Houve ou houveram? “Houve” e “houveram” são duas palavras resultantes da conjugação do verbo “haver” no pretérito perfeito do indicativo: “ela ou ele houve” e “elas ou eles houveram”. Usamos “houve”, em uma frase no passado, quando tal verbo tem o mesmo sentido de “existir” ou de “acontecer”: “Houve bons momentos naquela praia”.
Já o uso de “houveram” é bastante raro. Porém, é gramaticalmente correto utilizar tal verbo como sinônimo de “obter”, de “julgar”, de “portar-se”, de “sair-se” ou de “considerar bom”. Um exemplo é a frase “Todos houveram por bem encerrar o projeto”, em que a expressão “houveram por bem” pode ser substituída por “consideraram bom”.
Leia também: Ficaram ou ficarão — quando e como usar?
Tópicos deste artigo
- 1 - Resumo sobre “houve” e sobre “houveram”
- 2 - Qual o certo, “houve” ou “houveram”?
- 3 - Quando usar “houveram”?
- 4 - Frases com “houve” e com “houveram”
- 5 - Exercícios resolvidos sobre “houve” e sobre “houveram”
Resumo sobre “houve” e sobre “houveram”
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“Houve” e “houveram” são formas de terceira pessoa do verbo “haver”.
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Se o verbo “haver” tem o sentido de “existir” ou de “acontecer”, ele é um verbo impessoal e fica sempre na terceira pessoa do singular.
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O verbo “houve” faz referência à terceira pessoa do singular do verbo “haver” conjugado no pretérito perfeito do indicativo.
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Com o sentido de “existir”, “houve” é impessoal: “Houve muitas comemorações este ano”.
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O uso de “houveram” é raro (pouco utilizado), e tal palavra é empregada com o sentido de:
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obter: “Muitos houveram o direito de amar.”;
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julgar: “Elas houveram por inconveniente aquela atitude.”;
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portar-se: “Não se houveram bem na reunião.”;
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sair-se: “Muitos se houveram mal nos exames.”;
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considerar bom: “Meus pais houveram por bem proibir-me de usar o celular.”
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Qual o certo, “houve” ou “houveram”?
“Houve” e “houveram” são formas de terceira pessoa do verbo “haver”, e os dois estão corretos, embora possuam usos diferentes.
Se você quiser usar o verbo “haver” com o sentido de “existir”, o certo é “houve”. Nesse caso, usar “houveram”, segundo a gramática normativa, está errado. A palavra “houve” é o verbo “haver” conjugado no pretérito perfeito do indicativo:
Eu houve
Tu houveste
Ela ou ele houve
Nós houvemos
Vós houvestes
Elas ou eles houveram
Quando o verbo “haver” expressa a ação de “existir”, nós dizemos que ele é impessoal. Isso quer dizer que ele não apresenta uma pessoa verbal. As pessoas verbais são os pronomes pessoais do caso reto “eu”, “tu”, “ela” ou “ele”, “nós”, “vós”, “elas” ou “eles”. Essas pessoas atuam como sujeito (termo que pode ser substituído por um pronome do caso reto).
O verbo impessoal fica sempre na terceira pessoa do singular e não apresenta sujeito (outra definição de sujeito é o termo com o qual o verbo concorda). Portanto, se “haver” é impessoal, não podemos usar “houveram” (terceira pessoa do plural), já que ele não apresenta um sujeito que pode ser substituído por “elas” ou “eles”.
Veja só estes exemplos:
Houve gente que me criticou.
Houve pessoas que me criticaram.
Note que o verbo tem o sentido de “existir”. O primeiro exemplo não causa dúvida, mas o segundo sim. Como a palavra “pessoas” está no plural, há uma tendência de quem usa a língua portuguesa de colocar o verbo também no plural:
Houveram pessoas que me criticaram.
Porém, como eu já disse, a gramática normativa, por considerar o verbo impessoal, entende essa construção como errada. Isso porque “pessoas” não é sujeito do verbo “haver”. A gramática normativa também diz que uma oração (frase com verbo) formada por verbo “haver” com sentido de “existir” possui sujeito inexistente, ou seja, é uma oração sem sujeito.
Nesse caso, “pessoas” é um complemento verbal, pois tal palavra completa o sentido do verbo “houve”: “Houve pessoas que me criticaram”. Então “pessoas” é objeto direto, pois é um complemento verbal sem preposição.
Isso também ocorre quando “houve” é usado com o sentido de “acontecer” ou “realizar-se”, de forma que ele fica impessoal:
Houve brincadeiras no parque.
Houve muitos casos de gripe este ano.
Quando usar “houveram”?
