Gestapo

História Geral

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A Gestapo foi a polícia secreta da Alemanha nazista, sendo responsável por realizar a perseguição e o silenciamento de todos os grupos que pudessem representar algum tipo de ameaça para o controle dos nazistas. O termo “Gestapo” deriva de Geheim Staatspolizei, expressão em alemão que significa “polícia secreta do Estado”.

A Gestapo foi liderada a princípio por Hermann Göring, um dos grandes nomes do Partido Nazista na década de 1930. Essa polícia secreta agiu diretamente na perseguição de grupos como os comunistas, social-democratas e, posteriormente, os judeus. Com sede na cidade de Berlim, a organização usava grupos de espionagem, que se espalharam por toda a Alemanha.

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Criação da Gestapo

A Gestapo foi gestada no período de ascensão dos nazistas ao poder na Alemanha, portanto em 1933. Primeiramente, é importante mencionar que a polícia secreta dos nazistas era a continuidade de uma prática já realizada por muitas nações europeias desde o século XIX: o emprego de polícias políticas.

Heinrich Himmler e Reinhard Heydrich foram muito importantes no processo de federalização da Gestapo e de sua unificação com outras polícias.[1]
Heinrich Himmler e Reinhard Heydrich foram muito importantes no processo de federalização da Gestapo e de sua unificação com outras polícias.[1]

No contexto alemão, a Prússia tinha uma polícia secreta muito bem estruturada, e sua utilização seguiu até no período da social-democracia, que existiu entre 1919 e 1933. Nesse período da República de Weimar, a polícia secreta alemã era utilizada para reprimir comunistas e nazistas, mas isso mudou a partir de 1932.

Nesse ano, Franz von Papen foi nomeado chanceler da Alemanha, e uma das mudanças realizadas por ele permitiu que os nazistas ganhassem força. O chefe dessa polícia secreta prussiana passou a ser Hermann Göring, um dos quadros mais destacados do Partido Nazista. A partir dessa nomeação realizada por von Papen, a polícia secreta começou a ser utilizada ostensivamente para reprimir apenas os comunistas.

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Além de chefe da polícia secreta, Göring também assumiu o Ministério do Interior e, com isso, pôde se aproximar de Rudolf Diels, o comandante da polícia secreta prussiana. Foi dessa relação de Göring e Diels que nasceu a Gestapo, mas o historiador Frank McDonough fala que não se sabe qual dos dois teve a ideia de criá-la|1|.

Ainda assim, sabemos que Göring se autointitulava o fundador da Gestapo, pois, em suas próprias palavras, ele dizia ter trabalhado pessoalmente na reorganização e na criação da corporação, atribuindo-a apenas ao seu próprio esforço|2|. Frank McDonough, no entanto, fala que, além de Göring e Diels, a criação da Gestapo também teve contribuição de Heinrich Himmler e Reinhard Heydrich, os dois arquitetos do Holocausto|3|.

A nomeação de Göring para chefiar a polícia secreta prussiana foi o primeiro passo para a criação da Gestapo. A nomeação de Hitler como primeiro-ministro da Alemanha em janeiro de 1933 foi o segundo passo, e o terceiro foi o incêndio do Reichstag, o Parlamento Alemão, em 27 de fevereiro de 1933.

Nessa ocasião, um comunista holandês chamado Marinus van der Lubbe incendiou o Parlamento alemão como forma de protesto contra os nazistas. Seu ato foi solitário e não tinha nenhuma ligação com o Partido Comunista da Holanda ou Alemanha. De toda forma, essa ação serviu de justificativa para que os nazistas fechassem o cerco sobre a democracia alemã.

No dia seguinte, o governo alemão anunciou o Decreto do Incêndio do Reichstag, que estabelecia um mecanismo abertamente autoritário conhecido como Schutzhaft. Esse mecanismo determinava que qualquer pessoa entendida como “inimigo do povo” poderia ser presa preventivamente, mesmo que não houvesse acusação alguma contra ela.

O incêndio do Reichstag alemão foi um dos fatores mais decisivos para a criação da Gestapo, em abril de 1933.
O incêndio do Reichstag alemão foi um dos fatores mais decisivos para a criação da Gestapo, em abril de 1933.

Esse decreto ainda acabou com uma série de garantias constitucionais que existiam na Alemanha, e o Schutzhaft foi muito utilizado pela Gestapo. A criação oficial da polícia secreta dos nazistas aconteceu em 26 de abril de 1933, por meio da Lei da Gestapo, promulgada por Hermann Göring. Nesse momento, a Gestapo — Geheim Staatspolizei no alemão ou polícia secreta do Estado em português — estava sob a direção de Göring, e Rudolf Diels ficou responsável pelos assuntos administrativos, conhecidos como Gestapa.

Nesse primeiro momento, a Gestapo estava autorizada a atuar apenas na Prússia. Isso aconteceu porque era tradição na Alemanha que cada província tivesse sua própria polícia. No entanto, a criação dessa organização foi uma das etapas de transformação da polícia nazista em uma instituição para atuar em todo o território alemão.

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Ação da Gestapo

Com o tempo, a Gestapo cresceu e passou para o raio de influência da Schutzstaffel (SS), uma tropa paramilitar responsável pela proteção de Adolf Hitler. Isso se deu com o processo de federalização das polícias na Alemanha e foi resultado da união da Gestapo com a SS para conter a ação da Sturmabteilung (SA), as tropas de assalto.

