A Alta Idade Média é o período específico da Idade Média que se estendeu do século V até o século X. Nele a Europa Ocidental passou por inúmeras transformações devido à desagregação do Império Romano do Ocidente e ao estabelecimento dos povos germânicos.
Durante a Idade Média, a Europa viu a estruturação do feudalismo, o surgimento do Império Carolíngio, a expansão do cristianismo e o fortalecimento da Igreja Católica. Fora do contexto europeu, houve o surgimento do islamismo e a expansão dos muçulmanos pelo norte da África e pela Península Ibérica.
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Tópicos deste artigo
- 1 - Resumo sobre Alta Idade Média
- 2 - O que foi a Alta Idade Média?
- 3 - Características da Alta Idade Média
- 4 - Principais acontecimentos da Alta Idade Média
- 5 - Alta Idade Média e o feudalismo
- 6 - Fim da Alta Idade Média
- 7 - Contexto histórico da Alta Idade Média
- 8 - Exercícios sobre Alta Idade Média
Resumo sobre Alta Idade Média
- A Alta Idade Média é uma fase da Idade Média que se estendeu do século V ao X.
- Muitos historiadores propõem que o período não deveria ser entendido como uma subdivisão da Idade Média, mas, sim, como uma Antiguidade Tardia.
- A desgregação do Império Romano é o marco que iniciou esse período.
- A Alta Idade Média ficou marcada pela mistura da cultura romana e da cultura germânica.
- Entra algumas marcas desse período estão a ruralização, enfraquecimento comercial, fortalecimento da Igreja Católica, formação do feudalismo, etc.
O que foi a Alta Idade Média?
A Alta Idade Média é um termo que se consolidou na historiografia como parte da periodização da Idade Média, período que se iniciou com a desagregação do Império Romano do Ocidente. Nessa periodização, a Idade Média foi dividida em fases, que são a Alta Idade Média e a Baixa Idade Média.
No caso da Alta Idade Média, essa fase se refere à primeira metade da Idade Média, estendendo-se do século V até o século X. Essa periodização da Idade Média é considerada controversa e não há consenso entre os historiadores. Uma parcela dos historiadores entendem que, na verdade, esse período corresponde a uma Antiguidade tardia.
A Alta Idade Média é uma fase que trata das transformações que o mundo romano, sobretudo a Europa Ocidental, sofreu após a desagregação do Império Romano. Essas transformações incluem a fusão da cultura romana com a cultura germânica, além de outras transformações sociais, econômicas e políticas.
Essas transformações contribuíram para a formação do feudalismo, o sistema ideológico e socioeconômico que marcou a Europa a partir do século XI. O foco aqui, portanto, é a decadência da cultura romana, sua fusão com a cultura germânica e as transformações subsequentes desse processo.
A ideia de Antiguidade Tardia, por sua vez, trata do fim do Império Romano, mas não necessariamente faz uma abordagem da decadência da cultura romana, mas da sua importância na formação da Europa Medieval e da sua influência no longo prazo, entendendo que a cultura romana foi influente até o século X, por isso Antiguidade Tardia.
Características da Alta Idade Média
A Alta Idade Média foi um período marcado por transformações. Essas mudanças foram resultado da desagregação do mundo romano e da acomodação dos reinos germânicos na Europa Ocidental. Entre as características mais importantes da Alta Idade Média destacam-se:
- fusão da cultura romana e germânica;
- fortalecimento e consolidação institucional do cristianismo;
- ruralização da Europa Ocidental e enfraquecimento do comércio;
- formação dos reinos germânicos;
- expansão islâmica;
- formação do feudalismo, etc.
A Alta Idade Média, como mencionado, foi um momento de transição. Nesse período, por meio das grandes transformações causadas pela desagregação do Império Romano, estruturou-se um dos grandes símbolos da Idade Média na Europa Ocidental: o feudalismo. Devido à desgregação do império, a Europa enfrentou um intenso processo de ruralização.
Para fugir da fome, da peste e da violência, os sobreviventes do fim do Império Romano passaram a reunir-se majoritariamente nas zonas rurais, onde ficavam as grandes propriedades de antigos patrícios. Lá eles tinham proteção e comida, mas eram obrigados a pagar isso com trabalho. Com o tempo, esses locais converteram-se nos feudos.
