Rá, o deus do Sol, é a principal figura da religião politeísta praticada no Antigo Egito. Era compreendido como a entidade responsável pela luz e pela vida, já que os egípcios dependiam do astro para garantir boas colheitas às margens do rio Nilo. Muitas lendas envolvem a figura de Rá, na mitologia egípcia, ele é o criador dos deuses primordiais. Na IV dinastia, do período do Antigo Império, os faraós passaram a se autodenominar “filhos de Rá”, uma forma de legitimar a centralização do poder desses governantes.
Rá era comumente representado em forma antropozoomórfica, com corpo de humano e cabeça de falcão. O olho de Rá é uma entidade chamada de Hathor, que deu origem aos primeiros humanos. Existem lendas de Rá que envolvem Hathor, Ísis, e Hórus, uma divindade egípcia que, assim como Rá, também é representada com cabeça de falcão.
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Tópicos deste artigo
- 1 - Resumo sobre Rá, o deus do Sol
- 2 - História de Rá
- 3 - Representação de Rá
- 4 - Lendas de Rá, deus do Sol
- 5 - Deus Rá e Hórus
Resumo sobre Rá, o deus do Sol
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Rá, o deus do Sol, era a principal divindade da crença politeísta do Antigo Egito, responsável pela luz e pela vida.
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Ele era geralmente presentado em sua forma antropozoomórfica, com corpo humano e cabeça de falcão.
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Na antiga crença egípcia, Rá emergiu das “águas do nada” e criou outros deuses primordiais, iniciando com eles a criação do mundo a partir do monte Benben.
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O olho de Rá era uma entidade chamada Hathor, que com suas lágrimas, criou os primeiros humanos do mundo.
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Numa versão destruidora de Hathor, chamada Sekhmet, Rá quase extinguiu a humanidade.
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A cada dia, Rá oscilava entre três formas que mantinham o equilíbrio do universo:
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ao nascer do sol, era o escaravelho Khepri;
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ao meio-dia, se fundia a Hórus para se tornar Rá-Horakhty; e
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à noite, assumia a forma de um velho humano, Atum, para lutar contra a serpente do caos, Apófis.
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Rá era cultuado principalmente na cidade de Iunu, ou Heliópolis.
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A partir da IV dinastia egípcia, os faraós passaram a se autodenominar “filhos de Rá”.
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Durante a XVIII dinastia, Rá foi fundido a Amon por razões teológicas e políticas, tornando-se Amon-Rá.
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O faraó Akhenaton, no século XIV, fundou uma religião monoteísta malsucedida que colocava o deus Aton como a única divindade existente.
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Ísis, a deusa feiticeira, elaborou um plano do qual obteve a mesma soberania do poder de Rá.
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A lenda entre Rá e Hórus é uma das mais simbólicas da mitologia egípcia, pois anuncia muito da forma como os antigos egípcios compreendiam o mundo e a vida.
História de Rá
→ Deus Rá e a criação
Na mitologia egípcia, existem diversas interpretações e versões da história de Rá e da criação do mundo. Uma das mais aceitas remonta a tempos que os antigos egípcios chamavam de “águas primordiais”, ou Nun (“não ser”), compreendidos como um oceano que representava o nada (ou, ainda, o “Caos Primordial”). No turbilhão dessas águas, um espírito apareceu: era Rá, que consciente de sua própria existência, criou outros deuses a partir da própria saliva: Shu, o deus do ar, e Tefnut, a deusa da umidade. No momento da criação, ambos aterrissaram em terra, para longe das águas do Nun, que agora secavam.
Uma das manifestações do olho de Rá era a deusa do amor Hathor, uma divindade de fogo enviada pelo deus para procurar por Shu e Tefnut. Ao encontrá-los, em alegria, Hathor derramou lágrimas que se tornaram os primeiros seres humanos. A partir de sua própria criação, Rá se estabeleceu em uma ilha envolta pelo Nun (o monte Benben), onde iniciou a construção do mundo. Os elementos de criação usados pelo deus eram personificações da magia, percepção, pronunciamento e harmonia cósmica — Heka, Sia, Hu e Maat, respectivamente — que acompanham Rá diariamente em sua jornada conduzida pela barca solar.
