Tancredo Neves

Biografia

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Tancredo Neves foi um importante político brasileiro que consolidou sua trajetória política durante a Quarta República. Advogado, ele atuou como deputado e chegou a ser nomeado primeiro-ministro. Durante a Ditadura Militar, atuou na oposição política e conseguiu ser eleito senador e governador de Minas Gerais.

Foi um dos grandes nomes da política que apoiou a redemocratização do Brasil. Participou das Diretas Já, mas, com a derrota da emenda, lançou-se à disputa pelo Colégio Eleitoral. Em 1985 foi eleito presidente do Brasil, mas problemas de saúde levaram-no à morte e fizeram com que o seu vice, José Sarney, fosse empossado.

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Juventude

Tancredo de Almeida Neves nasceu na cidade de São João del-Rei, no dia 4 de março de 1910. Ele foi o quinto filho de Francisco de Paula Neves, o “Seu Chiquito”, e Antonina de Almeida Neves, a “Dona Sinhá”. Seu pai era um pequeno comerciante que conseguiu dar uma condição de vida decente para a sua família. Ao todo, ele teve 11 irmãos.

Tancredo ingressou na escola em 1917, matriculando-se no Grupo Escolar João dos Santos, um colégio tradicional de sua cidade. A partir de 1921, ingressou no Colégio Santo Antônio, e lá permaneceu até o ano de 1927. Tancredo considerava a si próprio como um aluno mediano, e, na sua juventude, tinha gosto pela política e pelo futebol, além de ser bastante religioso|1|.

Depois de terminada sua educação básica, Tancredo Neves teve que escolher a carreira profissional que seguiria. Sua família enfrentava problemas financeiros decorrentes do falecimento de seu pai, e ele decidiu seguir uma carreira que lhe traria retorno financeiro.

Tentou fazer engenharia em Ouro Preto, mas desistiu porque não gostou do estilo de vida da cidade. Depois tentou ingressar na Escola Naval no Rio de Janeiro, mas não foi aprovado. Em seguida, tentou ingressar na Faculdade de Medicina, mas também fracassou. Por fim, estudou na Faculdade de Direito para que não ficasse sem nenhuma ocupação.

Em Belo Horizonte, Tancredo teve de sustentar-se para conseguir sua formação. Durante os quatro anos de curso, ele trabalhou de escriturário, foi aprovado em um concurso para a secretária de Educação e, por fim, trabalhou como jornalista no Estado de Minas. Formou-se em Direito no ano de 1932.

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Carreira política

O interesse de Tancredo pela política vinha desde a sua juventude, e, em 1930, ele apoiou a Revolução de 1930 no Brasil. Durante a eleição de 1930, ele apoiou a candidatura de Vargas, mas, com a derrota e a ideia de revolução propagando-se pelo país, participou ativamente desse acontecimento, envolvendo-se em caravanas pelo seu estado.

Em 1932, participou de manifestações contra o governo de Vargas e em apoio aos constitucionalistas que se rebelaram em São Paulo. Foi preso nessa mesma época. Em 1933, ingressou no Partido Progressista por influência de Augusto Viegas, conhecido como o seu padrinho político em Minas Gerais.

Em 1935, Tancredo Neves elegeu-se vereador de sua cidade natal, São João del-Rei, obtendo 195 votos. Junto de outros 15 vereadores, tomou posse do cargo e foi escolhido como presidente da Câmara. Por conta do golpe do Estado Novo, teve o seu mandato cassado em 1937, e, até 1946, dedicou-se ao ofício da advocacia.

Quarta República

Tancredo Neves (no centro) foi um dos principais políticos da Quarta República e lidou com duas grandes crises políticas. [1]
Tancredo Neves (no centro) foi um dos principais políticos da Quarta República e lidou com duas grandes crises políticas. [1]

Na década de 1940, a ditadura de Getúlio Vargas começou a perder força e o movimento de redemocratização do Brasil passou a crescer. O próprio Vargas, percebendo a nova realidade política do país, realizou algumas garantias democráticas, mas isso não lhe salvou de perder o poder, sendo deposto em outubro de 1945.

Nesse período, novos partidos políticos surgiram, e Tancredo Neves filiou-se ao Partido Social Democrático (PSD). Em 1945, ele não participou das eleições, mas, em 1947, lançou-se à disputa para deputado estadual. O político mineiro foi eleito, participando da elaboração de uma nova Constituição para Minas Gerais.

Em 1950, Tancredo engajou-se para garantir a eleição de Juscelino Kubitschek como governador de Minas Gerais. Ele também esteve envolvido com a candidatura de Cristiano Machado para a presidência, além de ter disputado a eleição para deputado federal. Foi eleito com o total de 11.515 votos|2|. Quer saber mais sobre esse contexto? Leia: Quarta República.

