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Voltaire

Dramaturgo e filósofo francês, Voltaire (1694-1778) foi um dos mais proeminentes pensadores do iluminismo.

Pintura de Voltaire, um dos principais filósofos do iluminismo.
Voltaire (1694-1778) foi um dos principais filósofos do iluminismo.
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Voltaire (1694-1778) foi um dos mais proeminentes pensadores do iluminismo (movimento intelectual que surgiu na Europa no século XVII). Inimigo das autoridades, Voltaire, pseudônimo do filósofo revolucionário e dramaturgo francês François-Marie Arouet, foi preso várias vezes e escreveu mais de 2000 obras, entre livros, peças e panfletos políticos. Politicamente ativo e criador de polêmicas, as suas ideias eram críticas ao poder do clero católico, ao fanatismo religioso da população e à injustiça dos poderosos. 

As ideias de Voltaire sempre criticavam de modo irônico e satírico os reis que governavam a França e a corrupção da Igreja. Após o exílio na Inglaterra, o filósofo revolucionário se tornaria um ativista na defesa da liberdade de pensamento, do direito a um julgamento justo e da tolerância religiosa, além da separação entre Igreja e Estado. O legado de Voltaire contribuiu significativamente para os eventos que levaram às revoluções políticas e sociais do final do século XVIII na Europa, mesmo após a sua morte, em 1778.

Leia também: Revolução Francesa — ciclo revolucionário ocorrido na França entre 1789 e 1799 e baseado em ideais iluministas

Tópicos deste artigo

Resumo sobre Voltaire

  • Voltaire foi um dos mais proeminentes pensadores do iluminismo.
  • Ele nasceu em 22 de novembro, na cidade de Paris, na França.
  • Suas ideias o levaram para a prisão diversas vezes, especialmente por seu estilo satírico e irônico.
  • A construção social de Voltaire está alicerçada nas liberdades individuais, na garantia da propriedade privada e no afastamento da Igreja das questões políticas.
  • Foi um impulsionador do chamado despotismo esclarecido, chegando a atuar como conselheiro de Frederico II, rei da Prússia.
  • Apesar de criticar o clero católico, Voltaire propagandeava a tolerância e o deísmo, uma espécie de religião racional.
  • Voltaire morreu em 1778, mas as suas ideias duraram o bastante para estarem na linha de frente da Revolução Francesa, 11 anos mais tarde.

Videoaula sobre Voltaire

Biografia de Voltaire

Poeta, contista, romancista, teatrólogo, historiador, membro da Academia Francesa, Voltaire foi o pseudônimo de François-Marie Arouet, nascido em Paris, no dia 22 de novembro de 1694. Foi o terceiro filho de uma família da alta burguesia. O seu pai atuou como tabelião, negociante e conselheiro do rei, e a sua mãe faleceu em 1701.

Aluno brilhante, foi educado pelos jesuítas no colégio Louis-le Grand, onde estudou durante sete anos e ficou amigo dos herdeiros das principais famílias da nobreza francesa. Após abandonar a Faculdade de Direito, em 1713, arrumam-lhe um posto na embaixada francesa na Holanda, do qual foi demitido porque começou a namorar uma mulher protestante.

As suas ideias o levaram à prisão várias vezes. A primeira foi em 1717, acusado de ser o autor de dois poemas satíricos críticos à monarquia francesa. Foi na infame prisão da Bastilha que Voltaire começou a escrever suas tragédias. Após sair da prisão, a peça Oedipe foi representada e fez imenso sucesso.

O regente duque de Orléans, a quem a peça é dedicada, concedeu-lhe uma gratificação. Foi consagrado como grande poeta, e passou a assinar Voltaire. Em 1725, conseguiu ser admitido na Corte, que havia sido transferida de Versalhes para Paris após o início do reinado de Luis XV (1723-1774).

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Uma desavença com o príncipe de Rohan-Chabot o levou ao exílio em 1726, depois de um breve período preso novamente. Na Inglaterra, suas ideias sofreram uma reformulação, e, em 1734, publicou Cartas filosóficas ou Cartas da Inglaterra, impressas sem autorização legal. Nova reação negativa lhe impôs o isolamento em um castelo, onde se entregou ao estudo e à escrita por mais 10 anos.

Em 1749, voltou a Paris como um consagrado filósofo e literato. A convite de Frederico II, rei da Prússia, seguiu para Berlim, de onde voltou em 1753, por causa de desentendimentos com o presidente da Academia de Berlim, defendido pelo rei. Refugiou-se na Suíça, nos arredores de Genebra, onde católicos e protestantes se revoltaram contra os seus textos.

