O Sacro Império Romano-Germânico foi resultado da revitalização do extinto Império Romano, que havia terminado em 476 d.C., quando o líder germânico Odoacro depôs o último de seus imperadores, Rômulo Augusto. Essa revitalização, ocorrida oficialmente no ano 800, adveio da nomeação do Papa Leão III a Carlos Magno como defensor da fé católica, e portanto, imperador do então novo Império Romano.
As anexações nominais de “sacro” e “germânico” surgiriam em momentos posteriores, respectivamente durante os governos de Frederico I “Barba Ruiva”, no século XII, e Frederico III, no século XV. No entanto, a referência como um “império”, aos olhos contemporâneos, pode ser bastante traiçoeira, já que esse I Reich se diferenciava bastante dos governos centralizados que se tornariam comuns na Idade Moderna, especialmente após a Paz de Vestfália, que diminuiu ainda mais o poder do imperador diante dos estados germânicos sob sua influência.
Leia também: O que provocou a queda do Império Romano?
Tópicos deste artigo
- 1 - Resumo sobre Sacro Império Romano-Germânico
- 2 - O que foi o Sacro Império Romano-Germânico?
- 3 - Como surgiu o Sacro Império Romano-Germânico?
- 4 - Países do Sacro Império Romano-Germânico
- 5 - Bandeira do Sacro Império Romano-Germânico
- 6 - Características do Sacro Império Romano-Germânico
- 7 - Mapa do Sacro Império Romano-Germânico
- 8 - Imperadores do Sacro Império Romano-Germânico
- 9 - Fim do Sacro Império Romano-Germânico
- 10 - Exercícios resolvidos sobre Sacro Império Romano-Germânico
Resumo sobre Sacro Império Romano-Germânico
- O Sacro Império Romano-Germânico foi um império europeu fundado em 800 e extinto em 1806.
- Apesar de ter se localizado na atual Alemanha, o Sacro Império se estendeu pela Itália, França, Países Baixos e Europa Central.
- Sua formação remete à coroação de Carlos Magno em 800 pela Igreja Católica, em um ato que representou a aliança entre o papa e a Dinastia Carolíngia.
- Apesar de uma crise de sucessão após o término do poder carolíngio, o império foi novamente revitalizado por Otão I em 962.
- A bandeira do Sacro Império Romano-Germânico remete ao estandarte imperial do século XV, da águia bicéfala sobre fundo dourado.
- O Sacro Império não era centralizado, diferentemente da maioria dos demais impérios; pelo contrário, ele era formado por inúmeros estados relativamente livres.
- Em 1555, após décadas de combate à Reforma Protestante iniciada em 1517, decretou-se Paz de Augsburgo, que garantia a liberdade religiosa para os estados germânicos – ao menos teoricamente.
- O atrito entre os estados católicos, de um lado, e os estados protestantes, do outro, expandiu-se para assuntos estrangeiros, o que suscitou na Guerra dos Trinta anos entre 1618 e 1648.
- Com o término da guerra e a Paz de Vestfália em 1648, o imperador do Sacro Império Romano-Germânico se tornou ainda menos influente no poder do Estado.
- Com a expansão do Império Francês de Napoleão Bonaparte e a derrota dos austríacos na Batalha de Austerlitz, o Sacro Império foi dissolvido, em 1806.
O que foi o Sacro Império Romano-Germânico?
O Sacro Império Romano-Germânico foi um império europeu erigido no ano 800 e extinto mais de mil anos depois, em 1806, tornando-se um dos poucos a perdurar durante três períodos distintos da história tradicional ocidental: a Idade Média, a Idade Moderna e a Idade Contemporânea. Centralizado na atual Alemanha, o império se estendeu, durante a Idade Média, para o norte da Itália, parte da França oriental, os Países Baixos e diversos territórios a leste que compreendem parcialmente países da atual Europa Central.
Esse império era formado pela integração de diversos territórios submissos ao poder do imperador e surgiu no contexto da Dinastia Carolíngia, com a coroação de Carlos Magno ao final do século VIII. A dissolução do império ocorreu no início do século XIX, quando o imperador Francisco II foi derrotado pelo Império Francês de Napoleão Bonaparte.
