Carlos Magno foi um dos mais importantes monarcas da história europeia, tendo sido imperador do grande Império Carolíngio. Ele é lembrado como conquistador militar, reformador político, patrono das letras e das artes, bem como monarca cristão. Teve um longo governo, que durou de 768 d.C. até sua morte, em 814 d.C. Durante esse período, ele criou instituições políticas, expandiu territórios, estreitou laços com a Igreja Católica e criou bases administrativas e culturais que influenciaram profundamente as monarquias modernas da Europa Ocidental.
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Tópicos deste artigo
- 1 - Resumo sobre Carlos Magno
- 2 - Quem foi Carlos Magno?
- 3 - Reinado de Carlos Magno
- 4 - O que Carlos Magno fez de importante?
- 5 - Relação de Carlos Magno e a Igreja Católica
- 6 - Descendência de Carlos Magno
- 7 - Morte de Carlos Magno
- 8 - Exercícios resolvidos sobre Carlos Magno
Resumo sobre Carlos Magno
- Carlos Magno foi o principal monarca do Império Carolíngio e uma das figuras centrais da história europeia.
- Seu longo governo, entre 768 e 814, marcou profundamente o Ocidente medieval, combinando expansão territorial, reorganização política, alianças religiosas e estímulo à cultura.
- Seu nascimento ocorreu entre 742 e 748, em Herstal, na atual Bélgica. Ele era filho primogênito de Pepino III, o Breve, primeiro rei franco coroado com aprovação papal.
- Após a morte de Pepino III, o Breve, em 768, o Reino Franco foi dividido entre Carlos e seu irmão Carlomano, mas a morte precoce de Carlomano, em 771, permitiu a unificação do reino sob o domínio de Carlos, abrindo caminho para a expansão que daria origem ao Império Carolíngio.
- Entre suas esposas, destacou-se Hildegarda, que exerceu influência significativa na Corte e com quem teve filhos fundamentais para a continuidade do império, como Carlos, o Jovem, Pepino da Itália e Luís, o Piedoso, seu sucessor.
- Outros casamentos e uniões também produziram descendentes que desempenharam importantes funções militares, administrativas e religiosas, reforçando a dimensão dinástica do poder carolíngio.
- O reinado de Carlos Magno foi marcado por intensa atividade militar e por ampla reorganização administrativa. Ele conduziu campanhas contra diversos povos, como saxões, lombardos e ávaros, expandindo significativamente o território sob seu domínio.
- Paralelamente, ele promoveu uma administração mais integrada por meio dos condes, representantes locais do rei, dos missi dominici, enviados itinerantes responsáveis pela fiscalização, e das assembleias gerais, que reuniam elites políticas e religiosas para negociação, deliberação e reforço cerimonial da autoridade imperial.
- A relação entre Carlos Magno e a Igreja Católica foi um dos pilares de seu poder. Ele concebia a realeza como uma missão cristã e atuou como protetor da Igreja, promovendo reformas religiosas, padronização litúrgica, revisão de textos e supervisão do clero.
- Essa aliança estratégica fortaleceu tanto o papado quanto o império e culminou no ato simbólico da coroação de Carlos como “imperador dos romanos” pelo papa Leão III, no Natal do ano 800.
- Carlos Magno morreu em 28 de janeiro de 814, em Aachen, de causas naturais. Foi sepultado na Capela Palatina e sua sucessão ocorreu de forma relativamente tranquila, com a ascensão de seu filho Luís, o Piedoso.
- Sua morte marcou o fim de um dos reinados mais influentes da história medieval, mas o impacto de suas ações continuou a moldar a política, a cultura e a memória do Ocidente europeu por muito tempo.
Quem foi Carlos Magno?
Carlos Magno foi o maior monarca do Império Carolíngio (que recebe esse nome por conta dele), além de uma das figuras centrais da história europeia. Retratado como guerreiro conquistador, como reformador político, como patrono das letras e das artes e como monarca cristão, há diversas versões sobre esse homem que atende a demandas de diferentes épocas e olhares. Esse impacto múltiplo decorre do fato de que, ao longo de seu longo governo (de 768 d.C. até sua morte, em 814 d.C.), ele reorganizou instituições, expandiu territórios, estreitou laços com a Igreja Católica e criou bases administrativas e culturais que influenciaram o Ocidente.
