Nebulosas (Narcisa Amália)

Nebulosas é um livro da escritora fluminense Narcisa Amália. Essa obra do romantismo brasileiro possui 44 poemas e coloca em evidência a voz feminina do século XIX.

Imprimir
A+
A-
Escutar texto
Compartilhar
Política de IA
Facebook
X
WhatsApp
Play
1x
Política de IA Conteúdo feito por humanos

Nebulosas é o único livro de poesia da escritora Narcisa Amália. A obra, inserida no romantismo brasileiro, é composta por 44 poemas. A autora perpassa as três gerações românticas: os poemas apresentam características da primeira geração do romantismo, como, o nacionalismo, e também possuem elementos da segunda fase, como, por exemplo, a melancolia e o desejo de morte. Por fim, apresentam crítica social e visão abolicionista, marcas da terceira fase do romantismo brasileiro. Além disso, o livro coloca em evidência a voz feminina do século XIX.

Leia também: Romantismo no Brasil — fases, características e principais autores e obras

Anuncie aqui

Tópicos deste artigo

Resumo sobre Nebulosas

  • Nebulosas é um livro de poesia da escritora brasileira e romântica Narcisa Amália.
  • É a única obra poética da autora.
  • A obra é dividida em três partes e contém 44 poemas.
  • O poema “Nebulosas” introduz a obra e dá nome ao livro.
  • A primeira parte da obra possui 15 poemas que trazem temas como melancolia, exaltação à natureza, tristeza e a saudade da infância e da juventude.
  • O poema “Consolação”, que é uma paródia, traz uma mensagem de esperança, algo raro nos textos românticos.
  • A segunda parte da obra apresenta 13 poemas que trazem as seguintes temáticas: tristeza, crítica à escravidão e à invisibilidade das escritoras, nacionalismo e exaltação do território brasileiro e de sua natureza.
  • A terceira parte da obra possui 16 poemas.
  • Os poemas “Castro Alves” e “A A. Carlos Gomes” homenageiam o poeta e o compositor brasileiros.
  • A temática religiosa está presente nos poemas “A festa de S. João”, “O sacerdote” e “Ave-Maria”.
  • Outros poemas da terceira parte do livro fazem crítica à escravidão e trazem temas como a natureza e a condição feminina.
  • A poesia de Narcisa Amália tem caráter sentimental e cunho social (aponta os problemas sociais de sua época).
  • A voz feminina está presente em todo o livro e o sofrimento amoroso, tão típico do romantismo, não está presente.
  • Cronologicamente, Narcisa Amália está inserida na terceira geração romântica, ou seja, a geração condoreira, mas sua obra contém traços das gerações anteriores.

Análise da obra Nebulosas

Flores na capa alaranjada do livro Nebulosas, de Narcisa Amália, da editora Principis.
Capa do livro Nebulosas, livro de poesia de Narcisa Amália, publicado pela editora Principis.

Nebulosas é um livro de poesia da poetisa brasileira Narcisa Amália. Ele foi publicado, pela primeira vez, em 1872 e ficou por décadas relegado a segundo plano, ou esquecido pela crítica especializada. Única obra poética da autora, contém poesias de caráter sentimental e de cunho social (aponta os problemas sociais de sua época). A obra contém 44 poemas que estão divididos em 3 partes, como veremos a seguir.

→ Primeira parte do livro Nebulosas

A primeira parte do livro é composta por 15 poemas que apresentam as seguintes temáticas:

  • Nebulosas: exaltação da natureza e da poesia;
  • Voto: exaltação da natureza;
  • Saudades: saudade da infância;
  • Linda: pureza fugaz da infância;
  • Aflita: tristeza da despedida;
  • Aspiração: valorização da infância;
  • Confidência: infância e amizade;
  • Desengano: melancolia diante da natureza;
  • Desalento: sofrimento que surge após o fim dos sonhos de amor e das fantasias;
  • Agonia: natureza, tristeza e desejo de morte;
  • Consolação: mensagem de esperança;
  • Amargura: natureza e o fim da ilusão;
  • Fragmentos: valorização da adolescência;
  • Cisma: natureza, angústia, saudade, melancolia, morte dos sonhos e da infância;
  • Resignação: melancolia e saudade da mocidade que precede o sofrimento.