O Sacro Império Romano-Germânico se tornou uma das maiores potências da Europa do início do século XIII, entrando em decadência após a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648). Essa guerra travada entre estados católicos e protestantes significou possivelmente o maior conflito da Idade Moderna, envolvendo quase todas as potências da Europa Ocidental.
Após o fim da guerra, o imperador foi obrigado a aceitar diversas exigências acordadas na Paz de Vestfália (1648). Entre elas, as mais impactantes foram a descentralização do poder (estados poderiam estabelecer alianças entre si ou estrangeiros), as religiões protestantes passaram a ser praticadas em território germânico e diversas nações surgiram como soberanas, tornando-se independentes do império, como a Suíça (formalmente) e os Países Baixos.
Em um contexto anterior à Guerra dos Trinta Anos, o Sacro Império Romano-Germânico, mais especificamente na Saxônia, Alemanha, serviu de palco da Reforma Protestante a partir de 1517 (algo que, indiretamente, levaria ao conflito do século XVII), suscitada pelo monge agostiniano Martinho Lutero em sua crítica à corrupção praticada pelo papa e pela Igreja Católica.
Veja também: Reforma Protestante — o que foi e quais foram as suas consequências?
Como surgiu o Sacro Império Romano-Germânico?
Apesar de historicamente o Sacro Império Romano-Germânico ter suas origens no ano 800, o seu processo de formação e consolidação ocorreu de forma lenta e sob a influência de diversos personagens históricos. Nesse contexto, grande parte da Europa era dominada pelos francos, inclusive os territórios que compõem a atual Alemanha, mas o Império Carolíngio, após Carlos Magno, se desmembrou em três territórios: Frância Ocidental (mais ou menos correspondente à atual França), Frância Oriental (futura Alemanha) e Lotaríngia (território entre as duas demais que se estendia desde o Mar do Norte até além de Roma ao sul, na Itália).
Quando, ao final do século VIII, Carlos Magno foi nomeado rei dos francos, a política de aliança com a Igreja Católica de Roma iniciada por seu pai, Pepino, o Breve, foi continuada. Este havia fortalecido o poder do papa especialmente através da Doação de Pepino, que consistia em oferecer os territórios outrora sob domínio dos ortodoxos bizantinos para a Igreja Católica, culminando na criação dos Estados Papais. Carlos Magno deu continuidade a essa política, declarando-se protetor do papado em Roma e principal defensor de uma padronização litúrgica da Igreja.
A presença ativa do rei dos francos lhe garantiu uma concessão por parte do Papa Leão III: Carlos Magno foi nomeado, em 800, imperador romano, um título que havia se extinguido desde a dissolução do Império Romano no século V.
Por sua vez, com a extinção da Dinastia Carolíngia, o império passou por uma crise de sucessão: entre os séculos IX e X, a Alemanha tornou-se cenário de diversas disputas pela hegemonia de poder, até que o líder Otão I se destacou ao impedir as incursões magiares (que se tornariam os fundadores da atual Hungria) sobre a Europa Central, e em 962, foi nomeado oficialmente o novo imperador do mais uma vez ressuscitado Império Romano. A importância de Otão I também se refletiu em sua política de intervenção nos assuntos da Igreja, que a partir do século XI, culminou na Questão (ou Querela) das Investiduras — uma disputa entre o imperador Henrique IV e o papa Gregório VII.
Por sua vez, os nomes “sacro” e “germânico” surgiram apenas em contextos posteriores à criação do “novo” Império Romano. A referência ao “Sacro Império Romano”, ainda sem ser referenciado como “romano-germânico”, remete ao contexto das Cruzadas, ocorridas entre os séculos XI e XIII. No intuito de retomar os antigos territórios romanos no Oriente Médio, na segunda metade do século XII, o imperador Frederico I Barbarossa, ou “Barba Ruiva” (também referenciado como “Barba Roxa”), se autointitulou líder da resistência contra as incursões árabes, e consigo, passou a referenciar o próprio império como o defensor sagrado da religião cristã.
