A Guerra do Afeganistão, ocorrida entre 1979 e 1989 e também referenciada como Primeira Guerra do Afeganistão, foi um conflito armado ocorrido no Estado do Afeganistão no contexto da Guerra Fria (1947-1991). As forças beligerantes, de um lado, eram compostas pelas forças armadas da União Soviética, enquanto, do outro, eram formadas pelos guerrilheiros islâmicos mujahideen, financiados pelos Estados Unidos. Os anos de conflitos se deviam principalmente pelo controle da influência socialista no país, julgada imprescindível para impedir a disseminação da ideologia capitalista pelo continente asiático.
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Tópicos deste artigo
- 1 - Resumo sobre a Guerra do Afeganistão
- 2 - Contexto histórico da Guerra do Afeganistão (1979)
- 3 - Qual foi o motivo da Guerra do Afeganistão (1979)?
- 4 - Como foi a Guerra do Afeganistão (1979)?
- 5 - Fim da Guerra do Afeganistão (1979)
- 6 - Consequências da Guerra do Afeganistão (1979)
- 7 - Exercícios sobre Guerra do Afeganistão (1979)
Resumo sobre a Guerra do Afeganistão
- A Guerra do Afeganistão (1979) foi um conflito armado travado entre a URSS e o exército afegão contra os guerrilheiros fundamentalistas mujahideen financiados pelos EUA.
- O início dos conflitos remete às reformas progressistas aplicadas pelo presidente afegão Nur Mohammad Taraki, que gerou impopularidade entre as camadas conservadoras do islamismo.
- A crise política decorrente das rivalidades pelo poder levou a URSS a desconfiar de um aumento da influência antissoviética no país, levando o líder da potência a invadir o Afeganistão.
- Em 1985, o recém-eleito secretário-geral da URSS, Mikhail Gorbachev, decidiu retirar as tropas soviéticas do Afeganistão frente à dispendiosa manutenção da guerra, que poderia comprometer o sucesso de seus planos socioeconômicos (Perestroika e Glasnost).
- Os Acordos de Genebra de 1988 decretaram o fim da influência direta das potências rivais em solo afegão e as tropas soviéticas se retiraram completamente do país no início de 1989.
- Estudos posteriores indicam que a importância do Afeganistão na Guerra Fria foi superestimada pelo líder soviético Leonid Brejnev e se tornou um dos principais fatores do colapso da URSS.
- O grande investimento dos EUA aos mujahideen, que não aceitaram os acordos de paz de 1988, indiretamente levou à criação do Talibã e da Al-Qaeda, esta chefiada por Osama bin Laden, que seria o principal alvo estadunidense na Segunda Guerra do Afeganistão (2001-2021).
- A Guerra do Afeganistão (1979) gerou uma crise humanitária com milhões de mortos e refugiados, além de estimular novas guerras civis e o decreto de um Estado teocrático.
Contexto histórico da Guerra do Afeganistão (1979)
No ano de 1947, a Doutrina Truman estadunidense de combate à ideologia socialista impulsionou um novo confronto em escala global travado entre os Estados Unidos e a União Soviética: a Guerra Fria. No entanto, esse confronto nunca ocorreu de maneira direta, em decorrência da dissuasão nuclear motivada pela posse de bombas de destruição em massa por parte de ambas as potências. Por isso, em vez de se combaterem diretamente, tanto os EUA quanto a URSS passaram a apoiar e financiar outros países em prol da disseminação de suas respectivas ideologias (o capitalismo e o socialismo, respectivamente).
Durante a segunda metade da década de 1970, o Afeganistão passou por diversas crises políticas. Após a deposição do rei Mohammad Zahir Shah em 1973, Sardar Mohammad Daoud Khan se tornou o primeiro presidente da República do Afeganistão. Apesar de inicialmente ter sido apoiado pelos soviéticos em decorrência de sua inclinação ideológica de esquerda, diversos motivos — entre eles, a instabilidade econômica e a repressão política — incitaram um golpe de Estado liderado por membros do Partido Democrático do Povo do Afeganistão (PDPA) no evento que ficou conhecido como Revolução de Saur (1978), que resultou na execução de Daoud Khan e em um governo liderado por Nur Mohammad Taraki.