Sobre o Benben, Rá se estabeleceu na cidade de Iunu, que seria mais tarde chamada pelos gregos de Heliópolis; a partir de lá, o deus supremo passou a se manifestar física e espiritualmente em diferentes entidades:
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Rá-Horakhty, manifestação da luz, vida e ordem, que representa o dia e atinge seu poder total ao meio-dia;
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o sol nascente, que ressurge todas as manhãs como um escaravelho (Khepri); e
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Atum, que viaja pelo submundo ao anoitecer para batalhar contra a serpente gigante Apófis, que ameaça engolir o Sol.
→ Rá na história dos egípcios
Como deus-Sol, Rá foi a principal divindade cultuada pelos egípcios durante a Idade Antiga. Essa adoração já era bastante praticada no período do Antigo Império (iniciado em 2686 a.C.), durante o qual, na IV dinastia, os faraós passaram a se autodenominar “filhos de Rá”. Especialmente na cidade de Heliópolis, a adoração popular a Rá foi praticada até o advento do domínio greco-romano sobre o Egito, entre os séculos IV e I a.C.
O surgimento de Rá como deus supremo na religião politeísta egípcia possivelmente reflete a importância da luz solar para o êxito das colheitas, especialmente às margens do rio Nilo. Não é por coincidência, portanto, que os egípcios associaram o surgimento do mundo à abundância das águas do rio, enquanto nos períodos em que as águas baixavam, era possível observar os campos do delta.
Mesmo assim, devemos considerar que a propagação dessa fé possuía interesses políticos, já que os faraós necessitavam da crença para legitimar a centralização do poder, afinal, eles eram considerados a encarnação física de Hórus, que entre outros significados, representava o deus do mundo terreno.
Veja também: Qual o significado do olho de Hórus?
Representação de Rá
Os antigos egípcios costumavam imaginar e representar os seus deuses sob diversas formas: eles poderiam ser antropomórficos (com forma humana), zoomórficos (com forma animal) ou antropozoomórficos (híbrido de humano e animal). No caso de Rá, sua forma era antropozoomórfica, porque possuía corpo de homem e cabeça de falcão — pássaro que era associado ao céu e ao poder da realeza — encimado por uma esfera brilhante que representava o Sol. Geralmente, a figura do deus era acompanhada de um cetro em uma das mãos, e o símbolo da vida eterna na outra (o Ankh).
Apesar de esta ser a representação mais comum, conforme vimos no tópico anterior, Rá também poderia assumir a forma zoomórfica do escaravelho Khepri na alvorada, e do antropomórfico idoso Atum, no ocaso. No entanto, Rá também costumava se transformar em outros animais, cada qual com uma simbologia específica; o carneiro, por exemplo, significava fertilidade, e a serpente, poder e proteção. Havia também uma representação de sua alma por meio de um pássaro cinzento, o Bennu, que se assemelhava à Fênix da mitologia grega.
Rá também podia se fundir com outros deuses. Alguns exemplos incluem a união entre ele e Hórus, da qual surgia Rá-Horakhty, que atravessava os céus durante o dia; Osíris, o deus do submundo e juiz dos mortos, que permite o renascimento; e a fusão com o deus-crocodilo Sobek, que expande o poder solar para as áreas pantanosas.
→ Rá ou Amon-Rá?
Muitas vezes, Rá é mencionado como Amon-Rá, mas é necessário atentar ao contexto em que ele é assim referenciado para evitar anacronismos. Essa junção entre Amon, o deus do ar cultuado em Tebas, e Rá, o deus solar de Heliópolis, ocorreu apenas no decorrer da XVIII dinastia (por volta do ano 1550 a.C., durante o Novo Império).