Pintura mostrando pessoas reunidas no salão literário da Madame Geoffrin durante a leitura de uma das obras de Voltaire.
Pessoas reunidas no salão literário da Madame Geoffrin durante a leitura de uma das obras de Voltaire.[1]

Sem poder fixar residência em parte alguma, perambulou por cidades suíças e francesas, até que, em 1758, adquiriu uma propriedade na região francesa de Gex, onde viveu tranquilo na companhia de sua sobrinha. As ideias polêmicas de Voltaire tornaram-se o eco do seu século.

Celebrado pelos franceses e pela intelectualidade de toda a Europa, admirado até por seus antigos adversários e críticos, Voltaire morreu no dia 30 de março de 1778, aos 84 anos de idade. Em 12 de julho de 1791, suas cinzas foram transferidas para o Panteão de Paris, em meio à euforia popular no início da Revolução Francesa.  

Veja também: Jean-Jacques Rousseau — outro importante nome do iluminismo

Quais são as ideias de Voltaire?

→ Voltaire e o iluminismo

Voltaire foi um dos principais pensadores do iluminismo, um movimento intelectual que se desenvolveu na Europa durante o século XVIII. Suas ideias estavam profundamente enraizadas nos princípios fundamentais da ilustração. Ele foi o autor de muitos artigos que fazem parte da Enciclopédia, com a qual contribuiu enviando textos até 1758.  

Voltaire, particularmente, foi um iluminista engajado na defesa da liberdade de pensamento e do direito a um julgamento justo. Além da separação entre o governo e a Igreja, Voltaire atacou a influência da religião na população, abordando casos de fanatismo e intolerância religiosa. Costumava usar a sua fortuna pessoal e sua influência para destacar e buscar justiça em situações como o caso Calas, no qual um pai protestante, por motivos religiosos, foi injustamente condenado à morte.

→ Liberdade de pensamento e de expressão

Voltaire foi um defensor fervoroso da liberdade de pensamento e expressão. Suas ideias sobre esse tema estavam intrinsecamente ligadas aos princípios fundamentais do iluminismo, nos quais a razão, a tolerância, as garantias para a propriedade privada e a liberdade individual eram valores centrais.

A razão deveria ser o guia fundamental para a compreensão do mundo. Ele defendia o direito das pessoas de questionarem, raciocinarem e expressarem livremente suas ideias. A liberdade intelectual, para ele, era crucial para o progresso humano e o avanço da sociedade.

Por esse motivo, Voltaire foi um oponente veemente da censura. Ele viu a censura como uma ameaça à liberdade de pensamento e uma maneira de manter o poder opressivo. Sua própria experiência, enfrentando censura e prisão ao longo da vida, influenciou suas posições contra qualquer forma de restrição à liberdade de expressão.

Buscando escapar da censura, Voltaire muitas vezes expressava suas ideias por meio de sátira e ironia. Suas obras, frequentemente críticas em relação à Igreja, ao absolutismo e à sociedade em geral, utilizavam esses elementos para transmitirem suas mensagens de maneira mais segura, evitando a censura direta.

Apesar de ser liberal, Voltaire não foi propriamente um democrata. Ele não defendeu a participação da maioria do povo no poder, mas considerou que a monarquia deveria respeitar as liberdades individuais. Para isso, o soberano deveria ser “esclarecido”, isto é, o rei deveria governar com a assessoria de literatos e filósofos racionalistas. 

→ Crítica à Igreja Católica

Em várias de suas obras, Voltaire direcionou críticas específicas à Igreja Católica. Ele questionou a autoridade papal, criticou o clero pela corrupção e extravagância, e denunciou a prática da simonia, como a venda de indulgências.

Voltaire frequentemente destacava o abuso de poder por parte da Igreja. Sua crítica se estendeu à influência política excessiva da Igreja sobre questões seculares e à utilização do poder eclesiástico para manter a ordem social e política.

Uma de suas obras mais conhecidas, Cândido ou O otimismo é uma sátira que critica a visão otimista e simplista do mundo, explicado por meio de milagres e outras superstições que Voltaire considerava tolas. Pela jornada do personagem Cândido, Voltaire ridiculariza concepções ingênuas de otimismo, muitas das quais relacionadas a interpretações religiosas da existência.

Voltaire desafiou a teologia tradicional, questionando conceitos como a predestinação e o problema do mal. Ele abordou essas questões em suas obras filosóficas, promovendo uma visão mais racional e humanista do mundo. Voltaire condenou fortemente a intolerância religiosa, especialmente as perseguições e guerras religiosas que ocorreram na Europa.