A partir de 1934, o comando da Gestapo passou para as mãos de Heinrich Himmler, e Rinhard Heydrich ocupou o posto de Diels nas questões administrativas. Por meio de Himmler, a oposição da SA foi neutralizada e a federalização da Gestapo foi concluída por meio de uma lei de 17 de junho de 1936.

A partir dessa lei, decidiu-se que a Gestapo estava incluída na definição de “polícia de segurança” e que tinha como atributo combater os inimigos políticos, independentemente de quem fossem. A Gestapo atuava em colaboração com a Kriminalpolizei, conhecida como Kripo, polícia responsável por elementos que poderiam promover a “degeneração moral e física” do povo alemão|4|.

A partir de 1939, a Gestapo foi oficialmente unificada com outras polícias alemãs: a Orpo (Ordnungspolizei), polícia da ordem; a Kripo e o SD (Sicherheitsdienst), a agência de inteligência. A partir disso, eles estiveram sob o comando do Escritório Central de Segurança do Reich (RSHA, na sigla em alemão), e o poder desse escritório se estendia por toda a Alemanha.

Funcionários da Gestapo trabalhando no registro de prisioneiros de campos de concentração.[1]
Funcionários da Gestapo trabalhando no registro de prisioneiros de campos de concentração.[1]

O crescimento da Gestapo nesse processo de formação e reestruturação, entre 1933 e 1939, foi considerável e, já em 1939, o número de funcionários da polícia secreta era de 15 mil pessoas, chegando a 32 mil pessoas em 1944 |5|. Ela formava a seção IV do RSHA e tinha seis departamentos com enfoques de ação diferentes. Esses departamentos eram:

  • Departamento A: monitoravam marxistas, comunistas, reacionários e liberais;

  • Departamento B: monitoravam católicos, protestantes, judeus e maçons;

  • Departamento C: processava ordens de prisão preventiva;

  • Departamento D: monitorava os territórios ocupados pelos nazistas;

  • Departamento E: monitorava ações de espionagem na Alemanha;

  • Departamento F: policiamento de estrangeiros e serviços de fronteira.

Na realização de suas funções, a Gestapo fazia missões de vigilância, investigava a ação de organizações com atuação suspeita, realizava prisões preventivas dentro dos princípios Schutzhaft, além de fazer interrogatórios mediante o uso da tortura e executar prisioneiros.

Durante o Holocausto, a Gestapo esteve envolvida em ações de monitoramento de judeus, que, quando eram encontrados, eram encaminhados para campos de concentração. Além disso, membros da Gestapo foram convocados para aderir aos Einsatzgruppen, os grupos de extermínio nazistas que faziam a execução de judeus no Leste Europeu.

O prédio que sediava a Gestapo em Berlim ficava na Prinz Albrechstrasse, 8. Esse endereço era muito famoso na cidade como o centro de torturas da polícia secreta dos nazistas. A Gestapo também agia contra os grupos de resistência, realizando execuções de cidadãos dos locais ocupados pelos nazistas.

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Fim da Gestapo

A Gestapo teve fim quando os alemães foram derrotados na Segunda Guerra Mundial, em 1945. À medida que a situação alemã se agravou na guerra, o número de membros da Gestapo foi diminuindo. Nas últimas semanas do conflito, muitos funcionários começaram a realizar ações para destruir toda a documentação acumulada pela polícia secreta ao longo dos seus 12 anos de existência.

Com a derrota, muitos funcionários da Gestapo fugiram da Alemanha. O último diretor, Heinrich Müller, por exemplo, nunca foi encontrado depois que a Alemanha foi derrotada. Presume-se que ele morreu, existindo até uma evidência de que o corpo foi enterrado em uma vala comum em Berlim. No entanto, durante muito tempo, acreditou-se que ele poderia ter fugido para a Tchéquia, União Soviética ou para a América do Sul.

Heinrich Himmler, uma das grandes mentes por trás da Gestapo, foi capturado por tropas Aliadas tentando fugir da Alemanha. Quando estava preso, ingeriu uma cápsula de cianureto e morreu. Outro grande nome da Gestapo, Hermann Göring, foi levado a julgamento em Nuremberg e condenado à morte por enforcamento. Ele também cometeu suicídio ingerindo uma cápsula de cianureto.

A Gestapo foi considerada uma organização criminosa pelos Aliados em 1945, e uma parte dos seus ex-funcionários foi perseguida e aprisionada no pós-guerra. Essas prisões para ex-funcionários da Gestapo duravam cerca de 2 a 3 anos, e cidadãos que fizeram denúncias à organização durante a sua existência também foram alvo da Justiça após a Segunda Guerra.

Notas

|1| MCDONOUGH, Frank. Gestapo. São Paulo: Leya, 2016, p. 24.

|2| Idem, p. 34.

|3| Idem, p. 26.

|4| Idem, p. 50.

|5| Idem, p. 52.

Créditos das imagens:

[1] Everett Historical e Shutterstock

 

Por Daniel Neves Silva
Professor de História

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SILVA, Daniel Neves. "Gestapo"; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/historiag/gestapo.htm. Acesso em 28 de outubro de 2020.