Império Carolíngio

História Geral

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O Império Carolíngio foi formado a partir da coroação de Pepino, o Breve, em 751, embora se considere que seu pai, Carlos Martel, já era poderoso o suficiente, apesar de não ser rei. Os carolíngios eram uma dinastia que fazia parte do Reino dos Francos e substituiu a decadente dinastia merovíngia.

O principal reinado carolíngio foi o de Carlos Magno, caracterizado como uma real tentativa de restaurar um império grandioso tal qual o Império Romano do Ocidente. Carlos Magno reformou a administração do reino e realizou muitas conquistas territoriais. Após a morte de seu filho em 843, o Império Carolíngio nunca mais foi o mesmo.

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Formação dos carolíngios

O Império Carolíngio é uma designação moderna para se referir à dinastia carolíngia, que governou territórios dos francos entre os séculos VIII e X. Então, quando falamos de carolíngios, estamos, na verdade, falando de francos, um povo germânico que se estabeleceu na região da Gália, por volta do século V, durante o processo de desagregação do Império Romano do Ocidente.

Pepino, o Breve, foi o primeiro rei carolíngio. Foi coroado após destituir o último rei merovíngio em 751.
Pepino, o Breve, foi o primeiro rei carolíngio. Foi coroado após destituir o último rei merovíngio em 751.

A ascensão dos carolíngios ocorreu ao longo do século VIII à medida que os reis merovíngios se enfraqueciam. Tiveram como grande destaque o rei Carlos Magno, e historiadores como Jacques Le Goff consideram que os carolíngios realizaram uma das primeiras tentativas de unificar a Europa sob o comando de apenas um povo|1|.

A história do Reino dos Francos se iniciou quando Clóvis I tornou-se rei em 481, dando início à dinastia dos merovíngios. Por meio dele as tribos francas foram unificadas sob seu comando, e o cristianismo se consolidou como a grande religião na Europa Central, quando Clóvis se converteu a essa religião. Clóvis foi filho de Quilderico I, rei de uma das tribos francas antes de sua unificação.

Os francos estabelecidos na Europa Central formaram esse reino, e a dinastia merovíngia se estendeu até o século VIII. Acontece que, nesse período, a ineficácia do comando de muitos reis merovíngios fizeram com que essa dinastia se enfraquecesse a ponto de que os últimos reis ficassem conhecidos como “reis inúteis” e “reis preguiçosos”, conforme diz Le Goff|2|.

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Com o passar do tempo, a administração do rei passou a ser realizada por figuras conhecidas como “mordomos do palácio”, também chamados como “prefeitos do palácio”. Carlos Martel, por exemplo, era considerado praticamente rei, uma vez que o poder era exercido plenamente por ele. Ele, assim como outros mordomos, pertenciam à família Pippinides, uma família que ocupava a função de mordomo de maneira hereditária.

Carlos Martel foi particularmente poderoso e influente porque ele havia liderado tropas francas na luta contra os muçulmanos na Batalha de Poitiers. A vitória franca marcou o fim do avanço muçulmano na Europa.

O filho de Carlos Martel, chamado Pepino, o Breve, aproveitou-se desse poderio legado a ele, aliou-se com a Igreja Católica e, por meio dos papas Zacarias e Estevão II, conseguiu tornar-se rei. Apoiado também pelos nobres francos, ele destituiu o último merovíngio do trono. Em 751, Quilderico III foi derrubado, e Pepino, o Breve, tornou-se rei franco. Era o início da dinastia carolíngia.

Pepino, o Breve, teve o seu poder sobre o trono franco reconhecido pela Igreja Católica e, em troca, ele reconhecia o direito da Igreja de deter terras ao redor de Roma. Foi um acordo que garantiu posses à Igreja e poder político e títulos para os carolíngios. Pepino reinou de 751 a 768, ano que seus filhos Carlomano I e Carlos Magno assumiram o trono, cada um dominando uma parte diferente do reino. A morte de Carlomano I em 771 permitiu a Carlos Magno unificar o reino sob seu comando.

Reinado de Carlos Magno

Trono de Carlos Magno que ficava na capital do Império, Aachen.[1
Trono de Carlos Magno que ficava na capital do Império, Aachen.[1

Quando falamos de Império Carolíngio, é inevitável falarmos de Carlos Magno. Ele teve um longo reinado, foi um dos reis mais poderosos da Idade Média, obteve grandes conquistas territoriais, procurou reforçar o seu poder como rei, realizou importantes reformas em seu reino e representou uma tentativa de unificação da Europa Ocidental sob o comando dos carolíngios.

Na questão administrativa, Carlos Magno lidava com um grande problema: a fragmentação do poder real. O rei nesse período não era aquela figura absoluta que existiu durante a Idade Moderna, portanto era necessário que o rei usasse certos mecanismos para fazer valer o seu poder. Ele procurou reforçar suas ordens e os aparatos usados por seus enviados.

