Literatura medieval é aquela produzida na Idade Média, período iniciado em 476 e finalizado em 1453. Essa literatura é composta pelas cantigas trovadorescas: de amor (tematiza o sofrimento amoroso), de amigo (temática da saudade), de escárnio e maldizer (crítica a comportamentos humanos).
Já as canções de gesta são narrativas escritas em verso que narram aventuras de guerra. Também são do gênero narrativo os romances de cavalaria, cujos protagonistas são heroicos cavaleiros medievais a serviço da Igreja. Por fim, as peças de teatro são predominantemente religiosas, havendo algum espaço para textos satíricos.
Leia também: História da literatura — da Antiguidade clássica até os dias atuais
Tópicos deste artigo
- 1 - Resumo sobre literatura medieval
- 2 - O que é literatura medieval?
- 3 - Características da literatura medieval
- 4 - Contexto histórico da literatura medieval
- 5 - Principais obras da literatura medieval
- 6 - Autores da literatura medieval
- 7 - Literatura medieval e renascentista
- 8 - Literatura medieval no Enem
- 9 - Exercícios resolvidos sobre literatura medieval
Resumo sobre literatura medieval
-
A literatura medieval é aquela produzida durante a Idade Média, período histórico que durou de 476 a 1453.
-
O gênero lírico da literatura medieval é composto por:
-
cantiga de amor: tematiza o sofrimento amoroso do trovador;
-
cantiga de amigo: tematiza a saudade do eu lírico feminino em relação ao amado;
-
cantiga de escárnio ou maldizer: ironiza e critica comportamentos sociais.
Anuncie aqui
-
-
O gênero narrativo da literatura medieval é composto por:
-
canção de gesta: narrativa épica, em versos, acerca de aventuras de guerra;
-
romance de cavalaria: narra as aventuras de cavaleiros medievais a serviço da fé cristã.
-
-
O gênero dramático da literatura medieval é composto por peças teatrais de caráter religioso ou satírico.
-
O contexto histórico da literatura medieval é marcado pelos seguintes elementos:
-
teocentrismo: predominância da religiosidade;
Anuncie aqui -
Inquisição: perseguição da Igreja Católica aos hereges;
-
Cruzadas: guerra santa da Igreja Católica contra os muçulmanos;
-
regime feudal: relação de dependência do vassalo em relação ao senhor feudal.
-
-
Além das cantigas trovadorescas, a canção de gesta A canção de Rolando e o romance de cavalaria Amadís de Gaula são as principais obras da literatura medieval.
-
Obras humanistas como A divina comédia apresentam elementos medievais e renascentistas, marcando a transição entre Idade Média e Idade Moderna.
-
No Enem, a literatura medieval não é cobrada diretamente; porém, é um conhecimento necessário para o entendimento da história da literatura.
Anuncie aqui
O que é literatura medieval?
A literatura medieval é a literatura produzida na Europa durante o período histórico conhecido como Idade Média. Esse período teve início no ano 476 e término em 1453 e foi marcado pelo feudalismo (sistema econômico, político e social), além do domínio da Igreja Católica, que exercia influência cultural e política.
Na literatura medieval, predomina o teocentrismo, isto é, uma visão de caráter religioso em oposição ao antropocentrismo (visão de caráter racional). Portanto, a racionalidade ficava em segundo plano na Idade Média, de forma que as crenças norteavam culturalmente a vida das pessoas da época.
A literatura medieval apresenta textos de todos os gêneros literários, isto é, líricos (textos poéticos, ou seja, aqueles de expressão subjetiva, voltados para o universo interior e emotivo do eu lírico); narrativos ou épicos (que está relacionado a textos que contam uma história); e dramáticos (textos escritos para serem encenados). O gênero lírico é representado pelas cantigas trovadorescas. O narrativo, pelas canções de gesta e pelos romances de cavalaria. Já o teatro medieval não foi muito expressivo.