Segundo Governo de Vargas

Entre 1951 e 1953, Tancredo Neves atuou na Comissão de Transportes, Comunicações e Obras Públicas e na Comissão de Constituição e Justiça|3|. Em junho de 1953, Vargas decidiu, junto de Juscelino Kubitschek, governador de Minas Gerais, nomear Tancredo como ministro da Justiça.

Assim, em 26 de junho de 1953, Tancredo Neves assumiu a pasta em meio a uma intensa crise política. O jornalista José Augusto Ribeiro afirma que Vargas deu como missão para Tancredo que este conseguisse articular a candidatura de Juscelino Kubitschek para a presidência e enfraquecer a proposta do governador de Pernambuco, Etelvino Lins, de aproximar UDN e PSD contra o PTB. Por fim, era papel dele enfraquecer a onda golpista contra o presidente|4|.

Tancredo ainda era ministro da Justiça quando outra enorme crise estourou. Em agosto de 1954, o maior opositor do presidente, Carlos Lacerda, sofreu um atentado que resultou na morte de seu guarda-costas, o major da Aeronáutica, Rubens Vaz. Quando recebeu a mensagem do que havia acontecido, ele entendeu que se tratava de uma crise sem precedentes.

Acesse também: Populismo: um dos conceitos políticos mais associados com a Quarta República

Tancredo agiu politicamente para comprovar a inocência de Vargas nas investigações conduzidas pelos militares para esclarecimento do atentado contra Lacerda. A ação dos militares nas investigações do caso, inclusive, passava por cima da autoridade do presidente. Tancredo Neves também teve papel crucial em inocentar Lutero, o filho do presidente.

A crise, no entanto, teve um desfecho trágico. No dia 24 de agosto de 1954, Getúlio Vargas cometeu suicídio atirando contra o próprio peito. Essa foi sua medida drástica para lidar com a crise política que lhe abateu.

Antes do suicídio, Tancredo havia sugerido lidar com os golpistas, aprisionando-os e decretando estado de sítio, de acordo com as garantias dadas pela Constituição de 1946, mas essa opinião não foi considerada. No velório de Vargas, Tancredo Neves discursou reforçando o apoio que o estado de Minas Gerais havia dado a ele.

Antes do golpe

Tancredo Neves foi um dos grandes articuladores da campanha que elegeu Juscelino Kubitschek como presidente do Brasil, em 1955. [1]
Tancredo Neves foi um dos grandes articuladores da campanha que elegeu Juscelino Kubitschek como presidente do Brasil, em 1955. [1]

Depois do suicídio de Vargas, Tancredo Neves e outros membros do PSD deram continuidade aos planos do próprio Getúlio para a sucessão presidencial. Decidiu-se pela escolha de Juscelino Kubitschek, e Tancredo envolveu-se diretamente na campanha eleitoral do então governador de Minas Gerais para a presidência.Como não renunciou ao Ministério da Justiça, Tancredo não pode disputar a reeleição como deputado, mas, após a vitória de JK, ele foi indicado para assumir cargos administrativos no Banco de Crédito Real de Minas Gerais e para a Carteira de Redescontos do Banco do Brasil. Tancredo também assumiu a Secretaria de Fazenda de Minas Gerais. Em 1960, disputou a eleição para governador e foi derrotado por Magalhães Pinto, político da UDN.

Durante a crise de sucessão, causada pela renúncia de Jânio Quadros da presidência, Tancredo articulou politicamente o apoio à implantação do parlamentarismo para impedir que um golpe militar acontecesse. Ele chegou a viajar para o Uruguai a fim de propor essa ideia a João Goulart.

Uma vez solucionada a questão, João Goulart foi empossado presidente em 7 de setembro de 1961, e Tancredo Neves foi indicado por ele para o cago de primeiro-ministro do Brasil. Tancredo assumiu como primeiro-ministro no dia 8 de setembro de 1961 e permaneceu no cargo até julho de 1962. Os questionamentos ao sistema parlamentarista e a possibilidade de eleger-se deputado, no entanto, fizeram-no renunciar. Na eleição daquele ano, ele obteve mais de 58 mil votos, elegendo-se novamente deputado federal.

Ditadura Militar

Tancredo Neves participava ativamente do governo de João Goulart e apoiou-o durante toda a crise que se arrastou por 1963 e 1964. Com o golpe militar realizado na passagem de março para abril de 1964, ele continuou apoiando Jango, e, quando veio a eleição para a escolha indireta do novo presidente, recusou-se a votar em Castello Branco.

Tancredo não teve seu mandato de deputado cassado, e isso se atribui ao fato de que ele tinha boa articulação política com os miliares. Outros companheiros de partido, como JK, não tiveram a mesma sorte. O presidente Castello Branco cobrou que Tancredo filiasse-se ao Arena, partido dos militares, mas ele recusou-se e filiou-se ao partido da oposição, o MDB.