→ Nascimento e juventude de Carlos Magno
A historiografia especializada reconhece que não há consenso definitivo quanto à data exata do nascimento de Carlos Magno. No entanto, os anos mais prováveis se situam entre 742 d.C. e 748 d.C. A mesma cautela vale para o local de seu nascimento, tradicionalmente atribuído a Herstal, hoje na Bélgica, mas também sem comprovação documental suficiente para ser tratado como certo.
Carlos Magno vinha de uma linhagem de reis francos e era o filho primogênito do rei Pepino III, mais conhecido como Pepino, o Breve, que foi o primeiro rei franco-carolíngio a ser coroado com aprovação do papa católico. Os francos costumam ser compreendidos como ancestrais da atual França. No entanto, dadas as grandes extensão e importância que esse império ganhou a partir de Carlos Magno, o império guarda hoje ancestralidade histórica tanto com a atual França quanto com as atuais Alemanha, Bélgica, Suíça, Holanda, entre outros muitos países europeus.
A infância e a juventude de Carlos se deram em um ambiente de consolidação e de crescimento do reino de sua família, em um ambiente aristocrático fortemente marcado por alianças dinásticas, por mobilizações militares e por articulações entre o poder político régio e a autoridade religiosa dos bispos e da Igreja como um todo, elementos que foram centrais na ascensão do poder da dinastia carolíngia. Sua educação foi focada no treinamento militar, na instrução em costumes da Corte e na participação precoce na vida política no âmbito de sua família. Essa formação mais prática do que formal moldou profundamente a maneira como ele governaria posteriormente.
Um marco na juventude de Carlos Magno foi a divisão do Reino Franco após a morte de seu pai, Pepino III, o Breve, em 768 d.C., que deixou seu governo partilhado entre seus dois filhos: o próprio Carlos Magno, que herdou a Nêustria, Austrásia e parte da da Aquitânia; e Carlomano, que ficou com a Alemânia (não confundir com Alemanha), Borgonha, Provença e o restante Aquitânia. No entanto, com a morte precoce de Carlomano em 771, Carlos Magno unificou todo o reino sob seu domínio, iniciando uma grande expansão territorial e transformando o antigo Reino Franco no chamado Império Carolíngio.
→ Casamento e filhos de Carlos Magno
Carlos Magno teve várias uniões ao longo da vida, algumas formalizadas como casamento e outras reconhecidas como concubinato. Essa multiplicidade de vínculos deve ser compreendida dentro do contexto político da realeza franca daquele período, em que alianças matrimoniais desempenhavam papel estratégico e em que a distinção moderna entre casamento e união informal nem sempre se aplicava.
Seu primeiro casamento historicamente atestado foi com Himiltrude, embora as fontes indiquem que não tenha sido um matrimônio formal. Dessa união, nasceu Pepino, o Corcunda, cuja sucessão posteriormente foi contestada.
O casamento seguinte, o primeiro considerado plenamente legítimo nas fontes, foi com Desidéria, filha do rei Desidério dos lombardos. Essa união teve forte motivação política, selando a paz temporária entre francos e lombardos. Entretanto, esse matrimônio foi rapidamente dissolvido, em um gesto que fragilizou as relações diplomáticas entre os dois reinos e culminou na conquista do Reino da Lombardia por Carlos Magno.
A esposa mais duradoura e influente de Carlos Magno foi Hildegarda, cujo papel político de influência na condução do reino pelo marido é amplamente reconhecido pelas fontes. Ela acompanhou Carlos em diversas campanhas militares e gozou de um prestígio singular na Corte carolíngia. Com ela, Carlos teve nove filhos legítimos, tendo seis deles sobrevivido à infância, incluindo os importantes Carlos, o Jovem, Pepino da Itália e Luís, o Piedoso. Esse último, Luís, foi posteriormente designado como sucessor do império.
