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Padre Cícero

História do Brasil

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Padre Cícero foi uma importante figura religiosa que atuou no vale do Cariri, no sul do estado do Ceará. Ele viu sua vida religiosa se transformar quando, supostamente, presenciou um milagre na realização da Eucaristia em Juazeiro. Também se transformou em uma importante liderança política naquela região.

A notícia do milagre, que teria acontecido durante uma missa, fez Juazeiro atrair peregrinos de todas as partes do Nordeste, e padre Cícero se tornou em uma figura de devoção popular. A Igreja Católica não reconheceu o milagre e excomungou o padre, sendo que sua reabilitação só foi anunciada em 2015.

Leia mais: Revolta de Juazeiro – movimento que teve padre Cícero Romão como um de suas lideranças

Nascimento e juventude

Padre Cícero nasceu em Crato, mas foi em Juazeiro que ele se tornou uma das figuras religiosas e políticas mais importantes do Ceará.
Padre Cícero nasceu em Crato, mas foi em Juazeiro que ele se tornou uma das figuras religiosas e políticas mais importantes do Ceará.

Cícero Romão Batista, marcado na história brasileira como padre Cícero, nasceu no dia 24 de março de 1844, na cidade de Crato, no Ceará. Muitos afirmam que ele nasceu no dia 23 de março, mas não existem evidências disso. Ele era filho de Joaquim Romão Batista e Joaquina Vicência Romana, também conhecida como dona Quinô.

Seu pai era um pequeno comerciante em Crato. Da sua lojinha, Joaquim sustentava sua família, que se completava, ainda, com as filhas Maria Angélica, mais velha, e Angélica Vicência, mais nova. Cícero teve uma infância simples, mas, ainda assim, ele teve acesso aos estudos.

Ele recebeu educação formal por meio de um tutor, depois se matriculou em uma escola régia, e, por fim, foi enviado para uma escola no sertão da Paraíba. Seus estudos foram interrompidos com a notícia do falecimento de seu pai, quando ele tinha 18 anos de idade. Retornando para Crato, ele, além de lidar com a morte do pai, teve de lidar com a notícia da falência do comércio que sustentava a família.

A historiadora Jacqueline Hermann aponta o fato de que os relatos da vida de Cícero já mostram que, desde pequeno, ele possuía forte ligação com certo misticismo, anunciando que tinha visões e revelações|1|. Foi supostamente em um desses acessos místicos que Cícero teve uma visão de seu pai anunciando que a família não passaria por dificuldades.

Isso de fato aconteceu porque seu padrinho, o coronel Antônio Luiz Alves Pequeno, socorreu a família de seu afilhado no momento de maior necessidade. O coronel, que era um homem riquíssimo, decidiu financiar os estudos de Cícero em Cajazeiras (Paraíba), e depois pagou por seus estudos no Seminário de Prainha, em Fortaleza.

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Vida religiosa

No cursinho, Cícero encontrou grandes diferenças entre a religiosidade de Fortaleza e a do vale do Cariri (onde fica a cidade de Crato). Isso se deveu ao fato de que o interior do Ceará sofria com a pouca presença de autoridades eclesiásticas, sobretudo pelo fato de que essas autoridades não estavam dispostas a visitar tais regiões.

O jornalista Lira Neto aponta que essa situação criou um problema do ponto de vista do controle realizado pela Santa Sé. Ele afirma que esse “vácuo [de presença das autoridades católicas] deu origem a uma religiosidade espontânea no meio do povo, um misticismo rico em manifestações, mas pouco afeito ao controle e aos rituais da Igreja oficial”.|2|

Em sua formação como padre, Cícero encontrou um ensino rígido no seminário de Fortaleza. Lá, ele não era considerado um dos melhores alunos, sobretudo nas disciplinas de oratória e canto gregoriano. Além disso, teve problemas com o reitor do seminário, que não concordava com suas opiniões místicas.