O poema “Nebulosas”, em versos decassílabos (10 sílabas poéticas), introduz a obra e dá nome ao livro. Nele, o eu lírico feminino mostra seu fascínio diante da natureza e diz como nasceram seus tristes versos.

Nebulosas

Assim nasceram os meus tristes versos,
Que do mundo falaz fogem às pompas!
Não dormem eles sob os áureos tetos
Das térreas potestades, que falecem
De morbidez nos flácidos triclínios!
Cortando as brumas glaciais do inverno
Adejam nas estâncias consteladas
Onde elas pairam; e à luz da liberdade
Devassando os mistérios do infinito,
Vão no sólio de Deus rolar exânimes!...

Narcisa Amália

Anuncie aqui

No poema “Voto” (dedicado à mãe da poetisa e com epígrafe de Álvares de Azevedo, poeta máximo do ultrarromantismo brasileiro), o eu lírico exalta a natureza, em versos decassílabos e hexassílabos (seis sílabas poéticas).

“Saudades” traz epígrafe de um poeta pouco conhecido, chamado Carlos Ferreira, e tem versos decassílabos, que tematizam a saudade da infância, tema trabalhado por outros poetas românticos, como, por exemplo, Casimiro de Abreu. Com epígrafe atribuída a Mary Rossetti (uma escritora inglesa), o poema “Linda” fala da pureza da infância, que um dia morrerá, em redondilhas maiores (versos com sete sílabas poéticas).

O poema “Aflita” tem epígrafe de Il Guarany, ópera de Carlos Gomes (famoso compositor brasileiro), e fala sobre a tristeza do eu lírico diante da partida de alguém, em versos decassílabos. O interessante é que um verso cita Safo: “Como Safo na espuma do escarcéu!”. Safo foi uma poetisa grega da Antiguidade, conhecida por cantar o amor entre as mulheres.

“Aspiração” tem como epígrafe versos do poeta máximo da primeira geração romântica, ou seja, Gonçalves Dias. Em versos decassílabos, novamente fala da infância. “Confidência”, também em versos decassílabos, é dedicado a uma Joana de Azevedo e traz epígrafe do poeta romântico Fagundes Varela. O eu lírico diz não se esquecer de sua interlocutora (possivelmente, a tal Joana), com quem dividiu a infância e a amizade.

Em “Desengano”, a poetisa usa versos alexandrinos (12 sílabas poéticas) e utiliza epígrafe do escritor espanhol Zárate. O poema expressa os sentimentos melancólicos do eu lírico diante da natureza. Já “Desalento” utiliza decassílabos e hexassílabos, sendo encabeçado por epígrafe do poeta espanhol Martínez de la Rosa. No poema, o eu lírico despede-se dos sonhos de amor e das fantasias, que dão lugar ao sofrimento. “Agonia” possui versos decassílabos e hexassílabos, além de epígrafe do poeta francês Gilbert. Novamente, o eu lírico usa a natureza para manifestar sua tristeza e o desejo de morte.

O poema “Consolação” também utiliza decassílabos e hexassílabos. A autora indica que ele é uma “paródia à poesia precedente, pelo sr. J. Ezequiel Freire”, o qual foi um escritor brasileiro da época. O texto traz uma mensagem de esperança, coisa rara na estética romântica. A paródia é uma recriação de texto já existente, que altera o conteúdo original. Então podemos supor que o poeta mencionado tenha escrito algo com temática semelhante.

Anuncie aqui

O poema “Amargura” é composto por versos alexandrinos e hexassílabos. Traz como epígrafe um texto do mais famoso romancista romântico brasileiro, isto é, José de Alencar. Mais uma vez, o eu lírico utiliza elementos da natureza para falar do fim dos sonhos e da ilusão, revelando um eu lírico triste e sem sorriso, que, por isso, almeja a morte. 

Em “Fragmentos”, os versos decassílabos são usados para o eu lírico falar da própria alma, comparada a uma “rola gemedora”, e  de seu coração, comparado a um “lótus do oriente”, além de expressar o desejo de voltar aos “jardins da adolescência”. Como o título sugere, o poema é composto por três fragmentos ou três estrofes.

