O pronome apassivador “se” aparece em oração com sujeito paciente. Ele acompanha verbo transitivo direto, conjugado na terceira pessoa do singular ou do plural. Por exemplo, na frase “Vê-se alguém na colina”, “alguém” é o sujeito paciente (alguém é visto na colina), com o qual o verbo “vê” concorda.
Já o índice de indeterminação do sujeito “se” ocorre em oração com sujeito indeterminado. Ele acompanha verbo intransitivo, transitivo indireto ou de ligação, conjugado na terceira pessoa do singular. Assim, em frases como “Dorme-se muito”, não é possível determinar o sujeito da oração, ou seja, quem dorme.
Leia também: Voz passiva e voz ativa — qual a diferença?
Tópicos deste artigo
- 1 - Resumo sobre pronome apassivador “se”
- 2 - O que é pronome apassivador?
- 3 - Exemplos de pronome apassivador
- 4 - Pronome apassivador e índice de indeterminação do sujeito
- 5 - Exercícios resolvidos sobre pronome apassivador
Resumo sobre pronome apassivador “se”
- O pronome apassivador “se” acompanha verbo na terceira pessoa do singular ou do plural, em oração com sujeito paciente: “Comprou-se uma refeição simples”.
- O pronome apassivador “se” é usado em oração que apresenta, simultaneamente:
- verbo transitivo direto,
- verbo na terceira pessoa do singular ou do plural,
- sujeito paciente.
- O índice de indeterminação do sujeito “se” acompanha verbo na terceira pessoa do singular, em oração com sujeito indeterminado: “Vive-se mal aqui”.
- O pronome apassivador acompanha verbo transitivo direto, enquanto o índice de indeterminação do sujeito acompanha verbo intransitivo, transitivo indireto ou de ligação.
O que é pronome apassivador?
O pronome apassivador é o pronome “se”. Também chamado de “partícula apassivadora”, o “se” exerce essa função quando, ao acompanhar um verbo na terceira pessoa (“ele”, “ela”, “eles” ou “elas”), faz com que o sujeito da oração seja paciente:
Fez-se uma cadeira de balanço.
Escreveu-se uma carta.
Uma das definições de sujeito é: o elemento que pratica a ação verbal. No entanto, nas orações acima, não é possível saber quem pratica tais ações (fazer e escrever). Mas dá para saber o que sofre a ação verbal: “uma cadeira de balanço” sofre a ação de ser feita, e “uma carta” sofre a ação de ser escrita.
Portanto, existe uma outra definição de sujeito: é o elemento que sofre a ação verbal. Então, nessas orações, “uma cadeira de balanço” e “uma carta” são sujeitos pacientes, pois sofrem a ação verbal. O caráter paciente ou passivo desses sujeitos acontece quando o pronome apassivador “se” aparece junto do verbo. Portanto, o pronome apassivador é responsável pela passividade dos sujeitos.
Quando você se depara com um verbo transitivo direto acompanhado de “se”, o sujeito paciente aparece logo depois. Nos exemplos acima, os verbos “fez” e “escreveu” são transitivos diretos, pois exigem um objeto direto (complemento sem preposição). Afinal, quem faz, faz alguma coisa. Essa “alguma coisa” é o objeto direto. E quem escreve, escreve algo. Esse “algo” é o objeto direto.
Porém, quando esses verbos aparecem acompanhados do pronome apassivador “se”, o que deveria ser objeto direto, passa a assumir a função de sujeito.
Observe:
Minha esposa fez uma cadeira de balanço.
(v. t. direto + objeto direto)
Meu marido escreveu uma carta.
(v. t. direto + objeto direto)
Note que, em ambas as frases, o verbo indica uma ação, ou seja, “fazer” e “escrever”. Quem praticou essas ações? Na primeira frase, o sujeito é “minha esposa” e, na segunda, o sujeito é “meu marido”.
Agora veja como ficam essas frases com pronome apassivador:
Fez-se uma cadeira de balanço.
(v. t. direto + se + sujeito paciente)
Escreveu-se uma carta.
(v. t. direto + se + sujeito paciente)
Quando o pronome apassivador aparece junto ao verbo nessas orações, já não é possível saber quem pratica a ação de escrever e de fazer, assim, o objeto direto passa a assumir a função de sujeito paciente, aquele que sofre a ação verbal.
→ Pronome apassivador e agente da passiva
Outra forma de escrever tais frases, mantendo o sujeito paciente é:
Fez-se uma cadeira de balanço. → Uma cadeira de balanço foi feita.
