Metrificação é como chamamos o ato de metrificar um poema. Dessa forma, a poetisa ou o poeta compõe cada verso de seu poema com a mesma medida, ou seja, o mesmo número de sílabas poéticas. Quando contamos essas sílabas, ao analisar um poema, estamos fazendo a escansão desse poema.
Como regra, devemos contar até a última sílaba tônica do verso. Além disso, quando a última sílaba de uma palavra do verso termina em vogal átona e a primeira sílaba da próxima palavra inicia com vogal ou som de vogal, unimos as sílabas para fins de contagem, de forma que elas são consideradas uma sílaba só.
Leia também: Afinal, o que é o poema?
Tópicos deste artigo
- 1 - Resumo sobre metrificação
- 2 - O que é metrificação?
- 3 - Metrificação e escansão
- 4 - Recursos da metrificação
- 5 - Classificação dos versos
- 6 - Exemplo de metrificação
- 7 - Exercícios resolvidos sobre metrificação
Resumo sobre metrificação
- A metrificação é o ato de metrificar versos, colocando-os com o mesmo número de sílabas poéticas.
- A escansão é a contagem das sílabas poéticas dos versos de um poema metrificado.
- Recursos da metrificação:
- metaplasmo: “Quantas vezes do fuso s’esquecia”;
- sinalefa: “tão/ a/si/nha es/ta/ vi/da/ des/pre/zas/te!”;
- sinérese: “Di/zei,/ Se/nho/ra,/ da/ Be/le/za i/deia”;
- diérese: “de/ vos/sos/ o/lhos,/ mi/nha/ sa/ü/da/de”;
- cavalgamento ou enjambement: “Ah! minha Dinamene! Assi deixaste/ quem não deixara [...]”;
- cesura: “Ah! Ninfa minha! || Já não posso ver-te,”;
- regra da última tônica: “tão a/si/nha/ es/ta/ vi/da/ des/pre/zas/te!”.
- Classificação dos versos:
- monossílabo: 1 sílaba poética;
- dissílabo: 2 sílabas poéticas;
- trissílabo: 3 sílabas poéticas;
- tetrassílabo: 4 sílabas poéticas;
- redondilha menor: 5 sílabas poéticas;
- hexassílabo: 6 sílabas poéticas;
- redondilha maior: 7 sílabas poéticas;
- octossílabo: 8 sílabas poéticas;
- eneassílabo: 9 sílabas poéticas;
- decassílabo: 10 sílabas poéticas;
- endecassílabo: 11 sílabas poéticas;
- alexandrino: 12 sílabas poéticas.
O que é metrificação?
A metrificação é o ato de metrificar versos, ou seja, de colocar os versos com certa medida. Assim, quando a poetisa ou o poeta está escrevendo o poema, pode-se metrificá-lo: colocar determinada quantidade de sílabas poéticas em cada verso. É, portanto, um ato racional, calculado, do artista da poesia.
Isso tem a ver com o ritmo do poema. Se ele é metrificado, quando o lemos em voz alta, podemos perceber certa cadência se todos os versos têm o mesmo tamanho.
Veja só a seguinte estrofe de um soneto de Luís Vaz de Camões, o grande poeta português. Vou separar as sílabas poéticas com uma barra:
Ah!/ mi/nha/ Di/na/me/ne! A/ssi/ dei/xas/te
quem/ não/ dei/xa/ra/ nun/ca/ de/ que/rer-/te?
Ah!/ Nin/fa/ mi/nha!/ Já/ não/ pos/so/ ver-/te,
tão/ a/si/nha es/ta/ vi/da/ des/pre/zas/te!
Pois é, cada verso tem 10 sílabas poéticas. Eles são metrificados, o que dá certo ritmo à leitura.
Você deve estar se perguntando por que eu, em duas ocasiões, considerei duas sílabas como se fosse uma. A regra é: quando a palavra acaba com vogal átona e a próxima tem início com vogal (ou som de vogal, em sílaba iniciada com “h”), juntamos as sílabas. Veja:
Ah!/ mi/nha/ Di/na/me/ne! A/ssi/ dei/xas/te
quem/ não/ dei/xa/ra/ nun/ca/ de/ que/rer-/te?
Ah!/ Nin/fa/ mi/nha!/ Já/ não/ pos/so/ ver-/te,
tão/ a/si/nha es/ta/ vi/da/ des/pre/zas/te!