O poema “Cisma” traz versos decassílabos e epígrafe de Fagundes Varela. O eu lírico mostra a natureza associada a sentimentos de angústia, saudade, a melancolia diante da morte dos sonhos e da infância. “Resignação” tem versos decassílabos, sendo encabeçado por epígrafe de Bernardo Guimarães, conhecido escritor romântico brasileiro. Nesse poema, o eu lírico, em tom melancólico, fala da noite, dos delírios da mocidade e da saudade dessa fase da existência, que foi suplantada pela dor.

→ Segunda parte do livro Nebulosas

13 poemas na segunda parte do livro. São eles:

  • Invocação: natureza, tristeza, crítica à invisibilidade das escritoras, interlocução com a pátria;
  • No ermo: exaltação das florestas, infelicidade, desesperança.
  • O itatiaia: nacionalismo, exaltação do território brasileiro e de sua natureza;
  • Vinte e cinco de março: crítica à escravidão;
  • Manhã de maio: descrição da natureza brasileira, exaltação da fantasia e da inspiração;
  • A Resende: interlocução com Resende (cidade em que viveu a autora), à qual conta seus dissabores longe dali;
  • Miragem: descrição da natureza, associada à liberdade, além de crítica à escravidão;
  • Lembras-te?: saudosismo, exaltação da natureza e contemplação;
  • À Lua: interlocução com uma virgem pálida, idealizada, e temática da morte;
  • Sete de Setembro: enaltecimento do Dia da Independência do Brasil;
  • A noite: declaração de amor pela noite;
  • Vêm!: invocação e personalização do Sono;
  • Pesadelo: destaque para acontecimentos históricos associados à liberdade.

O poema “Invocação” traz versos eneassílabos (nove sílabas poéticas) e epígrafe de Almeida Garrett, famoso escritor romântico português. O eu lírico feminino utiliza imagens da natureza, diante da qual ele sente pungir-lhe um espinho, pois não vê mais o sol da ventura. Nesse poema, o eu lírico menciona sua pátria, que é sua interlocutora. O poema sugere que a mulher, nessa pátria, é oprimida, sendo as escritoras desvalorizadas. Por isso, vale transcrever esta estrofe como ilustração:

Mas, ó pátria, são frágeis as asas!
E se aos bardos mil vezes abrasas
Não me ofertas um mirto sequer!...
Quando intento librar-me no espaço,
As rajadas em tétrico abraço
Me arremessam a frase — mulher!...

Anuncie aqui

“No ermo”, em versos decassílabos e hexassílabos, traz epígrafe do poeta máximo da terceira geração romântica brasileira, ou seja, Castro Alves. No poema, o eu lírico exalta as florestas, enquanto expressa a própria infelicidade, com um eu lírico consumido pela desesperança. Para o eu lírico, a selva está livre de paixões e esgares, sendo lugar de serenidade.

“O itatiaia” é composto em redondilha maior e traz epígrafe do romancista romântico Franklin Távora. Nesse poema, o eu lírico exalta o território brasileiro e sua natureza, o “gigante brasílio”. Portanto, apresenta cunho nacionalista. O título faz referência ao Pico das Agulhas Negras, que está localizado no maciço do Itatiaia, que fica entre os estados do Rio de Janeiro e de Minas Gerais.

“Vinte e cinco de março”, composto em versos decassílabos e hexassílabos, traz epígrafe do escritor Celso Magalhães. Em 25 de março de 1824, foi outorgada a primeira Constituição do Brasil. Nesse poema, o eu lírico critica a escravidão ao mostrar que um país que lutou pela liberdade, mantém pessoas em cativeiro. “Manhã de maio”, composto em versos decassílabos e hexassílabos, tem epígrafe do escritor português Teófilo Braga e é dedicado a uma tal Brandina Maia. Consiste em versos descritivos sobre a natureza brasileira, exaltação da fantasia e da inspiração.

Já o poema “A Resende”, pelo título, faz referência à cidade onde a autora viveu parte importante de sua vida. Ele apresenta versos decassílabos e epígrafe do poeta brasileiro Teixeira de Melo. Fala da volta do eu lírico à “estrela da alvorada” (Resende, possivelmente). Mas pode também ser uma lembrança do eu lírico, o qual diz “enfim te vejo”. Então ele, dirigindo-se a tal “estrela”, fala dos dissabores que viveu longe dela.

