Sonho americano (American Dream)

O sonho americano foi um conceito divulgado pelo governo dos Estados Unidos para disseminar a premissa de que seria possível ascender socialmente por meio do trabalho árduo.

O sonho americano, ou american dream, é um conceito disseminado pelo governo dos Estados Unidos a partir da primeira metade do século XX. Teoricamente, esse conceito propunha que todos os cidadãos do país teriam oportunidades idênticas de ascensão social e enriquecimento, desde que se comprometessem com o trabalho árduo e honesto. No entanto, essa premissa omitia os obstáculos dos diferentes grupos sociais do país e seus imigrantes em potencial, refletidos em suas diversas raças, gêneros, descendências, religiões, entre outros. As origens do sonho americano remontam ao processo de colonização britânica sobre a América, iniciado no século XVII.

Leia também: American way of life outra poderosa ideologia do governo dos Estados Unidos

Tópicos deste artigo

Resumo sobre sonho americano

  • O “sonho americano” foi um conceito elaborado pelo governo dos Estados Unidos e disseminado na primeira metade do século XX.
  • Propagava a ideia de enriquecimento por meio do trabalho, independentemente das origens do cidadão ou imigrante.
  • Refletia valores de prosperidade e riqueza em um contexto crítico da economia liberal norte-americana, devido à Crise de 1929.
  • Suas origens remetem ao puritanismo inglês, que era praticado por grande parte dos colonos que chegavam na América do Norte, entre os séculos XVII e XVIII.
  • Com a fundação dos Estados Unidos no século XVIII, o fundamento de enriquecimento por meio do trabalho se tornou sinônimo da liberdade econômica proposta pelo país.
  • Na prática, o sonho americano evidenciou os problemas da estrutura social estadunidense, demonstrando a desigualdade da sociedade perante raça, gênero, descendência etc.
  • O american dream se tornou veículo propagandístico complementar ao american way of life para se contrapor aos valores socialistas propagados pela União Soviética na Guerra Fria.
  • As frustrações decorrentes do sonho americano resultaram em diversas representações da indústria cultural, oriundas principalmente de Hollywood.

O que é o sonho americano?

“Bem-vindo à terra da liberdade”, anuncia a gravura de 1887 para imigrantes europeus.

O chamado “sonho americano” (american dream), disseminado pelo governo dos Estados Unidos a seus cidadãos inicialmente na primeira metade do século XX, tratava-se da promessa meritocrática de prosperidade e ascensão social adquiridos por meio do trabalho honesto, justo e assíduo. Essas conquistas, teoricamente, seriam igualmente alcançadas por qualquer cidadão estadunidense, independentemente de sua origem.

Na prática, porém, características de igualdade do “sonho americano” não expunham as divergências estruturais refletidas na pluralidade de raças, gêneros, religiões, descendências, entre outros. Pelo contrário, mostrou-se uma ferramenta de propaganda política utilizada para angariar apoio popular perante o sistema econômico liberalista do país, beneficiando apenas grupos que já possuíam poder financeiro e aumentando a estratificação social de sua população.

O que o sonho americano representa?

O sonho americano representa os valores fundamentais da estrutura sociopolítica estadunidense, ou seja, a ideia de que o país representa o maior símbolo de prosperidade em toda a América graças às ofertas de sua economia liberal. Em outras palavras, representa a identidade de uma nação que oferece oportunidade de riquezas a todos os que se submetem ao trabalho árduo e se comprometem a ser honestos, cumprindo suas funções cívicas e obedecendo às suas leis.

Veja também: Como aconteceu a independência dos Estados Unidos da América

Quando surgiu o sonho americano?

Apesar de o sonho americano ter se propagado principalmente no início do século XX, as suas raízes remontam ao período de invasão colonial britânica sobre a América, durante a sua ocupação em solo norte-americano, iniciada no século XVII.

Naquele contexto, a ocupação da colônia chamada de “Nova Inglaterra” — mais tarde, de Treze Colônias, e doravante, de Estados Unidos — foi fortemente exercida por religiosos protestantes que buscavam fugir da influência religiosa propagada por uma ala dissidente de anglicanos (da Inglaterra).

Os puritanos eram como uma vertente reformista inglesa do calvinismo, mas desde a fundação da Igreja Anglicana pelo rei Henrique VIII, o seu grupo passou a contestar cada vez mais a forma como o Estado mantinha relações com os costumes do catolicismo. Por isso, os puritanos migraram para a América, instigados a fundar uma nova nação longe dos preceitos impostos pelas Igrejas tanto anglicana, quanto católica.

