Pepino, o Breve, ou Pepino III, foi o primeiro rei da dinastia carolíngia (751 d.C.), que governou o reino franco após a unificação dos territórios realizada por seu pai, Carlos Martel. A destreza diplomática e estratégica de Pepino permitiu que a Igreja Católica concedesse a ele o trono ocupado pelo último merovíngio do reino, Childerico III, de maneira legítima. A consolidação da nova dinastia significou uma profunda aliança entre a instituição católica e o monarca, acarretando o fortalecimento da Igreja na Europa; indiretamente, essa relação reciprocamente benéfica influenciaria outros eventos impactantes para o continente europeu, que ecoariam por mais de mil anos de história. As conquistas territoriais e diplomáticas de Pepino permitiriam que seu filho, Carlos Magno, conduzisse o reino dos francos na qualidade de um poderoso império.
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Tópicos deste artigo
- 1 - Resumo Pepino, o Breve
- 2 - Quem foi Pepino, o Breve?
- 3 - Reinado de Pepino, o Breve
- 4 - Pepino, o Breve e a Igreja Católica
- 5 - Pepino, o Breve era anão?
- 6 - Legado de Pepino, o Breve
Resumo Pepino, o Breve
- Pepino, o Breve, ou Pepino III, foi o primeiro monarca da dinastia carolíngia, que sucedeu os merovíngios no reino franco durante o século VIII.
- A esposa de Pepino era Berta de Laon, uma nobre cujo casamento garantiu importantes alianças políticas. Com ela, teve cerca de oito filhos, dos quais o principal sucessor foi Carlos Magno.
- O apelido de Pepino, o Breve, é uma referência à sua baixa estatura, apesar de ter surgido tempos depois, por volta do ano 884.
- Antes de se tornar um monarca, Pepino herdou o título de Major Domus, ou “Prefeito do Palácio”, que detinha o maior poder do reino, inclusive sobre o rei.
- Por meio de uma concessão do papa, Pepino depôs o rei merovíngio Childerico III e se aliou à Igreja Católica.
- Pepino foi o primeiro rei franco a ser ungido pela Igreja Católica. A relação benéfica entre ambos permitiu a expansão do poder da Igreja pela Europa.
- O fortalecimento da instituição católica no Ocidente influenciou diretamente o Cisma do Oriente, ocorrido no século XI.
- Pepino, o Breve nunca perdeu uma batalha. Em suas campanhas, expulsou os muçulmanos da região, derrotou reinos beligerantes e enfraqueceu exércitos germânicos.
- Na Itália, Pepino derrotou os lombardos, concedendo o território à Igreja Católica. Essa “doação de Pepino” resultou na criação dos Estados papais na Itália.
- Pepino foi responsável por reparos que elevaram o poder dos francos, incluindo a introdução de uma moeda nacional, a reforma da hierarquia eclesiástica e a condenação da iconoclastia.
Quem foi Pepino, o Breve?
Pepino, o Breve, formalmente Pepino III, foi o primeiro rei da dinastia carolíngia, que representava a segunda linhagem de governantes do reino franco. Possivelmente nascido na cidade de Jupille-sur-Meuse, em 714 d.C, na atual Bélgica, Pepino era filho do “Prefeito do Palácio”, Carlos Martel, que havia sido responsável por reunificar os reinos francos e, assim como o pai, assumiu o cargo de elevada importância.
Com o apoio da Igreja Católica, Pepino destituiu o rei merovíngio e conduziu o seu reinado de maneira bem-sucedida, conquistando territórios, decretando reformas internas e intervindo militarmente a favor do papa. A influência concedida à Igreja foi tanta que estimulou a cisão da Igreja Ortodoxa perante a Igreja Católica Apostólica Romana e as diversas questões religiosas que afrontaram romanos e bizantinos no decorrer da Idade Média.
Pepino morreu com cerca de 54 anos e dividiu o reino para os filhos, Carlomano e Carlos Magno — este que viria a se tornar o maior líder da dinastia, apesar de seu brilhantismo só ter se sobressaído graças às ambições e a destreza de seu pai diante tanto de aliados quanto de inimigos.
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Casamento
Pepino se casou com Berta de Laon, uma nobre nascida na fronteira entre os territórios de Nêustria e Borgonha, outrora reinos significativos que foram reunificados ao reino dos francos por meio das conquistas militares de Carlos Martel. Com esse matrimônio, Pepino, originário da aristocracia da Austrásia (que atualmente inclui territórios da Bélgica, Luxemburgo, Países Baixos e grande parte do oeste da Alemanha), estabeleceu vínculos sólidos com a nobreza dos outros dois territórios vizinhos.