Mais um poema composto em redondilha maior, “Miragem” é encabeçado por epígrafe de Victor Hugo, famoso escritor romântico francês. Descreve a grandiosidade da natureza, associada à liberdade. Porém, isso é usado para, em seguida, falar da escravidão e exortar o povo a lutar contra ela:

E sob o céu sempre belo
Da mais sedutora plaga,
Beija — o rei — da natureza
O ferro que o pulso esmaga?!
Qu’importa que os sáxeos montes
— Atalaias de horizontes —
Clamem do ar n’amplidão:
“Levanta-te, ó povo bravo,
Quebra as algemas de escravo
Que aviltam-te o coração”?!...

Anuncie aqui

Composto em versos alexandrinos, “Lembras-te?” é dedicado a uma tal Adelaide Luz e também tem epígrafe de Victor Hugo. O eu lírico relembra um momento em que esteve com alguém (um “tu”, possivelmente a pessoa a quem a autora dedica o poema). Além disso, como resposta à pergunta de sua interlocutora, o eu lírico descreve a natureza para explicar por que contempla as tênues nebulosas.

O poema “À Lua”, composto por redondilha maior, traz epígrafe do escritor Teixeira de Melo. Nesse poema, o eu lírico se dirige a uma virgem pálida, a qual é explicitamente idealizada, pois pertence a um “reino aéreo”:

Estendo-te os braços trêmulos,
Vem desvendar-me o mistério
Contar-me as latentes dores,
A causa dos teus palores,
Rainha do reino aéreo.

Diferentemente da poesia romântica masculina, a mulher pálida não é vista como objeto de desejo, mas como uma amiga do eu lírico feminino, que é poetisa:

Por que de brandas carícias
Circundas a poetisa?
Não tens acaso nas flores
Mais feiticeiros amores?
Não tens o arpejo da brisa?

O final sugere que o eu lírico tem pouco tempo de vida:

Anuncie aqui

Mas não tentes, em silêncio,
Sondar a chaga dorida!
É tarde, virgem, é tarde,
No meu seio apenas arde
Uma centelha de vida!

Em versos decassílabos e hexassílabos, “Sete de Setembro” tem epígrafes do escritor brasileiro Félix da Cunha e de Racine (poeta francês). O poema enaltece o Dia da Independência do Brasil. Já “A noite” apresenta versos decassílabos, traz epígrafe de Gonçalves Dias e declara o amor do eu lírico pela noite, “a meiga irmã da poesia”. “Vêm!” possui versos decassílabos e tetrassílabos (4 sílabas poéticas) e epígrafe de Victor Hugo. Nele, o eu lírico personaliza o Sono e invoca-o.

Composto em versos alexandrinos, o poema “Pesadelo” tem epígrafes dos escritores franceses Jean Larocque e Casimir Delavigne, além do poeta brasileiro Pedro Luiz. A poetisa dedica os versos a seu pai, o Sr. Jacome de Campos. Nesse poema dividido em três partes, o eu lírico destaca acontecimentos históricos associados à liberdade. Assim, ele fala de elementos como a Grécia e a Roma antigas, a Revolução Francesa e a Inconfidência Mineira.

→ Terceira parte do livro Nebulosas

A terceira e última parte do livro Nebulosas, contém 16 poemas:

  • Castro Alves: homenagem ao poeta romântico Castro Alves;
  • A A. Carlos Gomes: homenagem ao compositor e maestro brasileiro Carlos Gomes;
  • Visão: personificação da Esperança;
  • A festa de S. João: enaltecimento da festa de S. João e do cristianismo;
  • Recordação: lembrança de uma amizade de infância;
  • O sacerdote: enaltecimento do sacerdócio e do cristianismo;
  • Amor de violeta: a relação entre uma bela violeta e uma virgem;
  • O africano e o poeta: crítica à escravidão;
  • Sadness: personificação da Tristeza.
  • O baile: descrição de um baile, condição feminina e definição da vida;
  • Fantasia: idealização da natureza e de uma virgem;
  • Júlia e Augusta: comparação entre duas mulheres;
  • Noturno: descrição da noite, enaltecimento da natureza e sofrimento humano;
  • A rosa: uma rosa que busca o amor do sol, o que a leva à morte;
  • Ave-Maria: natureza e religiosidade;
  • Os dois troféus: tradução de poema de Victor Hugo, que enaltece a França.