No tópico anterior, eu mostrei para você quando o verbo “haver” é impessoal. Nesse caso, “houveram” não pode ser usado. Então quando usar “houveram”? A resposta é: quando o verbo “haver” for pessoal. Pois é, “haver” é impessoal quando tem o sentido de “existir” ou de “acontecer”, mas também pode ser pessoal quando:
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expressa o sentido de “obter” ou de “conseguir”:
Os moradores houveram do síndico a promessa de mudanças.
Nesse caso, tem o mesmo sentido de: “Os moradores conseguiram do síndico a promessa de mudanças”.
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tem o sentido de “julgar” ou de “entender”:
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As mulheres houveram por mais adequado levar a petição à prefeita.
Nesse caso, tem o mesmo sentido de: “As mulheres julgaram por mais adequado levar a petição à prefeita”.
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tem o sentido de “proceder”, de “portar-se” ou de “sair-se”, quando acompanhado do pronome “se”:
Alguns se houveram com total desrespeito ao próximo.
Nesse caso, tem o mesmo sentido de: “Alguns se portaram com total desrespeito ao próximo”.
Os funcionários não se houveram bem nas tarefas.
Nesse caso, tem o mesmo sentido de: “Os funcionários não se saíram bem nas tarefas”.
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tem o sentido de “considerar bom” na expressão “haver por bem”:
As professoras houveram por bem cancelar as provas.
Nesse caso, tem o mesmo sentido de: “As professoras consideraram bom cancelar as provas”.
Como você deve ter percebido, o uso de “houveram” é bastante raro, mas os exemplos que apontei são gramaticalmente corretos. Note que, neles, “houveram” possui sujeito: “os moradores”, “as mulheres”, “alguns”, “os funcionários” e “as professoras”. Portanto, é um verbo pessoal.
Confira também: Chego ou chegado — qual a diferença?
Frases com “houve” e com “houveram”
→ Frases com “houve”
Houve uma festinha de aniversário na empresa.
Houve muitas situações complicadas no trabalho.
Procurei sua ajuda quando houve problemas na escola.
Expliquei-lhe que houve mudanças na forma de declarar o imposto de renda.
Não entendo por que houve tanta confusão por algo tão banal.
Ele esqueceu que houve vaias na última apresentação.
Houve longas filas para conseguir o alimento.
Neste país, houve séculos de escravidão.
Disseram-me que houve poucas solicitações do medicamento.
Não houve um momento sequer de paz em sua vida.
Sei que houve entidades que precisaram fechar as portas.
→ Frases com “houveram”
Os alunos houveram a revisão das notas.
As atletas houveram os bons resultados tão esperados.
As arquitetas houveram por bem abandonar o projeto.
Os jogadores houveram por bem apoiar a campanha contra a violência.
Todos houveram suas atitudes como incivilizadas.
As pessoas houveram-se com delicadeza e civilidade.
Minhas queridas primas houveram-se com dignidade.
Meus irmãos houveram-se mal na competição.
Não se houveram bem no encaminhamento da proposta.
Exercícios resolvidos sobre “houve” e sobre “houveram”
Questão 1
Marque V (verdadeiro) ou F (falso) para as seguintes afirmações:
( ) O verbo “houve”, com sentido de “existir”, é impessoal.
( ) O verbo “houveram”, com sentido de “existir”, é pessoal.
( ) O verbo “houveram”, com sentido de “obter”, é pessoal.
A sequência correta é:
A) V, V, F.
B) V, V, V.
C) V, F, V.
D) F, F, V.
E) F, V, F.
Resolução:
Alternativa C.
O verbo “houve”, com sentido de “existir”, é impessoal: “Houve livros polêmicos naquele século”. Já o verbo “houveram”, por ser pessoal, não pode ser usado com o sentido de “existir”; pois, nesse caso, a forma correta é “houve”. Por fim, o verbo “houveram”, com sentido de “obter”, é pessoal: “Eles houveram a aprovação de todos”.
Questão 2
Analise estes enunciados:
I- Não houve atitudes justas nesse caso.
II- Não houveram iniciativas produtivas.
III- Houve dias em que chorei.
O uso do verbo “haver” está correto em:
A) I apenas.
B) II apenas.
C) III apenas.
D) I e III apenas.
E) I, II e III.
Resolução:
Alternativa D.
Com o sentido de “existir” ou de “acontecer”, o verbo “haver” é impessoal: “Não houve atitudes justas nesse caso”, “Não houve iniciativas produtivas” e “Houve dias em que chorei”.
Fonte
CEGALLA, Domingos Paschoal. Novíssima gramática da língua portuguesa. 49. ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2020.