Para isso, ele apelou para a escrita, algo que não era comum entre os povos de tradição germânica. Parte das leis reais começou a ser escrita e enviada em documentos, que ficaram conhecidos como ordenanças ou capitulares. Ele também não hesitou em usar a força quando necessário, e Le Goff fala que ele chegou a ordenar a morte de 4500 pessoas em uma rebelião que aconteceu em Verden|3|.

Para garantir o apoio dos nobres, Carlos Magno distribuía o poder e a riqueza entre esse grupo. As terras francas foram divididas em muitos condados, e a administração de cada uma dessas terras era atribuição dos condes. Essa prática de fornecer terras em troca de serviço e fidelidade deu origem à relação de suserania e vassalagem.

Manter os condes sob o seu controle era uma missão fundamental e, para isso, Carlos Magno contava com funcionários conhecidos como “missi dominici” ou “enviados do senhor”. Esses funcionários tinham a função de informar o rei sobre o que os condes faziam.

Carlos Magno também buscou reforçar o seu poder por meio de uma aliança com a Igreja Católica e buscava diferenciar-se a partir da erudição. Ele incentivou consideravelmente o desenvolvimento da alfabetização e das artes em seu reino. Alguns historiadores chegam a considerar o investimento de Carlos Magno como parte de uma “renascença carolíngia”.

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  • Expansão territorial

A guerra foi uma parte fundamental do sucesso do reinado de Carlos Magno.
A guerra foi uma parte fundamental do sucesso do reinado de Carlos Magno.

Todas essas ações de Carlos Magno aconteceram com o objetivo de fortalecer o reino, dando unidade e reforçando a autoridade real. Isso porque Carlos Magno percebeu que o Império Carolíngio estava cercado de ameças. A sudoeste, os muçulmanos; ao sul, os lombardos; a nordeste, os saxões; a leste e sudeste, os ávaros e eslavos.

Como ameaças não faltavam, Carlos Magno, além de garantir o fortalecimento do reino para se proteger, partiu para o ataque. Seu reinado foi permeado de guerras do início ao fim e, somente em 2 anos (790 e 807), de 46 de reinado, não houve nenhum tipo de campanha militar. Para garantir o seu sucesso em guerra, Carlos Magno contava com todos os súditos possíveis. Le Goff diz que ele chegou a montar um exército de 50 mil homens, um número muito expressivo na Idade Média|4|.

Entre todas as guerras travadas pelos carolíngios no reinado de Carlos Magno, a mais significativa foi a vitória sobre os lombardos, um povo germânico que era cristão, mas que constantemente atacava as terras da Igreja Católica. Carlos Magno, em socorro a Roma, atacou os lombardos, derrotando o rei Desidério e se autoproclamando rei dos lombardos.

A disposição de Carlos Magno para reforçar a influência do cristianismo ocorreu em outras demonstrações, como as conversões forçadas. Os que se recusavam a se converter eram mortos. Outras lutas travadas — e vencidas — por Carlos Magno ocorreram contra bretões, ávaros e saxões.

Interior da catedral que faz parte do Palácio de Carlos Magno, em Aachen.[2]
Interior da catedral que faz parte do Palácio de Carlos Magno, em Aachen.[2]

Durante essa expansão, Carlos Magno escolheu Aachen (ou Aix-la-Chapelle, em francês) para ser a capital de seu império. Lá ele ordenou a construção de um grande palácio, símbolo de seu poder. Ele tentou tornar a capital um símbolo de sua autoridade, mas essa cidade entrou em declínio depois que ele morreu.

Carlos Magno também promoveu campanhas militares na Península Ibérica, mas as dificuldades nas lutas contra muçulmanos e bascos fizeram com que ele não tivesse grandes conquistas por lá. De toda forma, as grandes conquistas de Carlos Magno e seu esforço para defender a Igreja fizeram com que Leão III o nomeasse como Imperador do Ocidente em 800.

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Decadência do Império Carolíngio

A morte de Carlos Magno aconteceu em 814 e, depois disso, o Império Carolíngio se enfraqueceu. O seu filho, Luís, o Piedoso, governou o reino até 843, mas como não tinha a mesma competência de seu pai, foi enxergado como um rei fraco e que contribuiu para enfraquecer o poder da dinastia carolíngia. Depois que ele morreu, o território carolíngio se fragmentou, e o último rei carolíngio foi substituído pelas Capetos no final do século X.

Notas

|1| LE GOFF, Jacques. As raízes medievais da Europa. Petrópolis: Vozes, 2011, p. 49.

|2| Idem, p. 50.

|3| LE GOFF, Jacques. A civilização do Ocidente Medieval. Petrópolis: Vozes, 2016, p. 41.

|4| LE GOFF, Jacques. As raízes medievais da Europa. Petrópolis: Vozes, 2011, p. 57.

Créditos das imagens

[1] Claudio Divizia e Shutterstock

[2] Takashi Images e Shutterstock

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SILVA, Daniel Neves. "Império Carolíngio"; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/historiag/imperio-carolingio.htm. Acesso em 26 de novembro de 2020.