Martin Heidegger

Filosofia

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Martin Heidegger destacou-se como um dos principais filósofos do séc. XX com sua reinterpretação da fenomenologia de Edmund Husserl, indicando uma dimensão hermenêutica.

Suas propostas foram diretamente relevantes para o existencialismo de Jean-Paul Sartre e para o desenvolvimento hermenêutico de Hans-Georg Gadamer. Não apenas eles participaram de palestras e estudaram com esse grande pensador alemão, encontramos também entre seus estudantes com maior expressão filosófica Karl Löwith, Hannah Arendt e Herbert Marcuse.

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Biografia de Martin Heidegger

Martin Heidegger nasceu em 1889, em Messkirch, uma cidade no sudoeste da Alemanha. Proveniente de uma família católica romana, seu pai, Friedrich Heidegger, era sacristão em uma igreja da cidade. Somados sua mãe, Johanna Kempf Heidegger, e seus irmãos, Fritz e Mariele, a família tinha uma vida simples em uma pacata cidade rural.

Após os estudos fundamentais, com 14 anos, Heidegger é enviado a duas escolas jesuítas, como um candidato ao sacerdócio. Nesse período aprende grego e latim, e tem seu primeiro contato com um estudo, de Franz Brentano, sobre os vários sentidos de “ser” em Aristóteles.

Martin Heidegger influenciou o existencialismo e a hermenêutica. [1]
Martin Heidegger influenciou o existencialismo e a hermenêutica. [1]

Começou os estudos superiores com 20 anos, em um seminário em Freiburg (conhecido como Sapientia) e na universidade Albert Ludwig (conhecida hoje apenas como Universidade de Freiburg). Em seus estudos, teve acesso a grandes nomes da história da filosofia, como Søren Kierkegaard e Wilhelm Dilthey, que certamente exerceram influência em seu pensamento, e também leu muitos livros de seus professores e alguns teólogos da época.

O ano de 1911 trouxe muitas mudanças para o jovem Martin Heidegger. Esteve doente boa parte do ano, tendo que retornar para sua cidade natal em busca de repouso. Ao retornar para Freiburg, decide abandonar o seminário. Seu desejo nesse período já era o de ir estudar com Edmund Husserl, cujos textos havia começado a ler, na Universidade de Göttingen, mas a saída do seminário acarretou o fim de uma bolsa anual, impossibilitando a mudança para a região norte da Alemanha.

Mantendo sua atenção apenas nos cursos de filosofia, conquistou seu doutorado em 1913, alcançando a autorização para lecionar dois anos mais tarde, com uma publicação sobre Duns Scot.

Casou-se com Elfride Petri, que era protestante, em 1917, em uma cerimônia discreta na capela da Universidade de Freiburg. Ao retornar, em 1919, de uma breve atividade militar, anuncia sua desvinculação do catolicismo e passa a ser assistente de Edmund Husserl, que já estava em Freiburg desde 1916.

Nesse período, embora Heidegger tenha grande admiração pelo método fenomenológico desse filósofo, que se tornou um amigo, começa a distanciar-se dele teoricamente, reinterpretando-o, ao mesmo tempo em que passa a ser reconhecido como excelente professor.

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Seus cursos sobre Aristóteles e temas da filosofia medieval expõem interpretações brilhantes, e seu mentor indica-o para lecionar na Universidade de Marburg. Iniciou, em 1923, e permaneceu nessa instituição durante cinco anos, e continuou a apresentar cursos sobre temas variados da história da filosofia. É nesse período que sua grande obra, Ser e tempo (Sein und zeit, em alemão), é finalizada.

No mesmo ano de sua publicação, 1927, estava disponível o cargo de professor sênior, mas o autor retorna a Freiburg em função da aposentadoria de seu mentor. Em sua primeira aula como sucessor de Edmund Husserl, é aplaudido por uma multidão de estudantes.