Após a morte de Hildegarda, em 783, Carlos se casou com Fastrada, também por razões políticas, dessa vez com viés de consolidação das alianças internas de seu vasto reino. O casamento durou dez anos (até a morte dela em 794) e com ela Carlos teve duas filhas: Teodrada (nascida em 784) e Hiltrude (nascida em 787).
O quinto e último casamento de Carlos se deu em 794 com Luitgarda. Com essa esposa, ele não teve filhos, e ela morreu em 799, após 5 anos de matrimônio. Após sua morte, Carlos Magno não se casou novamente.
Além das esposas, Carlos manteve outras mulheres na Corte, com as quais teve filhos reconhecidos por ele. A presença de uma família extensa não era incomum no contexto aristocrático franco desse período, e vários de seus descendentes frutos dessas uniões desempenharam papéis de lideranças militares, administrativas e religiosas.
Reinado de Carlos Magno
O reinado de Carlos Magno se estendeu de 768 até 814, constituindo um dos governos mais longos e influentes da Idade Média europeia. Após a morte de seu pai, o rei Pepino III, o Breve, em 768, o Reino Franco foi inicialmente dividido entre Carlos e seu irmão Carlomano. No entanto, essa divisão logo se encerrou quando, apenas três anos depois, em 771, seu irmão morreu de causas naturais, colocando nas mãos de Carlos um vasto reino que só cresceria a partir de então.
O reinado de Carlos Magno foi marcado por intensa atividade militar, voltada tanto à defesa de seu grande território quanto à ampliação contínua das fronteiras do império. Ele promoveu longas campanhas militares contra reinos poderosos como os reinos dos saxões, dos lombardos, dos ávaros e dezenas de outros povos, não somente com o objetivo de expansão territorial, mas também como forma de afirmação da autoridade cristã e da ordem política imposta pelos carolíngios.
Nesse âmbito militar, um marco foi a conquista do prestigiado Reino Lombardo, sendo que, a partir de então, Carlos pôde assumir o título de rei dos lombardos. A Lombardia ficava na Península Itália e era vinculado simbolicamente aos ancestrais romanos, o que dava enorme prestígio aos governantes dessas terras. Ao final de várias décadas de conquistas sucessivas, Carlos Magno foi capaz de unificar sob seu poder grande parte da Europa Ocidental. No ano de sua morte, em 814, o Império Carolíngio abrangia os territórios que hoje correspondem à França, à Alemanha, aos Países Baixos, à Suíça, à Áustria e a partes da Itália, da Espanha, da Hungria e da Eslovênia.
Outra marca de seu governo foi a profunda reorganização administrativa que promoveu. Ele estruturou mecanismos de fiscalização e de autoridade territorial por meio da figura dos condes e dos missi dominici e da intensificação das reuniões assembleares. Os condes (comites) eram representantes diretos do rei nas regiões (condados) administradas pelo reino. Eles detinham uma autoridade delegada pelo rei e não possuíam autonomia, motivo pelo qual seu poder não era absoluto, mas submetido ao imperador. Para supervisionar os condes e outros agentes reais nas regiões, havia a figura dos missi dominici (“enviados do senhor”), que eram inspetores itinerantes, geralmente enviados em pares (geralmente um leigo e um eclesiástico) a todas as regiões do império.
Além disso, havia as reuniões assembleares, em que o imperador reunia nobres, condes, bispos, abades e outros membros da elite, que eram um espaço de negociação política, de coesão política do império para com suas elites regionais e que também cumpriam um papel cerimonial de reforçar a autoridade do imperador juntos às elites do país.
Outro aspecto central de seu reinado foi a reforma jurídica que empreendeu, padronizando práticas jurídicas e administrativas, promovendo a escrita, revisando textos legais e promovendo uma formação mais qualificada do clero e da elite dirigente. É bom ressaltar que grande parte do que chamamos de “jurídico” e de “administrativo” nesse contexto estava nas mãos do clero, geralmente monges católicos, que era quem tinha letramento, conhecimento e mesmo autoridade moral (em uma época profundamente religiosa) para tomar determinadas decisões. É bom ressaltar que a imensa maioria da população de então era analfabeta, incluindo grande parte da nobreza, inclusive o próprio imperador.
