Os ribeirinhos são povos tradicionais do Brasil que vivem na margem de rios, de igarapés e de lagos. A sua cultura e o seu modo de vida apresentam-se em comunhão com a natureza, especialmente com os cursos d’água, que é de onde tiram uma parte do seu sustento. A economia das comunidades ribeirinhas, então, é oriunda da pesca, da agricultura, do extrativismo vegetal e do artesanato.
Como sendo uma população rural, eles vivem em áreas de baixa densidade demográfica e de relativo isolamento geográfico e dependem dos rios para os transportes e para os deslocamentos de bens e de mercadorias. A riqueza cultural e os saberes dos ribeirinhos são transmitidos de geração a geração e são representativos das regiões em que eles habitam. As principais cidades ribeirinhas do país ficam nas margens de rios como o Rio Amazonas e o Rio Madeira, na região Norte do Brasil, e o Rio São Francisco, que atravessa estados do Sudeste e do Nordeste.
Leia também: Quem são os povos originários?
Tópicos deste artigo
- 1 - Resumo sobre os ribeirinhos
- 2 - O que é ser um ribeirinho?
- 3 - Como vivem os ribeirinhos?
- 4 - Cultura dos ribeirinhos
- 5 - Costumes dos povos ribeirinhos
- 6 - Ribeirinhos são indígenas?
- 7 - Origem dos ribeirinhos
- 8 - Cidades ribeirinhas
- 9 - Curiosidades sobre os ribeirinhos
Resumo sobre os ribeirinhos
-
Os ribeirinhos são povos que vivem na margem de rios, de lagos e de igarapés, com um modo de vida que apresenta íntima relação com a natureza.
-
Eles são reconhecidos como uma das comunidades tradicionais do Brasil.
-
O conjunto de costumes, de tradições e de saberes que é típico dos povos ribeirinhos é passado de geração em geração.
-
Eles vivem em residências de madeira construídas sobre palafitas ou, ainda, em casas flutuantes que ficam a certa distância das margens.
-
Os ribeirinhos formam pequenas comunidades que apresentam baixa densidade demográfica e estão situadas na zona rural, com certo isolamento geográfico.
-
A organização espacial das comunidades ribeirinhas adapta-se ao ambiente. Algumas delas possuem igrejas, centros comunitários e pequenos estabelecimentos comerciais.
-
Parte dos mantimentos dos ribeirinhos é oriunda das cidades ou das comunidades próximas, entregue por via fluvial ou, ainda, adquirida em mercados flutuantes.
-
A pesca, o extrativismo vegetal, a agricultura e o artesanato constituem a base da economia e da subsistência dessas comunidades. O ecoturismo tem ganhado espaço nos últimos anos.
-
Os costumes dos povos ribeirinhos são baseados na vida em comunidade e no senso de colaboração e de solidariedade.
-
Cada núcleo familiar divide as tarefas à sua própria maneira, seguindo as tradições do grupo ou da cultura regional de onde vivem.
-
Uma parte importante dos costumes ribeirinhos está atrelada com o ciclo das águas, usadas como via de transporte, como meio de subsistência e como forma de lazer.
-
As primeiras comunidades ribeirinhas formaram-se com a interiorização da ocupação do Brasil no período colonial.
-
A maioria das comunidades ribeirinhas presentes hoje nos estados da região Norte é originária do fim do ciclo da borracha.
O que é ser um ribeirinho?
Ser um ribeirinho é habitar na margem de rios, de lagos, de igapós e de igarapés e viver com base em um modo de vida que apresenta íntima relação com os elementos da natureza, notadamente com a água, e cujas tradições, costumes e saberes são transmitidos de geração a geração. Os ribeirinhos são, por isso, um dos povos e comunidades tradicionais reconhecidos no Brasil por meio do Decreto Nº 6.040, de 07 de fevereiro de 2007.
Como vivem os ribeirinhos?
Os ribeirinhos vivem nas margens dos cursos d’água e dos lagos. Na Amazônia, onde se concentra a maior parcela da população ribeirinha do país, eles habitam em residências feitas de madeira e que são adaptadas aos ciclos de cheia e de vazante dos rios e dos igarapés, que são chamadas de palafitas. Elas são construídas bem próximo da margem dos rios, na qual se sustentam. No entanto, esse não é o único modelo de habitação das comunidades ribeirinhas. As casas flutuantes também são observadas, sendo essas construídas a uma maior distância da terra firme.