Ao referenciar o próprio império como “sacro”, ele não apenas se apropriou da responsabilidade sobre a integridade do cristianismo, mas também passou a confrontar o poder hegemônico do papa apoiando os antipapas (como Vítor IV e Pascoal III), que serviam de contestadores do líder religioso legítimo em Roma, o Papa Alexandre III. O atrito se estendeu em uma guerra entre o Sacro Império e a Liga Lombarda, formada pelos Estados a favor de Alexandre III, o que resultou na derrota parcial de Frederico I, que renunciou às conquistas sobre a Igreja, mas manteve a influência administrativa sobre diversas regiões.
Finalmente, os domínios do império passaram a ser referenciados como “Sacro Império Romano-Germânico” apenas no século XV, durante o governo de Frederico III. Nesse momento, as características de uma nação germânica de império passaram a se destacar; ao mesmo tempo, a presença política dos territórios na Itália passou a se tornar mesmo relevante. Disputas internas favoreceram a mudança, já que o império sofreu diversas mudanças territoriais, e com isso, passou a ser referenciado pouco a pouco aos domínios germânicos ou que abrangesse o conjunto de povos que falavam a língua alemã. Por ser considerado o primeiro reino de identidade germânica da história, o Sacro Império Romano-Germânico é muitas vezes referenciado também como “Primeiro Reich”.
Países do Sacro Império Romano-Germânico
Quando o “novo” Império Romano sob domínio franco foi formado, ao final do século VIII, o conceito de país, ou Estado-nação, ainda não existia — esse é um termo contemporâneo, referenciado às limitações geopolíticas de um Estado. Em termos comparativos, no entanto, é possível identificar quais territórios do Sacro Império Romano-Germânico compuseram os domínios referentes aos países do século XXI.
Por se tratar de um império com mais de mil anos de existência, tomemos como exemplo o auge da expansão territorial do Sacro Império Romano-Germânico. Nesse contexto, ele era governado por Frederico II da Dinastia Hohenstaufen, durante o século XIII. Os inúmeros estados germânicos dominados pelos Hohenstaufen — entre eles, a Bavária e a Áustria — compunham:
- o Império Alemão (em um recorte geopolítico semelhante à atual Alemanha);
- o Reino da Boêmia (na região da Boêmia, Morávia e Silésia, cuja maior parte pertence hoje à República Tcheca);
- o Reino da Borgonha (ao sudeste francês, em fronteira com a Itália); e
- o Reino da Itália (na maior porção do Norte italiano).
Bandeira do Sacro Império Romano-Germânico
Oficialmente, o símbolo do Sacro Império Romano-Germânico tratava-se de um estandarte que passou por diversas mudanças até a versão mais popularmente conhecida (usada desde o século XV até a dissolução do império, em 1806): uma águia bicéfala negra com detalhes vermelhos sobre um fundo dourado (detalhe que, aliás, influenciaria na seleção das cores utilizadas na bandeira contemporânea da Alemanha).
Através de uma análise iconológica desse estandarte imperial — oficialmente chamado Reichsbanner —, a águia passou a ser representada ainda durante o reinado de Frederico I “Barba Ruiva” no século XII, que substituía o símbolo da cruz cristã utilizada primeiramente pelo império no contexto das Cruzadas. Essa versão inicial da Reichbanner trazia consigo uma águia de uma cabeça, apenas, em referência ao antigo Império Romano, e seu fundo dourado emitia o significado de riqueza e poder.
A águia bicéfala adotada no estandarte do império por Sigismundo no século XV era uma referência ao duplo poder reivindicado pelos bizantinos sobre o Império Romano: o Ocidental (com a cabeça do animal virada para a esquerda) e o Oriental (à direita). Até o desmantelamento do império, a bandeira sofreu algumas modificações, especialmente no escudo inserido em seu centro, cada qual representava o brasão sob diferentes reinados em específico.
Havia também versões de conotação heráldica (de representações visuais de hierarquia e poder, usada em cerimônias), a exemplo da águia quaternária do início do século XVI, que exibia os 56 escudos dos estados que compunham o império.
Características do Sacro Império Romano-Germânico
O Sacro Império Romano-Germânico era um Estado de características complexas e potencialmente contraditórias que o diferiam da compreensão convencional de entidade política.