Isso acontece só quando o fim da primeira palavra apresentar vogal átona. Se a vogal for tônica, não juntamos. Veja:
Ah!/ mi/nha/ Di/na/me/ne! A/ssi/ dei/xas/te
quem/ não/ dei/xa/ra/ nun/ca/ de/ que/rer-/te?
Ah!/ Nin/fa/ mi/nha!/ Já/ não/ pos/so/ ver-/te,
tão/ a/si/nha es/ta/ vi/da/ des/pre/zas/te!
Além disso, contamos as sílabas até a última sílaba tônica do verso:
Ah!/ mi/nha/ Di/na/me/ne! A/ssi/ dei/xas/te
quem/ não/ dei/xa/ra/ nun/ca/ de/ que/rer-/te?
Ah!/ Nin/fa/ mi/nha!/ Já/ não/ pos/so/ver-/te,
tão a/si/nha/ es/ta/ vi/da/ des/pre/zas/te!
Metrificação e escansão
Metrificação é o ato de metrificar versos, colocando-os com o mesmo número de sílabas poéticas, e escansão é a contagem das sílabas poéticas dos versos de um poema metrificado.
Sabe isso que eu fiz no tópico acima? Eu separei as sílabas poéticas do verso, não separei? Isso é chamado de escansão, ou seja, o ato de contar as sílabas de um verso. Portanto, poetas e poetisas metrificam os versos. Nós, leitoras e leitores, escandimos esses versos. Ficou claro?
Vou retomar mais uma vez a estrofe do soneto de Camões:
Ah! minha Dinamene! Assi deixaste
quem não deixara nunca de querer-te?
Ah! Ninfa minha! Já não posso ver-te,
tão asinha esta vida desprezaste!
Quem metrificou essa estrofe foi Camões. O poeta, ao compor seu soneto, decidiu que cada verso devia ter 10 sílabas poéticas. Imagine o trabalho que ele teve. Deve ter reescrito cada verso um milhão de vezes até conseguir a medida exata sem comprometer o sentido do poema.
Aí depois falam para você que a arte é fruto de inspiração. Que Camões era genial, ninguém discute. O que alguns parecem esquecer é que ele trabalhou bastante até finalizar o poema. Sua poesia não caiu do céu, foi fruto de muito esforço do poeta. E seu esforço não se compara com o meu ao escandir essa estrofe, pois fiz a escansão rapidinho:
Ah!/ mi/nha/ Di/na/me/ne! A/ssi/ dei/xas/te
quem/ não/ dei/xa/ra/ nun/ca/ de/ que/rer-/te?
Ah!/ Nin/fa/ mi/nha!/ Já/ não/ pos/so/ ver-/te,
tão a/si/nha/ es/ta/ vi/da/ des/pre/zas/te!
Porém, estamos falando de arte, e arte é sinônimo de liberdade. O poeta ou a poetisa pode contrariar essa regra e não unir as sílabas. Você percebe isso ao fazer a escansão: nota que todos os versos têm 12 sílabas, mas um deles está com 11. Então, se você separar as sílabas que você uniu, terá 12.
Você entendeu, não é? Quem metrifica é a poetisa ou o poeta. Quem faz a escansão somos nós, leitores e leitoras.
Recursos da metrificação
→ Metaplasmo
Alteração fonética (relativa ao som) ou ortográfica em determinada palavra. Isso pode alterar o número de sílabas ou a sonoridade. Veja só este verso de Camões: “Quantas vezes do fuso s’esquecia”.
→ Sinalefa
Quando, na contagem de sílabas, unimos uma sílaba com a outra no encontro entre vogais de palavras diferentes: “tão/ a/si/nha es/ta/ vi/da/ des/pre/zas/te!”. Porém, o poeta poderia ter escolhido não unir as sílabas (o nome disso é “dialefa”): “tão/ a/si/nha/ es/ta/ vi/da/ des/pre/zas/te!”. Nesse caso, o verso teria 11 sílabas poéticas e não seria regular. Portanto, o recurso da dialefa só deve ser usado para manter a regularidade métrica.
