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Modernidade líquida

Modernidade líquida é uma metáfora para a vida contemporânea no capitalismo tardio, em que tudo é fluido e incerto. Esse conceito foi criado pelo sociólogo Zygmunt Bauman.

Zygmunt Bauman, criador do conceito de modernidade líquida.
Zygmunt Bauman, criador do conceito de modernidade líquida.[1]
Crédito da Imagem: shutterstock.com
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A modernidade líquida é um conceito desenvolvido pelo sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman para descrever a condição contemporânea da sociedade e suas relações, caracterizada por sua fluidez, volatilidade e dinâmica. Esse conceito serve como uma metáfora para ilustrar a vida no capitalismo tardio, em que as relações sociais, instituições e identidades são marcadas pela falta de forma fixa ou duradoura.

Nesse contexto, as estruturas sociais são vistas como impermanentes e capazes de mudar rapidamente, levando os indivíduos a enfrentar dificuldades em manter relações duradouras e significativas devido à natureza efêmera das interações sociais e à prevalência de valores individualistas.

As características da modernidade líquida incluem a efemeridade das estruturas sociais, econômicas e políticas, a importância do conhecimento e da informação na produção de valor econômico no capitalismo cognitivo, e a brevidade e fragilidade das relações humanas. Esse conceito está intrinsecamente ligado ao consumismo.

Leia também: Afinal, o que é modernidade?

Tópicos deste artigo

Resumo sobre modernidade líquida

  • A modernidade líquida é um conceito de Zygmunt Bauman que descreve a sociedade contemporânea como fluida, volátil e dinâmica, em que relações, instituições e identidades carecem de forma fixa ou duradoura.
  • Na modernidade líquida, as relações humanas são breves e frágeis, com laços afetivos e sociais voláteis.
  • A relação entre modernidade líquida e consumismo é intrínseca, com o consumismo servindo como resposta ao vazio deixado pela dissolução das estruturas tradicionais e como meio de escapar da ansiedade e incerteza.
  • As relações sentimentais, como as que envolvem o casamento e a coabitação, adaptam-se à modernidade líquida, tornando-se mais flexíveis e menos definitivas, refletindo a instabilidade das conexões humanas.
  • A efemeridade e fragilidade dos laços humanos na modernidade líquida aumentam a sensação de insegurança e impulsionam a busca por novas conexões, muitas vezes frustrantes.
  • A falta de confiança é uma característica marcante da modernidade líquida, manifestando-se na precarização das relações de trabalho e na necessidade de constante autoafirmação e adaptação.

O que é modernidade líquida?

O conceito de modernidade líquida, cunhado pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman, refere-se a um período da modernidade caracterizado pela transitoriedade e pela fluidez nas relações sociais, econômicas, políticas e pessoais. Nesse contexto, as estruturas sociais são vistas como impermanentes e capazes de mudar rapidamente, em oposição à modernidade “sólida”, em que as estruturas são mais estáveis e previsíveis.

Por outro lado, a modernidade líquida é marcada por uma constante mudança e incerteza, em que os indivíduos enfrentam dificuldades em manter relações duradouras e significativas devido à natureza efêmera das interações sociais e à prevalência de valores individualistas.

A modernidade sempre foi reconhecida por fazer tudo que é sólido desmanchar no ar. Bauman utiliza a analogia da fluidez para descrever como, na modernidade líquida, as relações humanas, as identidades culturais, os padrões de consumo e até mesmo o trabalho se tornam mais flexíveis e menos previsíveis.

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As transformações rápidas e profundas na sociedade moderna, impulsionadas pela tecnologia e pela globalização, contribuem para a sensação de instabilidade e insegurança. Esse conceito também aborda como a sociedade contemporânea lida com a velocidade das mudanças, a superficialidade das relações e a fragilidade dos laços sociais.

A modernidade líquida afeta diversos aspectos da vida cotidiana, incluindo as tentativas de emancipação dos indivíduos, a forma como se relacionam uns com os outros, a experiência do tempo/espaço, a natureza do trabalho na era digital e até mesmo a educação e a adaptação das pessoas às comunidades onde vivem.

O conceito destaca a importância de desenvolver estratégias adaptáveis e dinâmicas para navegar em um mundo em constante mudança, onde as certezas tradicionais já não se aplicam e as relações são caracterizadas por sua transitoriedade.

Veja também: Quais são os principais efeitos da era da informação?