O comércio enfraqueceu-se a ponto de ser quase inexistente, e a circulação de moeda também se tornou raridade. O comércio fraco e a baixa circulação de moedas eram características do sistema feudal. Novos reinos formaram-se, e a mistura das culturas latina e germânica deu surgimento a novos idiomas, por exemplo. O português e o francês são dois casos da mistura de dialetos germânicos com o latim.
Os novos reinos estabelecidos tinham como grande líder um rei, mas o poder dele na época não era absoluto, como nos tempos do absolutismo. Na Idade Média, os reis não tinham, sob seu comando, grande número de soldados à disposição, por exemplo. A sustentação dessa figura na Alta Idade Média dava-se numa relação de dependência com outros nobres conhecida como vassalagem. Importante mencionar que a vassalagem só se desenvolveu concretamente por volta do século VIII.
No campo econômico, a Alta Idade Média ficou marcada pela retração econômica, em relação aos padrões estabelecidos no Império Romano. O trabalho era servil e a economia era dependente da produção agrícola, uma consequência da ruralização europeia. A produtividade, por sua vez, era baixa, mas foi aumentando conforme se aproximava o século X.
O artesanato também era fraco, uma vez que existia pouca mão de obra disponível e poucos consumidores. Além disso, a baixa produtividade acarretava a falta de matéria-prima para maior desenvolvimento dessa atividade, a qual, no entanto, sobrevivia, ainda que precariamente, nas cidades europeias.
Principais acontecimentos da Alta Idade Média
A respeito dos principais acontecimentos da Alta Idade Média, levando em consideração a Europa (ocidental e oriental) e o Oriente Médio, do século V ao século X, podem ser destacados: a formação do Império Carolíngio, o crescimento do Império Bizantino, o surgimento e a expansão do Islamismo etc.
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Império Carolíngio
Na Europa Ocidental ocupada pelos povos germânicos, o reino de maior sucesso foi o Reino dos Francos, que se estabeleceu na região da Gália e formou um grande império após a desagregação do Império Romano. O auge do domínio franco deu-se durante a dinastia carolíngia, estabelecida a partir do século VIII.
Os carolíngios ascenderam ao poder por meio de Pepino, o Breve, que foi coroado rei ao tomar o poder no Reino dos Francos, em 751. Os antigos governantes eram os merovíngios, e essa dinastia foi destituída sob a alegação de que eles eram cruéis e maus governantes. A ascensão dos primeiros contou com o apoio do papa Estevão III.
O auge dos carolíngios aconteceu no reinado de Carlos Magno, de 768 a 814. Nesses anos, Carlos Magno expandiu consideravelmente o seu império, além de ter realizado grandes campanhas de cristianização. Uma das suas vitórias mais significativas ocorreu contra os lombardos, no norte da Península Itálica.
Depois da morte de Carlos Magno, o Império Carolíngio enfraqueceu-se e acabou fragmentado décadas depois.
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Império Bizantino
Conhecemos o Império Bizantino como a continuação do Império Romano do Oriente depois que o lado ocidental deixou de existir no século V. O Império Bizantino existiu até o século XV, quando foi conquistado pelos otomanos, e teve seu auge no reinado de Justiniano, no século VI.
Tudo se iniciou em 330, quando a cidade de Constantinopla foi fundada pelos romanos. No local havia existido a Bizâncio, dos gregos. Constantinopla desenvolveu-se na tradição grega, diferentemente de Roma, que o fez na tradição latina. Em 395, o Império Romano foi dividido e a porção oriental teve Constantinopla como capital.
A parte oriental sobreviveu pela sua prosperidade e por seu comércio pujante, e, até o século VI, conseguiu recuperar algumas das terras que um dia tinham feito parte do Império Romano do Ocidente. O rei Justiniano foi o grande responsável por essa expansão.
Durante o reinado de Justiniano, foi edificado um dos principais pontos da atual cidade de Istambul — a Hagia Sofia. Essa basílica foi construída como igreja ortodoxa, depois que os otomanos conquistaram a cidade, foi convertida em uma mesquita e atualmente é um museu. Após a morte de Justiniano, no entanto, as conquistas territoriais do Império Bizantino foram sendo perdidas.