“Castro Alves” é composto por versos decassílabos e traz epígrafes da poetisa brasileira Joana Tiburtina e de Costa Carvalho. O poema homenageia e enaltece o poeta romântico Castro Alves. Já “A A. Carlos Gomes”, temos versos endecassílabos (11 sílabas poéticas) e redondilhas menores (versos de cinco sílabas poéticas), com epígrafe de Teixeira de Melo. O poema homenageia o compositor e maestro brasileiro Carlos Gomes.

“Visão” apresenta versos decassílabos e epígrafe de Jacome de Campos (pai da escritora). Nesse poema, o eu lírico fala sobre uma visão do que seria a personificação da Esperança. O poema “A festa de S. João” é dedicado à “Exma. Sra. D. Mariana Cândida de M. França”. Em versos decassílabos, o poema é dividido em três partes, enaltece a festa de S. João e o cristianismo.

Anuncie aqui

O poema “Recordação” é composto por redondilha maior, apresenta epígrafe de Teófilo Braga e é dedicado a uma tal Adelaide Luz. O eu lírico dirige-se à amiga Adelaide para relembrar a infância que tiveram juntas. Composto por versos decassílabos e tetrassílabos, o poema “O sacerdote” é dedicado ao vigário Felipe José Correia de Melo e apresenta epígrafe do escritor francês Guiraud. O poema enaltece o sacerdócio e, consequentemente, o cristianismo.

O poema “Amor de violeta”, com versos hexassílabos e alexandrinos, traz epígrafe do escritor brasileiro Luiz Guimarães Júnior. Fala de uma violeta que rejeita a borboleta. Mas fica triste quando uma virgem a pretere em favor de uma hortênsia. A violeta acaba sendo pisada e sente-se feliz por perfumar os pés da virgem.

“O africano e o poeta”, composto em redondilha menor, é dedicado ao doutor Celso de Magalhães, além de ser encabeçado por epígrafe do escritor francês Lamartine. O texto fala da realidade de um cativo, ou seja, uma pessoa escravizada. O poema alterna: uma estrofe fala do cativo, a seguinte fala sobre o poeta, tal estrutura segue até o final. Assim, o poeta é aquele que pensa, sente, quer e vê.

Sadness” (em inglês, “tristeza”) possui versos decassílabos e hexassílabos e epígrafe do poeta escocês James Thomson. Nele, o eu lírico caracteriza o “anjo inspirador”: frio, triste, pois seu nome é Tristeza. “O baile” apresenta versos alexandrinos e hexassílabos, e traz epígrafe de Gonçalves Dias. O poema mostra detalhes de um alegre baile. Por fim, isso é uma oportunidade para o eu lírico falar sobre a condição da mulher:

Além, meus olhos tímidos contemplam com tristeza
As penas da mulher, dessa — ave de beleza —
Calçadas sem piedade!…
Esparsas pelo solo as laceradas rendas…
As flores já sem viço… abandonadas lendas
Da louca mocidade!

O eu lírico fala do final da festa e conclui o poema com esta definição da existência:

Anuncie aqui

A vida é isto: hoje cruel grilhão de ferro;
Talvez d’oiro amanhã, mas sempre a dor, o erro,
Aniquilando o gênio!
Passado — áureo friso num mar de indiferença;
Presente — eterna farsa universal, suspensa
Do mundo no proscênio!

“Fantasia” é composto por redondilha maior e traz epígrafe do poeta inglês Byron, a maior inspiração para o ultrarromantismo brasileiro. O eu lírico idealiza a natureza e enaltece uma virgem idealizada, “símbolo de amor e candura”. Ao final, deseja que o destino da virgem seja distinto do seu: cheio de amargura, teve os sonhos negados pelo céu.

“Júlia e Augusta” tem epígrafe de Gonçalves Dias e, em versos decassílabos, compara as mulheres do título a elementos da natureza. Aponta características de cada uma delas e, por fim, diz que ambas são “cingidas de virgínia auréola” e que seria feliz aquele “que sorvesse em ósculos / o afeto imenso que em seus olhos brilha”.

