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Estereótipo

O estereótipo é uma representação mental simplificada que, a partir de uma imagem cristalizada, costuma se aplicar aos grupos de indivíduos de uma sociedade.

Mulher arrumando a casa enquanto seu marido joga videogame como representação dos estereótipos de gênero.
Os estereótipos de gênero estão entre os mais recorrentes na sociedade.
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Os estereótipos são as imagens cristalizadas que se costuma aplicar a um grupo humano. Declarações como “os americanos são individualistas” ou “as enfermeiras são pessoas cuidadosas e dedicadas” constituem exemplos de estereótipos. A psicologia social considera que o conteúdo dos estereótipos é uma construção social, uma vez que são produzidos pelo grupo e não simples representações individuais.

A construção social dos estereótipos visa domesticar o desconhecido, ou seja, classificar os fatos novos em categorias conhecidas e estáveis. Os estereótipos são igualmente um modo de forjar identidades e orientar a ação ao definir, antecipadamente, o que é bom ou mau, favorável ou desfavorável, justo ou injusto, desejável ou não.

Por um lado, os estereótipos são essenciais à vida social porque permitem a um grupo se definir, positivamente ou negativamente, em relação a outro grupo. Por outro lado, eles também desempenham um papel importante na opressão social baseada em características como raça, sexo, etnicidade e idade. Vamos compreender a formação desses estereótipos e como as categorizações, esquemas ou protótipos fornecidos por eles impactam o nosso dia a dia.

Leia também: Papéis sociais — formas de comportamento previamente estipuladas para indivíduos de uma posição social específica

Tópicos deste artigo

Resumo sobre o estereótipo

  • Estereótipos são representações mentais socialmente construídas para categorizar as pessoas com etiquetas facilmente reconhecíveis.
  • Os estereótipos são fundamentais à vida social, porque facilitam a coesão dos grupos, mas também servem de base para atitudes preconceituosas dos seus membros e podem ser problemáticos.
  • A construção dos estereótipos envolve mecanismos do cérebro humano, processos de socialização e, atualmente, a comunicação massiva da mídia.
  • Existem muitos tipos diferentes de estereótipos, como estereótipo de gênero, estereótipo religioso, estereótipo étnico ou racial, estereótipo etário, estereótipo capacitista e estereótipo socioeconômico.
  • A palavra estereótipo foi tomada de empréstimos por psicólogos sociais de uma técnica de impressão inventada no século XVIII.

Videoaula sobre estereótipo

O que é estereótipo?

O estereótipo é um atalho mental que molda a percepção do mundo e dos grupos sociais que nele existem de forma simplificada e generalizada. Eles são reproduzidos culturalmente e interferem — grande parte das vezes inconscientemente — nas relações sociais, produzindo uma crença rígida, às vezes exagerada, sobre um grupo de pessoas com características comuns, mas que também pode ser aplicada a cada indivíduo pertencente ao mesmo grupo.

Há tanto pontos positivos quanto pontos negativos no estereótipo. De um ponto de vista psicológico, o ser humano depende do estereótipo para interagir com o mundo. Com esse mecanismo de simplificação cognitiva, o indivíduo formula uma percepção inicial do mundo e de seus elementos, o que é fundamental para ele tomar decisões.  Se os dados complexos que recebemos da realidade, principalmente sobre grupos de pessoas, não fossem categorizados e classificados de uma forma simplificada pelo nosso cérebro, provavelmente a nossa interação com o meio ficaria “travada” pela sobrecarga de informações. 

Desacompanhado da reflexão crítica, o estereótipo sedimenta uma base sólida para a construção de preconceitos. E os preconceitos, por sua vez, são usados para justificar a discriminação e as atitudes em relação a grupos genéricos de pessoas como “os imigrantes”, “os indígenas”, “os pobres” ou “os franceses”.

O estereótipo, enfim, pode ser definido como uma construção mental resultante de mecanismos cognitivos que ajudam a processar informações complexas. Ele tem relevância sociológica porque costuma ser ensinado e compartilhado dentro de uma comunidade como uma forma de gerar interações entre as pessoas. Devido ao impacto na percepção do indivíduo sobre o mundo e na opressão social, é muito importante entender o que há por trás dos estereótipos e como eles são forjados. 

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Como os estereótipos são construídos?