Características da modernidade líquida

Na modernidade líquida, as estruturas sociais, econômicas e políticas são marcadas pela efemeridade, pela capacidade de mudar rapidamente e pela falta de forma fixa ou duradoura. Na prática, as relações e acontecimentos não são feitos para durar, são rápidos, estão em constante mudança e não conservam sua forma por muito tempo.

O excesso de liberdade na modernidade líquida, segundo Bauman, gera uma paradoxal angústia existencial, pois a constante necessidade de fazer escolhas sem um referencial sólido leva a um estado de insegurança e insatisfação perpétua.

Gesto positivo feito com uma mão envolvida por cordas, em alusão à falsa liberdade da modernidade líquida.
O excesso de liberdade da modernidade líquida produz um crescente sentimento de incerteza e ansiedade.

É uma característica da modernidade líquida o aspecto cognitivo das relações de trabalho. No “capitalismo cognitivo”, o conhecimento e a informação assumem um papel central na produção de valor econômico. Predomina o trabalho imaterial, que inclui atividades relacionadas à criação, manipulação e gestão de informação e conhecimento.

O capitalismo cognitivo, com sua ênfase no conhecimento e na informação, marcada pela ascensão das ciências de dados e da inteligência artificial, é um importante motor para as transformações que caracterizam a modernidade líquida.

A modernidade líquida e as relações humanas

→ Relações afetivas

As relações humanas na modernidade líquida são caracterizadas pela brevidade e pela fragilidade. Os laços afetivos e sociais tornam-se voláteis e fluidos, remetendo a uma sensação de leveza e descompromisso, muitas vezes associada à liberdade individual. No entanto, essa liberdade vem acompanhada de um crescente sentimento de incerteza e ansiedade, exacerbando a sensação de desamparo social e individual.

Nesse contexto, as relações sentimentais se adaptaram. O casamento e a coabitação são vistos sob novas óticas. O casamento, antes símbolo de um compromisso duradouro, cede espaço para a coabitação, a decisão de “morar juntos”, uma forma de relação mais flexível e menos definitiva, refletindo a instabilidade das conexões humanas na modernidade líquida.

→ Relações de trabalho

Zygmunt Bauman reflete, especialmente, sobre as relações humanas de trabalho. Elas são marcadas pela fluidez e pela incerteza. No campo psicológico, a procrastinação, nesse cenário líquido, é reinterpretada como uma estratégia de navegação do indivíduo entre um mundo do trabalho onde o futuro é incerto e o presente é fragmentado.

A procrastinação torna-se uma resposta adaptativa à velocidade das mudanças e à pressão por decisões imediatas, muitas vezes sem a possibilidade de um planejamento a longo prazo. Com tudo isso, os laços humanos tornam-se mais frágeis e efêmeros.

Homem deitado em sofá segurando celular, em texto sobre modernidade líquida.
A procrastinação é uma característica da modernidade líquida que afeta as relações de trabalho.

As relações de trabalho, assim como as afetivas, são construídas e desfeitas com rapidez, sem a profundidade e a estabilidade de outrora. Isso aumenta a sensação de insegurança e promove a busca por novas conexões, alimentando a esperança de encontrar algo mais sólido, mais parecido com o que o passado ofereceu.

Essa busca, como não podia ser diferente, resulta em frustração ou, o que é ainda pior, facilita o trabalho de quem ganha a vida manipulando outras pessoas. Com tanto engano e frustração, a falta de confiança é uma característica marcante da modernidade líquida.

No trabalho, a desconfiança se manifesta na precarização das relações laborais e na constante necessidade de autoafirmação e adaptação dos trabalhadores às novas exigências do capital. Caso contrário, perdem o emprego e precisam enfrentar um mercado volátil e competitivo. Na modernidade líquida, a segurança no emprego é cada vez mais rara.

Antes de concluir, notamos que essas transformações têm implicações significativas para a educação, especialmente no que diz respeito à pesquisa educacional e às práticas escolares. Na modernidade líquida, a educação deve se adaptar a essas mudanças, promovendo ferramentas que permitam aos indivíduos navegar em um mundo de incertezas e transformações rápidas.

Relação entre modernidade líquida e consumismo

A relação entre modernidade líquida e consumismo é intrínseca e complexa. A modernidade líquida é caracterizada pela efemeridade das relações sociais, pela fluidez e pela constante mudança. Esses aspectos se refletem no comportamento de consumo na sociedade contemporânea e criam um terreno fértil para o hiperconsumo.