O reitor do seminário, o francês Pierre-Auguste Chevalier, chegou a sugerir que Cícero não fosse ordenado padre, mas o bispo do Ceará, dom Luis Antônio dos Santos, decidiu ir contra essa recomendação e ordenou Cícero Romão padre no dia 30 de novembro de 1870. Conhecido como padre Cícero agora, ele decidiu retornar para Crato depois de sua ordenação.

Em 1871, padre Cícero foi convidado para celebrar uma missa em Juazeiro, povoado vizinho a Crato. Lá, ele supostamente teve um sonho, interpretado como uma mensagem divina para que ele ficasse no povoado e cuidasse de suas questões religiosas. Padre Cícero recebeu um convite para permanecer no povoado em abril de 1872. No mesmo ano, ele se tornou o capelão da Capela de Nossa Senhora das Dores.

  • Milagre

A vida de padre Cícero mudou radicalmente quando ele tinha 45 anos. Em março de 1889, durante uma missa, supostamente um milagre aconteceu, quando Maria de Araújo, uma lavadeira de 28 anos, viu sua hóstia tornar-se vermelha como o sangue. O milagre seguiu ocorrendo em outras missas, até que o reitor do seminário de Crato anunciou para os fiéis que a hóstia de Maria de Araújo tinha sido tingida pelo sangue do próprio Jesus Cristo.

O caso virou notícia na imprensa, sobretudo porque anunciava que o suposto milagre eucarístico (relativo à Eucaristia) repetia-se. O acontecido acabou forçando as autoridades da Igreja Católica a investigarem o que acontecia no vale do Cariri. O bispo do Ceará, dom Joaquim José Vieira, por sua vez, recusava-se a aceitar os acontecidos em Juazeiro e anunciou que a transformação da hóstia pelo sangue de Jesus Cristo era falsa.

Padre Cícero insistiu para que a diocese de Fortaleza enviasse uma comissão, a fim de investigar os supostos milagres que aconteciam no Cariri. A comissão foi enviada para a região em 1891 e foi formada por Clycério da Costa, Francisco Ferreira Antero, ambos padres, e também por dois médicos, Marcos Rodrigues Madeira e Ildefonso Correia Lima.

Tanto os médicos quanto os padres concluíram que não havia explicação natural para a transformação da hóstia em sangue, o que fazia do acontecido um milagre. O bispo ordenou que uma segunda comissão investigasse o caso, e foi concluído que o evento era uma farsa. Bispo dom Joaquim optou por favorecer a segunda comissão.

Essa situação deixou padre Cícero sem apoio da Igreja Católica. Ele lutou durante toda a sua vida pelo reconhecimento do milagre, mas a Igreja da época não o reconheceu, pois os supostos milagres eucarísticos não se adequavam à teologia católica do período. Apesar do não reconhecimento da Igreja Católica, os milagres de Juazeiro atraíram uma multidão de fiéis para a cidade, transformando-a num local de peregrinação.

A insistência de padre Cícero em defender os milagres fez com que a Igreja Católica o punisse. Em 1892, ele foi proibido de pregar, celebrar missas e de se confessar, e, em 1894, uma ordem vinda de Roma anunciou que os acontecidos em Juazeiro não seriam considerados milagres. A Igreja também anunciou que peregrinações para a cidade estavam proibidas.

Leia mais: Influências da Igreja Católica no Brasil

Padre Cícero como figura de devoção

A decisão da Igreja Católica só reforçou as diferenças que existiam entre a religiosidade popular no interior do Brasil e o que era celebrado pelas autoridades eclesiásticas. Apesar das decisões da Igreja contra o milagre, as peregrinações e padre Cícero, nada mudou na crença popular. As pessoas continuaram peregrinando para o vale do Cariri, tornando a região muito relevante.

Padre Cícero, por sua vez, mesmo punido pela Igreja, tornou-se uma personalidade local bastante relevante, transformando-se em figura de veneração popular e conquistando enorme capital político no Cariri. O resultado disso foi que ele se consolidou com uma liderança no povoado de Juazeiro.