Por sua vez, as reformas progressistas de Taraki, que incluíam a reforma agrária, o ensino laico e a declaração dos direitos das mulheres, desagradaram aos adeptos da cultura tradicionalista islâmica, que iniciaram uma nova guerra civil contra o presidente recém-eleito. A principal ala armada dos radicais religiosos era chamada de mujahideen (traduzida como “aqueles que lutam pela fé”), que mais tarde se tornaria imprescindível na participação de diversos eventos da contemporaneidade.
O Ministro das Relações Exteriores e Primeiro-Ministro a partir de 1979, Hafizullah Amin, apesar de se alinhar ideologicamente ao comunismo e participar da mesma ala radical do partido (a Khalq), rivalizava com Taraki pelo poder. Amin havia sido um dos maiores organizadores da Revolução de Saur e viu na desaprovação popular afegã uma oportunidade para confrontar diretamente o presidente.
A posição da União Soviética na disputa interna do PDPA foi defender Taraki, que se alinhava perfeitamente à ideologia socialista. Quando, em setembro de 1979, Taraki foi deposto e assassinado por ordem de Amin semanas mais tarde, a URSS, na época liderada pelo secretário-geral Leonid Brejnev, prontamente desconfiou de uma nova crise política que facilitasse a intervenção de potências antissoviéticas, especialmente em decorrência das rivalidades internas da PDPA.
Qual foi o motivo da Guerra do Afeganistão (1979)?
O motivo da Guerra do Afeganistão (1979), diretamente, foi causado pela tentativa da URSS em manter um governo socialista no Afeganistão diante de uma iminente (porém superestimada) ameaça de influência dos EUA ou forças antissoviéticas.
O assassinato de Taraki e liderança de Amin levou Brejnev a desconfiar de uma estratégia conduzida especialmente pelos Estados Unidos e seus aliados da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), que poderiam se unir ao Paquistão, à Arábia Saudita e à China para controlar o Oriente Médio e, posteriormente, o continente asiático (a China, apesar de ter adotado um regime socialista, havia rompido suas relações com os soviéticos durante as décadas de 1950 e 1960 em decorrência de divergências ideológicas).
Apesar de Brejnev ter dado importância exagerada ao país na época, os receios do líder soviético não eram aleatórios, já que se baseavam em experiências anteriores de conflitos por área de influência, a exemplo da Guerra da Coreia (1950-1953) e da Guerra do Vietnã (1955-1975).
Como foi a Guerra do Afeganistão (1979)?
A Guerra do Afeganistão (1979) foi um violento confronto travado especialmente entre os soldados afegãos apoiados pelo Exército Vermelho contra os guerrilheiros mujahideen.
Apesar da superioridade tecnológica bélica oferecidas pelos soviéticos para suas próprias tropas e aliados afegãos, os seus combatentes não foram páreos para as táticas de guerrilha dos jihadistas, que foram armados e financiados pelos Estados Unidos para conter a incursão socialista. O apoio dos Estados Unidos aos mujahideen, sem necessariamente engajar o conflito diretamente (em decorrência do receio em se desencadear uma guerra nuclear, nesse contexto), é uma tática conhecida como proxy war, ou “guerra por procuração”.
A invasão soviética teve início em 24 de dezembro de 1979. No dia 27, o Exército Vermelho adentrou o palácio presidencial na capital afegã, Cabul, e assassinou o presidente Hafizullah Amin, colocando em seu lugar Babrak Karmal, que havia sido exilado pela facção rival do PDPA na Tchecoslováquia após a Revolução de Saur.
A resistência antissoviética, por sua vez, não permitiu um governo pacífico: os mujahideen, apoiados direta e indiretamente por países como os Estados Unidos, Paquistão, China, Arábia Saudita e Irã, confrontaram o exército afegão e o Exército Vermelho ao longo de quase dez anos, acarretando consequências irreversíveis para o governo em Moscou. Apesar de inicialmente as forças soviéticas resistirem aos guerrilheiros, ocasionando a morte de, conforme a fonte, 90 a 250 mil mujahideen ao longo de toda o confronto, os custos para manter uma guerra de longa duração foram elevados.
Além disso, os Estados Unidos, enquanto financiavam o armamento e o treinamento dos guerrilheiros fundamentalistas, não precisaram custear a configuração de uma força armada própria no país. Em 1985, os alertas econômicos relacionados à guerra motivaram o secretário-geral então recém-eleito Mikhail Gorbachev a retirar as tropas soviéticas do Afeganistão.