“Noturno” possui versos hexassílabos e epígrafe do escritor alemão Goethe, um dos principais nomes do romantismo europeu. O eu lírico descreve a noite, destacando os elementos naturais. Porém, ao final, aponta que a noite também traz o sofrimento, o ai dos desgraçados.

“A rosa” traz versos alexandrinos e epígrafe do poeta português Almeida Garrett. O poema fala de uma belíssima rosa que busca o amor do sol. O calor intenso cresta suas pétalas, e ela acaba morrendo. Assim, mostra que a beleza e a juventude são passageiras.

“Ave-Maria” é um poema composto por versos decassílabos, possui a indicação “sobre uma página de Lamartine” e traz epígrafe da ópera Il guarany (O guarani), de Carlos Gomes. O poema fala do entardecer, do pôr do sol, e associa toda a natureza a algo místico, divino. Assim, enaltece o cristianismo, ao mencionar o momento sagrado da Ave-Maria (às seis da tarde).

Anuncie aqui

Por fim, “Os dois troféus”, composto em redondilha maior, é uma tradução. O poema, de Victor Hugo, fala do povo francês. Começa enaltecendo-o como revolucionário. Expressa a decadência do país e as derrotas sofridas. Critica a guerra civil. Enaltece o heroísmo do povo e incita a gente a resistir contra os inimigos: “Curvar-nos? Jamais! Jamais!”. Assim, os troféus são os dois principais símbolos da França: a coluna (de Julho) e o arco (do Triunfo).

Veja também: Quais são as características da prosa romântica?

Características da obra Nebulosas, de Narcisa Amália

→ Estrutura da obra Nebulosas

 

1ª PARTE

2ª PARTE

3ª PARTE

1

Nebulosas

Invocação

Castro Alves

2

Voto

No ermo

A A. Carlos Gomes

3

Saudades

O itatiaia

Visão

4

Linda

Vinte e cinco de março

A festa de S. João

5

Aflita

Manhã de maio

Recordação

6

Aspiração

A Resende

O sacerdote

7

Confidência

Miragem

Amor de violeta

8

Desengano

Lembras-te?

O africano e o poeta

9

Desalento

À Lua

Sadness

10

Agonia

Sete de Setembro

O baile

11

Consolação

A noite

Fantasia

12

Amargura

Vêm!

Júlia e Augusta

13

Fragmentos

Pesadelo

Noturno

14

Cisma

 

A rosa

15

Resignação.

 

Ave-Maria

16

 

 

Os dois troféus

→ Estilo literário da obra Nebulosas

A obra Nebulosas pertence ao romantismo brasileiro. O romantismo foi um estilo de época que, no Brasil, esteve em evidência entre 1836 e 1880, quando foi suplantado pelo realismo em 1881. A poesia romântica brasileira é dividida em três fases ou gerações:

  • Indianismo ou nativismo (1836 a 1852): nacionalismo, enaltecimento da pátria, idealização da figura indígena e da natureza, religiosidade, amor e mulher idealizados.
  • Ultrarromantismo (1853 a 1869): exagero sentimental, sofrimento amoroso, temática da morte, pessimismo.
  • Condoreirismo (1870 a 1880): crítica social, caráter abolicionista, amor menos idealizado.

A voz feminina está presente em todo o livro. Mas, o sofrimento amoroso, tão típico do romantismo, não está presente. A idealização é uma marca do movimento romântico. Idealizar significa ver ou mostrar algo como sendo perfeito. Essa realidade ideal afasta-se da realidade crua, onde a imperfeição impera. Ao idealizar o amor e a mulher, os românticos fogem da realidade como a conhecemos.

No romantismo, a mulher é vista como um ser inalcançável pela voz poética. Por ser uma mulher, Narcisa Amália quebra com tal tradição, de forma que a figura feminina agora é a voz que expressa pensamentos e emoções e não um objeto de culto erótico.

Cronologicamente, Narcisa Amália está inserida na terceira geração romântica, ou seja, a geração condoreira. Poetas dessa geração tinham o condor (ave da Cordilheira dos Andes) como símbolo de liberdade. Porém, a autora também apresenta traços de gerações anteriores, como o enaltecimento da pátria, típico da primeira geração.