Características da literatura medieval
→ Gênero lírico da literatura medieval
Na literatura medieval, os textos líricos não eram escritos para serem declamados ou lidos em voz baixa. Eles eram feitos para serem cantados. Os autores dessas cantigas, os poetas da época, eram chamados de “trovadores”. Por isso, as cantigas medievais são conhecidas também como cantigas trovadorescas. Existem três tipos principais de cantigas trovadorescas:
- cantiga de amor,
- cantiga de amigo e
- cantiga de escárnio ou maldizer.
Importante! Nos exemplos abaixo, apresentamos a versão original das cantigas trovadorescas e, em seguida, uma versão adaptada para o português atual, feita com inteligência artificial (IA).
-
Cantiga de amor
Apresenta temática amorosa e focaliza o sofrimento (coita) do eu lírico (ou trovador), o qual ama uma dama (mulher idealizada, nobre, santificada e virgem), mas não tem seu amor correspondido. Nesse sentido, a influência religiosa está na personificação de santa da mulher amada. Já a influência sociopolítica está relacionada à posição de vassalo (servo) do trovador em relação à dama, que ocupa a posição de suserano (senhor).
- Exemplo:
Leia a seguir, uma estrofe do trovador galego Bernal de Bonaval, o qual viveu entre os séculos XII e XIII:
A Bonaval quer’eu, mia senhor, ir
e des quand’eu ora de vós partir
os meus olhos nom dormirám.
Em uma possível atualização para o português atual, esses versos dizem:
A Bonaval quero eu, minha senhora, ir
e desde quando eu agora de vós partir
meus olhos não dormirão.
Assim, o trovador diz que não conseguirá dormir quando não puder mais ver a “senhora” (mulher amada).
-
Cantiga de amigo
Apresenta temática da saudade e focaliza o sofrimento do eu lírico feminino (não mais o trovador, mas uma mulher). Nesse tipo de cantiga, a mulher expressa a falta que sente do “amigo” (amado). Essa mulher não é uma nobre, mas uma camponesa, de forma que é comum haver elementos do meio rural ou campestre impressos na cantiga. Vale lembrar que esse tipo de cantiga é de autoria masculina, sendo a mulher apenas um personagem.
- Exemplo:
Leia a seguir, uma estrofe do trovador galego João Airas de Santiago, o qual viveu no século XIII:
A que mi a mi meu amigo filhou
mui sem meu grad’, e nom me tev’em rem
e nom mi o disse nem mi o preguntou,
mal lhi será, quando lho eu filhar
mui sem seu grad’, e non’a preguntar.
Em uma possível atualização para o português atual, esses versos dizem:
Aquela que de mim meu amigo tomou
muito sem meu agrado, e não teve pena de mim
e não me disse nada nem me perguntou,
mal lhe irá, quando eu dela o tomar
também sem seu agrado, e não lhe perguntar.
Portanto, a mulher (eu lírico feminino) fala sobre outra mulher que lhe roubou o “amigo”. Ela ameaça tomar o amado de volta.
-
Cantiga de escárnio ou maldizer
Esse tipo de cantiga é mais ousado, pois consiste em crítica a determinada pessoa ou situação. Quando a crítica é sutil, sem explicitação do alvo do ataque, a cantiga é considerada de escárnio. Já quando o alvo é explicitado, a cantiga é de maldizer e, algumas vezes, pode apresentar termos chulos e ofensivos. A ironia é uma marca das cantigas de escárnio ou maldizer.
- Exemplo:
Leia agora, uma estrofe do trovador galego Lopo Lias, o qual viveu no século XIII:
A dona fremosa do Soveral
há de mi dinheiros per preit’atal:
que veess’a mi, u nom houvess’al,
um dia talhado, a cas Dom Corral
e é perjurada,
ca nom fez en nada;
e baratou mal,
ca desta negada
será penhorada
que dobr’o sinal.
Em uma possível atualização para o português atual, esses versos dizem:
A bela senhora do Soveral
tem de mim dinheiro por tal acordo:
que viesse a mim, onde não houvesse mais ninguém,
num dia marcado, à casa de Dom Corral
e é perjurada,
pois não cumpriu nada;
e fez mau negócio,
porque por esta recusa
será penhorada
e pagará o dobro do sinal.