Uma arma que se destacou no combate — apesar de a decisão de Gorbachev em retirar as tropas do Afeganistão antes mesmo de seu uso — foi a antiaérea portátil de defesa FIM-92 Stinger, enviada pelos EUA para os mujahideen a partir de 1986. A arma, que possuía taxa de acerto de quase 20% contra as aeronaves soviéticas, refreou grande parte das operações aéreas soviéticas, que simultaneamente deixaram de apoiar as tropas terrestres com a devida eficácia, optando-se, por exemplo, por incursões noturnas ou missões pouco eficientes a longas altitudes.
Em decorrência das proporções da guerra, o maior número de vítimas proveio da população afegã: as fontes variam entre 1 e 2 milhões de fatalidades entre civis e mais de 5 milhões de refugiados no exterior, além de um deslocamento interno de 2 milhões de pessoas.
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Fim da Guerra do Afeganistão (1979)
O fim da Guerra do Afeganistão, ocorrido oficialmente em 15 de fevereiro de 1989, condiz com o período de governo de Mikhail Gorbachev como secretário-geral da União Soviética. Uma de suas primeiras medidas foi a retirada das tropas soviéticas do território afegão, iniciada em maio de 1988. O principal motivo foi o encerramento dos custos com a guerra, que estava rumando para o seu décimo ano consecutivo; além disso, a fim de atingir o sucesso de seus planos reformistas — a Perestroika e a Glasnost —, Gorbachev precisaria construir uma nova imagem da potência que angariasse popularidade internacional.
Para que o término do conflito no Afeganistão ocorresse de maneira segura para a URSS, em abril de 1988, os líderes dos países envolvidos no conflito assinaram os Acordos de Genebra referentes à retirada de suas tropas. No entanto, os acordos não contaram com a participação dos mujahideen, que se negaram a abandonar seus objetivos de combater a influência socialista no país.
Mais de 500 soldados soviéticos foram atacados e mortos durante a retirada, encerrada no início de 1989 — parte dos cerca de até 26 mil que sucumbiram desde o início da Guerra do Afeganistão (1979). Embora os EUA e a URSS tenham decretado a trégua no país, a república afegã continuou servindo de palco de guerra; o presidente comunista Mohammad Najibullah conseguiu governar até 1992, quando se deu o início de uma nova guerra civil. Os mujahideen continuaram a receber apoio do Paquistão e passaram a compor massivamente o grupo fundamentalista Talibã, fundado em 1994; em 1996, conquistaram a capital afegã de Cabul e executaram Najibullah publicamente.
Consequências da Guerra do Afeganistão (1979)
As consequências da Guerra do Afeganistão (1979) foram tanto imediatas quanto de longa duração e refletem crises humanitárias até os dias de hoje. Entre as consequências diretas, pode-se citar o número de vítimas, que variam com grande abrangência conforme a fonte: cerca de 1 a 2 milhões de afegãos, em sua grande maioria civis, foram mortos durante os anos de conflito. Os que sobreviveram, em grande parte, buscaram refúgio tanto interno (2 milhões) quanto externo (5 milhões), o que gerou um desafio logístico de amparo humanitário, especialmente por parte do Irã e do Paquistão.
As perdas de vidas soviéticas foram proporcionalmente menores: algo em torno de até 26 mil, mas, em questão de danos, o valor foi alto até mesmo para as forças armadas da potência.
Podem-se identificar ao menos duas consequências indiretas da Guerra do Afeganistão (1979): a primeira é que o conflito se tornou um dos principais fatores de colapso econômico da União Soviética (incluindo gastos na manutenção da ocupação e o investimento massivo de arsenal para os combatentes).
Apesar da ênfase do líder soviético Leonid Brejnev no controle do Afeganistão, estudos posteriores mostram que os receios do secretário-geral eram, em sua maior parte, infundados. Criou-se um mito de que os EUA haviam atraído a URSS para uma “armadilha” econômica, quando, na verdade, os atritos internos da política no Afeganistão refletiam mais intrigas partidárias locais que internacionais, ou seja, Brejnev superestimou a questão do Afeganistão ao ordenar sua invasão em 1979.