Anuncie aqui

Também é interessante notar que a autora, muitas vezes, dedica seus poemas a figuras femininas. Entretanto, todas as epígrafes (a epígrafe é uma citação colocada antes de um texto e com ele tem alguma relação de sentido) são de homens, com apenas uma exceção. Isso mostra como os escritores dominavam a cena no século XIX, deixando as escritoras relegadas a segundo plano.

A obra apresenta elementos como exaltação da natureza e da pátria, além de saudosismo em relação à infância. Elementos religiosos também podem ser apontados, o que é bastante comum em obras românticas brasileiras. Por fim, a autora perpassa as três gerações românticas: o nacionalismo da primeira, o sofrimento e desejo de morte da segunda, a crítica social e a visão abolicionista da terceira geração romântica.

Contexto histórico da obra Nebulosas

O Romantismo brasileiro tem como marco histórico a Independência do Brasil, ocorrida em 1822. Assim, o romantismo serviu como instrumento de enaltecimento da pátria e construção de uma identidade nacional. Nebulosas foi produzida durante o Segundo Reinado (1840-1889), em que o Brasil esteve sob regência de D. Pedro II. Alguns fatos importantes ocorreram nesse período:

  • a lei Eusébio de Queirós (1850), que criminalizava o tráfico de pessoas negras escravizadas;
  • a Guerra do Paraguai (1864-1870), cujo financiamento foi responsável pelo endividamento do país;
  • a Lei do Ventre Livre (1871), que considerava livre, a partir de então, qualquer criança nascida de mãe escravizada.

A monarquia estava em declínio e cairia em 1889, com a Proclamação da República. Assim, ideias abolicionistas e republicanas ganhavam cada vez mais força. Dessa forma, a obra de Narcisa Amália traz tanto elementos nacionalistas quanto crítica social e teor abolicionista.

Narcisa Amália, autora de Nebulosas

Narcisa Amália é uma escritora brasileira. Ela nasceu em 3 de abril de 1852, na cidade de São João da Barra, no Rio de Janeiro. Por volta dos 11 anos de idade, ela e sua família se mudaram para Resende. Estimulada pela família, estudou francês, latim e retórica. Além de poetisa, também foi tradutora, jornalista e crítica literária. Entrou para a história como a primeira jornalista profissional do Brasil.

Retrato da escritora brasileira Narcisa Amália.
A escritora brasileira Narcisa Amália.

Foi uma das pioneiras do feminismo em nosso país e também era abolicionista. Causou escândalo ao se separar duas vezes. Ganhou a honraria Lira de Ouro após publicar seu único livro de poesia, isto é, Nebulosas. É preciso destacar que escritoras no Brasil, no século XIX, eram pouco respeitadas.

Anuncie aqui

Isso contribuiu para que muitos acreditassem que ela não tinha escrito seus poemas, após seu segundo marido, ressentido, lançar essa dúvida sobre ela. Em 1889, ela se mudou para a cidade do Rio de Janeiro para ser professora em escola pública. A morte da escritora ocorreu, devido ao diabetes, em 24 de julho de1924, nessa cidade.

Saiba mais: Nísia Floresta — outra autora cujas obras apresentam traços românticos e caráter feminista

O poema Nebulosas, de Narcisa Amália

On donne le nom de Nébuleuses à
des taches blanchâtres que l’on voit çà

et là, dans toutes les parties du ciel.
(Delaunay)

No seio majestoso do infinito,
— Alvos cisnes do mar da imensidade, —
Flutuam tênues sombras fugitivas
Que a multidão supõe densas caligens,
E a ciência reduz a grupos válidos;
Vejo-as surgir à noite, entre os planetas,
Como visões gentis à flux dos sonhos;
E as esferas que curvam-se trementes
Sobre elas desfolhando flores d’oiro,
Roubam-me instantes ao sofrer recôndito!

Costumei-me a sondar-lhes os mistérios
Desde que um dia a flâmula da ideia
Livre, ao sopro do gênio, abriu-me o templo
Em que fulgura a inspiração em ondas;
A seguir-lhes no espaço as longas clâmides
Orladas de incendiados meteoros;
E quando da procela o medo arcanjo
Desdobra n’amplidão as negras asas,
Meu ser pelo teísmo desvairado
Da loucura debruça-se no pélago!