Assim, o trovador sugere que pagou dinheiro a uma mulher para um encontro na casa de um tal Dom Corral. Essa “senhora” não teria cumprido com sua parte no “negócio”. O teor irônico e a ocultação do nome da dita senhora caracterizam essa cantiga de escárnio.
-
Videoaula sobre trovadorismo
→ Gênero narrativo da literatura medieval
-
Canções de gesta
As canções de gesta são poemas épicos escritos na Idade Média, ou seja, narrativas escritas em forma de verso, feitos para serem cantados ou recitados, e tinham como principal público-alvo os integrantes da cavalaria. Seu surgimento ocorreu no século XI e sua temática está centrada em narrativa de guerra e heroísmo, além da valorização da fé cristã.
A obra mais conhecida desse tipo de texto é A canção de Rolando. A obra francesa La chanson de Roland foi composta no final do século XI ou início do século XII. Apresenta 4.002 versos decassílabos (com dez sílabas poéticas). O personagem principal é Rolando, sobrinho do rei da França Carlos Magno e comandante do exército.
Nesse poema épico, Rolando morre em combate, e sua noiva Aude, ao saber da morte do amado, morre de desgosto. A autoria da canção não é certa. Supostamente, seu autor seria um tal de Turold. A seguir, leia um trecho da canção e sua tradução, ambos retirados da dissertação de mestrado Os tipos de morte na Chanson de Roland, de Aniely Walesca Oliveira Santiago.|1| No fragmento, o rei Carlos Magno leva o olifante (instrumento de sopro) de Rolando.
Em francês:
Passent Nerbone par force e par vigur;
Vint à Burdeles, la citet de .
Desur l’alter seint Severin le baron
Met l’oliphan plein d’or e de manguns:
Li pelerin le veient ki la vunt.
Passet Girunde a mult granz nefs qu’i sunt;
Entresque a Blaive ad cunduit sun nevold
E Oliver, sun nobilie cumpaignun,
E l’arcevesque, ki fut sages e proz.
En blancs sarcous fait metre les seignurs:
A seint Romain, la gisent li baron.
Francs les cumandent a Deu e a ses nuns.
Carles cevalchet e les vals e les munz;
Entresqu’a Ais ne volt prendre sujurn.
Tradução:
Passam por Narbone de força e vigor;
Chegam a Bordeux, alta cidadela
Sobre o altar de Saint Seurin,
Ele coloca o olifant cheio de ouro e moedas:
Os peregrinos podem vê-lo quando passam
Passa pela Gironda em grandes barcas que lá se encontram.
Conduz até Blaye seu sobrinho
E Olivier, seu nobre companheiro,
E o arcebispo, que foi sábio e valente.
Em brancos sarcófagos ele coloca os senhores;
Em Saint-Roman, onde jazem os barões.
Os francos os confiam a Deus e as seus protetores
Charles cavalga pelos montes e vales.
Não para até chegar em Aix.
-
Romances de cavalaria
Agora vou falar sobre os romances de cavalaria, também conhecidos como “novelas de cavalaria”. Essas obras contam as aventuras heroicas de cavaleiros medievais. Eles lutam sempre em benefício da fé cristã. Tais romances também apresentam mulheres idealizadas, ou seja, perfeitas, santificadas e virgens.
Amadís de Gaula é o mais conhecido romance de cavalaria. Obra galega ou espanhola, de autoria incerta, conta as aventuras do cavaleiro Amadís, apaixonado pela princesa Oriana. A versão mais conhecida é a espanhola, organizada por Garcí Rodriguez de Montalvo, em 1508, que revisou e divulgou a obra. Porém, a obra existia já no século XIII.