A segunda consequência refletiu-se especialmente no Ocidente. Um dos fenômenos mais impactantes da Guerra do Afeganistão (1979) decorreu do financiamento que os EUA aplicaram aos mujahideen para combater a influência soviética no país, já que a quantidade de recursos oferecidos ao grupo rebelde se tornou indissociável à ascensão do Talibã. O membro de maior destaque entre os mujahideen foi Osama bin Laden, líder do grupo jihadista Al-Qaeda entre 1988 e 2011 que se tornou notório por planejar o atentado do World Trade Center em 11 de setembro de 2001 e combater os Estados Unidos na Segunda Guerra do Afeganistão (2001-2021).
Exercícios sobre Guerra do Afeganistão (1979)
1. (Fundatec) A invasão do Afeganistão em 1979, realizada pela União Soviética, representou um marco significativo da Guerra Fria e impactou profundamente a geopolítica mundial. Sobre esse episódio, assinale a alternativa correta.
a) A intervenção soviética buscava consolidar o governo do Partido Democrático Popular do Afeganistão (PDPA), aliado aos Estados Unidos, que havia tomado o poder em 1978.
b) A invasão motivou a criação do Tratado de Camp David, que alinhou as nações do Oriente Médio em uma frente de resistência contra a expansão soviética.
c) O conflito de longa duração (1979–1989) encerrou-se com a vitória soviética e a manutenção de um governo comunista estável no Afeganistão até o fim da União Soviética.
d) A resistência afegã (Mujahidin) recebeu apoio financeiro e militar de países como EUA, Arábia Saudita e Paquistão, contribuindo para mais um episódio da “guerra por procuração”.
e) A invasão soviética foi condenada pela Organização das Nações Unidas (ONU), levando a uma suspensão provisória da URSS do Conselho de Segurança.
Resposta: d).
Por quê? A “guerra por procuração” foi uma tática usada pelos países antissoviéticos, especialmente os Estados Unidos, para conter e repelir a ocupação do Exército Vermelho iniciada em 1979. Os combatentes utilizados nessa tática foram os mujahideen, que não aceitavam as reformas progressistas propostas e aplicadas por governantes socialistas.
2. Em relação ao término da Guerra do Afeganistão em 1989, é incorreto afirmar apenas que:
a) o fim do conflito foi acelerado pela retirada das tropas soviéticas em solo afegão, conforme decretado pelo Secretário-Geral da URSS Mikhail Gorbachev em prol do sucesso de suas reformas cívicas e econômicas, a Perestroika e a Glasnost.
b) os acordos decretados em 1989 entre os governos da URSS e EUA em presença dos mujahideen garantiram o término dos conflitos no Afeganistão, que apesar de consolidar um Estado fundamentalista governado pelo Talibã, tornou-se cenário de relativa paz e relações diplomáticas.
c) em decorrência da Guerra no Afeganistão, milhões de afegãos civis foram diretamente afetados. Além de uma estimativa de mais de um milhão de mortos, outros milhões de refugiados emigraram do país, a maioria com destino ao Paquistão ou ao Irã.
d) o forte investimento bélico dos EUA aos mujahideen trouxe consequências relativamente imprevistas para a própria potência financiadora, que não conseguiu conter a ascensão do Talibã e da Al-Qaeda, explicitamente antiestadunidenses, nas décadas seguintes.
Resposta: b)
Por quê? Apesar de os acordos entre URSS e EUA terem encerrado oficialmente a Guerra do Afeganistão em 1989, os mujahideen não aceitaram participar dos tratados de paz. Desse grupo de guerrilheiros, muitos aderiram ao recém-criado Talibã e tomaram o poder do Afeganistão em 1996, transformando o país em um Estado fundamentalista e palco de uma nova guerra, dessa vez contra os EUA, entre 2001 e 2021.
Créditos da imagem
IA Novosti archive, image #644461 / Yuriy Somov / CC-BY-SA 3.0 / Wikimedia Commons
Fontes
ALEKSIÉVITCH, Svetlana. Meninos de zinco. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.
HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos: O breve século XX (1914-1991). São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
KENNEDY, Paul. Ascensão e queda das grandes potências: Transformação econômica e conflito militar de 1500 a 2000. Rio de Janeiro: Editora Campus, 1989.
LEWIS, Bernard. O Oriente Médio: Do advento do cristianismo aos dias de hoje. Rio de Janeiro: Zahar, 1996.
WHITLOCK, Craig. Documentos do Afeganistão: A história secreta da guerra. Rio de Janeiro: Alta Cult, 2023.