A relação com o papado católico desempenhou um papel estratégico na ampliação, no desenvolvimento e na consolidação do Império Carolíngio. O apoio de Carlos Magno à Igreja Católica não apenas fortalecia a igreja, mas fortalecia muito mais seu governo, que ganhava legitimidade para expandir e para manter sua dominação e sua expansão religiosamente legitimada que criou outra configuração de poder cristão no Ocidente.
Essa articulação de interesses convergentes entre a igreja e o império culminou no ato simbólico da coroação imperial de Carlos pelo papa Leão III, no Natal (25 de dezembro) do ano 800, fato que conferiu a ele o título de “imperador dos romanos”, recriando simbolicamente o Império Romano do Ocidente e configurando simbolicamente a autoridade política na Europa, colocando-o, em termos de legitimidade e de prestígio, acima dos demais reinos e principados da cristandade europeia, com a chancela papal.
O reinado de Carlos Magno combinou, portanto, forte expansão militar com reorganização e racionalização administrativa e jurídica, esforços culturais e uma poderosa aliança religiosa com a Igreja Católica, elementos que modelaram a história do Ocidente cristão e que dão a dimensão da importância desse império.
O que Carlos Magno fez de importante?
Os feitos mais significativos de Carlos Magno podem ser definidos a partir de quatro eixos principais: expansão territorial, reorganização administrativa, reformas cultural e religiosa e construção de uma nova forma de autoridade política.
No âmbito da expansão territorial, Carlos conduziu inúmeras e muito bem-sucedidas campanhas militares contra saxões, lombardos, ávaros e outros povos, levando a uma ampla expansão do reino franco-carolíngio e consolidando um território que se estendia da Península Ibérica (no oeste da Europa) até o Danúbio (sudeste da Europa). Dentre essas conquistas, a do Reino Lombardo em 774 teve impacto decisivo: ao assumir o título de rei dos lombardos, ele estendeu sua autoridade sobre a Itália Setentrional e reforçou sua legitimidade política no contexto europeu.
Quanto à reorganização administrativa, seu governo foi marcado por uma profunda reestruturação das estruturas do governo que vinham tradicionalmente do Reino Franco. Carlos Magno estruturou mecanismos de supervisão territorial para assegurar a coesão administrativa em um espaço político vasto e heterogêneo. Os pontos principais desse sistema passam pela consolidação do papel dos condes, que eram representantes do rei nos territórios, governando em seu nome, bem como o envio dos missi dominici, representantes do rei que fiscalizavam a atuação dos condes e de outras lideranças políticas e militares nas regiões e reportavam ao imperador. Essas práticas contribuíram para uma forma de governança mais integrada, ainda que distante do conceito moderno de Estado.
Nos campos cultural e religioso, Carlos desempenhou um papel central naquilo que costuma ser chamado de Renascimento Carolíngio. Não se tratou propriamente de um renascimento cultural clássico como o que ocorreu ao fim da Idade Média, mas de um esforço do governo de padronização e de melhoria institucional por meio de iniciativas como a construção e o apoio a escolas associadas a igrejas e a mosteiros, o incentivo à produção e à correção de manuscritos e o apoio à formação intelectual da elite. Todas essas ações tiveram impacto amplo e duradouro e estiveram diretamente ligadas à renovação da Igreja Católica e à intenção de fortalecer a disciplina religiosa.
A aproximação entre o Império Carolíngio e a Igreja Católica e como isso alterou a legitimidade e a autoridade das monarquias que viriam no Ocidente europeu são outra base institucional europeia fortemente vinculada a esse período. A coroação de Carlos Magno, no Natal do ano 800, pelo papa Leão III, é outro feito de grande relevância. Ao ser proclamado “imperador dos romanos”, ele assumiu um título que reconectava simbolicamente seu governo à tradição imperial romana, reforçando sua autoridade e criando um modelo de legitimidade cristã para o poder político que só seria contestado e reformado a partir dos ideais das luzes, do iluminismo do século XVIII.
