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Escolástica

Filosofia

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O termo Escolástica refere-se à produção filosófica que aconteceu na Idade Média, entre os séculos IX e XIII d.C. Em comparação com a Patrística, vertente anterior da Filosofia Medieval, a Escolástica está situada em um período de intensidade do domínio católico sobre a Europa.

Dada a necessidade de formação em larga escala de sacerdotes e da forte implicação cultural e educacional para a católica promovida pelo Império Carolíngio, a Igreja Católica criou escolas e universidades para ensinar e formar pensadores e novos sacerdotes. Essa criação das escolas motivou o nome do período.

Saiba mais: O que é Filosofia?

Características da Filosofia Escolástica

Tomás de Aquino foi um dos principais expoentes do pensamento escolástico.
Tomás de Aquino foi um dos principais expoentes do pensamento escolástico.

Por conta da valorização cultural e do ensino, além do resgate a Aristóteles, imperou durante a Escolástica uma intensa mobilização para o conhecimento das questões metafísicas e das ciências naturais. A fé, já abordada nos escritos dos pensadores cristãos desde o século II, passa a ser encarada em conjunto com a razão.

Nesse sentido, pensadores como Alberto Magno, Santo Anselmo e Tomás de Aquino defenderam que o combate às heresias, ao paganismo e à não aceitação de Deus ocorreria por meio da formulação de teorias racionais e do conhecimento científico.

As invasões mouras, que levaram os árabes a disputarem o domínio de partes do atual território espanhol e português, ocorridas a partir do século VII, foram fundamentais para a construção do pensamento escolástico, pois os árabes levaram consigo os estudos mais profundos das obras de Aristóteles.

Como exemplo, podemos destacar Averróis, filósofo árabe do século XII, que influenciou os pensadores escolásticos com seus comentários sobre Aristóteles. Tomás de Aquino, o mais importante nome da Escolástica, operou uma junção de sua interpretação de Aristóteles com ideias autorais, o que resultou no chamado tomismo aristotélico.

O ensino escolástico estava baseado no estudo das chamadas artes liberais, que eram formadas pelos sete campos do conhecimento divididos em dois grupos, descritos abaixo:

  • O trívio consistia no estudo de Gramática, Retórica e Lógica, artes voltadas para a linguagem;

  • O quadrívio consistia no estudo de Aritmética, Geometria, Astronomia e Música, artes voltadas para as ciências exatas e suas aplicações naturais.

Leia mais: Metafísica de Aristóteles – o que é, principais ideias, resumo

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A questão dos universais

A questão ou “querela” dos universais parte de uma discussão iniciada por Porfírio, pensador patrístico neoplatônico, sobre sua interpretação das proposições de Aristóteles sobre as afirmações acerca da existência de categorias universais.

As categorias universais são, para Aristóteles, classificações gerais que organizam os seres existentes no mundo. Por exemplo, nós temos a categoria “cor” e a categoria “animal”. Nós podemos analisar um cavalo branco sob suas duas categorias: cor e animal. Pode haver uma confusão lógica se as categorias forem misturadas, como no seguinte exemplo: o cavalo de Napoleão é branco. Branco é uma cor. O cavalo de Napoleão é uma cor. Nesse caso, houve uma confusão de categorias. Todo esse debate metafísico foi retomado pelos escolásticos tomando por base a filosofia grega antiga, em especial a filosofia aristotélica.

Essas questões, que geraram discussões divididas em diferentes grupos, foram amplamente disputadas durante a Escolástica, promovendo o que os pensadores da época chamaram de Quaestio Disputata (questões disputadas). Os intelectuais promoviam debates sobre assuntos, como a questão dos universais, que motivavam o estudo e a pesquisa de Metafísica, Lógica e Retórica.

Acerca da interpretação dos universais, dois grupos formaram-se entre os escolásticos:

  • Realistas

Eles defendiam a existência factual dos universais enquanto instâncias metafísicas, que eram em si a definição, por exemplo, da ideia universal de brancura, que se aplicaria a qualquer objeto branco, mas sem a necessidade da presença ou existência de objetos brancos para que ela existisse.

A metafísica, área comum com a ontologia, é aquilo que na Filosofia estuda o ser enquanto ser, isto é, é um estudo que estuda as coisas que existem no mundo, mas sem recorrer a qualquer observação ou experiência sensível com estas coisas, utilizando apenas raciocínios e argumentos.

No exemplo dado dos universais, os filósofos não foram observar a cor branca para definir o que é brancura, mas ficaram lançando argumentos que definam um conceito de brancura. A partir desse conceito que, segundo os metafísicos, era universal e inquestionável, era possível partir para a experiência prática para observar as coisas do mundo e tentar relacioná-las com o conceito de brancura, isto é, eu só consigo determinar que uma parede, um cavalo ou uma folha de papel é branca, porque existe um conceito do que é ser branco anterior à minha experiência de ver a parede, o cavalo ou a folha de papel.

  • Nominalistas

Eles defendiam que os universais eram apenas nomes criados para representar e agrupar os objetos que tinham características comuns, não havendo qualquer possibilidade de existência e definição metafísica de conceitos universais. Eram apenas palavras advindas de convenções humanas.

Acesse também: A importância dos valores morais para a sociedade

Fases da Filosofia Escolástica

Para efeito didático de catalogação, os historiadores da Filosofia Medieval dividem a escolástica em três períodos distintos:

  • Primeira fase

Essa fase foi caracterizada pela plena convicção da harmonia estabelecida entre a fé e a razão, advinda, principalmente, das ideias patrísticas. São pensadores marcantes dessa primeira fase Duns Scotus e Santo Anselmo (filósofo que elaborou, em sua época, um argumento ontológico que provaria a existência de Deus).