Por sua vez, Berta não significou apenas uma aliança política; a rainha dos francos era também uma pessoa de caráter enérgico e diplomático. Ela o acompanhava constantemente nas campanhas militares e mediava a comunicação entre o rei e figuras proeminentes da Igreja Católica, inclusive o papa Estêvão II. Após a morte de Pepino, Berta foi a principal mediadora entre os dois irmãos na disputa pela sucessão ao trono.
As fontes históricas primárias não esclarecem a data da morte da rainha, tampouco sua causa, mas estima-se que faleceu com mais de sessenta anos.
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Filhos
Os documentos emitidos na época de Pepino, o Breve, apontam que ele e Berta tiveram cerca de oito filhos, embora o número seja incerto devido à escassez de informações nas fontes históricas, agravada pela citação de nomes homônimos aos do casal e pelas mortes precoces, comuns em crianças na Idade Média. Apenas três dos filhos são referenciados com maior precisão.
O primeiro filho de Pepino e Berta foi possivelmente Carlos Magno (c. 747-814), que viria a se tornar o rei mais poderoso da dinastia carolíngia, elevando o reino a império no ano 800. Carlos instaurou em seu governo a política do Beneficium, uma prática germânica que estimulava recompensas de território aos chefes militares que as conquistassem. Isso permitiu que o domínio franco abrangesse a Saxônia, a Bavária, a Caríntia, uma pequena faixa da Península Ibérica (a “Marca Espanhola”) e todo o Reino Lombardo, que compreendia norte e centro da Península Itálica.
O segundo filho foi Carlomano (c. 751-771), que recebeu o título de monarca dos territórios sul-orientais do reino (especialmente Suábia, Borgonha e Provença). Morreu aos vinte anos, o que permitiu que Carlos Magno anexasse seus territórios ao reino.
Gisela (c. 757-810) foi a primeira mulher entre os filhos do casal, se não considerarmos a discutível existência de Adelaide (c. 750), cujas fontes de referência são extremamente escassas. Gisela dedicou sua vida à religião católica, tornando-se freira e, posteriormente, abadessa na influente Abadia de Chelles.
Os demais filhos são os menos mencionados pelas fontes. O que se pode apontar é que Pepino (o filho do casal) nasceu em c. 756, mas faleceu em torno de quatro anos mais tarde; Berta (uma possível filha) teria nascido em c. 759 e vivido pelo menos até os trinta anos, mas a sua existência é discutida pela confusa possibilidade de algumas fontes estarem se referindo à própria esposa de Pepino, e não a uma descendente; a já citada Adelaide e Rothaide (esta, sem datas de referência) são raramente citadas e também têm as existências questionadas; Hiltrude (sem datas de referência) pode se tratar apenas de uma alusão a alguma outra filha de Pepino e Berta.
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Por que o apelido Pepino, o Breve?
Pepino, o Breve recebeu esse apelido devido à sua estatura baixa. Estima-se que ele media por volta de 1,37 metro de altura.
É comum que a alcunha seja compreendida como referência a um reinado de curta duração, o que contradiz o tempo de seu governo sobre o reino franco: ele o exerceu de 751 até sua morte, em 768, ou seja, desempenhou cerca de 17 anos de reinado. A tradução atribuída ao rei auxilia na compreensão errônea de seu significado, afinal “breve” e “curto” eram palavras que possuíam o mesmo significado no francês antigo e no latim.
É essencial, também, notar que esse apelido surgiu depois do reinado de Pepino. A primeira referência em uma fonte foi encontrada no livro biográfico “Os feitos de Carlos Magno”, escrito por um monge em c. 884 (mais de cem anos após a morte de Pepino). Vale lembrar que, naquela época, os livros eram copiados à mão e acessados por uma porcentagem mínima de intelectuais e religiosos, de forma que seu apelido levaria centenas de anos para que se popularizasse (possivelmente a partir do século XI).
Reinado de Pepino, o Breve
Apesar de o reinado de Pepino, o Breve, não ter significado o auge da dinastia carolíngia (que seria só alcançado por seu filho, Carlos Magno), foi graças ao seu governo que o herdeiro do trono transformou o reino dos francos em um império.