Por fim, Carlos Magno deixou também um legado dinástico que marcou as famílias reais europeias por muitos séculos. Ao estruturar alianças familiares, regular a sucessão e integrar seus filhos nas funções de governo, ele consolidou uma base para a continuidade de linhagens ligadas à sua descendência, mesmo após a fragmentação do Império Carolíngio após sua morte.
→ Relação de Carlos Magno com a cultura e com a educação
Um aspecto interessante da vida de Carlos Magno diz respeito à sua relação com a cultura e com a educação. Ele nunca foi um erudito, pelo contrário, teve uma educação formal bastante rudimentar, o que era comum aos aristocratas desse período, mais preocupados com as formações militar e prática. Ainda assim, ele demonstrou, durante seu governo, grande interesse pelo cultivo do conhecimento letrado no âmbito do seu império. Ele incentivou a difusão da cultura escrita, promoveu a circulação de manuscritos e da liturgia musical e conviveu com figuras centrais das produções cultural e artística de sua época, como Alcuíno de York, fomentando um período de grande efervescência cultural apoiada pelo império conhecido como “Renascimento Carolíngio”.
O Renascimento Carolíngio foi um período crucial que preservou a herança cultural e intelectual da Antiguidade Clássica na Europa, servindo como um elo vital entre o mundo antigo e a Idade Média. Carlos Magno promoveu a criação de escolas (monásticas, catedrais e palatinas) e incentivou o estudo para formar funcionários letrados para a administração de seu império, bem como sacerdotes cristãos mais instruídos. Ele atuou ativamente financiando a recuperação e a preservação de textos antigos mantendo monges copistas, que desempenharam um papel fundamental na transcrição e na preservação de inúmeros manuscritos clássicos que, de outra forma, poderiam ter sido perdidos.
Esse período foi caracterizado por um florescimento não só das letras, como também das artes, especialmente da arquitetura, que combinou influências romanas clássicas com elementos germânicos, com destaque para a Capela Palatina de Aachen.
Relação de Carlos Magno e a Igreja Católica
A relação entre Carlos Magno e a Igreja Católica foi um dos pilares de seu governo e desempenhou papel decisivo na construção de sua autoridade política. O Império Carolíngio não pode ser compreendido sem reconhecer a profunda interdependência entre o poder do governo do imperador e o poder eclesiástico. Carlos concebia a realeza como uma missão cristã, cujo objetivo era garantir a ordem, a disciplina religiosa e a proteção da fé, concepção que formatou a legitimidade das monarquias europeias até a Idade Média.
Desde sua coroação como único rei franco em 771, Carlos buscou marcar sua posição e sua imagem como protetor da igreja e da cristandade. Após a conquista do prestigiado reino lombardo em 774, agregando para si título de rei dos lombardos, ele consolidou seu papel como protetor do papado e fortaleceu laços com Roma. Essa aliança foi oportuna para os dois lados, tanto para o papado, que sofria ameaças dentro e fora da cristandade, como para Carlos Magno, que encontrou uma legitimação para as pretensões de expansão e de reforço do poder imperial que buscava.
Carlos Magno atuou ativamente também em reformas religiosas no âmbito da organização da Igreja Católica, em que o governante franco buscou reorganizar a vida eclesiástica, promovendo a padronização litúrgica (como a missa, o batismo e as cerimônias religiosas, que antes não tinham padrão definido), a revisão dos textos do cânone (o que hoje é considerado a Bíblia Católica e que antes não gozava de consenso pleno em termos de textos, de versões e de organização), bem como a moralização do clero, que passou a ser supervisionado com rigor por parte da estrutura da Igreja e do próprio império.
No âmbito cultural e educacional, Carlos estimulou e deu suporte para uma formação intelectual mais robusta do clero, inclusive incentivando a formação e a melhoria de centros de estudos vinculados a igrejas e a mosteiros. Essas ações derivam de uma visão prática que tinha da educação como instrumento político.