Seu envolvimento político com o Partido Nacional-Socialista, em 1933, provoca dúvidas e questionamentos ainda hoje, especialmente com a publicação recente dos chamados Cadernos pretos (Schwarze hefte, em alemão), que continham apontamentos e rascunhos do filósofo desde 1931. Mesmo afastando-se do partido pouco tempo depois, foi acusado de ser nazista e impedido de lecionar até 1949.

O filósofo afirmou ter se posicionado contra o regime e seus feitos em suas aulas e tentou esclarecer esse envolvimento em uma famosa entrevista ao Der Spiegel, em 1966, mas seu silêncio foi criticado por muitos, especialmente por Hannah Arendt.

Apesar das dificuldades provocadas em sua carreira docente por essa questão, as décadas de 1940 a 1970 foram frutíferas na escrita. Em seus últimos anos, manteve seu ritmo de estudos e apresentou muitas palestras, sendo a última em 1975, em Zähringen. Esteve ocupado com a organização de suas obras completas e manteve contato com amigos até morrer em sua casa, em 1976.

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A fundamentação ontológica de Martin Heidegger

A notoriedade alcançada com a publicação de sua primeira obra, Ser e tempo (1927), contrasta com a dificuldade de leitura do texto. Com as primeiras traduções para línguas latinas aparecendo apenas na segunda metade do século XX, muitos interessados leram a obra em alemão.

Essa dificuldade é explicada em pelo próprio estilo e modo de filosofar de Martin Heidegger. O uso excessivo de hifenização, as várias ênfases por meio de prefixos e os neologismos apenas indicam que as palavras em seu uso ordinário não são adequadas para esclarecer a questão do ser. Essa forma de apresentar problemas filosóficos é usada em toda a sua obra e influenciou vários pensadores.

Esse filósofo afirma que a principal questão da filosofia ainda não havia sido respondida, a saber, a questão do ser. As ciências em geral estudam apenas o ente, ou seja, tudo o que é, que está determinado em certa configuração e que podemos pensar ou falar sobre, mas o ser é a própria possibilidade de entender os entes como entes, por isso haveria uma diferença ontológica. Colocar novamente essa questão indica que a nossa compreensão é ainda superficial, mas a própria tentativa de responder já nos direciona na investigação.

“Ao questionar, aquele que questiona, enquanto tal, ao menos é. [...] Esclarecer a questão do ser é em primeiro lugar tornar transparente o ser da questão, ou melhor, daquele que questiona. [...] Quem é ele, este ente que responderá à questão do sentido do ser porque, imediatamente, sendo, a ela responde? Nós mesmos, diz Heidegger”|1|

No entanto, não se coloca a pergunta enquanto indivíduo, mas como Dasein. Essa expressão alemã é usada por Martin Heidegger para indicar o ente que coloca a pergunta pelo ser. Não se trata, em todo caso, de uma conceituação, já que Dasein é ser-aí, isto é, o ser humano como o ente que se encontra sempre no mundo, e não poderíamos pensá-lo de outro modo. Descrever as condições nas quais esse ente mostra-se é o que constitui a analítica existencial — e isso constitui a base de todas as ontologias, pois é esse ente que compreende o ser.

A originalidade desse estudo antecede as teorias que visam investigar as variadas manifestações do ser humano, como a antropologia ou a biologia. Em cada uma dessas possíveis investigações, estaria ausente o estudo propriamente ontológico que seu fazer científico não provê.

“A pessoa não é uma coisa, uma substância, um objeto. [...] Está em questão todo o ser do homem, que se costuma apreender como unidade de corpo, alma e espírito. Corpo, alma e espírito podem designar, por sua vez, regiões de fenômenos que se poderão distinguir tematicamente entre si, com vistas a investigações determinadas. [...] Quando, porém, se coloca a questão do ser do homem, não é possível calculá-lo como soma dos momentos de ser, como alma, corpo e espírito que, por sua vez, ainda devem ser determinados em seu ser. E mesmo para uma tentativa ontológica que procedesse dessa maneira, dever-se-ia pressupor uma ideia do ser da totalidade.” |2|

Principais obras de Martin Heidegger

Os estudos posteriores a Ser e tempo, obra não finalizada, são marcados por um afastamento da influência de Edmund Husserl. Embora a questão do ser não tenha deixado de estar presente em toda a produção de Martin Heidegger, a questão da verdade como desvelamento, conceito apresentado pelo termo grego alétheia, é uma das mais abordadas, especialmente em Da essência da verdade (1943) e As questões fundamentais da filosofia (1984) — obra organizada postumamente. Ambos apresentam edições de textos usados em aulas ministradas em 1925 e em anos seguintes.