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Surgimento do islamismo
O islamismo surgiu na Península Arábica no século VII, por obra de Muhammad (conhecido em português como Maomé). Na época, a península praticava uma religião politeísta e, por meio dele, a região foi sendo convertida ao islamismo. Na tradição islâmica, conta-se que Muhammad foi o grande profeta que recebeu a revelação de Allah.
Em 610, Allah teria aparecido para Muhammad pela primeira vez, e, a partir de 612, ele passou a realizar pregações da mensagem de Allah. Em decorrência, Muhammad começou a ser perseguido pelos grandes comerciantes de Meca (cidade em que ele morava), pois sua mensagem religiosa era ruim para os negócios locais.
Em 622, ele fugiu para Medina (evento conhecido como Hégira) e de lá comandou uma guerra contra a cidade de Meca. Ao final, Muhammad conseguiu conquistar Meca e expandiu o islamismo por toda a Península Arábica. Seus sucessores difundiram essa religião pela Ásia, norte da África e chegaram até a Europa, no século VIII. A expansão muçulmana nesse continente foi barrada em 732 pelo franco Carlos Martel, durante a Batalha de Poitiers.
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Fortalecimento da Igreja Católica
A desagregação do Império Romano e o início da Alta Idade Média contribuíram para o crescimento e fortalecimento da Igreja Católica. Por meio do Édito de Tessalônica, ratificado pelo imperador Teodósio I, o catolicismo tornou-se a religião oficial do Império Romano e, de religião perseguida, passou a ser perseguidora das demais.
Via aparato de poder de Estado romano, o cristianismo pôde consolidar-se e enfraquecer as religiões pagãs. Com a crise final do Império Romano na Europa Ocidental, a Igreja pôde ocupar o vazio deixado pelo Estado e consolidar sua posição como instituição poderosa. Além de tudo, a cristianização dos povos germânicos serviu de ponto de encontro da cultura germânica com a latina.
O poder secular que existia em Roma foi transferido para as mãos da Igreja nesse período, e muitas cidades da Europa na Alta Idade Média eram governadas pelo bispo local. Gradativamente, as autoridades católicas conseguiram estruturar e expandir a Igreja combatendo heresias, normatizando a fé católica e estabelecendo formas de controle tanto dos padres quanto dos fiéis.
Por fim, a consolidação da Igreja deu-se pelas tentativas dela de conduzir o poder secular. Os reinos germânicos estabelecidos na Europa Ocidental, que tinham sido recentemente cristianizados, buscavam consolidar seu poder pelo respaldo das autoridades eclesiásticas. Isso deu riqueza e posses à Igreja.
Por fim, na definição do historiador Jacques Le Goff, os representantes da Igreja Católica transformaram-se nos “chefes polivalentes de um mundo desorganizado”. No âmbito social, a Igreja fornecia alimentos e esmolas aos mais necessitados; no militar, reforçou seu poder ao formar forças para combater hereges e germânicos. Por fim, ela associou o seu poder religioso ao político.|1|
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Alta Idade Média e o feudalismo
O feudalismo é um importante conceito para a Idade Média, referindo-se ao sistema político, econômico, social e ideológico que existiu na Europa medieval. Esse sistema ficou marcado pela valorização da terra enquanto meio de produção de riqueza, sendo que essa terra pertencia à nobreza e era cultivada pelos servos, a classe explorada.
Os historiadores entendem que as transformações que a Europa sofreu durante o período da Alta Idade Média foram responsáveis pela consolidação do feudalismo em sua forma clássica. A historiografia entende que o feudalismo viveu o seu auge durante os séculos XI e XIII, período correspondente à Alta Idade Média.
Fim da Alta Idade Média
Entende-se que a Alta Idade Média foi uma fase que se encerrou com a passagem de século do século X para o século XI. Um marco importante para o fim desse período e o início da Baixa Idade Média teria sido também a consolidação do feudalismo, sistema que viveu o auge entre os séculos XI e XIII.
Contexto histórico da Alta Idade Média
A Idade Média e todas as transformações observadas na Europa nesse período foram consequência da desagregação do Império Romano. O fim do Império Romano do Ocidente foi o resultado final de uma crise que se arrastou por séculos, pelo menos, desde o século III.