A coroação de Carlos Magno, até então rei dos francos, como “imperador dos romanos”, pelo papa Leão III na noite de Natal do ano 800 redefiniu a posição política desse personagem político dentro da Europa cristã. Esse ato criou o que hoje conhecemos por Império Carolíngio, que estaria acima, em termos de prestígio e de legitimidade, das demais monarquias da Europa.
Portanto, a relação de Carlos Magno com a Igreja Católica não foi meramente diplomática, mas constitutiva das bases de seu governo e de ascensão política, sendo que legitimou suas conquistas, estruturou políticas tanto para o império como para a igreja e culminou na criação de um modelo de governo monárquico cristão que moldou as monarquias europeias até a Idade Moderna.
Veja também: Igreja Católica — uma das instituições mais antigas e influentes da história
Descendência de Carlos Magno
Carlos Magno reconheceu diversos filhos, nascidos tanto de casamentos formais como de uniões não regularizadas. Muitos deles tiveram importantes funções políticas, militares, religiosas ou na estrutura administrativa e aristocrática dos reinos europeus dos séculos seguintes.
Entre seus filhos, um dos que mais se destacou foi Luís, o Piedoso, filho de Carlos e de Hildegarda e que viria a suceder o pai no trono do império após a morte do pai em 814. A partir dele, surgiu uma linhagem direta dos carolíngios imperiais, embora essa linhagem tenha se fragmentado posteriormente com divisões territoriais e conflitos de sucessão nos séculos posteriores.
Outros dos que se destacou foi seu filho Carlos, o Jovem, e outro chamado Pepino da Itália, ambos também filhos de Hildegarda: eles foram posicionados como governantes regionais em nome do império, política que tinha como objetivo manter a unidade do império ao distribuir responsabilidades territoriais entre os membros da família imperial.
Carlos, o Jovem, recebeu atribuições no poder central do Reino Franco (agora um dos reinos do grandioso “Império Carolíngio”), enquanto Pepino da Itália se tornou rei da Itália após a conquista da Lombardia. O filho de Pepino, Bernardo, assumiu como rei da Itália após a morte do pai e deu origem a essa ramificação dinástica carolíngia italiana.
Na Europa medieval, havia um costume amplamente difundido entre as famílias aristocráticas e reais que era o de sistematicamente casarem os filhos entre si como forma de firmar alianças e reforçar poderes. Essa prática criou uma teia de conexões familiares que espalhou as linhagens carolíngias por todo o continente, sendo que praticamente todas as grandes famílias reais europeias do período moderno afirmavam ter alguma descendência de origem carolíngia.
Estudos genealógicos e compilações de genealogias europeias indicam que praticamente todas as casas reais europeias do período moderno descendem, de alguma forma e em algum grau, de Carlos Magno. Fato inclusive que faziam questão de reconhecer e de ostentar como forma de status e de legitimação. Entre essas dinastias, podemos citar a Dinastia Capetíngia, dos reis da França, fundada no século X a partir de Hugo Capeto, que era pentaneto de Carlos.
Os capetíngios deram origem a muitas outras casas reais europeias, como a Casa de Bourbon (importante na França, na Espanha, em Luxemburgo e na Itália), a Casa de Orleans (família real de Portugal e do Brasil Império), a Casa de Borgonha, primeira dinastia portuguesa, entre outras. Além dessas tradicionais, as dinastias ainda no poder reclamam explicitamente a ancestralidade de Carlos Magno e sua família, tais como a Dinastia Windsor (Reino Unido) e as famílias reais atuais dos Países Baixos, da Bélgica, da Dinamarca, da Suécia, da Noruega, entre outras.
Morte de Carlos Magno
Carlos Magno morreu em 28 de janeiro de 814, com cerca de 70 anos de idade, por causas naturais, em Aachen, hoje na Alemanha, cidade que funcionava como um dos principais centros políticos e simbólicos de seu reinado. Sua morte aconteceu após um longo período de saúde fragilizada, embora as fontes não deixem claro os detalhes precisos e a natureza de sua enfermidade. O local do falecimento, contudo, foi cuidadosamente registrado.