O estereótipo é a imagem padronizada e generalizada sobre algo ou alguém, proveniente do senso comum, que a sociedade constrói para classificar as pessoas ou os grupos sociais. A compreensão para entender como essas representações sociais se formam passa por três fatores: o funcionamento do cérebro humano, a socialização dos indivíduos e a atuação dos meios de comunicação de massa.

→ Exemplos de estereótipos

Veja a seguir alguns exemplos de estereótipos, os quais possuem a crença de que:

  • “os homens não sabem cuidar de crianças” (estereótipo de gênero);
  • “as mulheres são mais capazes de cuidar das pessoas” (estereótipo de gênero);
  • “os judeus são pessoas gananciosas” (estereótipo religioso);
  • “os quenianos são todos talentosos em corridas de rua” (estereótipo étnico ou racial);
  • “os indígenas são preguiçosos e não gostam de trabalho duro” (estereótipo étnico ou racial);
  • “os franceses, em geral, são todos uns ranzinzas” (estereótipo étnico ou racial);
  • “os idosos não conseguem aprender coisas novas” (estereótipo etário);
  • “os jovens são pessoas irresponsáveis e rebeldes” (estereótipo etário);
  • “os políticos são todos ladrões” (estereótipo profissional);
  • “os professores são, por definição, chatos e desinteressantes” (estereótipo profissional);
  • “as pessoas com deficiência são incapazes de fazer as coisas por si” (estereótipo capacitista).

Tipos de estereótipos

Os estereótipos podem ser classificados em vários tipos. Os mais importantes são o estereótipo racial, o de gênero e o de classe. Estes são considerados estereótipos de justificação do sistema, uma vez que podem ser usados para dar sentido à manutenção do status quo e reforçar a desigualdade existente em uma sociedade. Além dos estereótipos de justificação do sistema, que podem perpetuar desigualdades, existem vários outros tipos de estereótipos. A seguir, conheça alguns deles e veja exemplos da forma como se manifestam:

  • Estereótipos de justificação do sistema:
    • Estereótipo racial: é o tipo de estereótipo relacionado às generalizações sobre a raça ou grupo étnico a que uma pessoa pertence. A crença de que pessoas negras são naturalmente menos inteligentes ou mais propensas a cometer crimes, por exemplo, pode ser usada para justificar políticas de encarceramento em massa e a discriminação em áreas como o esporte e a educação.
    • Estereótipo de gênero: é o tipo de estereótipo relacionado a imagens cristalizadas sobre o feminino e o masculino. Por exemplo, a ideia de que as mulheres são emocionais e sensíveis, enquanto os homens são racionais e fortes, pode ser usada para justificar a falta de mulheres em posições de liderança ou a desvalorização de suas contribuições em áreas como a ciência e no meio dos negócios corporativos.
    • Estereótipo de classe ou socioeconômico: é o tipo de estereótipo relacionado à representação social sobre a origem social do indivíduo. Por exemplo, a ideia de que as pessoas pobres são preguiçosas ou não trabalham duro o suficiente pode ser usada para justificar a falta de acesso a serviços e oportunidades, bem como a manutenção de políticas que perpetuam a desigualdade econômica.
  • Estereótipo profissional: é o tipo de estereótipo relacionado a generalizações sobre a ocupação do indivíduo. Por exemplo, a crença de que de que advogados são gananciosos e não se importam com a ética.
  • Estereótipo capacitista: é o tipo de estereótipo relacionado à padronização sobre as capacidades físicas de um indivíduo. Por exemplo, acreditar que pessoas com deficiência são inspiradoras só por viverem suas vidas normais.

Diferenças entre estereótipo e preconceito

Até os anos 1970, os psicólogos sociais falavam mais de preconceitos de que de estereótipos. Por trás dessa mudança de termo, ocorreu uma mudança de orientação teórica: não se julga mais o valor de verdade de um estereótipo. A declaração estereotipada passou a ser considerada mais neutra e abrangente, um mecanismo geral para conectar o pensamento coletivo e o pensamento individual.