A fusão, em essência, teve fins teológicos e políticos: muito do poder da XVIII dinastia provinha da cidade de Tebas, cujo deus mais cultuado era Amon, o deus oculto. Com a união das duas divindades, seria mais fácil legitimar o domínio da dinastia e administrar a sociedade egípcia, já que a nova representação de um deus ainda mais forte refletiria proporcionalmente na figura política e divina do faraó. Dessa forma, Rá não apenas foi ressignificado, como se tornou a figura onipotente de um deus todo-poderoso.
→ Rá e Aton
Igualmente importante é saber diferenciar Amon de Aton, que possui outro significado. Aton era o Sol, ou “disco solar”, como chamavam os egípcios, e se tratava de uma manifestação do deus Rá.
Por sua vez, durante o século XIV a.C., o faraó Akhenaton (ou Amenófis IV) procurou realizar uma reforma religiosa, onde o politeísmo seria substituído por uma forma de monoteísmo, e daria a Aton um significado contraditório à fé praticada pelos egípcios: o próprio “disco solar” seria o deus único.
Essa nova fé imposta, chamada atonismo, passou a ter o culto obrigatório e ocasionou diversos conflitos internos durante o governo do faraó reformista. Após a morte de Akhenaton, porém, o culto a Aton foi abolido e sua figura tornou a ser referenciada apenas como uma manifestação de Rá, ou seja, o “disco solar”.
Lendas de Rá, deus do Sol
Como principal figura da antiga mitologia egípcia, Rá foi um personagem envolto por lendas. Além de remeter à história da criação do mundo, apresentado no tópico “História de Rá”, havia diversos outros casos envolvendo o deus que eram de conhecimento popular entre os egípcios. Essas lendas demonstram características que definiam a religião dos antigos egípcios: seus deuses possuíam dualidades emocionais (como Hathor, bondosa ou destrutiva, conforme o contexto), virtudes (amor, compaixão) e fraquezas (ciúmes, vingança) semelhantes às dos humanos. Vejamos algumas dessas lendas a seguir.
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Lendas de Hathor, o olho de Rá
Uma das lendas mais conhecidas envolvia a entidade Hathor, o olho de Rá, que havia resgatado Shu e Tefnut e dado origem aos primeiros humanos com suas lágrimas de alegria. Quando mais tarde Hathor retorna ao deus, percebe que ele havia substituído o próprio olho, levando-a a um acesso furioso de ciúmes. Para compensar Hathor e restaurar sua felicidade, Rá concedeu à deusa a forma de uma cobra, chamando-a de Wadjet. Essa forma de Hathor passou a simbolizar o Uraeus, um adorno de soberania e o poder colocado sobre cabeça de Rá.
Essa lenda envolvendo os dois deuses se une a várias outras histórias. Uma das mais citadas é a de quando a humanidade percebeu que Rá estava envelhecendo e se tornando indigno de reinar, conspirando para assassiná-lo e substituí-lo. Ao descobrir o plano, Rá se enfureceu e ordenou que Hathor descesse à Terra e punisse os humanos (há variações da lenda que citam outras divindades no lugar dela).
Ao chegar no Egito, ela se tornou a leoa Sekhmet. Enquanto Hathor era benevolente, Sekhmet representava o seu oposto, com uma sede insaciável por morte e destruição. Alarmado pela v iolência incessante da deusa, Rá chamou a sua atenção por meio do envio de milhares de jarras de cerveja vermelha como o sangue. A lenda diz que, ébria pela bebida, Sekhmet se abrandou e retomou a forma da bondosa Hathor.
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Lenda de Ísis e Rá
Outra lenda que era bastante disseminada entre os antigos egípcios envolve a poderosa feiticeira Ísis, esposa de Osíris, que desejava que seu filho, Hórus, herdasse o trono de Rá na sucessão divina. Graças ao domínio da magia sobre as palavras, Ísis era quase tão sábia quanto Rá, mas havia algo que a deusa ainda desconhecia, o nome verdadeiro do deus supremo. Para obtê-lo, Ísis tramou um plano: criou uma cobra a partir da saliva do deus e a colocou em seu caminho. Ao tropeçar no animal, o deus foi gravemente mordido e apenas Ísis tinha o poder de salvá-lo da morte.