→ Gênero dramático da literatura medieval
Por fim, o teatro medieval apresenta, principalmente, elementos religiosos. Não é valorizado como o expressivo teatro da Antiguidade clássica, fundado na tragédia, na reflexão moral acerca do comportamento humano, na fatalidade, no heroísmo, no caráter catártico (purificação por meio das emoções). Uma das peças mais antigas da literatura medieval é Ordo virtutum (Ordem das virtudes), da monja alemã Hildegard de Bingen, datada do século XII. Segundo a pesquisadora Débora Duarte Costa|2|:
O argumento de Ordo Virtutum concentra-se numa alegoria da condição humana, ferida pelo pecado, em sua peregrinação rumo à Jerusalém Celeste. A alma que se desvia do caminho da salvação recorre às Virtudes que se colocam a combater o Diabo compreendido como a concentração de todos os vícios mundanos. [...]: o itinerário da alma em Ordo Virtutum é semelhante ao itinerário de todo gênero humano que, após a queda original, alcança a salvação em Cristo, de quem brotam todas as Virtudes pelas quais a alma peregrina poderá chegar à sua definitiva pátria, a Jerusalém Celeste.
Mas o teatro medieval também produziu peças de cunho satírico (crítico e irônico), como A farsa do Mestre Pathelin. Comédia francesa do século XV (fim da Idade Média), é de autoria desconhecida. Ela faz uma crítica aos comerciantes e a membros do judiciário, retratados como canalhas e hipócritas.
Contexto histórico da literatura medieval
A literatura medieval foi produzida durante a Idade Média (476-1453). Nesse período, a Igreja Católica tinha muita influência política. Assim, a cultura era teocêntrica (Deus no centro), de forma que a crença ou o mundo sagrado se sobrepunha à razão humana. Daí o fato de os textos da época trazerem sempre algum elemento religioso.
A Igreja também apoiava o sistema feudal (que teve seu auge entre os séculos XI e XIII), de modo a fazer crer que a posição de servo era resultado da vontade divina. Nesse regime, o senhor feudal, membro da nobreza, mantinha posse das terras, as quais eram cultivadas pelos servos (camponeses).
Outro fato marcante desse período foram as Cruzadas, a guerra santa entre católicos e muçulmanos. Uma guerra ocorrida entre os séculos XI e XIII, entre 1095 e 1272. Isso serviu de influência para as aventuras dos heróis narradas nas canções de gesta e nos romances de cavalaria.
Por fim, a Inquisição (ou Tribunal do Santo Ofício) foi uma instituição da Igreja que julgava, arbitrariamente, pessoas consideradas hereges (quem não professava o cristianismo). Criada entre os séculos XI e XV, ela ainda se estendeu após a Idade Média, sendo extinta no início do século XIX. Muitas pessoas foram investigadas, torturadas e condenadas à morte na fogueira durante esse período. Portanto, a Igreja era uma ameaça para livres-pensadores, já que os julgamentos eram injustos, havia tortura, e a condenação era quase sempre certa para aqueles que contrariassem as vontades do clero.
Assim, o medo impedia que muitos artistas da época ousassem em suas criações. Portanto, a produção literária da Idade Média está associada a temas religiosos, bélicos e amorosos. Porém, a literatura satírica dessa época cumpria o papel de criticar a sociedade de sua época, o que demonstrava grande ousadia.
Veja também: Qual a diferença entre novela e romance?
Principais obras da literatura medieval
-
A canção de Rolando: canção de gesta francesa, cuja suposta autoria é atribuída a Turold.
-
A cantiga da Riberinha: obra trovadoresca que inaugurou a literatura portuguesa, em 1198, de autoria de Paio Soares de Taveirós.
-
A farsa do Mestre Pathelin: peça teatral francesa de autoria desconhecida;
-
Amadís de Gaula: romance de cavalaria compilado pelo espanhol Garcí Rodriguez de Montalvo;
Anuncie aqui -
Canções de Beuern: poemas e cantigas medievais de caráter satírico e amoroso, produzidos nos séculos XII e XIII, a maioria em latim; seus autores ficaram conhecidos como “goliardos”, pertencentes ao clero.
-
Ordo virtutum: peça teatral da monja alemã Hildegard de Bingen.
