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Papa-figo ou homem do saco

A lenda do papa-figo ou homem do saco é uma das mais populares do folclore brasileiro. Ela é contada ainda hoje para crianças de várias partes do mundo.

Representação do homem do saco, ou papa-figo, carregando uma criança. Espanha, 2016.
O homem do saco se tornou popularmente conhecido como papa-figo a partir de um crime real ocorrido na Espanha, em 1910.[1]
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O papa-figo ou homem do saco pode ser chamado ainda de velho do saco, dependendo da região do Brasil. Sua lenda é contada em todo o mundo, há muitos séculos. Segundo ela, um ser com características antropomórficas perambula pelas ruas carregando um saco, raptando crianças que foram desobedientes e praticando maldades contra elas.

O papa-figo pode ser também um homem poderoso e doente, que devora as crianças para curar a sua doença. Um crime brutal cometido contra uma criança em 1910, na Espanha, pode ter originado o nome “papa-fígado”, que ficou popular no Nordeste do Brasil.

Leia também: Bicho-papão — outra figura do imaginário popular que ainda hoje amedronta crianças

Tópicos deste artigo

Resumo sobre papa-figo ou homem do saco

  • A lenda do homem do saco, chamado em algumas regiões como papa-figo, é parte do folclore brasileiro, sendo uma das lendas mais populares do país.

  • Em todos os continentes, é contada a lenda de um homem com um saco que rapta crianças desobedientes, punindo-as.

  • O Crime de Gádor, praticado em 1910, popularizou a lenda do homem do saco e originou o nome papa-fígado, que no Brasil se tornou papa-figo.

  • O papa-figo é geralmente representado como um homem rico, que sofre de alguma doença e que, acreditando que será curado, rapta crianças para beber seu sangue e devorar seu fígado.

Qual é a lenda do papa-figo?

O homem do saco, chamado em alguns lugares de papa-figo, é um ser que atua geralmente durante a noite, raptando crianças desobedientes, assassinando-as, bebendo seu sangue e devorando seu fígado, daí seu nome, papa-figo, de papa-fígado.

Muitas vezes, o papa-figo é uma pessoa de grande poder econômico, que sofre de uma doença, como tuberculose ou hanseníase, e que faz qualquer coisa para tentar curá-la, inclusive assassinar, ingerir o sangue e se alimentar de partes dos corpos de crianças.

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Qual é a aparência do papa-figo?

O papa-figo é descrito de forma diferente pelo território brasileiro, mas, em todas as versões, ele é representado como um homem que carrega um saco nas suas costas. Ele pode aparecer com um homem comum, geralmente um idoso, ou como um ser com garras e longos dentes.

No início do século XX, no Brasil, o papa-figo passou a ser associado a pessoas com hanseníase, doença chamada na época de lepra. A lenda ajudou a piorar a estigmatização com a qual pessoas com a doença viviam no período. Câmara Cascudo, um dos principais pesquisadores brasileiros do folclore, apontou que o homem do saco podia ser descrito como um velho negro, sujo, vestido em farrapos e que raptava crianças para vendê-las para pessoas ricas que sofriam com a lepra.

Também podia ser descrito como um sujeito pálido, com barba por fazer e que atraía as crianças com presentes, como doces e brinquedos, levando-as para lugares ermos, assassinando-as e posteriormente se alimentando de seu sangue e fígado.

Veja também: As lendas mais famosas da região Norte do Brasil

Origem da lenda do papa-figo ou homem do saco

Desde a Idade Média, existem relatos de um homem do saco que capturava crianças desobedientes. A lenda ainda hoje é utilizada para amedrontar as crianças, fazendo com que elas obedeçam às ordens dos adultos, evitando que frequentem lugares perigosos, que pratiquem ações que possam colocá-las em risco ou que acompanhem pessoas estranhas.

Existem representações desse mito em algumas pinturas do século XVIII, entre elas a do artista alemão Abraham Bach de Ältere. Na obra, Ältere compôs um homem, com um saco cheio de crianças, se aproximando de uma residência. Uma criança corre para uma mulher adulta, buscando se proteger desse homem do saco.

Xilogravura do século XVIII, de Abraham Bach de Ältere, representando o homem do saco.
Xilogravura do século XVIII, de Abraham Bach de Ältere, representando o homem do saco.

Foi no início do século XX que o homem do saco também passou a ser chamado de papa-figo. Acredita-se que isso ocorreu por causa de um crime real conhecido como Crime de Gádor. Em 1910, em Gádor, na Espanha, o menino Bernardo González Parra, de sete anos, foi raptado por Francisco Leona. Para isso, Leona havia recebido dinheiro de Francisco Ortega, um homem rico que sofria de tuberculose.