→ Sinérese
Quando o poeta ou a poetisa transforma um hiato (encontro de duas vogais) em ditongo crescente (encontro de semivogal com vogal). Veja a contagem do seguinte verso decassílabo de Camões, sem a sinérese: “Di/zei,/ Se/nho/ra,/ da/ Be/le/za i/dei/a”. Percebeu? Há 11 sílabas poéticas, já que “ideia” é paroxítona (i-dei-a). Então, Camões juntou o “ia”, de forma que temos 10 sílabas: “Di/zei,/ Se/nho/ra,/ da/ Be/le/za i/deia”.
→ Diérese
Quando a poetisa ou o poeta transforma um ditongo em hiato. Observe a contagem do seguinte verso decassílabo de Camões, sem diérese: “de/ vos/sos/ o/lhos,/ mi/nha/ sau/da/de”. Há 9 sílabas poéticas, pois a primeira sílaba de “saudade” possui o ditongo “au”. Então, Camões separou o ditongo, de forma que temos 10 sílabas: “de/ vos/sos/ o/lhos,/ mi/nha/ sa/ü/da/de”. Aliás, o trema sobre o “u” indica que ele fica sozinho na sílaba.
→ Cavalgamento ou enjambement
Quando o poeta interrompe o sentido do enunciado em um verso e completa o sentido no próximo verso:
Ah! minha Dinamene! Assi deixaste
quem não deixara nunca de querer-te?
Ah! Ninfa minha! Já não posso ver-te,
tão asinha esta vida desprezaste!
→ Cesura
É uma pausa no interior do verso ou uma divisão do verso ao meio. Isso forma os hemistíquios (as duas partes da divisão). Não há uma marcação no verso que indique a cesura, ela é uma pausa rítmica durante a leitura, principalmente na leitura em voz alta:
Ah! minha Dinamene! || Assi deixaste
quem não deixara || nunca de querer-te?
Ah! Ninfa minha! || Já não posso ver-te,
tão asinha esta vida || desprezaste!
→ Regra da última tônica
Na metrificação do poema, devemos considerar como número de sílabas poéticas até a última sílaba tônica: “quem/ não/ dei/xa/ra/ nun/ca/ de/ que/rer-/te?”. Assim, “querer” é uma oxítona, de forma que “rer” é a sílaba tônica. Já o pronome “te” é átono e, por isso, não entra na contagem.
Confira também: Qual a diferença entre poesia, poema e prosa?
Classificação dos versos
Os versos podem ser regulares (com metrificação e rimas), brancos (com metrificação e sem rimas) ou livres (sem metrificação e sem rimas). Assim, quando metrificados, os versos são classificados da seguinte maneira:
- monossílabos: 1 sílaba poética;
- dissílabos: 2 sílabas poéticas;
- trissílabos: 3 sílabas poéticas;
- tetrassílabos: 4 sílabas poéticas;
- pentassílabos (redondilhas menores): 5 sílabas poéticas;
- hexassílabos: 6 sílabas poéticas;
- heptassílabos (redondilhas maiores): 7 sílabas poéticas;
- octossílabos: 8 sílabas poéticas;
- eneassílabos: 9 sílabas poéticas;
- decassílabos: 10 sílabas poéticas;
- endecassílabos: 11 sílabas poéticas;
- dodecassílabos (alexandrinos): 12 sílabas poéticas.
Versos com mais de 12 sílabas podem existir, mas são raros, isto é, ocorrem raramente.
Exemplo de metrificação
Agora que você já sabe o que é a metrificação, vamos conferir a metrificação do poema Os argonautas, da escritora brasileira Francisca Júlia:
Mar/ fo/ra, ei-/los/ que/ vão/ chei/os/ de ar/dor/ in/sa/no.
Os/ as/tros/ e o/ lu/ar/ — a/mi/gas/ sen/ti/ne/las —
Lan/çam/ bên/çãos/ de/ ci/ma às/ lar/gas/ ca/ra/ve/las
Que/ ras/gam/ for/te/men/te a/ vas/ti/dão/ do o/cea/no.
Ei-/los/ que/ vão/ bus/car/ nou/tras/ pa/ra/gens/ be/las
In/fin/dos/ ca/be/dais/ de al/gum/ te/sou/ro ar/ca/no...
E o/ ven/to aus/tral/ que/ pas/sa em/ có/le/ras,/ u/fa/no,
Faz/ pal/pi/tar/ o/ bo/jo às/ re/te/sa/das/ ve/las.
No/vos/ céus/ que/rem/ ver,/ mi/rí/fi/cas/ be/le/zas;
Que/rem/ tam/bém/ pos/suir/ te/sou/ros/ e/ ri/que/zas
Co/mo es/sas/ naus/ que/ têm/ ga/lhar/de/tes/ e/ mas/tros...