As comunidades ribeirinhas possuem casas construídas com certa proximidade umas das outras, apresentando uma organização espacial própria e adaptada para o ambiente em que estão instaladas. Em um contexto populacional mais amplo, as comunidades ribeirinhas apresentam baixa densidade demográfica e ficam a distâncias consideráveis dos centros urbanos. Algumas delas são descritas como isoladas, com alta dependência dos transportes fluviais para chegarem até outras comunidades ou nas cidades mais próximas. Por isso, essas comunidades são vistas como rurais.
Pode haver centros comunitários e estabelecimentos religiosos nas comunidades ribeirinhas, assim como pequenos comércios abastecidos com itens essenciais. Cada comunidade é diferente da outra, e, em algumas áreas, é muito comum a passagem dos chamados mercados flutuantes, que fazem a comercialização de produtos básicos. Os comerciantes que usam essa técnica são conhecidos localmente como regatões.
A renda das famílias é proveniente de atividades como a pesca, a agricultura, o extrativismo vegetal, a produção de farinha, feita nas chamadas casas de farinha, e o artesanato. O ecoturismo também tem ganhado cada vez mais espaços nas comunidades tradicionais, incluindo as ribeirinhas, como uma fonte importante de renda.
Os estados da região Norte do país são aqueles que concentram um maior volume de população ribeirinha no Brasil. Essa comunidade tradicional também se faz presente no Nordeste, como nos estados do Maranhão, da Bahia e do Alagoas, e em outras regiões do país, como nos estados de Goiás e do Mato Grosso, no Centro-Oeste. Ainda hoje, o censo demográfico realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) não contabiliza os ribeirinhos da mesma forma que realiza o levantamento de indígenas e de quilombolas, motivo pelo qual não sabemos, com exatidão, qual é a dimensão da sua população.
Confira também: Quilombolas — os descendentes e remanescentes de comunidades formadas por escravizados fugitivos (os quilombos)
Cultura dos ribeirinhos
A cultura dos povos ribeirinhos desenvolveu-se em comunhão com a natureza. Eles têm profundo conhecimento do ciclo das águas e, sobretudo, dos rios que banham as suas comunidades. Os rios, os igarapés e os igapós são comumente descritos como sendo uma parte inseparável da vida dos ribeirinhos, que, desde muito pequenos, aprendem a brincar e a navegar nas águas que os circundam.
Esses saberes tradicionais das comunidades são geracionais, o que significa que eles são passados das gerações mais velhas para as gerações mais novas. É um tipo de conhecimento proveniente da experiência vivida e cuja dimensão somente pode ser apreendida integralmente por aqueles que vivem nas comunidades ribeirinhas. O conjunto de saberes inclui a percepção acerca do comportamento dos animais que habitam as matas, o fluxo das correntezas, problemas da vida cotidiana, o uso medicinal de plantas e de ervas disponíveis na natureza e, é claro, as lendas e os mitos folclóricos. Dentre essas lendas, estão aquelas dos seres encantados das florestas, como o curupira e a Matinta Pereira.
Danças e músicas tradicionais são comuns durante as festividades e as celebrações dos povos ribeirinhos, que variam de acordo com a região do Brasil em que vivem. Algumas das festas típicas comuns são aquelas que celebram Nossa Senhora dos Navegantes e Nossa Senhora da Conceição, evidenciando o lado religioso dessas comunidades. Outro ponto em comum é a realização do artesanato a partir de fibras, de sementes, de madeiras, de folhas e demais elementos da natureza, sendo essa uma fonte de renda para as comunidades.
As comidas tradicionais dos ribeirinhos são os pescados e a farinha de mandioca, itens obtidos e produzidos dentro da própria comunidade, dos quais se produzem pratos como o pirão. O feijão, o arroz, a tapioca e os frutos também fazem parte da dieta das comunidades ribeirinhas.
Costumes dos povos ribeirinhos
Os costumes dos povos ribeirinhos são baseados na vida em comunidade e no forte senso de colaboração e de solidariedade que existe entre eles. Essa relação inclui a obtenção de recursos externos, o estabelecimento de redes de comunicação, o acesso compartilhado à Internet, o lazer diário e as atividades econômicas desempenhadas no dia a dia.
Dentro de cada núcleo familiar, existe uma nítida divisão de tarefas|1|, que se volta para práticas como a pesca, o cuidado com a lavoura, o extrativismo e a fabricação de itens como a farinha. Esses núcleos funcionam cada qual à sua maneira, seguindo uma lógica interna própria ou a cultura da região em que habitam. Por isso, não é possível falar em um padrão, ou em um costume geral entre eles.
Os rios são uma parte fundamental da vida dos ribeirinhos, e suas práticas cotidianas estão atreladas com o fluxo das águas. Os transportes, especialmente de pessoas, a obtenção de parte dos seus alimentos e da fonte de renda, bem como os momentos de descanso e diversão, são praticados nos cursos d’água.