Autores da literatura medieval
-
Arnaut Daniel: trovador francês;
-
Bernal de Bonaval: trovador galego;
-
Dom Afonso X: trovador espanhol;
-
Dom Dinis: trovador português;
Anuncie aqui -
Garcí Rodriguez de Montalvo: compilador espanhol;
-
Goliardos: autores europeus das Canções de Beuern;
-
Hildegard de Bingen: autora alemã da peça teatral Ordo virtutum;
-
João Airas de Santiago: trovador galego;
-
João Garcia de Guilhade: trovador português;
-
Lopo Lias: trovador galego;
Anuncie aqui -
Paio Soares de Taveirós: trovador galego;
-
Turold: suposto autor de canções de gesta francesas.
Literatura medieval e renascentista
No final da Idade Média, teve lugar o Renascimento ou Renascença, um período histórico ou movimento artístico, cultural e científico que valorizava a razão e o comportamento humano. Ele se deu em um período de transição entre a Idade Média e a Idade Moderna. O Renascimento valorizou e retomou valores da Antiguidade clássica (século VIII a. C. até 476 d. C.). Esteve em evidência entre os séculos XIV e XVI. Nesse período, predominou a literatura humanista, a qual pode ser considerada medieval e renascentista.
O humanismo foi uma corrente literária surgida na Itália do século XIV, que se espalhou por toda a Europa. Ela é antropocêntrica e valoriza a cultura greco-latina, ou seja, da Grécia antiga e da Roma antiga. Porém, também apresenta elementos medievais, caracterizando a transição já mencionada acima, isto é, da Idade Média para a Idade Moderna. Os principais nomes desse tipo de literatura são os poetas italianos Francesco Petrarca, autor da obra Triunfos, e Dante Alighieri, autor da famosa obra A divina comédia.
Outro importante autor desse período que precisamos mencionar é o dramaturgo português Gil Vicente. Ele é autor da peça Auto da barca do inferno, de 1517. Essa peça apresenta elementos religiosos, já que mostra que, após a morte, as pessoas são levadas para o inferno, por meio da barca do inferno, ou para o Paraíso, por meio da barca da glória.
Mas, mesclada a esses símbolos católicos, está a crítica social, ou seja, uma análise do comportamento humano, de viés moralizante, mas racional. Note que, oficialmente, a Idade Média já tinha chegado ao fim em 1453, mas seus valores ainda influenciavam o pensamento artístico da época.
Essa obra ilustra bem o que seria a convivência entre valores medievais e clássicos (greco-latinos). A divina comédia é uma obra escrita em versos que narra a trajetória do próprio autor, Dante Alighieri, que se faz personagem de sua obra e, em companhia de Virgílio, atravessa o inferno e o purgatório. No Paraíso, ele encontra sua amada Beatriz, uma mulher idealizada aos moldes da Idade Média, pois é santificada.
Todas essas referências, como sabemos, são teocêntricas, já que são elementos da religião católica. Ao lado dessas referências, há elementos antropocêntricos ou clássicos, já que valorizam a razão e a cultura greco-latina. O principal deles é o poeta Virgílio, autor da epopeia romana Eneida, escrita no século I a. C. Além dele e menções a personalidades como Homero (escritor grego, autor de Ilíada e Odisseia), há também elementos mitológicos, como Cérbero, por exemplo, o cão de três cabeças da mitologia grega. Portanto, na obra, há uma mistura entre as culturas clássica e medieval.
Literatura medieval no Enem
É possível observar nas provas do Enem de 1998 a 2025, que o exame dá mais destaque à literatura brasileira. No entanto, a literatura europeia antes de 1500 (da qual a literatura brasileira é herdeira) faz parte da história da literatura, portanto é importante conhecer a literatura medieval, já que ela dialoga com o romantismo, estilo de época que, no Brasil, esteve em vigor entre 1836 e 1881. A literatura romântica possui a idealização feminina e o sofrimento amoroso típicos das cantigas de amor.
Além disso, a literatura indianista brasileira (vertente do nosso romantismo) também apresenta a vassalagem amorosa na relação entre indígena e europeu, como se vê em Iracema e O guarani, romances de José de Alencar. Nessas obras, o par romântico é formado por uma pessoa indígena e uma pessoa europeia.