Durante todo o período da Ditadura, Tancredo foi reeleito deputado federal sempre pelo MDB. Ele fez parte de uma ala moderada da oposição que defendia posturas mais conciliatórias, incluindo o diálogo com os militares. Com a abertura política do Brasil, houve o retorno do pluripartidarismo, e assim Tancredo Neves articulou a criação do Partido Popular (PP), mas, pouco tempo depois, esse partido foi incorporado pelo PMDB.

Em 1978, Tancredo foi eleito senador por Minas Gerais por oito anos, e, em 1982, elegeu-se governador do mesmo estado ao derrotar Eliseu Resende com pouco mais de 2,6 milhões de votos. Em 1983, foi articulado que ele seria o indicado da oposição aos militares para a disputa do Colégio Eleitoral de 1985, que determinaria o novo presidente do Brasil. Caso tenha maior curiosidade sobre o tema, leia nosso texto: Ditadura Militar.

Eleição de 1985

Tancredo Neves percorreu todo o país durante a campanha do Colégio Eleitoral de 1985. [1]
Tancredo Neves percorreu todo o país durante a campanha do Colégio Eleitoral de 1985. [1]

No mesmo ano foi proposta a Emenda Dante de Oliveira, medida que determinava o retorno da eleição presidencial direta no Brasil. A Campanha das Diretas Já foi extremamente popular e percorreu todo o país. Tancredo Neves apoiou as Diretas Já, mas sabia que suas chances de tornar-se presidente seriam maiores no Colégio Eleitoral, uma vez que, no voto direto, Ulysses Guimarães era mais popular.

Com a derrota da emenda, a oposição tratou de reorganizar-se para disputar o Colégio Eleitoral. Tancredo Neves teve papel crucial nas negociações que levaram uma ala dissidente do PDS a apoiar a sua candidatura. A nomeação de José Sarney (antigo presidente do PDS) como vice foi um claro indicativo disso.

No dia 15 de janeiro de 1985, o resultado saiu: Tancredo Neves havia sido eleito presidente com 480 votos. A festa espalhou-se por todo o país, pois sua candidatura era apoiada por grande parte da população brasileira. Em seu discurso da vitória, Tancredo afirmou:

Com êxtase e o terror de haver sido o escolhido […], entrego-me, hoje, ao serviço da Nação. Não vamos nos dispersar. Continuemos reunidos, como nas praças públicas, com a mesma emoção, a mesma dignidade e a mesma decisão. Se todos quisermos, dizia-nos há quase 200 anos, Tiradentes, aquele herói enlouquecido de esperança, poderemos fazer deste país uma grande Nação. Vamos fazer!|5|.

Saiba mais: Governo Collor: um dos governos mais polêmicos da Nova República

Morte

Após a vitória, Tancredo deu início aos preparativos para a composição do novo governo brasileiro. A posse do novo presidente estava marcada para o dia 15 de março de 1985, mas, semanas antes dela, Tancredo vinha sofrendo com dores agudas na região do abdômen. Temeroso de que seu problema de saúde poderia ser utilizado como desculpa pelos militares para barrá-lo, ele o escondeu.

Recusou-se a ir a um hospital, pois sabia que o governo militar ficaria sabendo. Então ele recorreu a um atendimento particular, em sua casa, e a doses de antibióticos para um suposto quadro de apendicite. Tancredo pretendia seguir assim até a posse, e, uma vez oficializado no cargo, procuraria ajuda médica para uma eventual cirurgia. A opinião médica indicava uma infecção aguda, e ele deveria ser operado o mais rápido possível.

Na noite do dia 14 de março, Tancredo Neves foi internado à pressas no Hospital de Base do DF. Houve confusão em seu tratamento, e as condições de atendimento não foram as ideais. Enquanto isso, Ulysses Guimarães articulou a posse de José Sarney até a pronta recuperação de Tancredo.

Após dias de internação, primeiro em Brasília e depois em São Paulo, e sete cirurgias, Tancredo Neves faleceu no dia 21 de abril de 1985. A causa de suas dores e que o levou à morte foi um tumor. A morte de Tancredo foi um grande baque para o Brasil, e a presidência, por fim, caiu no colo de José Sarney, antigo apoiador dos militares.

O corpo de Tancredo Neves foi velado em São Paulo e enterrado em sua cidade natal, São João del-Rei.

Notas

|1| RIBEIRO, José Augusto. Tancredo Neves: a noite do destino. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015, p. 24-28.

|2| Idem, p. 63.

|3| Idem, p. 69.

|4| Idem, p. 82-83.

|5| Idem, p.596-597.

Créditos da imagem

[1] FGV/CPDOC

 

Por Daniel Neves Silva
Professor de História

Gostaria de fazer a referência deste texto em um trabalho escolar ou acadêmico? Veja:

SILVA, Daniel Neves. "Tancredo Neves"; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/biografia/tancredo-de-almeida-neves.htm. Acesso em 06 de julho de 2020.

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Na imagem estão Humberto Castello Branco (1964-67) e Ernesto Geisel (1974-79), dois presidentes militares durante o período da ditadura.*
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