A partir do século III, o sistema que sustentava o Império Romano começou a colapsar por uma série de fatores. Primeiramente, há de considerar-se que o sistema escravista era o que afiançava a economia de Roma, e, a partir do século III, esse sistema entrou em crise pelo fim das guerras de conquista do império.
O sistema escravista romano era dependente das guerras de conquista de Roma porque, por meio delas, é que se capturavam prisioneiros, enviados como escravos para o território. Esses escravos amparavam a economia romana, mas, com o fim das guerras de conquista, o número deles diminuiu e a economia romana colapsou. Além disso, havia a conturbada política romana.
No século III, a corrupção e a disputa pelo poder corroíam a sustentação de Roma e enfraqueciam o império. Tudo isso fez com que o território ficasse vulnerável e suas fronteiras suscetíveis a serem invadidas. Nesse momento aparecem os povos germânicos, que habitavam além das fronteiras do Império Romano e passaram a “pedir”, a partir do século III, passagem pelas terras de Roma.
Os historiadores debatem até hoje por que os povos germânicos começaram a migrar nesse período, e as especulações são inúmeras: procura por terras mais férteis, fuga de climas rigorosos, fuga de povos mais poderosos que já estavam em migração etc. Do século III em diante, dezenas de povos germânicos invadiram as terras de Roma.
Visigodos, ostrogodos, hérulos, alamanos, suevos, vândalos, hunos, saxões, francos, alanos, burgúndios, jutos e anglos são apenas alguns de muitos povos que assolaram as terras do Império Romano. As invasões traziam destruição que afetava mais a economia e ampliava a profundidade da crise romana.
O império tentou reestruturar-se por reformas: congelamento de preços, criação de uma nova capital (Constantinopla), divisão do império em Império Romano do Ocidente e Império Romano do Oriente, entre outras. As reformas, no entanto, foram em vão, e o lado ocidental do império sucumbiu.
Em 476, Roma foi invadida pelos hérulos, e o último imperador, Rômulo Augusto, foi destituído da sua função. Os territórios romanos na Europa Ocidental foram gradativamente ocupados pelos germânicos e assim se iniciou a mistura da cultura latina com a germânica, sendo essa uma das grandes marcas da Europa medieval.
Exercícios sobre Alta Idade Média
Questão 01
Alguns historiadores propõem que a ideia de Alta Idade Média seja substituída pelo conceito de:
a) Longa Idade Média.
b) Neoclassicismo.
c) Antiguidade Tardia.
d) Idade Moderna.
e) Nenhuma das alternativas.
Resposta: Letra C.
O conceito de Antiguidade Tardia é visto por muitos historiadores como uma periodização mais adequada para abordar o período entre os séculos V e X, abordando as transformações que ocorreram na Europa Ocidental, sem descartar a importância da tradição romana nesse período.
Questão 02
Qual dos eventos mencionados abaixo se passou no período entendido como a Alta Idade Média?
a) Batalha da Floresta de Teutoburgo.
b) Queda de Constantinopla.
c) Invasões vikings.
d) Reformas dos Irmãos Graco.
e) Reformas Religiosas.
Resposta: Letra C.
As invasões vikings, iniciadas no final do século VIII foram o conjunto de invasões promovidas pelos povos nórdicos em regiões das Ilhas Britânicas e do norte da Europa. Essas invasões foram motivadas por diversos motivos, como busca por novas terras, mas também por oportunidades de saques.
Fontes
FRANCO JUNIOR, Hilário. A Idade Média: nascimento do Ocidente. São Paulo: Brasiliense, 2006.
LE GOFF, Jacques. As raízes medievais da Europa. Petrópolis: Vozes, 2011.
LE GOFF, Jacques. A História deve ser dividida em pedaços? São Paulo: Editora Unesp, 2015.
LE GOFF, Jacques. A civilização do Ocidente medieval. Petrópolis: Vozes, 2016.
SILVA, Marcelo Cândido da. Entre “Antiguidade Tardia” e “Alta Idade Média”. Disponível em: https://periodicos.uem.br/ojs/index.php/Dialogos/article/view/38149