Tarsila do Amaral

Biografia

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Tarsila do Amaral figura entre os mais conhecidos e aclamados nomes da pintura nacional, sendo um ícone do modernismo brasileiro. Integrando diversos elementos típicos da cultura brasileira, a artista foi capaz de produzir uma identidade cultural própria, que assimilava as tendências da arte moderna europeia, ao mesmo tempo que lhes dava as cores nacionais.

Para além do período modernista, sua obra mais famosa, O Abaporu, símbolo do Manifesto Antropófago de 1928, é também o quadro mais valioso da história da arte brasileira. Ademais, Tarsila do Amaral é uma das grandes representantes da arte latino-americana, com exposições dedicadas a ela circulando por grandes museus ao redor do mundo.

Selo comemorativo da XXIV Bienal de São Paulo, com reprodução do quadro O ovo (Urutu), de Tarsila do Amaral.
Selo comemorativo da XXIV Bienal de São Paulo, com reprodução do quadro O ovo (Urutu), de Tarsila do Amaral.

Biografia

Tarsila do Amaral nasceu em 01 de setembro de 1886, na fazenda São Bernardo, município de Capivari (SP). De família abastada, herdeira de grandes propriedades rurais no interior paulista, cresceu, junto de sete irmãos, ouvindo a mãe tocar piano e o pai recitar poemas em francês, língua que aprendeu desde a infância. Foi enviada à capital para estudar no Colégio Sion e, depois, a Barcelona, para concluir os estudos. Na Espanha, pintou seu primeiro quadro, Sagrado Coração de Jesus.

Ao retornar, casou-se com o médico André Teixeira Pinto, de quem era noiva. O marido incomodava-se com seu ofício artístico, impunha a Tarsila um comportamento recatado e doméstico. Depois do nascimento da única filha do casal, Dulce, Tarsila decidiu, então, pela separação. Graças à enorme influência de sua família – que sempre apoiou sua carreira nas artes –, conseguiu, em 1925, a anulação de seu casamento (já que o divórcio não era então permitido por lei no Brasil).

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Em 1918, começou a ter aulas de pintura no ateliê de Pedro Alexandrino, onde conheceu a pintora Anita Malfatti. Em 1920, partiu para Paris, onde permaneceu até junho de 1922, estudando na Académie Julien e tomando aulas com o pintor Emile Renard. Foi a partir de cartas enviadas por Malfatti que Tarsila tomou conhecimento da Semana de Arte Moderna, ocorrida em fevereiro de 1922.

De volta a São Paulo, Malfatti apresentou Tarsila aos artistas modernistas, e foi formado, então, o “grupo dos cinco”: Anita Malfatti, Oswald de Andrade, Mario de Andrade, Menotti del Picchia e Tarsila do Amaral. Durante esse período, Tarsila e Oswald iniciaram um relacionamento amoroso, oficializando casamento alguns anos depois. Foi nesse momento que Tarsila começou a produzir arte moderna.

No final de 1922, Tarsila retornou a Paris, dessa vez para estudar com os mestres cubistas Albert Gleizes e Fernand Léger. O poeta franco-suíço Blaise Cendrars apresentou Tarsila e Oswald a toda a intelectualidade parisiense, incluindo grandes nomes como Picasso, o casal Delaunay e os músicos Stravinsky e Erik Satie. Durante essa nova estadia na França, Tarsila fez amizade com outros artistas brasileiros que estavam por lá, como Villa-Lobos e Di Cavalcanti, e também com os mecenas Paulo Prado e Olivia Guedes Penteado.

Em 1925, Oswald lançou seu livro de poesias intitulado Pau-Brasil, com ilustrações de Tarsila. Oscilando entre as grandes temporadas na Europa e viagens pelo Brasil em busca de captar as cores nacionais para suas telas, estreou em 1926 com exposição individual em Paris, recebendo críticas bastante favoráveis.

A grande Crise de 1929, entretanto, trouxe consequências pouco auspiciosas para Tarsila. Sua família de fazendeiros, que provinha os recursos necessários para tantas viagens à França, foi afetada pela crise do café e obrigada a vender as propriedades. Tarsila perdeu quase toda a sua fortuna e, além disso, separou-se de Oswald, então apaixonado pela estudante Patrícia Galvão, a Pagu. Tarsila conseguiu um emprego na Pinacoteca do Estado de São Paulo, situação que também não durou muito, pois foi demitida com a chegada de Getúlio Vargas ao poder, em 1930.

Desempregada e sem dinheiro, vendeu alguns quadros e viajou, em 1931, para a União Soviética, ao lado de seu novo marido, o psiquiatra Osório César. Durante essa viagem, Tarsila desenvolveu uma nova concepção política, mais direcionada às questões sociais. Depois, partiu para Paris, onde vivenciou, de fato, a experiência operária, trabalhando como pintora de paredes em construções.

Tarsila divorciou-se ainda outra vez, casando-se com o escritor Luiz Martins, vinte anos mais novo que ela. O casamento durou até a década de 1960, aproximadamente. Em 1965, devido a fortes dores nas costas, a pintora passou por um procedimento cirúrgico, mas, por um erro médico, ficou sem poder andar. No ano seguinte, sua filha faleceu em decorrência de diabetes, o que abalou Tarsila profundamente. Mergulhada na tristeza e na depressão, Tarsila encontrou no espiritismo um alívio – tornou-se amiga de Chico Xavier e passou a doar, a uma instituição de caridade administrada por ele, tudo o que arrecadava com a venda de sua obra.