Um argumento ontológico é aquele que não é baseado na experiência sensível, mas é formulado apenas pelo raciocínio. Não é preciso estabelecer causas existentes e observáveis para se propor um argumento ontológico, mas apenas propor um raciocínio que faça sentido a partir de elementos abstratos, como Deus. O argumento ontológico de Santo Anselmo pode ser assim descrito:

a) Imagine algo tão grande, mas tão grande, que não se pode imaginar nada maior.

b) Se este algo tão grandioso existe apenas em nossa imaginação, ele não é tão grande assim, visto que o que existe fora de nosso intelecto é maior.

c) Então, se você consegue imaginar algo tão grande (que não possa existir algo maior que isso), este algo deve existir fora de sua mente e imaginação.

d) Este algo imenso, que existe na sua imaginação e fora dela, e que de tão grandioso não existe algo maior, é Deus.

  • Segunda fase

Foi na segunda fase que apareceram os mais complexos sistemas filosóficos, ficando conhecida também como período tomista. Os principais nomes dessa fase são Tomás de Aquino e seu mestre Alberto Magno.

  • Terceira fase

A terceira fase foi caracterizada pelo início da decadência da Escolástica na Idade Média. Foi nessa época que o domínio e a expansão da Igreja Católica mostram-se demasiadamente rígidos, coibindo muitos aspectos dos estudos filosóficos e controlando todos os aspectos da vida intelectual e cultural na Idade Média. Um importante nome dessa última fase é Guilherme de Ockham.

Escolástica e Tomás de Aquino

Tomás de Aquino, monge dominicano, grande escritor e filósofo católico da Idade Média foi, sem dúvida, o maior pensador escolástico. Estudioso e comentador das obras de Aristóteles, São Tomás de Aquino foi além, ao imprimir em sua obra uma mistura de suas próprias ideias, das ideias do filósofo grego antigo Aristóteles e do pensamento cristão, baseado na Bíblia e nos dogmas da Igreja Católica.

Aquino era um erudito conhecedor do trívio e do quadrívio, além de ter estudado Aristóteles por meio das traduções árabes. Também teve uma formação voltada para a descoberta das Ciências Naturais, influenciada pelo seu mestre Alberto Magno.

A distinção entre essência e existência, já presente na obra aristotélica, influenciou o pensamento de Aquino, que desenvolveu uma conexão direta entre Aristóteles e a teologia cristã. Aquino também operou uma junção da ideia de causalidade proposta pelo argumento do motor primeiro, de Aristóteles, para elaborar as “Cinco Vias que Provam a Existência de Deus”, estabelecendo uma conexão direta entre a obra aristotélica e a existência de Deus.

A matriz aristotélica até Deus

Tomás de Aquino enxergou na obra aristotélica a possibilidade de uma via racional que levaria à prova da existência de Deus. O princípio de causalidade e a ideia de motor imóvel, já discutidas na obra aristotélica, despertaram o intelecto de Aquino para a formulação de suas “Cinco vias que provam a existência de Deus”. O princípio de causalidade é, para a Filosofia, um princípio elementar que admite que para todo efeito ocorrido no mundo, existe uma causa anterior. Ou seja, se algo aconteceu, existiu um fenômeno anterior que provocou o acontecimento.

Isaac Newton também retomará este princípio, porém invertendo a sua ordem, ao descobrir a sua terceira lei: a Lei de ação e reação. Para o físico moderno, toda ação gera uma reação contrária e em igual intensidade, o que nos remete à causalidade, pois a reação (o efeito) foi gerada por uma ação (a causa).

São as cinco vias tomistas:

  1. O primeiro motor imóvel: em todo o Universo, há movimento. Partindo de um raciocínio causal, é preciso estabelecer que, para que haja movimento, é necessário haver um movente (motor). Nesse sentido, se tentarmos encontrar as causas de todos os movimentos do Universo, nunca findaríamos essa tarefa infinita, o que faz necessário pensar que para todo o movimento existiu um primeiro motor, imóvel, que deu origem a todo o movimento posterior. Esse primeiro motor era Deus.

  2. A primeira causa eficiente: no mesmo raciocínio anterior, pensamos que para toda causa há um efeito e, para evitar a fadiga desnecessária da busca infinita pela causa primeira, devemos pensar que essa causa existe e que não foi causada por mais nada. Essa causa seria Deus.

  3. Ser necessário e seres possíveis: o ser necessário seria Deus. Os seres possíveis seriam a criação divina, pois são possibilidades na medida em que somente existem pela vontade do ser necessário.

  4. Graus de perfeição: os diferentes seres existentes são classificados por uma complexa hierarquia que estabelece Deus como o ser perfeito e todos os outros seres em uma escala, de acordo com a sua perfeição e proximidade ou distância de Deus.

  5. Governo supremo: todo esse Universo, infinito e racional, somente poderia se manter organizado, na visão de Aquino, mediante um governo maior, supremo, que manteria tudo em seu pleno funcionamento, ou seja, o governo divino.

 

Por Francisco Porfírio
Graduado em Filosofia

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PORFíRIO, Francisco. "Escolástica"; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/filosofia/escolastica.htm. Acesso em 20 de outubro de 2019.

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