(suj. paciente) (suj. paciente)
Escreveu-se uma carta. → Uma carta foi escrita.
(suj. paciente) (suj. paciente)
Mas, quando fazemos isso, fica faltando o agente da ação, o qual a gramática normativa chama de “agente da passiva”. Na maioria das vezes, ele vem iniciado pela palavra “por” ou pela união de “por” mais “o” (“pelo”) ou de “por” mais “a” (“pela”):
Uma cadeira foi feita pela minha esposa.
(agente da passiva)
Uma carta foi escrita pelo meu marido.
(agente da passiva)
Assim, os sujeitos são “uma cadeira” e “uma carta”, e os agentes da passiva são “pela minha esposa” e “pelo meu marido”. Mas, quando usamos o pronome apassivador “se”, não indicamos o agente da ação, pois só podemos apontar o sujeito paciente da oração, isto é, aquele que sofre a ação verbal: Fez-se uma cadeira de balanço / Escreveu-se uma carta.
→ Pronome apassivador e concordância verbal
Por fim, devo lembrar que o verbo concorda com o sujeito. Isso quer dizer que, se o sujeito estiver no singular, o verbo fica no singular. Mas se o sujeito estiver no plural, o verbo fica no plural:
Fizeram-se cadeiras de balanço.
Escreveram-se cartas.
No próximo tópico, veremos frases com a estrutura típica da ocorrência de pronome apassivador:
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verbo na terceira pessoa do singular ou do plural + se + sujeito paciente |
Veja também: Como identificar o sujeito e o predicado de uma oração?
Exemplos de pronome apassivador
- Alugam-se casas verdes perto da praia.
- Consertam-se armações de óculos.
- Estudou-se a matéria da prova.
- Sempre se viam pessoas fumando em frente ao cinema.
- Que se deem os bens aos filhos é o esperado.
- Devolveram-se os celulares aos alunos.
- Busca-se namorado gentil e inteligente.
- Entregaram-se os discursos aos candidatos.
- Fez-se uma vestimenta adequada.
- Publicaram-se livros de filosofia.
- Assinou-se o acordo de paz.
- Perdeu-se a oportunidade do século.
- Liberou-se o trecho interditado.
- Ouviu-se um estrondo.
- Escolheu-se a guerra em detrimento da paz.
- Plantaram-se margaridas no jardim central.
- Enviou-se uma solicitação à clínica.
- Não se aceitam mentiras aqui.
- Onde se compra comida neste bairro?
- Nunca se leu tanta nota de rodapé.
Pronome apassivador e índice de indeterminação do sujeito
O pronome “se” pode ser usado como apassivador, mas também como índice de indeterminação do sujeito. Como apassivador, usamos o pronome “se” para acompanhar verbo transitivo direto na terceira pessoa do singular ou do plural, seguido de sujeito paciente:
Consertam-se máquinas de lavar.
Vende-se uma bicicleta.
Em ambos os casos, o sujeito é determinado, passível de ser apontado. No primeiro exemplo, o verbo “consertam” é transitivo direto (quem conserta, conserta alguma coisa), pois seu complemento não apresenta preposição. Esse verbo está na terceira pessoa do plural (“elas”), pois concorda com o sujeito paciente (aquele que sofre a ação verbal) “máquinas de lavar”. Portanto: Máquinas de lavar são consertadas.
No segundo exemplo, o verbo “vende” é transitivo direto (quem vende, vende alguma coisa). Tal verbo está na terceira pessoa do singular (“ela”), uma vez que concorda com o sujeito paciente “uma bicicleta”. A frase diz que: Uma bicicleta é vendida.
No entanto, existe também o sujeito indeterminado. Esse tipo de sujeito não pode ser apontado na oração, apesar de sabermos que existe um agente da ação verbal. Por exemplo, se eu digo “Correram o dia inteiro”, você sabe que alguém (“elas” ou “eles” não explicitados na frase) correu, mas não pode determinar quem é o sujeito dessa ação.
Uma das formas de ocorrência do sujeito indeterminado é em oração com índice de indeterminação do sujeito. Essa indeterminação ocorre quando o verbo, na terceira pessoa do singular, é:
- intransitivo (não exige complemento),
- transitivo indireto (exige objeto indireto) ou
- verbo de ligação (liga o sujeito ao predicativo que qualifica tal sujeito).
Nessa situação, o verbo, acompanhado do índice de indeterminação do sujeito “se”, faz parte de uma oração com sujeito indeterminado:
Ri-se muito atualmente.
(rir = verbo intransitivo)
Luta-se contra a desigualdade
(lutar = v. transitivo indireto)
Fica-se triste com frustrações.
