Hipérbole

Gramática

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A hipérbole é uma figura de pensamento que se caracteriza pelo exagero proposital em uma declaração. Ela pode ser identificada em falas do cotidiano, em textos literários ou artísticos e também na propaganda. Essa figura de linguagem tem caráter emotivo e busca enfatizar determinado fato ou situação por meio da deformação da realidade, já que extrapola o sentido original do texto.

Leia também: Figura de pensamento: litote

Características da hipérbole

A hipérbole é uma figura de pensamento, já que o sentido figurado reside na ideia sugerida. Assim, ela consiste no exagero proposital em uma afirmação. Daí o adjetivo “hiperbólico”, isto é, exagerado, excessivo. A hipérbole caracteriza-se pelo tom dramático da declaração, portanto é emotiva e enfática, e pelo seu caráter de distorção da realidade.

O exagero é o que caracteriza a hipérbole.
O exagero é o que caracteriza a hipérbole.

Dessa forma, ela pode ser usada nos discursos do cotidiano, para maior expressividade da ideia do enunciador, como também na propaganda, com propósitos mercantilistas ou ideológicos, além de ser usada em textos literários ou artísticos em geral, fantásticos ou não, para enfatizar, menosprezar, criticar ou encantar, entre outros objetivos.

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Exemplos de hipérbole

No cotidiano, usamos hipérboles como:

Faz uma hora que estou esperando esse ônibus.

Quando, na verdade, o enunciador dessa frase está no ponto de ônibus há apenas cinco minutos.

Já falei um milhão de vezes que não quero que você faça isso, meu filho!

Na realidade, é a segunda vez que a mãe ou pai adverte o filho.

Vou morrer de tanto estudar!

Assim, o enunciador quer enfatizar o fato de que está estudando bastante.

Para ilustrar o uso da hipérbole em um texto literário, vamos ler alguns trechos da letra da música “Exagerado”, de Cazuza, Leoni e Ezequiel Neves, do álbum Exagerado, de 1985:

Exagerado

Amor da minha vida
Daqui até a eternidade
Nossos destinos
Foram traçados na maternidade

Paixão cruel, desenfreada
Te trago mil rosas roubadas
Pra desculpar minhas mentiras
Minhas mancadas

[...]

Eu nunca mais vou respirar
Se você não me notar
Eu posso até morrer de fome
Se você não me amar

[...]

Assim, podemos apontar as hipérboles: “mil rosas roubadas”, “nunca mais vou respirar” e “morrer de fome”, que são expressões exageradas condizentes com o título da canção, que descreve uma pessoa exagerada quando o assunto é amor.

Já no contexto da propaganda, veja esta campanha da prefeitura de Belo Horizonte contra a dengue[1]:

Nessa propaganda, a hipérbole é não verbal, pois não está no texto escrito, mas na imagem do mosquito-da-dengue, que cresceu a ponto de estar maior do que garrafas e pneus. É claro que o objetivo é mostrar, de forma enfática, o tamanho do perigo caso cidadãs e cidadãos não tomem os devidos cuidados.

Veja também: Pleonasmos viciosos mais comuns da língua portuguesa

Exercícios resolvidos

Questão 1 - (UFJF)

Texto: “Retrato próprio”, de Manuel Maria du Bocage.

Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,

Triste de face, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno:

Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura;

Bebendo em níveas mãos por taça escura
De zelos infernais letal veneno:

Devoto incensador de mil deidades
(Digo, de moças mil) num só momento,

E somente no altar amando os frades:

Eis Bocage, em quem luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdades

Num dia em que se achou mais pachorrento.

BOCAGE, Manuel Maria Barbosa du. Poemas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015. p. 130.

O texto faz uso de alguns recursos estilísticos, tais como:

a) Metonímia — “Saíram dele mesmo estas verdades”.

b) Metáfora — “Triste de face, o mesmo de figura”.

c) Antítese — “Bem servido de pés, meão na altura”.

d) Prosopopeia — “Bebendo em níveas mãos por taça escura”.

e) Hipérbole — “(Digo, de moças mil) num só momento”.

Resolução

Alternativa E.

A expressão “moças mil” se configura em uma hipérbole.

Questão 2 - (Unimontes)

A minha glória literária

Rubem Braga

Quando a alma vibra, atormentada...”

Tremi de emoção ao ver essas palavras impressas. E lá estava o meu nome, que pela primeira vez eu via em letra de fôrma. O jornal era O Itapemirim, órgão oficial do Grêmio Domingos Martins, dos alunos do Colégio Pedro Palácios, de Cachoeiro de Itapemirim, Estado do Espírito Santo.