“O fato dos gregos terem experimentado a essência da verdade como desvelamento já significa imediatamente que o desvelamento do ente era para eles o que há de digno de questão? De maneira alguma. Os gregos experimentaram pela primeira vez o desvelamento do ente, o requisitaram como verdade e determinaram sobre a sua base a verdade como correção; e eles posicionaram e fundaram esse fundamento — mas não perguntaram mais amplamente, nem expressamente, por ele mesmo.” |3|

Editada em 1954, Ensaios e conferências é uma das coletâneas mais conhecidas desse filósofo, em que se encontram a reflexão sobre a questão da técnica e outros textos que deixam claro como esse pensador retomou o sentido original de termos gregos para pensar os problemas do nosso tempo. Em um período próximo, escreveu a famosa Carta sobre o humanismo (1947), momento em que se distanciou do humanismo de Jean-Paul Sartre.

“O Ser não é nem Deus nem um fundamento do mundo. O Ser está mais distante do que todo ente e, não obstante, está mais próximo do que qualquer ente, seja um rochedo, um animal, uma obra d’arte, uma máquina, seja um anjo ou Deus. O Ser é o mais próximo. E, todavia, para o homem é a proximidade o que lhe está mais distante.” |4|

A caminho da linguagem (1959) reúne textos que questionam o uso ordinário da linguagem como expressão de estados mentais ou como atividade essencialmente humana. Embora a fala seja uma característica humana, nossa relação com a linguagem ainda é indeterminada: qual seria efetivamente sua essência? Segundo o filósofo, haveria uma relação poética com a linguagem que se distingue dos meios usuais de entendê-la. Essa compreensão não ocorre ao tentarmos teorizá-la, mas em uma experiência específica.

“Mas onde a linguagem como linguagem vem à palavra? Raramente, lá onde não encontramos a palavra certa para dizer o que nos concerne, o que nos provoca, oprime ou entusiasma. Nesse momento, ficamos sem dizer o que queríamos dizer e assim, sem nos darmos bem conta, a própria linguagem nos toca, muito de longe, por instantes e fugidiamente, como seu vigor.” |5|

Considerada por alguns como a segunda grande obra desse filósofo, Contribuições à filosofia só foi publicada pela primeira vez em 1989, embora tenha sido escrita em sua maioria antes da eclosão da 2ª Guerra Mundial.

Crédito da imagem

[1] Willy Pragher / Commons

Notas

|1| DUBOIS, Christian. Heidegger: introdução a uma leitura. Tradução de Bernardo Barros Coelho de Oliveira. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.

|2| HEIDEGGER, Martin. Ser e tempo. Tradução de Marcia Sá Cavalcante Schuback. Petrópolis: Vozes; Bragança Paulista; Editora Universitária São Francisco, 2005.

|3| HEIDEGGER, Martin. As questões fundamentais da filosofia: “problemas” seletos da “lógica”. Tradução de Marco Antonio Casanova. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2017.

|4| HEIDEGGER, Martin. Sobre o humanismo. 2ª ed. Tradução de Emmanuel Carneiro Leão. Rio de Janeiro: Tempo brasileiro, 1995.

|5| HEIDEGGER, Martin. A caminho da linguagem. Tradução de Márcia Sá Cavalcante de Schuback. Petrópolis: Vozes; Bragança Paulista; Editora Universitária São Francisco, 2003.

 

Por Marco Oliveira
Professor de Filosofia

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OLIVEIRA, Marco. "Martin Heidegger"; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/filosofia/martin-heidegger.htm. Acesso em 07 de julho de 2020.