Uma das definições mais importantes desse império se refere à descentralização do poder: o imperador estabelecia acordos contratuais com os estados do império sem impor uma legislação autoritária e dependia de decisões dos conselhos e reinados, ou seja, sua organização política era sobretudo consensual, ao menos em teoria. Contraditoriamente, esse consenso poderia ser incitado por meio de negociações muitas vezes desvantajosas para aqueles com menor influência, já que por lei, nenhuma medida poderia ser imposta pelo imperador do Reich.
Também, diferentemente dos Estados modernos, a sucessão do imperador do Sacro Império Romano-Germânico não era hereditária, mas eletiva (ao menos em teoria, já que na prática, a continuidade dinástica era convencional). Eram os príncipes-eleitores que o nomeavam, além disso, havia influência em maior ou menor grau dos príncipes de menor escalão, condes, religiosos, cavaleiros, cidades livres, entre outros grupos e instituições. Sobretudo, na constituição hierárquica do império, não havia submissão direta entre imperador e súditos; cada estado possuía suas próprias leis, tradições e economia.
A partir de 1495, por meio do decreto da Paz Perpétua da Terra, proibiu-se que guerras de pequenas proporções fossem conduzidas pelos estados-membros do império. Essa lei era contraditória, pois ao mesmo tempo forçava a paz dentro dos limites do Reich e concedia ao imperador o monopólio sobre questões de guerra. Além disso, nesse mesmo ano, inaugurou-se o Tribunal da Câmara Imperial, controlada pelos estamentos, enquanto o imperador assumia o papel de juiz de um tribunal pessoal relacionado a assuntos legais referentes aos estados.
Igualmente essencial para a sua definição, o Sacro Império Romano-Germânico, até o século XVI, procurava ser a principal autoridade da fé católica em oposição à influência central do papa em Roma. Conforme vimos anteriormente, essa disputa pela detenção da fé teve início no século XII e se manifestou pela criação dos antipapas, que passaram a ameaçar a autoridade única do líder da Igreja.
Apesar de algumas concessões aos príncipes protestantes do império, a opressão da hegemonia católica acabou por suscitar na Guerra dos Trinta Anos, cujos resultados atribuíram ao Sacro Império o início de sua fase de decadência, um assunto que você verá com maiores detalhes mais adiante.
Mapa do Sacro Império Romano-Germânico
Observe abaixo o mapa do domínio do Sacro Império Romano-Germânico sobre a Europa durante o século XIII. Nesse contexto, o auge territorial do império foi conquistado por Frederico II da Dinastia Hohenstauen.
Imperadores do Sacro Império Romano-Germânico
Levando-se em consideração a reivindicação do Império Romano pelo carolíngio Carlos Magno no ano 800, podemos considerar que até o desmantelamento do império, em 1806, mais de quarenta imperadores governaram o Sacro Império Romano-Germânico. Observe os nomes, períodos de governo e as dinastias referentes a eles na tabela cronológica a seguir.
Considere que as datas coincidentes vezes implicam casos em que houve mais de um imperador por governo. Note também que há hiatos temporais referentes aos períodos de crise do império.