Através dos rios, eles se deslocam para comunidades próximas e também para outras regiões de maneira a obterem recursos que não são encontrados localmente, desde medicamentos e mantimentos até itens para a casa. Da mesma maneira, entregas que são encomendadas nas cidades são enviadas pelos rios. A maneira como eles conduzem as suas práticas agrícolas e extrativistas é condizente com os ciclos de recuperação dos recursos naturais, o que significa dizer que os ribeirinhos desenvolvem atividades sustentáveis que respeitam o tempo da natureza e contribuem para a preservação ambiental.
Ribeirinhos são indígenas?
Não, os ribeirinhos não são indígenas. Ambos são classificados como povos tradicionais brasileiros, e, embora os indígenas também tenham um modo de vida que preza pela natureza e possam habitar a margem de rios e de cursos d’água, seus costumes são diferentes. Apesar disso, existe um fator histórico da ocupação territorial do Brasil que une as histórias dos ribeirinhos e dos indígenas.
Veja também: Povos indígenas do Brasil — o grupo que habitava o Brasil antes da chegada dos europeus
Origem dos ribeirinhos
A origem dos povos ribeirinhos remete ao processo de interiorização da ocupação do Brasil ainda durante o período colonial, com a instalação de comunidades formadas pelos caboclos (população miscigenada entre portugueses e indígenas) na margem dos principais rios brasileiros.
Boa parte dos ribeirinhos brasileiros da atualidade, especialmente aqueles que habitam em estados como Amazonas, Acre e Pará, são descendentes da população nordestina que migrou para a região Norte do Brasil a partir da segunda metade do século XIX e, sobretudo, no começo do século XX, quando o ciclo da borracha fazia prosperar a economia local. Esse é um dos motivos pelos quais muitas das comunidades ribeirinhas do Norte têm a extração de látex como uma de suas fontes de renda, além de atividades como a pesca, a agricultura e outras formas de extrativismo vegetal.
Ao final desse período, muitos dos imigrantes perderam a sua principal fonte de subsistência e, diante da ausência de medidas para a sua reintegração no mercado de trabalho e sem renda para retornarem, eles se instalaram em residências simples construídas nas margens dos rios. No entanto, é válido mencionar que as condições de vida na margem dos rios não mudou muito desde então. Hoje em dia, os ribeirinhos ainda enfrentam problemas sérios como a falta de redes de saneamento básico, tendo acesso limitado a serviços como água potável, coleta de lixo e coleta e tratamento de esgoto.
Cidades ribeirinhas
As cidades ribeirinhas são as cidades situadas nas margens dos rios e cuja organização espacial e econômica gira em torno do curso d’água, assim como o modo de vida de parte da sua população. Devido à maneira como aconteceu a interiorização e a formação do território brasileiro, algumas das principais cidades do país são atravessadas por rios de grande importância para o seu abastecimento, mas nem todas elas apresentam comunidades tradicionais ribeirinhas. Os cursos do Rio Amazonas, do Rio Madeira, do Rio Xingu e do Rio Tapajós, na região Norte do Brasil, e do Rio São Francisco, entre as regiões Sudeste e Nordeste, são aqueles que reúnem o maior número de cidades ribeirinhas.
Curiosidades sobre os ribeirinhos
-
O dia 6 de junho foi instituído como Dia Nacional do Ribeirinho.
-
Na Amazônia, os ribeirinhos praticam o extrativismo de produtos vegetais como açaí, cacau, buriti, látex e castanhas.
-
As escolas ribeirinhas são construídas assim como as suas residências: nas margens dos rios. Elas costumam receber, além de estudantes da sua própria área, crianças de outras comunidades próximas, e o currículo inclui a educação ambiental e conhecimentos práticos do meio em que vivem.
Notas
|1| SILVA, Simone Souza da Costa et al. Rotinas familiares de ribeirinhos amazônicos: uma possibilidade de investigação. Psicologia: Teoria e Pesquisa, Brasília, v. 26, n. 2, p. 341-350, abr./jun. 2010. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/ptp/v26n2/a16v26n2.pdf.
Créditos de imagem
[1] Cavan-Images / Shutterstock
[2] Tarcisio Schnaider / Shutterstock
[3] Cavan-Images / Shutterstock
Fontes
CARDOSO, Evanildo; ALMEIDA, Maria Geralda. O LUGAR, A PAISAGEM E A CULTURA RIBEIRINHA NO RIO DE ONDAS – BARREIRAS – BAHIA. Caminhos de Geografia, Uberlândia, v. 14, n. 47, p. 15–26, 2013. Disponível em: https://seer.ufu.br/index.php/caminhosdegeografia/article/view/16564.