(ficar = verbo de ligação)
O verbo “ri” é intransitivo, pois quem ri, ri. Ele não exige um complemento. Por estar acompanhado do “se” (índice de indeterminação do sujeito), não é possível apontar o sujeito da oração, o qual é indeterminado, pois não sabemos quem ri muito atualmente. Já o verbo “luta” é transitivo indireto, já que, nesse caso, quem luta, luta CONTRA alguma coisa. Tal verbo precisa de um complemento iniciado com preposição: “contra a desigualdade”. Por estar acompanhado do índice de indeterminação do sujeito “se”, não sabemos quem, na oração, luta contra a desigualdade.
Finalmente, o verbo “fica” é de ligação, já que liga o sujeito ao predicativo “triste”. Então, quando um verbo de ligação aparece acompanhado de “se” (índice de indeterminação do sujeito), temos um sujeito indeterminado na oração. Por isso, não sabemos quem é que fica triste com as frustrações.
Assim, o pronome apassivador acompanha verbo transitivo direto na terceira pessoa do singular ou do plural, em oração com sujeito paciente. Já o índice de indeterminação do sujeito acompanha verbo intransitivo, transitivo indireto ou de ligação, na terceira pessoa do singular, em oração com sujeito agente (aquele que pratica a ação).
Saiba mais: O que é uma oração sem sujeito?
Exercícios resolvidos sobre pronome apassivador
Questão 1 (Unimontes)
O milagre do sorinho e outros milagres
A doutora Zilda Arns fez tudo ao contrário de como costumam ser feitos os programas de políticas públicas no Brasil. Não chamou o marqueteiro, como providência inaugural dos trabalhos. Não engendrou uma generosa burocracia, capaz de proporcionar bons e agradáveis empregos. Não ofereceu contratos milionários aos prestadores de serviço. Sobretudo, não anunciou o programa e, com o simples anúncio, deu a coisa por feita e resolvida. Milagre dos milagres. Zilda Arns, que morreu na semana passada, no terremoto do Haiti, aos 75 anos, realmente fez. Se o Brasil teve uma redução significativa nos níveis de mortalidade e desnutrição infantil, nas últimas décadas, isso se deve em primeiro lugar à Pastoral da Criança, criada e administrada por ela, com apoio da Igreja Católica, e aos exemplos que semeou.
[...]
Zilda Arns conduziu-se por uma estratégia baseada na sabedoria antiga e na vontade de fazer, nada mais do que isso. É paradoxal dizer isso de uma pessoa tão religiosa, mas não houve milagres na sua ação. A menos que se considere um milagre a presença dessa coisa chamada amor como motor, tanto dela como das pessoas em quem ela inoculava o mesmo vírus. Vai ver, ela diria isso. Vai ver, isso foi importante mesmo.
[...]
Roberto Pompeu de Toledo, Veja, 20-1-2010.
Na passagem “A menos que se considere um milagre a presença dessa coisa chamada amor...”, o “se” é
A) índice de indeterminação do sujeito.
B) parte integrante do verbo “considerar”.
C) partícula apassivadora.
D) termo em que recai a ação verbal.
Resolução: Alternativa C.
Na passagem, “se” é partícula apassivadora (pronome apassivador). Afinal, o verbo “considerar” é transitivo direto, está na terceira pessoa do singular e concorda com o sujeito paciente “a presença dessa coisa chamada amor”, isto é, essa coisa chamada amor é considerada um milagre. Portanto, “um milagre” é predicativo do sujeito.
Questão 2
Analise estes enunciados:
I- À noite, ouviram-se vozes estranhas no corredor.
II- Ontem, acreditava-se na melhora de seu quadro clínico.
III- O leão lambeu-se sob o escaldante sol africano.
O pronome apassivador está presente na(s) frase(s):
A) I apenas.
B) II apenas.
C) III apenas.
D) I e II apenas.
E) I, II e III.
Resolução: Alternativa A.
Em “À noite, ouviram-se vozes estranhas no corredor”, “vozes estranhas” é o sujeito paciente nessa oração com pronome apassivador “se”. Já em “Ontem, acreditava-se na melhora de seu quadro clínico”, o sujeito é indeterminado pelo índice de indeterminação do sujeito “se”. Por fim, em “O leão lambeu-se sob o escaldante sol africano”, “o leão” é sujeito e alvo da ação de lamber, ou seja, o leão lambe a si mesmo, sendo o “se” pronome reflexivo.
Fonte
CEGALLA, Domingos Paschoal. Novíssima gramática da língua portuguesa. 49. ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2020.