O indígena ocupa a posição de vassalo, e o europeu, de suserano, reproduzindo, simbolicamente, a estrutura social medieval. Esse tipo de vassalagem também está presente nas cantigas de amor medievais, em que o trovador é amorosamente vassalo em relação à dama. Portanto, no Enem, a ausência de questões especificamente sobre a literatura medieval não impede que essa referência esteja em alguma questão.
A exemplo disso, na edição de 2012, o Exame Nacional do Ensino Médio apresentou a seguinte questão de literatura:
Enem (2012)
O trovador
Sentimentos em mim do asperamente
dos homens das primeiras eras...
As primaveras do sarcasmo
intermitentemente no meu coração arlequinal...
Intermitentemente...
Outras vezes é um doente, um frio
na minha alma doente como um longo som redondo...
Cantabona! Cantabona!
Dlorom...
Sou um tupi tangendo um alaúde!
ANDRADE, M. In: MANFIO, D. Z. (org.) Poesias completas de Mário de Andrade. Belo Horizonte: Itatiaia, 2005.
Cara ao Modernismo, a questão da identidade nacional é recorrente na prosa e na poesia de Mário de Andrade. Em O trovador, esse aspecto é
A) abordado subliminarmente, por meio de expressões como “coração arlequinal” que, evocando o carnaval, remete à brasilidade.
B) verificado já no título, que remete aos repentistas nordestinos, estudados por Mário de Andrade em suas viagens e pesquisas folclóricas.
C) lamentado pelo eu lírico, tanto no uso de expressões como “Sentimentos em mim do asperamente” (v. 1), “frio” (v. 6), “alma doente” (v. 7), como pelo som triste do alaúde “Dlorom” (v. 9).
D) problematizado na oposição tupi (selvagem) x alaúde (civilizado), apontando a síntese nacional que seria proposta no Manifesto Antropófago, de Oswald de Andrade.
E) exaltado pelo eu lírico, que evoca os “sentimentos dos homens das primeiras eras” para mostrar o orgulho brasileiro por suas raízes indígenas.
A resposta correta é a letra D. No texto, a identidade nacional é problematizada na imagem de um tupi (considerado selvagem) que toca um alaúde (instrumento do homem considerado civilizado). Isso também reforça a miscigenação e a diversidade cultural brasileiras. Além disso, o título do poema remete ao trovadorismo da Idade Média, além de o alaúde ser um dos instrumentos usados pelos trovadores. Dessa forma, a questão exige conhecimento sobre a literatura brasileira e sobre a literatura medieval.
Saiba mais: Literatura portuguesa — qual a sua influência na literatura brasileira?
Exercícios resolvidos sobre literatura medieval
Questão 1
Marque V (verdadeiro) ou F (falso) para as seguintes afirmações:
( ) A literatura medieval tem como principal temática a paz entre os povos.
( ) Os romances de cavalaria são heroicas narrativas medievais.
( ) O trovador Homero é o principal autor da literatura medieval europeia.
A sequência correta é:
A) V, V, F.
B) V, V, V.
C) V, F, F.
D) F, F, V.
E) F, V, F.
Resolução: Alternativa E.
A paz entre os povos não é temática da literatura medieval, a qual, na verdade, tematiza a guerra e os conflitos religiosos. Homero é um autor grego da Antiguidade clássica e não um autor medieval.
Questão 2
A seguir, um texto da literatura medieval em linguagem arcaica, na coluna 1, e em linguagem atualizada, na coluna 2:
|
COLUNA 1 |
COLUNA 2 |
|
A mim dam preç’, e nom é desguisado, dos maltalhados, e nom erram i; Joam Fernandes, o mour’, outrossi, nos maltalhados o vejo contado; e pero maltalhados semos nós, s’homem visse Pero da Ponte em cós, semelhar-lh’-ia moi peor talhado. Afonso Anes do Cotom. |
A mim dão valor, e não é despropositado, entre os malvestidos, e nisso não erram; João Fernandes, o mouro, também entre os malvestidos o vejo contado; e, embora malvestidos sejamos nós, se alguém visse Pero da Ponte de roupa curta, parecer-lhe-ia muito pior trajado. Afonso Anes do Cotom. |
O texto de Afonso Anes do Cotom apresenta característica da:
A) cantiga de amigo.