O professor de Português passara uma composição: A Lágrima. Não tive dúvidas: peguei a pena e me pus a dizer coisas sublimes. Ganhei 10, e ainda por cima a composição foi publicada no jornalzinho do colégio. Não era para menos:

Quando a alma vibra, atormentada, às pulsações de um coração amargurado pelo peso da desgraça, este, numa explosão irremediável, num desabafo sincero de infortúnios, angústias e mágoas indefiníveis, externa-se, oprimido, por uma gota de água ardente como o desejo e consoladora como a esperança; e esta pérola de amargura arrebatada pela dor ao oceano tumultuoso da alma dilacerada é a própria essência do sofrimento: é a lágrima.”

É claro que eu não parava aí. Vêm, depois, outras belezas; eu chamo a lágrima de “traidora inconsciente dos segredos d’alma”, descubro que ela “amolece os corações mais duros” e também (o que é mais estranho) “endurece os corações mais moles”. E acabo, com certo exagero, dizendo que ela foi “sempre, através da História, a realizadora dos maiores empreendimentos, a salvadora miraculosa de cidades e nações, talismã encantado de vingança e crime, de brandura e perdão”.

Sim, eu era um pouco exagerado; hoje não me arriscaria a afirmar tantas coisas. Mas o importante é que minha composição abafara e tanto que não faltou um colega despeitado que pusesse em dúvida a sua autoria: eu devia ter copiado aquilo de algum almanaque.

A suspeita tinha seus motivos: tímido e mal falante, meio emburrado na conversa, eu não parecia capaz de tamanha eloquência. O fato é que a suspeita não me feriu, antes me orgulhou; e a recebi com desdém, sem sequer desmentir a acusação. Veriam, eu sabia escrever coisas loucas; dispunha secretamente de um imenso estoque de “corações amargurados”, “pérolas da amargura” e “talismãs encantados” para embasbacar os incréus; veriam...

Uma semana depois, o professor mandou que nós todos escrevêssemos sobre a Bandeira Nacional. Foi então que — dá-lhe Braga! — meti uma bossa que deixou todos maravilhados. Minha composição tinha poucas linhas, mas era nada menos que uma paráfrase do Padre-Nosso, que começava assim: “Bandeira nossa, que estais no céu...”

Não me lembro do resto, mas era divino. Ganhei novamente 10, e o professor fez questão de ler, ele mesmo, a minha obrinha para a classe estupefata. Essa composição não foi publicada porque O Itapemirim deixara de sair, mas duas meninas — glória suave! — tiraram cópias, porque acharam uma beleza.

Foi logo depois das férias de junho que o professor passou nova composição: Amanhecer na Fazenda. Ora, eu tinha passado uns quinze dias na Boa Esperança, fazenda de meu tio Cristóvão, e estava muito bem informado sobre os amanheceres da mesma. Peguei da pena e fui contando com a maior facilidade. Passarinhos, galinhas, patos, uma negra jogando milho para as galinhas e os patos, um menino tirando leite da vaca, vaca mugindo... e, no fim, achei que ficava bonito, para fazer pendant com essa vaca mugindo (assim como “consoladora como a esperança” combinara com “ardente como o desejo”), um “burro zurrando”. Depois fiz parágrafo, e repeti o mesmo zurro com um advérbio de modo, para fecho de ouro: “Um burro zurrando escandalosamente.”

Foi minha desgraça. O professor disse que daquela vez o senhor Braga o havia decepcionado, não tinha levado a sério seu dever e não merecia uma nota maior do que 5; e para mostrar como era ruim minha composição leu aquele final: “um burro zurrando escandalosamente”.

Foi uma gargalhada geral dos alunos, uma gargalhada que era uma grande vaia cruel. Sorri amarelo. Minha glória literária fora por água abaixo.

Do livro Ai de Ti Copacabana, Ed. Record, São Paulo: 1996.

Entre as figuras de linguagem, a única que NÃO aparece representada na redação do estudante é a/o

a) hipérbole.

b) eufemismo.

c) metáfora.

d) comparação.

Resolução

Alternativa B.

Na redação, temos hipérbole (“oceano tumultuoso da alma dilacerada”), metáfora (“pérola de amargura”) e comparação (“gota de água ardente como o desejo”). No entanto, não há a presença de eufemismo, figura caracterizada por amenizar a informação.

Questão 3 - Marque a alternativa em que se verifica a presença de uma hipérbole.

a) Há dois dias que um calor infernal toma conta de toda a cidade.

b) As declarações eram bastante exageradas, mas muito pertinentes.

c) O excesso de confiança fez com que ele não suportasse a derrota.

d) O Monte Vesúvio lançou lava e cinza sobre a cidade de Pompeia.

e) Ele descobriu que uma rosa delicada batia dentro de seu peito.

Resolução:

Alternativa A.

A expressão “calor infernal”, dado o seu caráter exagerado, é uma hipérbole.

Crédito da imagem

[1] Prefeitura de Belo Horizonte (Reprodução)


Por Warley Souza
Professor de Literatura 

Gostaria de fazer a referência deste texto em um trabalho escolar ou acadêmico? Veja:

SOUZA, Warley. "Hipérbole"; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/gramatica/hiperbole.htm. Acesso em 14 de julho de 2020.