Voltaire defendeu o deísmo, isto é, a doutrina de uma religião natural ou racional não fundada na revelação histórica, mas na manifestação natural da divindade na razão do homem. Essa crença vê o Universo como uma imensa engrenagem composta de inúmeras peças, e que funciona harmoniosamente por causa de Deus, ou outro ser supremo, construtor dessa engrenagem universal.

O deísmo é uma posição filosófica que acredita na criação do Universo por uma inteligência superior (que pode ser Deus ou não) por meio da razão. Voltaire falava de Deus como o Grande Relojoeiro.

O Grande Relojoeiro, nas palavras do pensador, seria responsável pela criação e pelo funcionamento da máquina do mundo.

Quando vejo um relógio cujo ponteiro marca as horas, disso concluo que um ser inteligente montou as engrenagens desta máquina para que o ponteiro marque as horas. Assim quando considero as engrenagens do corpo humano, concluo que um ser inteligente montou os órgãos para serem recebidos e nutridos por nove meses na matriz: que os olhos nos são dados para ver, as mãos para segurar, e assim por diante.|1|

Dessa forma, fica claro no pensamento de Voltaire que Deus se revela aos homens, suas criaturas, por meio do uso da razão. Portanto, agir racionalmente e, consequentemente, usar o pensamento com liberdade são provações da existência de Deus. Por isso, tudo poderia e deveria ser submetido à autoridade da razão, e não da Igreja, que controla a população usando superstições, alimentando fanatismos e ilusões.  

Acesse também: Montesquieu — outro importante filósofo do iluminismo

Obras de Voltaire

Voltaire foi um escritor muito prolífico, escrevendo em diversos gêneros literários ao longo de sua vida e produzindo uma obra numerosa, que soma mais de 2000 textos. Entre algumas de suas principais obras, destacamos algumas:  

  • Henriade (1723);
  • Lettres Philosophiques (Cartas filosóficas ou Cartas sobre os Ingleses) (1734);
  • Candide ou L'optimisme (Cândido ou O otimismo) (1759);
  • Dictionnaire Philosophique (Dicionário filosófico) (1764);
  • Traité sur la Tolérance (Tratado sobre a tolerância) (1763);
  • Dictionnaire Philosophique Portatif (Pequeno dicionário filosófico) (1764);
  • La Philosophie de l’histoire (A filosofia da história) (1765).

Frases de Voltaire

Embora Voltaire compartilhasse muitos dos princípios fundamentais do iluminismo com outros filósofos da época, como a ênfase na razão, na liberdade e na busca do conhecimento, algumas características distintivas em suas ideias o diferenciavam de seus contemporâneos, por exemplo, o seu estilo satírico e irônico de expressar ideias e frases. A seguir, veja algumas frases de Voltaire:

  • “Parece que o fanatismo, indignado depois de pouco sucesso da razão, se debate contra ela com mais raiva.”
  • “A ilusão é o primeiro de todos os prazeres.”
  • “Se Deus não existisse, seria necessário inventá-lo.”
  • “Pense por você mesmo e deixe que os outros aproveitem o direito de fazer o mesmo.”
  • “Aqueles que podem fazer você acreditar em absurdos podem fazer você cometer atrocidades.”
  • “A dúvida não é uma condição agradável, mas a certeza é absurda.”
  • “O otimismo é a loucura de insistir que tudo está bem quando estamos infelizes.”
  • “A liberdade de pensar só tem valor quando não temos medo.”

Legado de Voltaire

As ideias de Voltaire contribuíram significativamente para os fundamentos do pensamento iluminista e influenciaram os eventos que levaram às revoluções políticas e sociais do final do século XVIII. O seu trabalho, incluindo obras como Cândido e Dicionário filosófico, continuou a inspirar os defensores da liberdade e da razão ao longo do século XIX.

O seu legado enfatiza a importância da tolerância religiosa e da convivência pacífica entre pessoas de diferentes crenças. Enquanto outros filósofos iluministas também defendiam a tolerância, a ênfase de Voltaire nesse aspecto foi marcante em sua obra, possivelmente influenciada por suas experiências pessoais e suas visões sobre a importância da coexistência harmoniosa.

Voltaire, ao contrário de alguns de seus contemporâneos que preferiam abordagens mais teóricas, era conhecido por seu ativismo social e engajamento político direto. Ele não apenas expressava suas ideias por meio da escrita mas também intervinha em casos de injustiça, corrupção e perseguição religiosa, utilizando sua influência para buscar mudanças práticas.