Se o estereótipo fornece esquemas gerais para a categorização de um grupo social, o preconceito é uma atitude cultural positiva ou negativa em relação aos indivíduos percebidos como membros desse mesmo grupo. Por exemplo, vamos analisar o racismo que brancos dirigem a negros ou outras pessoas de cor. Essa discriminação pode incluir crenças estereotipadas sobre diferenças raciais em áreas como inteligência, motivação, caráter moral e habilidades diversas. Essas diferenças são então julgadas segundo crenças e valores que desmerecem as pessoas negras enquanto elevam o status de pessoas brancas.

Quando uma pessoa branca pratica atitude preconceituosa, ela adiciona à representação social do negro emoções próprias como hostilidade, desprezo ou temor. Essas emoções do indivíduo, junto com as crenças estereotipadas, criam uma predisposição naquela pessoa branca para tratar pessoas negras de maneira opressora e para perceber a sua própria categoria social como superior.  

Portanto, os estereótipos são constituídos por representações mentais que generalizam e padronizam as pessoas pertencentes a um determinado grupo social. Eles formam um conjunto inicial de crenças que serve de base para as atitudes preconceituosas. O preconceito, por sua vez, é o fundamento da discriminação, ou seja, o ato de tratar desigualmente indivíduos que pertencem a um grupo ou categoria particular. 

Veja também: O que é o preconceito de classe social?

Qual a origem do termo estereótipo?

O termo estereótipo tem origem em duas palavras gregas, “stereos” e “typos”, que juntas significam “impressão sólida”.

A palavra foi tomada de empréstimo de um processo de impressão gráfica, criado no fim do século XVIII, no qual uma única impressão é usada para produzir muitas cópias idênticas de placas metálicas que permitiam a impressão em massa de livros, jornais e revistas.

Mais tarde, psicólogos sociais ampliaram o seu significado para descrever a ideia de uma imagem ou impressão fixa e generalizada de um grupo de pessoas. A ideia de repetir automaticamente algo que foi preparado de antemão foi conservada. Atualmente, essas representações sociais simplificadas e generalizadas de um grupo podem ser a base de preconceitos e outras crenças sociais compartilhadas. 

Principais aspectos relacionados à construção dos estereótipos

◦ O outro generalizado e a socialização

A socialização é o nome dado aos processos que preparam uma pessoa, desde a infância, para participar dos sistemas sociais. Do ponto de vista dos indivíduos, a participação nesses sistemas é importante para a criação de um self, uma identidade social, algo que só é possível construir interagindo com os outros.

Da perspectiva dos sistemas sociais, a socialização é necessária para que o sistema continue a funcionar com eficácia, uma vez que todos eles dependem de indivíduos motivados e preparados para desempenhar os vários papéis distribuídos. Por essa razão, o indivíduo é socializado para perceber um sistema social como uma realidade natural, que simplesmente é o que parece ser, e não para analisá-lo como algo que a sociedade construiu e pode reconstruir.

As generalizações estereotipadas atuam facilitando a percepção simplificada de um grupo social ao qual o indivíduo quer se integrar ou do qual quer se diferenciar. O indivíduo usa uma generalização, por exemplo, quando ingressa em uma situação em que não conhece nenhum dos indivíduos e tem de possuir alguma base para saber o que ele deve esperar dos outros e o que os outros devem esperar dele. A fim de realizar esse propósito, confiamos naquilo que é chamado de o outro generalizado.

Por exemplo, quando uma pessoa entra em um armazém pela primeira vez, sem nenhum conhecimento particular sobre o dono do lugar, que está do outro lado do balcão para atendê-la, as expectativas dela se baseiam apenas no conhecimento da relação entre donos de armazém e fregueses em geral, e no que ela comumente espera que aconteça quando inicia uma interação desse tipo. É a experiência do outro generalizado que viabiliza as primeiras interações. 

O outro generalizado permite que o indivíduo, antecipadamente, formule um entendimento geral sobre os papéis desempenhados por cada pessoa dentro de um dado sistema social. Dessa maneira, quando interagimos em uma situação social inédita, a nossa única base de conhecimento, que vem do senso comum, é o outro generalizado. É importante, porém, distinguir entre a generalização e o estereótipo.

A generalização é o processo cognitivo que nos possibilita transcender as situações particulares do dia a dia para um contexto geral e abstrato. A generalização é qualquer declaração que pretende descrever uma categoria ou grupo de indivíduos como um todo. O exemplo de generalização seria uma frase como: “muitas pessoas negras são vítimas de morte violenta”. 