Ao visitar uma curandeira chamada Agustina Rodriguez, ela informou a Ortega que ele só seria curado se ingerisse sangue de uma criança e passasse a gordura dela em seu próprio peito. Por isso, Francisco Ortega pagou Francisco Leona para sequestrar o pequeno Bernardo.

Leona fez a criança perder os sentidos com clorofórmio e a colocou dentro de um saco de juta, levando-a para a propriedade do patrão. Como previa o plano, o menino foi assassinado, e Ortega bebeu o seu sangue. A gordura do menino foi retirada e com ela foi feito um unguento que foi aplicado no peito do doente.

Após o desaparecimento de Bernardo, a polícia foi avisada e acabou encontrando os responsáveis pelo crime. Francisco Ortega, o patrão; Francisco Leona, o homem que capturou e assassinou o menino; e a curandeira Agustina Rodriguez foram condenados à morte pelo crime. A partir desse evento, o homem do saco passou a ser chamado de papa-fígado em alguns lugares, sobretudo no Nordeste do Brasil, onde se tornou papa-figo.

Filmes sobre papa-figo ou homem do saco

Em 2018, foi lançado o curta-metragem brasileiro chamado Papa-figo. O curta de aproximadamente 15 minutos conta a história de duas crianças que são atormentadas pelo personagem do folclore brasileiro. O elenco conta com Chiara Scalett, como Bia; Herbert Richers Jr., como o Homem do Saco; e Vitor Abate, como Thiago. O curta-metragem recebeu diversos prêmios nacionais e internacionais.

Em 2019 estreou o longa-metragem Recife assombrado, produzido pela Viu Cine. O filme se passa na capital de Pernambuco, onde o personagem principal, Hermano, procura seu irmão, enfrentando diversos personagens do folclore brasileiro, entre eles o papa-figo. O filme conta com os atores Daniel Rocha, Márcio Fecher, e Rayza Alcântara, e foi dirigido por Adriano Portela.

Saiba mais: Conde Drácula — a terrível história por trás de uma das mais famosas lendas do mundo

Curiosidades sobre o papa-figo e outras versões da lenda

  • Sack man: a lenda de um homem ou um ser que captura crianças desobedientes e as coloca em um saco para lhes causar danos é contada em todo o planeta. Nos países de língua inglesa, ele é chamado de sack man.

  • Krampus: em diversas regiões da Europa, sobretudo nas regiões alpinas, é comum a lenda de Krampus, personagem que atua em conjunto com São Nicolau, o Papai Noel. Ele é uma figura antropomórfica, peluda, com cauda e com chifres. Ele castiga com varadas ou com o rapto as crianças que não se comportaram bem durante o ano. Já Papai Noel entrega presentes para as crianças que se comportaram bem.

Krampus, versão europeia do homem do saco, em cartão de Natal de 1900 com a mensagem: “Saudações de Krampus!”.
Krampus, versão europeia do homem do saco, em cartão de Natal de 1900 com a mensagem: “Saudações de Krampus!”.
  • Robachicos: no folclore mexicano, existe o robachicos, personagem popular que se assemelha muito ao homem do saco. Ele rapta principalmente crianças que não voltam para a casa na hora correta ou na hora do jantar.

  • Antjie somers: na África do Sul, existe a lenda da antjie somers, que, apesar do nome feminino, se trata de um homem que, durante a noite, se fantasia de mulher para sequestrar crianças. Uma versão da lenda conta que ele era o carrasco da Cidade do Cabo e, com o fim da escravidão, passou a perambular pela África do Sul, com um saco nas costas, raptando crianças.

Créditos da imagem

[1] Wikimedia Commons

Fontes

CASCUDO, Luís da Câmara. Folclore do Brasil. Editora Global, Rio de Janeiro, 2017.

MAGALHÃES, Basílio de. O folclore do Brasil. Edições do Senado Federal, Brasília, 2006.

NETO, Simões Lopes. Contos gauchescos e lendas do Sul. Editora l&PM, Porto Alegre, 1998.

SANTISTEBAN, Jose Vazquez. El crimen de Gador. Estudio Antropo-sociológico. Almeria, 1911.

Escritor do artigo
Escrito por: Jair Messias Ferreira Junior Pós-graduado em História pela Unicamp e professor da Educação Básica há mais de 20 anos. Também é formador de professores e produtor de materiais didáticos há mais de 10 anos.

Gostaria de fazer a referência deste texto em um trabalho escolar ou acadêmico? Veja:

JUNIOR, Jair Messias Ferreira. "Papa-figo ou homem do saco"; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/folclore/papa-figo-ou-homem-do-saco.htm. Acesso em 24 de junho de 2024.

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