A liderança de Pepino foi conduzida de maneira rígida e pragmática, e, conforme apontam as fontes históricas, ele nunca foi derrotado em batalha. Embora o reinado sob a autoridade de Pepino, o Breve tenha se mostrado como um período de reascensão e fortalecimento do reino franco, muitas vezes os feitos extraordinários de seu filho, Carlos Magno, acabam por ofuscar as medidas inovadoras do primeiro monarca carolíngio.
Pepino, ao instaurar a dinastia carolíngia, recuperou o reino franco de uma crise de autoridade política. Mais exatamente, a família anterior, representada pela dinastia merovíngia, não exercia o controle total do reino; naquele contexto, a figura mais poderosa da estrutura política era a do Major Domus, ou “Prefeito do Palácio”, cargo exercido por Carlos Martel, pai de Pepino.
Após a morte do pai, Pepino (por pouco tempo em companhia do irmão, Carlomano) assumiu o cargo de Major Domus e assegurou o trono a Childerico III, o último monarca merovíngio, que, não carinhosamente, recebeu o apelido de “o Idiota” por se tratar de um rei-fantoche, enquanto Pepino exercia o poder na prática. No entanto, o “Prefeito do Palácio” desejava mais que um governo indireto e ambicionava o trono do reino de maneira legítima.
Para que isso fosse possível, Pepino utilizou de sua destreza diplomática ao contatar o papa Zacarias. No ano 751, uma carta direcionada ao chefe da Igreja questionava se um rei sem poder real, como no caso do reino franco, poderia usufruir da posição. A resposta do papa foi que o poder de fato determinava quem deveria reinar.
Com a concessão da Igreja Católica para a deposição de Childerico III e o apoio da nobreza, Pepino foi eleito o novo monarca do reino dos francos, dando início à dinastia carolíngia. Simultaneamente, a Igreja Católica, como instituição, percebeu na nomeação do monarca uma nova oportunidade para disseminar sua influência: antes de o novo governo ser instituído, o pacto entre Igreja e rei foi firmado simbolicamente por meio da primeira e segunda unções de Pepino, respectivamente realizadas por São Bonifácio e o papa Estêvão II.
Militarmente, Pepino nunca sofreu uma derrota. No início de seu governo, interveio a favor da Igreja Católica contra os lombardos, na Itália, que ameaçavam o poder do papa; a ação teve consequências duradouras, já que a derrota dos revoltosos germânicos concedeu novos territórios, que Pepino, por sua vez, doou para a instituição religiosa. A doação desses territórios, no que se reconhece como “Doação de Pepino”, serviu para a consolidação dos Estados Papais, que duraram do ano 756 até 1870.
A colaboração direta com a Igreja Católica também incentivou a intervenção de Pepino, o Breve em uma campanha militar contra os muçulmanos na cidade francesa de Narbonne, ocupada pelos islâmicos por quarenta anos. Ele também combateu o reino revoltoso da Aquitânia, ao sudoeste da França, que havia se rebelado por liderança do duque Waifar. Enfraqueceu ainda tribos germânicas principalmente na Bavária e Saxônia, o que facilitaria os domínios futuros de seu filho, Carlos Magno.
Outro aspecto importante do reinado de Pepino foi a instauração de uma moeda nacional, o denário. A reforma monetária facilitou as transições econômicas e permitiu que o setor administrativo do reino se tornasse mais eficiente, mesmo que, naquele contexto, moedas de mesmo valor pudessem ter pesos e ligas diferentes, ou seja, valores reais variados (referidas a Pepino apenas como “moedas de prata”).
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Pepino, o Breve e a Igreja Católica
Desde a juventude, Pepino e seu irmão Carlomano foram educados conforme o modelo eclesiástico. Assim como o pai, Carlos Martel, ambos passaram a apoiar São Bonifácio, o “Apóstolo da Alemanha”, renomado pela evangelização de diversos povos dos territórios germânicos. A notoriedade do religioso o levou a ser convidado pelos irmãos carolíngios ao reino franco para que pudesse reformar a hierarquia eclesiástica e, com isso, fortalecer a estrutura do poder católico sob seus domínios.
Conforme vimos anteriormente, a consolidação de Pepino, o Breve como monarca dos francos foi facilitada pela permissão da Igreja Católica, cujo papa havia afirmado ao carolíngio que o poder de fato era exercido por aquele que detinha o maior poder do Estado, e não um rei-fantoche que era considerado líder apenas simbolicamente.