As pessoas, enfrentando a falta de estruturas estáveis e duradouras, muitas vezes recorrem ao consumo como uma forma de encontrar significado, identidade e pertencimento em um mundo em constante mudança.

Mulher segurando cartão de crédito e celular, uma alusão a consumismo e modernidade líquida.
Facilidades de consumo e o desincentivo do “faça você mesmo” transformaram um impulso humano em um vício socialmente aceito.

O consumismo, portanto, pode ser visto como uma resposta ao vazio deixado pela dissolução das estruturas tradicionais. O ato de consumir torna-se um meio de escapar da ansiedade e da incerteza inerentes à modernidade líquida. A aquisição de bens e experiências de consumo são usadas para construir e expressar identidades que são, por sua vez, fluidas e sempre sujeitas a mudanças.

Na modernidade líquida, o consumismo foi exacerbado e se tornou uma característica central da sociedade. Segundo a análise de Bauman, a identidade do indivíduo é frequentemente atrelada à posse de bens e ao poder de consumo. O ato de consumir torna-se um imperativo do querer, não mais das necessidades ou dos desejos humanos.

Em outras palavras, o consumismo na modernidade líquida está ligado a uma realidade que estimula a liberação de todos os tipos de fantasias e quereres. A relação entre modernidade líquida e consumismo, por exemplo, está na possibilidade de satisfazer imediatamente uma vontade por meio de compras casuais, inesperadas e espontâneas pela internet.

Saiba mais: Cultura de massa — a manipulação da arte pelo sistema capitalista

Quem foi Zygmunt Bauman?

Zygmunt Bauman (1925-2017) foi um sociólogo e filósofo polonês que se destacou por suas análises sobre a modernidade, a sociedade de consumo, ética e valores humanos, as relações afetivas, a globalização e o papel da política. Ele é conhecido por ter cunhado o termo “modernidade líquida” e por suas críticas à pós-modernidade. Bauman foi professor emérito das universidades de Leeds e Varsóvia e autor de mais de 50 livros. Para saber mais sobre a vida de Bauman, clique aqui.

Diferenças entre modernidade líquida e modernidade sólida

A modernidade sólida é caracterizada pela substituição de estruturas antigas por novas, buscando uma suposta perfeição e estabilidade. Já a modernidade líquida é marcada pela impermanência e constante mudança de formas, sem a substituição por estruturas sólidas, assumindo a transitoriedade como a única constante.

Existia na modernidade sólida alguma esperança de estabilidade, previsibilidade e durabilidade das estruturas sociais e das relações humanas, por mais que elas estivessem se transformando. As instituições não eram líquidas, e havia uma confiança na rigidez e na permanência. No consumo, a regulação entre o “princípio da realidade” e o “princípio do prazer” estava mais presa a este mundo, às vontades e desejos deste mundo.

Em contraste, a modernidade líquida é marcada pela fluidez, pela impermanência e pela constante mudança. Por outro lado, a modernidade líquida não traz novos anúncios sobre o que vai substituir os antigos sólidos. Sobra um espaço preenchido por relações econômicas e sociais, que se tornam inconstantes e maleáveis, e a sociedade passa a ser dominada pelo imediatismo e pelo individualismo.

No consumo, as amarras que nos prendiam ao princípio da realidade foram desfeitas, e hoje em dia o consumo é a expressão de todos os tipos de quereres que podem surgir espontaneamente no indivíduo.

Créditos da imagem

[1] Andersphoto/ Shutterstock

Fontes

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2001.

BAUMAN, Z.; DONKIS, L. Cegueira Moral: a perda da sensibilidade na modernidade líquida. 1. Ed. – Rio de Janeiro: Zahar, 2014.

OLIVEIRA, Larissa Pascutti de. "ZYGMUNT BAUMAN: a sociedade contemporânea e a sociologia na modernidade líquida". Sem Aspas, Araraquara, v. 1, n. 1, p. 25-36, 1º semestre de 2012.

Escritor do artigo
Escrito por: Rafael Pereira da Silva Mendes Licenciado e bacharel em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Atuo como professor de Sociologia, Filosofia e História e redator de textos.

Gostaria de fazer a referência deste texto em um trabalho escolar ou acadêmico? Veja:

MENDES, Rafael Pereira da Silva. "Modernidade líquida"; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/sociologia/modernidade-liquida.htm. Acesso em 22 de maio de 2024.

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