A devoção em Juazeiro fortaleceu a peregrinação de pessoas para o Cariri e permitiu o surgimento de quatro irmandades no local. O crescimento das irmandades, sobretudo da Legião da Cruz, fez com que a mensagem do padre Cícero se fortalecesse, garantindo mais fiéis e financiamento para a igreja liderada por ele em Juazeiro.

Assim, como definiu Jacqueline Hermann, “quanto mais se via repudiado pela Igreja, mais aumentava o prestígio do Patriarca de Juazeiro”.|3| O termo “patriarca” se refere ao fato de que  padre Cícero ocupava uma posição de autoridade tanto religiosa quanto política em Juazeiro. Sua popularidade se expressou pela própria irmandade Legião de Cristo, que teve 10 mil adeptos.

Enquanto liderança política, padre Cícero se aliou a outros nomes da política local e defendeu a emancipação do povoado de Juazeiro. Em 1911, a emancipação de Juazeiro foi reconhecida politicamente, e a cidade se desligou de Crato. Depois disso, padre Cícero foi eleito primeiro prefeito de Juazeiro. O nome atual da cidade (Juazeiro do Norte) só foi adotado na década de 1940.

Padre Cícero, ainda, articulou um pacto entre os coronéis da região. Esse acordo, assinado em 4 de outubro de 1911 e conhecido como “pacto dos coronéis”, foi um acordo político no qual os coronéis da região do vale do Cariri se comprometiam a pôr fim nas suas desavenças para apoiar o governo do Ceará e o chefe da oligarquia desse estado, Antônio Pinto Nogueira Accioly. Muitos falam também que padre Cícero teria tido laços com membros do cangaço.

Morte

Capela de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em Juazeiro do Norte, onde foram enterrados os restos mortais de padre Cícero.
Capela de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em Juazeiro do Norte, onde foram enterrados os restos mortais de padre Cícero.

O poder político de padre Cícero declinou a partir da década de 1920, bem como a sua saúde. A Revolução de 1930 marcou o fim de qualquer influência política do padre em Juazeiro e no Ceará. Com a idade bastante avançada, restou a ele aceitar os novos tempos, principalmente porque sua saúde já não era a mesma.

Os últimos anos de padre Cícero foram marcados pela ocorrência de uma catarata que o deixou cego do olho esquerdo e com visão mínima do olho direito. O padre, ainda, passou por uma cirurgia para tentar recuperar sua visão, mas não obteve sucesso nisso. Também teve nefrite e graves problemas intestinais.

Seus últimos meses foram de grande agonia por conta do seu estado de saúde, e seu falecimento aconteceu no dia 20 de julho de 1934. Padre Cícero lutou por toda a vida pelo reconhecimento do milagre de Juazeiro e por sua reabilitação, mas não viveu para ver isso acontecer.

A reabilitação do “padim Ciço”, como é popularmente conhecido, só aconteceu no dia 13 de dezembro de 2015, depois de nove anos de trabalho de uma comitiva da Igreja Católica criada para estudar a vida do padre brasileiro.

Notas

|1| HERMANN, Jacqueline. Religião e política no alvorecer da república: os movimentos de Juazeiro, Canudos e Contestado. In.: FERREIRA, Jorge e DELGADO, Lucília de Almeida Neves. O Brasil republicano: o tempo do liberalismo oligárquico: da proclamação da república à Revolução de 1930 – Primeira República (1889-1930). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018,  p. 117.

|2| NETO, Lira. Padre Cícero: poder, fé e guerra no sertão (Locais do Kindle 395-396). Companhia das Letras. Edição do Kindle.

|3| Idem nota 1, página 123.

Créditos das imagens:

[1] Cacio Murilo e Shutterstock

[2] Landisvalth Lima e Shutterstock

 

Por Daniel Neves
Professor de História

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SILVA, Daniel Neves. "Padre Cícero"; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/historiab/padre-cicero.htm. Acesso em 18 de junho de 2021.

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