O corpo de Carlos foi sepultado no mesmo dia e dentro da igreja, de acordo com o costume das práticas funerárias francas. A igreja onde foi enterrado, e que ele mesmo havia construído, foi a Capela Palatina de Aachen, hoje célebre pela sua arquitetura e pela sua história, atraindo muitos turistas e pesquisadores. A escolha do local reforçou a vinculação entre o poder de Carlos Magno e a sacralidade associada ao seu governo.
A sucessão ocorreu de forma relativamente tranquila, pois Carlos Magno havia designado previamente Luís, o Piedoso, como seu principal herdeiro. Essa escolha clara buscava assegurar continuidade institucional e evitar fragmentações excessivas. Luís foi coroado poucos dias depois, dando início a um período da história do Império Carolíngio marcado por desafios para manter a coesão do império que se intensificaram nas décadas seguintes, antecipando a fragmentação do império em diversos reinos, que é o que aconteceu nos séculos posteriores.
Exercícios resolvidos sobre Carlos Magno
Questão 1
Ao longo do reinado de Carlos Magno (768–814), a administração do Império Carolíngio dependeu de mecanismos que articulavam autoridade central e poderes locais, como os condes, os missi dominici e as reuniões assembleares. Considerando esse arranjo, a função principal desses instrumentos era:
A) substituir a nobreza regional por burocratas profissionais recrutados entre camponeses alfabetizados.
B) garantir a autonomia política dos condados, impedindo interferência do rei nas decisões locais.
C) fiscalizar e coordenar a execução das ordens régias em um território amplo, mantendo coesão e lealdade.
D) eliminar o papel do clero na gestão do império, separando igreja e governo para evitar conflitos.
E) criar um parlamento representativo com participação popular, base da democracia medieval.
Resolução:
Alternativa C.
No governo carolíngio, os condes atuavam como agentes locais do rei, os missi dominici funcionavam como enviados itinerantes de inspeção e de correção, e as assembleias eram espaços de decisão, de anúncio de medidas e de negociação com as elites. Em conjunto, esses mecanismos buscavam integrar e fiscalizar um império extenso, sem a burocracia moderna, preservando a autoridade do rei e a coesão política.
Questão 2
A coroação de Carlos Magno como imperador, em 25 de dezembro de 800, teve efeitos que ultrapassaram a política imediata e marcaram a memória histórica europeia. À luz da relação entre Carlos Magno e a Igreja, o sentido histórico mais adequado desse evento é:
A) a submissão definitiva do papado à autoridade bizantina, tornando Roma dependente de Constantinopla.
B) a criação de uma nova legitimidade política no Ocidente cristão, baseada na parceria entre poder régio e autoridade religiosa.
C) a recusa de Carlos Magno em apoiar reformas religiosas, separando governo e fé como esferas incompatíveis.
D) a substituição do cristianismo latino pelo cristianismo islâmico, como resultado de alianças militares no Mediterrâneo.
E) a extinção dos títulos régios, já que o título imperial aboliu reis e nobres locais imediatamente.
Resolução:
Alternativa B.
A coroação imperial consolidou uma forma de autoridade cristã no Ocidente em que a legitimidade política se articulava com a sacralidade e com o apoio eclesiástico. Ela reforçou a posição de Carlos Magno como governante cristão e ampliou o alcance simbólico do seu poder, ajudando a explicar por que sua figura seria reinterpretada por séculos (o “imperador”, o “defensor da fé”, o “pai da Europa”, etc.).
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Fontes
BARBERO, Alessandro. Charlemagne: Father of a Continent. Berkeley & Los Angeles: University of California Press, 2004.
De Jong, Mayke. Charlemagne’s Church. In Charlemagne: Empire and Society, editado por Joanna Story, Manchester University Press, 2005, pp. 103–135.
NELSON, Janet L. King and Emperor: A New Life of Charlemagne. Berkeley & Los Angeles: University of California Press / Allen Lane, 2019.