Sim! São elas a mais gentil feitura
Que das mãos do Senhor há resvalado!
Sim! De seus seios na d’oirada urna,
A piedosa lágrima dos anjos,
Ligeira se converte em astro esplêndido!
No momento em que o mártir do calvário
A cabeça pendeu no infame lenho,
A voz do Criador, em santo arrojo,
No macio frouxel de seus fulgores
Ao céu arrebatou-lhe o calmo espírito!

Mesmo o sol que nas orlas do oriente
Livre campeia e sobre nós desata
A chuva de mil raias luminosos,
Nos lírios sidéreos do seu regaço
Repousa a fronte e despe a rubra túnica!
No constante volver dos vagos eixos,
Os orbes em parábolas se encurvam
Bebendo alento no seu manso brilho!
E o tapiz movediço do universo
Mais belo ondeia com seus prantos fúlgidos!

 E quantos infelizes não olvidam
O horóscopo fatal de horrenda sorte,
Se no correr das auras vespertinas
Seus seres vão pousar-lhes sobre a coma,
Que as madeixas enastram do crepúsculo!
Quanta rosa de amor não abre o cálix
Ao bafejo inefável das quimeras,
No coração temente da donzela,
Que, da lua ao clarão dourando as cismas,
Lhes segue os rastros na cerúlea abóbada?!...

Um dia no meu peito o desalento
Cravou sangrenta garra; trevas densas
Nublaram-me o horizonte, onde brilhava
A matutina estrela do futuro.
Da descrença senti os frios ósculos;
Mas no horror do abandono alçando os olhos
Com tímida oração ao céu piedoso,
Eu vi que elas, do chão do firmamento,
Brotavam em lucíferos corimbos
Enlaçando-me o busto em raios mórbidos!

Oh! amei-as então! Sobre a corrente
De seus brandos, notívagos lampejos,
Audaz librei-me nas azuis esferas;
Inclinei-me, de flamas circundada
Sobre o abismo do mundo torvo e lúgubre!
Ergui-me ainda mais: da poesia
Desvendei as lagunas encantadas,
E prelibei delícias indizíveis
Do sentimento nas caudais sagradas,
Ao clarão divinal do sol da glória!

Quando desci mais tarde, deslumbrada
De tanta luz e inspiração, ao vale
Que pelo espaço abandonei sorrindo,
E senti calcinar-me as débeis plantas
Do deserto as areias ardentíssimas;
Ao fugir dos sondais que estende a noite
Sobre o leito da terra adormecida,
Fitei chorando a aurora que surgia!
E — ave de amor — a solidão dos ermos
Povoei de gorjeios melancólicos!...

 

Assim nasceram os meus tristes versos,
Que do mundo falaz fogem às pompas!
Não dormem eles sob os áureos tetos
Das térreas potestades, que falecem
De morbidez nos flácidos triclínios!
Cortando as brumas glaciais do inverno
Adejam nas estâncias consteladas
Onde elas pairam; e à luz da liberdade
Devassando os mistérios do infinito,
Vão no sólio de Deus rolar exânimes!...

Créditos da imagem

Editora Principis (reprodução)

Fontes

ABAURRE, Maria Luiza M.; PONTARA, Marcela. Literatura: tempos, leitores e leituras. 4. ed. São Paulo: Moderna, 2021.

Anuncie aqui

AMÁLIA, Narcisa. Nebulosas. Rio de Janeiro: Garnier, 1872.

PAIXÃO, Sylvia Perlingeiro. Narcisa Amália. In: MUZART, Zahidé Lupinacci (org.). Escritoras brasileiras do século XIX. 2. ed. Florianópolis: Editora Mulheres, 2000.

Escritor do artigo
Escrito por: Warley Souza Professor de Português e Literatura, com licenciatura e mestrado em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Deseja fazer uma citação?
SOUZA, Warley. "Nebulosas (Narcisa Amália)"; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/literatura/nebulosas-narcisa-amalia.htm. Acesso em 16 de maio de 2026.
Copiar