Exemplo disso foi o caso do protestante Jean Calas, acusado falsamente da morte do filho por questões religiosas e executado em Toulouse. Voltaire lançou-se numa campanha para reabilitar e inocentar Jean Calas, conseguindo a revisão do processo em 1765.

A reabilitação de Calas foi vista como “uma vitória da filosofia” sobre a superstição. A partir daí, sendo ajudado financeiramente em sua ação judiciária pelos reis da Prússia, da Polônia, da Dinamarca e por Catarina da Rússia, Voltaire decidiu intervir em causas de injustiça em quase todos os anos.  

Curiosidades sobre Voltaire

  • Voltaire era apenas um dos pseudônimos que François-Marie Arouet usava para publicar os seus textos. Ele recorria a eles ao escrever para evitar censura e perseguição. Um de seus pseudônimos mais conhecidos foi Monsieur le Docteur Ralph, que ele usou para publicar trabalhos satíricos.
  • Por causa da perseguição contra as suas ideias, Voltaire foi preso na Bastilha, a mais infame prisão de Paris, em duas ocasiões. Na segunda vez, em 1726, Voltaire havia discutido com o príncipe de Rohan, que, alguns dias depois, mandou dois empregados espancarem-no. Voltaire ficou indignado, exigiu um duelo com o cavalheiro, mas foi preso e depois forçado a partir para o exílio na Inglaterra.
  • Além de intrigas, Voltaire fazia amizades com pessoas poderosas. Foi amigo e manteve intensa correspondência com alguns dos principais déspotas esclarecidos europeus, especialmente Catarina II da Rússia (1729-1796) e Frederico II da Prússia (1712-1786). O despotismo esclarecido, de alguma forma, tentou pôr em prática certos princípios aprendidos com Voltaire e outros filósofos iluministas, sem abrir mão, é claro, do próprio poder absolutista.  
  • Embora inicialmente fossem amigos, Voltaire e Frederico II romperam a relação devido a diferenças de opinião e personalidades. Na viagem de volta à França, por ordem de Frederico II, o seu ex-conselheiro ficou retido como prisioneiro por cinco semanas em Frankfurt. O motivo: o exemplar de uma obra de poesia do rei que o filósofo levava com ele. A humilhação levou Voltaire a nunca mais aceitar a proteção de um monarca e buscar maior independência.
  • Voltaire, ao contrário de alguns de seus contemporâneos que preferiam abordagens mais teóricas, era conhecido por seu ativismo social e engajamento político direto. Ele não apenas expressava suas ideias por meio da escrita mas também intervinha em casos de injustiça, corrupção e perseguição religiosa, utilizando sua influência para buscar mudanças práticas.
  • Em 1770, Voltaire propôs ao ministério francês a ideia de facilitar o estabelecimento de refugiados genebrinos em Versoix, na França, o que ativaria a indústria e o comércio, fazendo concorrência a Genebra. Sem ajuda oficial, com sua imensa fortuna, Voltaire conseguiu realizar isso em pequena escala.
  • Voltaire morreu em 30 de maio de 1778. Devido à sua crítica à Igreja Católica, ele inicialmente foi enterrado de forma discreta. No entanto, em 1791, seus restos mortais foram transferidos para o Panteão de Paris, simbolizando o reconhecimento póstumo de sua importância para a Revolução Francesa e para o iluminismo.

Nota

|1|VOLTAIRE. Tratado de Metafísica. 2. ed. São Paulo: Abril cultural, 1978b.

Crédito de imagem

[1]jorisvo / Shutterstock

Fontes

COTRIM, Gilberto. História global: Brasil e geral. São Paulo: Saraiva, 2008.

FORTES, Luiz R. Salinas. O Iluminismo e os reis filósofos. Brasiliense: São Paulo, 1982. p. 56

HOBSBAWM, Eric. A era das revoluções. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982. p. 37.

VOLTAIRE. Dicionário Filosófico. 2. ed. São Paulo: Abril cultural, 1978a.

VOLTAIRE. Tratado de Metafísica. 2. ed. São Paulo: Abril cultural, 1978b.

Escritor do artigo
Escrito por: Rafael Pereira da Silva Mendes Licenciado e bacharel em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Atuo como professor de Sociologia, Filosofia e História e redator de textos.

Gostaria de fazer a referência deste texto em um trabalho escolar ou acadêmico? Veja:

MENDES, Rafael Pereira da Silva. "Voltaire"; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/filosofia/voltaire-um-brilhante-polemista.htm. Acesso em 25 de maio de 2024.

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