B) cantiga de amor.
C) cantiga de escárnio ou maldizer.
D) cantiga de gesta.
E) novela de cavalaria.
Resolução: Alternativa C.
Os versos são irônicos e fazem uma crítica bem-humorada a três pessoas, mas mais fortemente a Pero da Ponte. É portanto uma cantiga de escárnio ou maldizer. Mais especificamente de maldizer, já que explicita o nome do alvo da crítica ou zombaria.
Notas
|1| SANTIAGO, Aniely Walesca Oliveira. Os tipos de morte na Chanson de Roland. 2021. Dissertação (Mestrado em Letras) – Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes, Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, 2021.
|2| COSTA, Débora Duarte. Ordo virtutum de Hildegard de Bingen: tradução e notas. Nuntius Antiquus, Belo Horizonte, v. 16, n. 2, p. 147-174, 2020.
Fontes
ABAURRE, Maria Luiza M.; PONTARA, Marcela. Literatura: tempos, leitores e leituras. 4. ed. São Paulo: Moderna, 2021.
A CANÇÃO DE ROLANDO. In: INFOPÉDIA. Disponível em: https://www.infopedia.pt/artigos/$a-cancao-de-rolando.
ARIAS, Ademir Aparecido de Moraes. Canções de gesta e imagens da realeza: três exemplos. Imagens da Educação, Maringá, v. 2, n. 3, p. 35-44, 2012.
BARBOSA, Mariana de Oliveira Lopes. Inquisição. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/guerras/inquisicao.htm.
COSTA, Débora Duarte. Ordo virtutum de Hildegard de Bingen: tradução e notas. Nuntius Antiquus, Belo Horizonte, v. 16, n. 2, p. 147-174, 2020.
COSTA, Edson Tavares. Licenciatura em Letras/ Português: literatura portuguesa. Campina Grande: EDUEPB, 2011.
FEUDALISMO. In: INFOPÉDIA. Disponível em: https://www.infopedia.pt/artigos/$feudalismo.
LOPES, Marcos Antônio. Explorando um gênero literário: os romances de cavalaria. Tempo, Niterói, v. 16, n. 30, 2011.
MACHADO, Janer Cristina. De Donzel del Mar a Amadís de Gaula: o nascimento do herói e a narrativa fundadora na novela de cavalaria. Cadernos literários, Rio Grande, v. 24, n. 1, 2016.
MARCELINO, Alessandra do Amaral Pereira. Carmina Burana: os goliardos e suas críticas contra o sistema social e clerical, por meio da música e da poesia nos séculos XII e XIII. TCC (Graduação em História) – Universidade Federal da Fronteira Sul, Chapecó, 2021.
MENDES, Ana Luiza. Trovadores e jograis: mester de identidade sociocultural. Vernáculo, Curitiba, v. 1, p. 63-87, 2015.
MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. Matriz de referência ENEM. Disponível em: https://download.inep.gov.br/download/enem/matriz_referencia.pdf.
PROJETO LITTERA. Cantigas medievais galego-portuguesas: Afonso Anes do Cotom. Disponível em: https://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=1641&pv=sim.
PROJETO LITTERA. Cantigas medievais galego-portuguesas: Bernal de Bonaval. Disponível em: https://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=1086&pv=sim.
PROJETO LITTERA. Cantigas medievais galego-portuguesas: João Airas de Santiago. Disponível em: https://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=1065&pv=sim.
PROJETO LITTERA. Cantigas medievais galego-portuguesas: Lopo Lias. Disponível em: https://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=1382&pv=sim.
SANTIAGO, Aniely Walesca Oliveira. Os tipos de morte na Chanson de Roland. 2021. Dissertação (Mestrado em Letras) – Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes, Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, 2021.
SILVA, Daniel Neves. Feudalismo. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/historiag/feudalismo.htm.
SILVA, Daniel Neves. Idade Média. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/historiag/idade-media.htm.
SOUSA, Rainer Gonçalves. Renascimento. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/historiag/renascimento.htm.