CASTRO, Matheus. Dia do Folclore: histórias de ribeirinho revelam Curupira, Matinta Pereira e Fogo Fátuo como lendas vivas da floresta amazônica. 22 ago. 2025. Disponível em: https://g1.globo.com/am/amazonas/noticia/2025/08/22/dia-do-folclore-historias-de-ribeirinho-revelam-curupira-matinta-pereira-e-fogo-fatuo-como-lendas-vivas-da-floresta-amazonica.ghtml.
CASTRO, Roberta Rowsy Amorim de; MAIA, Ricardo Eduardo de Freitas; OLIVEIRA, Myriam Cyntia Cesar de. Os saberes tradicionais e a atividade extrativista vegetal na RESEX Rio Xingu, Terra do Meio, Pará. Cadernos de Agroecologia – Anais do VI CLAA, X CBA e V SEMDF. Vol. 13, n° 1, jul. 2018. Disponível em: https://cadernos.aba-agroecologia.org.br/cadernos/article/view/866.
CONCEIÇÃO, Cláudio. Ribeirinhos: um dos desafios do saneamento. Mais Nordeste, 10 jul. 2025. Disponível em: https://www.revistamaisnordeste.com.br/ribeirinhos-historia/.
CRISTO, Élida. De frente para o rio: crianças ribeirinhas que têm rios como ruas. Lunetas, 08 dez. 2022. Disponível em: https://lunetas.com.br/criancas-ribeirinhas/.
JUNIOR, Jair Antonio de Oliveira. Arquitetura Ribeirinha na Amazônia: Habitar em ambientes extremos. VII ENSUS – Encontro de Sustentabilidade em Projeto. UFSC – Florianópolis, 2019. Disponível em: https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/244836.
LIMA, Maria Aldecy Rodrigues de; GUSMÃO ANDRADE, Erika dos Reis. Os ribeirinhos e sua relação com os saberes. Revista Educação em Questão, [S. l.], v. 38, n. 24, 2010. Disponível em: https://periodicos.ufrn.br/educacaoemquestao/article/view/4027.
LOMBA, Roni Mayer; NOBRE-JÚNIOR, Benedito Baliero. A relação rural-urbano a partir das cidades ribeirinhas: o papel do comércio popular (feiras) na cidade de Afuá (PA). Confins, n. 18, 2013. Disponível em: https://journals.openedition.org/confins/8405.
MARQUES, Daniele. Quem são os povos ribeirinhos? Educa Mais, 13 abr. 2023. Disponível em: https://www.educamaisbrasil.com.br/educacao/escolas/quem-sao-os-povos-ribeirinhos.
MDS. Ribeirinhos. Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, 25 jun. 2024. Disponível em: https://www.gov.br/mds/pt-br/acoes-e-programas/acesso-a-alimentos-e-a-agua/articulacao-de-politicas-publicas-de-san-para-povos-e-comunidades-tradicionais/ribeirinhos.
POJO, Eliana Campos; ELIAS, Lina Gláucia Dantas; DE NAZARÉ VILHENA, Maria. As águas e os ribeirinhos–beirando sua cultura e margeando seus saberes. Margens, v. 8, n. 11, p. 176-198, 2014. Disponível em: https://periodicos.ufpa.br/index.php/revistamargens/article/view/3249.
REIS, M. H. da S.; PORTUGAL, J. K. A.; CAMPOS, G. L.; PEREIRA, V. de S.; JÚNIOR, J. C. F. P.; GERMANO, S. N. F.; SOUZA, T. T. G. de; BARÃO ÉVELYN, J. da S.; FREIRE, N. M.; REIS, Y. da S. dos. Características da população ribeirinha de um município do interior do Amazonas. Revista Eletrônica Acervo Saúde, v. 13, n. 11, p. e9273, 17 nov. 2021. Disponível em: https://acervomais.com.br/index.php/saude/article/view/9273.
REDAÇÃO. Dia Nacional do Ribeirinho, 6 de junho, é aprovado na Comissão de Educação. Agência Senado, 17 out. 2023. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2023/10/17/dia-nacional-do-ribeirinho-6-de-junho-e-aprovado-na-comissao-de-educacao.
REDAÇÃO. Raízes da floresta, como comunidades tradicionais protegem a Amazônia. Revista Amazônia, 01 mai. 2025. Disponível em: https://revistaamazonia.com.br/indigenas-extrativistas-na-amazonia/.