|
Imperador |
Período |
Dinastia |
|
|
1 |
Carlos Magno |
800-814 |
Carolíngia |
|
2 |
Luís I, o Piedoso |
814-840 |
Carolíngia |
|
3 |
Lotário I |
823-855 |
Carolíngia |
|
4 |
Luís II |
850-875 |
Carolíngia |
|
5 |
Carlos II, o Calvo |
875-877 |
Carolíngia |
|
6 |
Carlos III, o Gordo |
881-888 |
Carolíngia |
|
7 |
Guido de Spoleto |
891-894 |
Guideschi |
|
8 |
Lambert de Spoleto |
892-898 |
Guideschi |
|
9 |
Arnulfo da Caríntia |
896-899 |
Carolíngia |
|
10 |
Luís III, o Cego |
901-905 |
Bosônida |
|
11 |
Berengário I de Friul |
915-924 |
Unruóquida |
|
12 |
Otão I, o Grande |
962-973 |
Otoniana |
|
13 |
Otão II |
967-983 |
Otoniana |
|
14 |
Otão III |
996-1002 |
Otoniana |
|
15 |
Henrique II |
1014-1024 |
Otoniana |
|
16 |
Conrado II |
1027-1039 |
Sálica |
|
17 |
Henrique III |
1046-1056 |
Sálica |
|
18 |
Henrique IV |
1084-1105 |
Sálica |
|
19 |
Henrique V |
1111-1125 |
Sálica |
|
20 |
Lotário III |
1133-1137 |
Suplimburgo |
|
21 |
Frederico I “Barba Ruiva” |
1155-1190 |
Hohenstaufen |
|
22 |
Henrique VI |
1191-1197 |
Hohenstaufen |
|
23 |
Otão IV |
1209-1215 |
Guelfo |
|
24 |
Frederico II |
1220-1250 |
Hohenstaufen |
|
25 |
Henrique VII |
1312-1313 |
Luxemburgo |
|
26 |
Luís IV, o Bávaro |
1328-1347 |
Wittelsbach |
|
27 |
Carlos IV |
1355-1378 |
Luxemburgo |
|
28 |
Sigismundo |
1433-1437 |
Luxemburgo |
|
29 |
Frederico III |
1452-1493 |
Habsburgo |
|
30 |
Maximiliano I |
1508-1519 |
Habsburgo |
|
31 |
Carlos V |
1530-1556 |
Habsburgo |
|
32 |
Fernando I |
1558-1564 |
Habsburgo |
|
33 |
Maximiliano II |
1564-1576 |
Habsburgo |
|
34 |
Rodolfo II |
1576-1612 |
Habsburgo |
|
35 |
Matias |
1612-1619 |
Habsburgo |
|
36 |
Fernando II |
1619-1637 |
Habsburgo |
|
37 |
Fernando III |
1637-1657 |
Habsburgo |
|
38 |
Leopoldo I |
1658-1705 |
Habsburgo |
|
39 |
José I |
1705-1711 |
Habsburgo |
|
40 |
Carlos VI |
1711-1740 |
Habsburgo |
|
41 |
Carlos VII |
1742-1745 |
Wittelsbach |
|
42 |
Francisco I |
1745-1765 |
Habsburgo-Lorena |
|
43 |
José II |
1765-1790 |
Habsburgo-Lorena |
|
44 |
Leopoldo II |
1790-1792 |
Habsburgo-Lorena |
|
45 |
Francisco II |
1792-1806 |
Habsburgo-Lorena |
Fim do Sacro Império Romano-Germânico
Com o advento da Reforma Protestante em 1517 e a consequente Paz de Augsburgo de 1555, o Sacro Império Romano-Germânico definiu legalmente que cada príncipe poderia exercer e aplicar a religião desejada em seu próprio território sem que houvesse interferências do Estado (princípio do cuius regio, eius regio, “de quem é a religião, dele é a religião” em latim). Em vez de significar a paz, o acordo gerou efeito contrário: tantos os estados católicos (sob influência da liderança da Dinastia Habsburgo) quanto os protestantes passaram a se aliar entre si conforme a ideologia religiosa, mas por motivos de manter seus privilégios políticos.
Após décadas de novos atritos religiosos dentro da extensão do império, em 1629, o imperador Fernando II revogou a Paz de Augsburgo e exigiu a devolução de terras conquistadas pelos protestantes, o que causou a interferência estrangeira de Estados como a Suécia (protestante) e a França (que embora fosse católica, era representada pela Dinastia Bourbon, que rivalizava com os Habsburgo). O atrito transformou-se em um conflito de imensas proporções, suscitando na Guerra dos Trinta Anos em 1618, que se encerrou em 1648 com a assinatura da Paz de Vestfália.
Derrotado, o imperador foi obrigado a conceder liberdade quase total aos estados sob influência do Sacro Império Romano-Germânico. Ele passou a se envolver em questões cada vez mais exclusivas de natureza jurídica e constitucional. Assim, o império manteve-se em uma relativa estabilidade por mais de um século e meio; em contrapartida, testemunhou a ascensão de novos Estados poderosos, como a Prússia, que rivalizava com a Áustria, governada pela Dinastia Habsburgo como centro do Sacro Império.