A/tei/am-/lhes/ a/ fe/bre es/sas/ mi/nas/ su/pos/tas...
E, o/lhos/ fi/tos/ no/ vá/cuo, im/plo/ram,/ de/ mãos/ pos/tas,
A áu/rea/ ben/ção/ dos/ céus/ e a/ pro/te/ção/ dos/ as/tros...
Esse é um soneto com versos regulares, todos alexandrinos (12 sílabas poéticas). Dois desses versos merecem comentários. Vejamos o quarto verso da primeira estrofe: “Que/ ras/gam/ for/te/men/te a/ vas/ti/dão/do o/ce/a/no”. A princípio, ele apresenta 13 sílabas poéticas.
Para manter a regularidade métrica, ou seja, 12 sílabas poéticas, a poetisa recorreu à sinérese, transformando o hiato “e-a” em ditongo crescente “ea”: “Que/ ras/gam/ for/te/men/te a/ vas/ti/dão/ do o/cea/no”. Nesse caso, o som de “e” torna-se som de “i” na leitura em voz alta do poema.
O segundo verso da terceira estrofe, a princípio, também possui 13 sílabas poéticas: “Que/rem/ tam/bém/ pos/su/ir/ te/sou/ros/ e/ ri/que/zas”. Porém, se analisamos bem, percebemos que a poetisa usou novamente o recurso da sinérese, transformando o hiato de “pos-su-ir” em ditongo crescente: “pos-suir”. Assim, temos: “Que/rem/ tam/bém/ pos/suir/ te/sou/ros/ e/ ri/que/zas”. Está feita a mágica! Temos, enfim, um alexandrino.
Exercícios resolvidos sobre metrificação
Questão 1
Canção do exílio
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas tem mais flores,
Nossos bosques tem mais vida,
Nossa vida mais amores.
Em cismar — sozinho — à noite —
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar — sozinho — à noite —
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que eu desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Gonçalves Dias.
O famoso poema romântico Canção do exílio apresenta o seguinte tipo de verso em sua metrificação:
A) redondilha menor.
B) hexassílabo.
C) redondilha maior.
D) decassílabo.
E) alexandrino.
Resolução:
Alternativa C.
O poema apresenta redondilha maior (verso com 7 sílabas poéticas): “Mi/nha/ ter/ra/ tem/ pal/mei/ras”, “On/de/ can/ta o/ Sa/bi/á”, “Nos/sas/ vár/zeas/ tem/ mais/ flo/res” etc.
Questão 2
Marque V (verdadeiro) ou F (falso) para as seguintes afirmações:
( ) Na metrificação de um verso, o poeta deve finalizar a contagem de sílabas na última sílaba tônica.
( ) A sinalefa é um recurso de metrificação que consiste em transformar um hiato em ditongo.
( ) Um verso alexandrino é aquele que, em sua metrificação, apresenta 12 sílabas poéticas.
A sequência correta é:
A) V, V, F.
B) F, F, V.
C) V, F, F.
D) V, F, V.
E) F, V, F.
Resolução:
Alternativa D.
A sinalefa é a união de uma sílaba com outra no encontro entre vogais de palavras diferentes.
Fontes
ALI, Manoel Said. Versificação portuguesa. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1999.
ARAÚJO, Humberto Alves de. X. de Castro, o artista dos cromos: o romântico que foi o maior poeta realista do Ceará. 2008. Dissertação (Mestrado em Literatura) – Centro de Humanidades, Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, 2008.
BECHARA, Evanildo. Moderna gramática portuguesa. 40. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2024.
CAMÕES, Luís Vaz de. Sonetos. Disponível em: https://dominiopublico.mec.gov.br/download/texto/bv000164.pdf.
GOLDSTEIN, Norma. Versos, sons, ritmos. 14. ed. São Paulo: Ática, 2006.
GONÇALVES DIAS. Primeiros cantos. Rio de Janeiro: Eduardo e Henrique Laemmert, 1846.
SILVA, Francisca Júlia da. Mármores. Brasília: Senado Federal, 2020.
VICIANO, Vicente Masip. Metaplasmos: uma proposta didática. Via Litterae, Anápolis, v. 6, n. 1, p. 15-39, jan./jun. 2014.