O fato de que é mais provável que negros sejam vítimas de violência não significa absolutamente que todos, a maioria ou mesmo muitos negros experimentarão uma morte violenta. Contudo, as pessoas que confundem generalizações como se fossem estereótipos poderão supor exatamente isso de todo e qualquer negro que encontrarem.

◦ Simplificação e viés cognitivo

O segundo fator para entender a construção de estereótipos é a simplificação cognitiva. A fim de processar todas as informações e nos permitir entender o mundo e tomar decisões com relativa velocidade, o cérebro humano simplifica tudo criando atalhos mentais e vieses cognitivos, mas os vieses cognitivos nos levam a erros de julgamento que podem reforçar estereótipos.

Os estereótipos surgem também da necessidade de reduzir a complexidade e identificar padrões nas experiências sociais. Nesse sentido, o viés cognitivo de confirmação, por exemplo, é uma tendência do cérebro que nos leva a interpretar e valorizar informações que confirmam ou reforçam nossas crenças, hipóteses ou expectativas preexistentes. Um exemplo disso seria um professor de matemática que acredita no estereótipo de que as mulheres são menos habilidosas na sua disciplina. Pelo viés de confirmação, esse professor de matemática pode ser levado a destacar casos de alunas com desempenho inferior em exames aplicados ao longo da sua carreira, ignorando as evidências contrárias.

Outro viés cognitivo que leva os indivíduos a reforçarem estereótipos é o viés cognitivo da disponibilidade. O viés de disponibilidade é o padrão de pensamento que leva as pessoas a confiarem em informações facilmente acessíveis em suas memórias ao tomarem decisões ou avaliarem situações, em vez de buscar informações mais abrangentes ou imparciais. O efeito do viés de disponibilidade é muito influenciado pela atuação da mídia, da publicidade, da veiculação de notícias falsas e sensacionalistas. 

◦ Comunicação de massa e mídia

A comunicação de massa é outro fator que, atualmente, pode reforçar a construção (ou a desconstrução) social de estereótipos. A sociedade da informação é composta por especialistas treinados para transmitir imensos volumes de informação a uma plateia grande e diversificada espalhada por um grande território. Sendo assim, o uso de generalizações e estereótipos é encontrado tipicamente na televisão, no rádio, no cinema, nos jornais, nos livros, nas revistas e, principalmente, redes sociais da internet.

De acordo com a teoria das rotulações, desenvolvida na sociologia interacionista por nomes como Ervin Goffman e Howard Becker, o impacto dos meios de comunicação é muito grande nos processos de construção dos significados através da interação. Podemos observar a influência significativa que esses meios têm na construção e propagação de rótulos sociais.

A mídia tem o poder de retratar e amplificar certos grupos ou indivíduos, criando representações estereotipadas que podem influenciar a opinião pública e reforçar preconceitos sociais. Por exemplo, se a mídia rotula uma determinada comunidade ou etnia como “criminosa” ou “perigosa”, essa etiqueta pode criar uma percepção negativa generalizada sobre todos os membros desse grupo, mesmo que apenas alguns indivíduos tenham se envolvido em atividades criminosas.

Essa rotulação pode levar a um aumento da estigmatização, discriminação e marginalização desses grupos na sociedade. E isso ocorre porque a mídia muitas vezes retrata grupos de forma simplificada e exagerada, com base em convenções e preconceitos sociais, contribuindo ainda mais para que os sistemas sociais rotulem os indivíduos em “caixinhas”, ditando seus comportamentos e padronizando sua imagem de forma bem preconceituosa. 

Fontes

BECKER, Howard. Outsiders: estudos de sociologia do desvio. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

GOFFMAN, Erving. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Rio de Janeiro: Zahar, 1980.

JOHNSON, Allan G. Dicionário de sociologia: guia prático da linguagem sociológica. Rio de Janeiro: Zahar, 1997.

Escritor do artigo
Escrito por: Rafael Pereira da Silva Mendes Licenciado e bacharel em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Atuo como professor de Sociologia, Filosofia e História e redator de textos.

Gostaria de fazer a referência deste texto em um trabalho escolar ou acadêmico? Veja:

MENDES, Rafael Pereira da Silva. "Estereótipo"; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/sociologia/estereotipo.htm. Acesso em 24 de maio de 2024.

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