Dessa forma, Pepino foi eleito rei dos francos pela nobreza e se tornou o primeiro monarca daquele reino a ser ungido pela instituição católica, em um ato realizado primeiramente pelo religioso São Bonifácio (a segunda unção, mais tarde, seria realizada pelo papa Estêvão II).
A partir da nova dinastia iniciada por Pepino, consolidou-se simultaneamente a influência da Igreja Católica pela Europa. Agora, sob a liderança do papa Estêvão II, a Igreja Católica na Itália precisava de apoio militar para conter a campanha dos lombardos, liderados pelo rei Astolfo. Pepino concedeu uma intervenção militar que subjugou os lombardos e assegurou novos domínios para a Igreja, refletidos na concessão das terras outrora tomadas pelos inimigos.
Essa concessão, chamada de “Doação de Pepino”, permitiu que a instituição religiosa fundasse os Estados Papais no ano de 756, abrangendo uma faixa territorial ao centro da Península Itálica que apenas fortaleceu a influência da Igreja na região.
No entanto, mais do que apenas uma concessão de territórios para a Igreja, o ato representou uma política de afronta à Constantinopla, que havia sido transformada em capital romana pelo imperador Constantino ainda no século IV. As terras tomadas dos lombardos, por direito, deveriam ser cedidas aos bizantinos, e não à antiga capital do Império Romano.
Esse princípio de cisão do poder católico levaria, no ano 1054, ao Grande Cisma, que fundaria a Igreja Ortodoxa no Oriente. Além disso, para intensificar as nuances entre os dois grupos, Pepino passou a condenar os bizantinos por uma prática que se tornaria imperdoável para a Igreja Católica: a iconoclastia, que consistia em destruir imagens consideradas santas. A decisão seria oficialmente tomada por meio do Segundo Concílio de Niceia, em 787.
Mais uma vez, as decisões tomadas por Pepino, o Breve influenciaram a favor de seu filho mais velho, o rei Carlos Magno: devido à aliança com o poder católico e seus consequentes atritos com o império romano do Oriente, Carlos Magno seria nomeado “Imperador dos Romanos” pelo papa Leão III de Roma, contribuindo para a separação do antigo império em duas entidades.
Pepino, o Breve era anão?
Não, Pepino, o Breve, não era acometido pelo nanismo, apesar de sua estatura consideravelmente abaixo da média, naquela época: as fontes, ainda que indiretas, sugerem uma média de 1,37 metros para a sua altura, apesar de a referência variar com centímetros a mais ou a menos. De qualquer forma, Pepino era uma figura de estatura bem abaixo da média da população masculina da Idade Média – cerca de 30 centímetros a menos.
Legado de Pepino, o Breve
O reinado de Pepino, o Breve, causou consequências tanto de curto quanto de longuíssimo prazo, ultrapassando até mesmo a Idade Média e a subsequente Idade Moderna, apesar de muitas vezes ser ofuscado pelo brilhantismo de seu filho, Carlos Magno.
Os efeitos imediatos de Pepino foram a instauração da dinastia carolíngia e a aproximação entre o reino franco e a Igreja Católica. Essa aproximação lhe rendeu notoriedade por ter se tornado o primeiro monarca a ser ungido pela instituição religiosa, algo que simbolicamente firmou uma aliança reciprocamente benéfica. Com isso, o reino franco se tornou uma potência europeia, tornando-se um poderoso império no ano 800.
O principal legado de Pepino, no entanto, ecoou por mais de um milênio: foi graças a ele que a Igreja Católica de Roma se fortaleceu, especialmente após a “Doação de Pepino”. Os territórios doados, ao invés de serem destinados ao poder católico em Constantinopla, foram cedidos para Roma, o que acarretou a criação dos Estados Papais (que seriam dissolvidos apenas em 1870, quando os territórios pontifícios foram anexados no processo de unificação da Itália). A relação entre os catolicismos do Ocidente e do Oriente foi ainda mais deteriorada quando Pepino condenou a iconoclastia praticada pelos bizantinos.
A disputa de poderes entre o papado romano e o patriarcado de Constantinopla influenciou diretamente no Grande Cisma ocorrido no século XI, que dividiu a instituição religiosa em Igreja Católica Apostólica Romana, no Ocidente, e Igreja Católica Ortodoxa, no Oriente. Enquanto isso, o fortalecimento do catolicismo romano transformava a Igreja Católica na instituição mais poderosa e influente da Idade Média.
Fontes
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