Tarsila do Amaral faleceu em São Paulo, em 17 de janeiro de 1973.

Leia também: Modernismo no Brasil – características, fases, obras

Tarsila e o modernismo

Embora não tenha participado ativamente da Semana de Arte Moderna de 1922, Tarsila tornou-se o grande nome das artes plásticas do modernismo nacional. Foi só a partir de seu encontro com os artistas modernistas que Tarsila desenvolveu, de fato, o estilo pelo qual ficou conhecida.

Suas viagens pelo Brasil, especialmente pelo interior de São Paulo e de Minas Gerais, em 1923, renderam-lhe inspiração para suas primeiras composições de influência cubista, em formas geométricas estilizadas, fazendo uso das cores consideradas “caipiras” por seus mestres anteriores, ligados à pintura acadêmica.

Manifesto Antropófago, de Oswald de Andrade, publicado na Revista de Antropofagia, com ilustração do Abaporu, de Tarsila do Amaral.
Manifesto Antropófago, de Oswald de Andrade, publicado na Revista de Antropofagia, com ilustração do Abaporu, de Tarsila do Amaral.

No trecho a seguir, Tarsila revela suas intenções e seu compromisso com a busca de uma arte verdadeiramente brasileira, empreitada modernista por excelência:

“Sinto-me cada vez mais brasileira: quero ser a pintora da minha terra. Como agradeço poder ter passado na fazenda minha infância toda. As reminiscências desse tempo vão se tornando preciosas para mim. Quero, na arte, ser a caipirinha [da fazenda] de São Bernardo, brincando com bonecas de mato, como no último quadro que estou pintando.”

(Carta de Tarsila do Amaral à família, quando da sua estada em Paris, em 1924)

A obra de Tarsila do Amaral é dividida em três principais fases: a primeira, chamada pau-brasil; a segunda, antropofágica, e a terceira, de cunho social.

  • Fase pau-brasil

Relaciona-se às obras produzidas entre 1924 e 1928, a partir das viagens ao Rio de Janeiro, no Carnaval, e às cidades históricas de Minas Gerais. É a aplicação das tais “cores caipiras”, rejeitadas pelos mestres acadêmicos das pinturas, e da grande intenção de Tarsila em representar o Brasil rural e urbano em seus quadros. As obras dessa fase expõem a influência do cubismo e temas que são sobretudo paisagens brasileiras, tais como Morro da Favela (1924) e São Paulo (1924).

  • Fase antropofágica

Teve início em 1928, a partir da icônica obra Abaporu – cujo nome é a junção dos vocábulos “aba” e “poru”, significando “homem que come” em tupi-guarani. Pintado como presente de aniversário ao seu então marido, Oswald de Andrade, tornou-se muito mais do que isso: foi a inspiração principal para a redação do Manifesto Antropófago e para o início de um movimento artístico que teve expoentes em diversos segmentos da arte nacional.

A ideia central do projeto antropófago era devorar as influências da cultura europeia, já que elas não se aplicavam às condições brasileiras, e a partir da deglutição, modificar o que foi devorado, produzindo arte genuinamente nacional.

A pintura antropofágica de Tarsila mistura o aprendizado moderno do cubismo com um universo de densidade mística e onírica, bastante enraizado na cultura brasileira, fazendo uso de cores vivas, como o vermelho, o roxo, o verde e o amarelo. Fazem parte dessa fase, além do Abaporu (1928), as obras A Negra (1923), que antevia essa fase, O Ovo [Urutu] (1928), A Lua (1928), Floresta (1929), Sol Poente (1929), entre outras.

  • Fase social

Depois de sua passagem pela União Soviética e de ter trabalhado como pintora de paredes de construção na França, Tarsila começou a refletir em suas obras temáticas relacionadas ao proletariado, à desigualdade social, às opressões sofridas pelos trabalhadores, aos problemas do capitalismo industrial.

O quadro Os Operários (1933) inaugura essa nova fase pictórica, caracterizada pelo uso de cores mais sóbrias e acinzentadas, reflexo da desesperança daqueles que, embora trabalhando incansavelmente, não tinham acesso a bens básicos, como saúde e educação. É considerado grande ícone dessa fase também os quadros Segunda Classe (1933) e Costureiras (1936).

Leia também: Cubismo – a vanguarda artística que teve influência sobre Tarsila

Principais obras

  • A Negra (1923)
  • A Cuca (1924)
  • Morro da Favela (1924)
  • São Paulo (1924)
  • O Mamoeiro (1925)
  • Autorretrato (Manteau Rouge) (1925)
  • Manacá (1927)
  • Abaporu (1928)
  • O ovo (Urutu) (1928)
  • Distância (1928)
  • A lua (1928)
  • O sono (1928)
  • Antropofagia (1929)
  • Sol poente (1929)
  • Floresta (1929)
  • Cartão-postal (1929)
  • Operários (1933)
  • Segunda Classe (1933)

 

Por Luiza Brandino
Professora de Literatura

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BRANDINO, Luiza. "Tarsila do Amaral"; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/biografia/tarsila-amaral.htm. Acesso em 10 de agosto de 2020.