. Terras de Sangue: a Europa entre Hitler e Stalin. Record: Rio de Janeiro, 2012, p. 57.

|4| Idem, p. 53.

|5| SIEGELBAUM, Lewis. A construção do Estalinismo. In.: FREEZE, Gregory L. (org.). História da Rússia. Lisboa: Edições 70, 2017, p. 371.

|6| SNYDER, Timothy. Terras de Sangue: a Europa entre Hitler e Stalin. Record: Rio de Janeiro, 2012, p. 83-84.

|7| HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos: o breve século XX 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p. 371.

|8| SNYDER, Timothy. Terras de Sangue: a Europa entre Hitler e Stalin. Record: Rio de Janeiro, 2012, p. 143.

|9| SIEGELBAUM, Lewis. A construção do Estalinismo. In.: FREEZE, Gregory L. (org.). História da Rússia. Lisboa: Edições 70, 2017, p. 389.

|10| BEEVOR, Antony. A Segunda Guerra Mundial. Rio de Janeiro: Record, 2015, p. 216.

Créditos das imagens

[1] Tanya Kalian/Shutterstock

[2] Oleg Golovnev/Shutterstock

[3] chrisdorney/Shutterstock

 

Por Daniel Neves Silva
Professor de História

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SILVA, Daniel Neves. "Stalinismo"; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/historiag/governo-stalin.htm. Acesso em 20 de outubro de 2020.

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Lista de Exercícios
Questão 1

(PUC-SP) O Estado soviético, formado após a Revolução Russa, cuidou de expurgar da cultura deste país toda e qualquer manifestação artística que estivesse, no entendimento das autoridades, associada ao chamado “espírito burguês”. Foi criada, então, uma política cultural que decretava como arte oficial apenas as expressões que servissem de estímulo para a ideologia do proletariado. Dessa forma, foi consagrado um estilo conhecido por:

  1. expressionismo soviético – que, através de uma orientação estética intimista, procurava expor a “alma inquieta dos povos eslavos”, que passaram a integrar a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.
  2. abstracionismo proletário – que, através da decomposição geométrica do real, exprimia a “ordenação sincrônica da sociedade comunista”.
  3. realismo socialista – que, através de composições didáticas, esteticamente simplificadas, procurava enaltecer a “combatividade, a capacidade de trabalho e a consciência social” do povo soviético.
  4. romantismo comunista – que, através de um figurativismo apenas sugestivo, procurava realizar a “idealização do mujique”, o camponês russo típico, como representante das raízes culturais russas.
  5. concretismo operário – que, através de uma concepção criadora autônoma – não resultante de modelos –, utilizava elementos visuais e táteis, com o objetivo de mostrar a “prevalência do concreto sobre o abstrato” – ideia básica do materialismo dialético.

Questão 2

(PUCSP) A disputa pelo poder na União Soviética entre Trotsky e Stálin, após a morte de Lênin, em 1924, teve como eixo a discussão sobre:

  1. a expansão ou não da revolução socialista mundial como forma de consolidar internamente o regime.
  2. a questão da autonomia das nacionalidades da Rússia Branca.
  3. as propostas de priorizar os investimentos sociais sobre as necessidades da industrialização.
  4. a extinção dos planos quinquenais, sobretudo os relativos à coletivização.
  5. o poder dos sovietes de soldados e camponeses na administração provincial.

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