Porém, a maior ameaça provinha da França. Com a expansão do Império Francês comandado por Napoleão Bonaparte a leste da Europa, os estados germânicos conquistados passaram por uma intensa reforma territorial: os estados seculares foram dissolvidos, as cidades livres foram absorvidas, e como resultado, em 1806, sob governo de Francisco II, o Sacro Império Romano-Germânico chegou ao fim, especialmente devido ao resultado da Batalha de Austerlitz (1805), que garantiu uma importante vitória para os franceses.
Apesar de Fernando II ter se autoproclamado líder do Império Austríaco em 1804, frente à ameaça francesa, a ação de Napoleão ao criar a Confederação do Reno — formado por dezesseis estados germânicos aliados, controlados anteriormente pelo recém-extinto império — forçou, ao mesmo tempo, que o imperador da Casa Habsburgo abdicasse, e consigo, testemunhasse a dissolução do milenar Primeiro Reich.
Saiba mais: Quantos e quais foram os grandes imperadores romanos?
Exercícios resolvidos sobre Sacro Império Romano-Germânico
Questão 1. (Fuvest) A respeito da Guerra dos 30 anos (1618-1648) na Europa, é correto afirmar que:
a) A guerra ficou dividida entre católicos de um lado e protestantes do outro.
b) As disputas se iniciaram por divergências religiosas e chegaram a exprimir uma disputa pela liderança no continente.
c) A guerra terminou com a assinatura da Paz de Versalhes.
d) O controle comercial das rotas que ligavam o mediterrâneo ao mar do norte estava no centro da disputa.
e) Ela foi uma prolongação da primeira tentativa de a monarquia inglesa invadir e dominar os territórios franceses.
Resposta: B
Apesar de a alternativa A parecer correta, é necessário considerar que a França, um Estado católico, não apoiou o Sacro Império Romano-Germânico, que compartilhava da mesma religião. Portanto, associar a Guerra dos Trinta Anos a um conflito travado estritamente entre católicos e protestantes é incorreta. Dessa forma, a alternativa B é a correta, pois identifica o aumento das proporções do conflito, que se iniciou por um pretexto religioso, mas se tornou a principal questão de controle das potências europeias sobre o continente.
Questão 2. No século X, o imperador Oto I, do Sacro Império Romano-Germânico, passou a intervir nos assuntos da Igreja. Ele fundou bispados e abadias e, em consequência, criou discordâncias com o clero. Esse episódio ficou conhecido como:
a) Concordata de Worms.
b) Cisma do Oriente.
c) Tratado de Verdun.
d) Questão das Investiduras.
e) Guerra Santa.
Resposta: D
A Questão das Investiduras foi o primeiro conflito de grandes proporções travado entre o Sacro Império Romano-Germânico e a Igreja Católica. Apesar de a disputa se tornar inevitável apenas no século XI, durante o governo de Henrique IV, foi Otão I quem incitou as primeiras intervenções do império sobre a fé, através da nomeação de abades, bispos e a influência direta nas eleições eclesiásticas.
Créditos das imagens
Wikimedia Commons (reprodução)
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Fontes
ECO, Umberto (Org.). Idade Média: Bárbaros, cristãos e muçulmanos. Porto Alegre: Dom Quixote, v.1, 2011.
ECO, Umberto (Org.). Idade Média: Catedrais, cavaleiros e cidades. Porto Alegre: Dom Quixote, v.2, 2013.
HOBSBAWM, Eric. A Era das Revoluções. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1996.
LÓPEZ, Roberto. Poder e religião na Europa medieval: Papado, Império e grandes reinos dinásticos. Barcelona: Bonalletra Alcompas, 2018.
MAINKA, Peter J. O Sacro Império Romano-Germânico por volta de 1500 – um irregulare aliquod corpus et monstro símile? In: Diálogos. Maringá: Universidade Estadual de Maringá, v.23, n.2, p.162-184, 2019.
STOLLBERG-RILINGER, Barbara. El Sacro Imperio Romano-Germánico: Una historia concisa. Madri: La Esfera de Los Libros, 2020.