Quando convocada para curá-lo, anunciou uma chantagem: que só o salvaria se ele lhe dissesse o seu nome secreto, o que era essencial para que fosse curado. Assim ele o fez, e com o conhecimento adquirido, Ísis pôde revitalizá-lo. No entanto, o nome de Rá nunca foi revelado para a humanidade ou testemunhado por outros no momento da cura, já que ele o proferiu exclusivamente para Ísis. Com isso, Rá transferiu parte de seu poder a Ísis, que se tornou tão poderosa e soberana quanto ele.
Saiba mais: Anúbis — o deus egípcio dos mortos e da mumificação
Deus Rá e Hórus
A relação entre Rá e Hórus descrita a seguir é apenas uma das diversas interpretações resgatadas dos egípcios pela história, pois há variantes da mesma lenda com diferentes personagens e, até mesmo, significados. Mesmo assim, nos parágrafos a seguir, as diferenças mais importantes se encontram devidamente mencionadas.
Hórus, o deus dos céus, era neto de Shu e Tefnut, filho de Geb (o deus da terra seca) e Nut (a deusa do céu úmido) e irmão de Ísis, Osíris, Set e Néftis. Assim como Rá, Hórus possuía corpo de humano e cabeça de falcão, com diferenças sutis entre ambos: na principal delas, enquanto Rá possuía um disco solar sobre si, Hórus acomodava a Pschent (coroa dupla do faraó) sobre a cabeça.
Na hierarquia dos deuses, Hórus foi prestigiado com o cargo de defensor de Rá quando o deus supremo passou a encarar uma ameaça vinda do caos. Versões variadas sugerem que os inimigos poderiam ser filhos rebeldes que ansiavam pelo poder supremo, ou a serpente devoradora Apófis, apoiada pelo deus Set. Seja qual foi a versão, Hórus combateu os inimigos, mas durante a luta contra Set, teve seu olho esquerdo arrancado — o órgão representava a Lua, e o olho direito, o Sol — embora ele tenha conseguido arrancar os testículos do deus rebelde.
Sem enxergar, devido à perda do olho que lhe concedia a visão sob a luz da lua, Hórus decapitou diversos deuses, inclusive aliados de Rá. Quando um dos pilares que sustentavam o céu caiu no mar e o movimento da barca solar foi interrompido, o universo se aproximou à beira da destruição.
A fim de reverter a situação caótica, Osíris devolveu o olho de Hórus e os testículos de Set, mas mesmo assim o defensor de Rá não resistiu aos ferimentos e sucumbiu. Porém, a essência divina de Hórus foi transferida para Osíris, que com Ísis, teve um filho, que era a ressurreição do deus dos céus. Por isso, Hórus é referenciado como “o Velho” na ocasião anterior à sua morte, e como “o Jovem” a partir de seu renascimento. Versões alternativas sugerem que Hórus não morreu após receber de volta o seu olho esquerdo, passando a ser tornar também o símbolo da saúde, cura e restauração.
Hórus não representou apenas uma figura que conteve o inimigo, mas também o deus do mundo terreno e entidade responsável por dar a Rá o máximo de esplendor em sua força e significado: ao meio-dia, em nosso planeta, Rá e Hórus representavam o ponto mais alto do sol ao se fundirem como um só, Rá-Horakhty, que restaurava diariamente a ordem do mundo e do universo.
Créditos das imagens
Wikimedia Commons (reprodução)
Wikimedia Commons (reprodução)
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Fontes
A CONFUSING GODDESS: The Eye of Ra, 2024. Medium. Disponível em: https://medium.com/@sheela.guttula/a-confusing-goddess-the-eye-of-ra-b576c50dc5c1.
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O LIVRO DA HISTÓRIA NEGRA. Rio de Janeiro: Globo Livros, 2021.
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