Essa nova nação, futuro Estados Unidos, seria fundamentada por valores calvinistas radicalizados. Sua principal característica era a crença na predestinação, ou seja, a ideia de que as almas, no nascimento, já eram destinadas a irem para o céu, ou para o inferno. A insegurança dos calvinistas perante o seu destino só poderia ser aliviada de uma forma: o exercício do trabalho como vocação. Na concepção puritana, a conquista de riquezas por meio do trabalho honesto era sinal de que Deus estaria impelido a demonstrar que o indivíduo havia sido predestinado a ir para o céu após a morte.

Os puritanos acreditavam que a riqueza obtida por meio do trabalho honesto era um sinal divino da predestinação.

Essa ideia de riqueza por meio do trabalho foi adaptada para atender aos interesses econômicos dos Estados Unidos da América quando de sua declaração de independência sobre o Reino Unido, em 1776, e serviu de pretexto para atrair não qualquer tipo de imigrante, mas os comprometidos com o trabalho incansável, principalmente vindos da Europa. Com a declaração de independência, foram atribuídos aos cidadãos conceitos iluministas baseados no trabalho, na liberdade e na busca pela felicidade.

Desde a fundação dos Estados norte-americanos, as ex-colônias que pertenciam ao Sul do país continuaram utilizando o trabalho escravo, além de o país, como um todo, ter financiado programas de expansão sobre o Oeste, e consequentemente, a eliminação de povos indígenas. Na prática, a ideia de “sonho americano” estava se expandindo, mas ela não valia para africanos, indígenas e seus descendentes. Com o advento do século XIX, teorias pseudocientíficas como a eugenia, o determinismo e o etnocentrismo tornaram o “sonho americano” um convite ainda mais exclusivo aos imigrantes europeus.

No século XX, após a subsequente Crise de 1929, que resultou principalmente da superprodução e da concentração de renda (fenômenos possíveis em Estados capitalistas liberais), os EUA passaram por um colapso identitário que permeou dúvidas acerca de seu modelo econômico. No decorrer da década de 1930, a fim de reverter a impressão negativa, o governo passou a adotar novas medidas que soassem atraentes tanto para os seus cidadãos, quanto para os estrangeiros; a principal delas foi o New Deal, que previa a intensa intervenção do Estado sobre a economia para evitar novas crises.

Em meio à crise, populares fazem fila para receber comida em Chicago, em uma cozinha inaugurada pelo mafioso Al Capone.

Nessa política econômica, adotada pelo presidente Franklin D. Roosevelt, foi mencionada a importância do “sonho americano” como sinônimo de fé na reascensão da prosperidade estadunidense, desde que todos se concentrassem em colaborar com a nação. Como consequência, todos, sem discriminação, teriam oportunidades de ascender socialmente.

O american dream, conceito cunhado pelo historiador norte-americano James Truslow no livro The Epic of America (algo como “A epopeia da América”) em 1931, foi rapidamente difundido por meios midiáticos como rádio, televisão e jornais; no entanto, o “sonho americano” se tornou parte do imaginário popular graças à indústria cultural. Filmes, novelas e mesmo músicas passaram a transmitir a ideia de que era possível enriquecer, nos Estados Unidos, mesmo que a pessoa comprometida “viesse de baixo” na pirâmide social.

Com o advento da Guerra Fria, em meados da década de 1940, o modelo de american dream serviu de propaganda política pró-capitalista para se opor ao modelo socialista soviético. Nesse contexto, o american dream se aliou a outro conceito ideológico poderoso do governo norte-americano: o american way of life, ou “estilo de vida americano”, que previa um meio de vida consumista, confortável e economicamente seguro para os seus cidadãos da classe média urbana.

Por que o sonho americano é atrativo?

O sonho americano é atrativo porque se apropria do conceito de meritocracia. Na teoria, a premissa da meritocracia oferece ascensão social a todos os que se comprometerem com o trabalho, sem importar as suas origens; ou seja, qualquer pessoa poderia enriquecer, mesmo que iniciasse seu trabalho “do zero”. Além disso, o sonho americano propunha o individualismo e o direito de aquisição a riquezas, bens de consumo e propriedades individuais, devido aos valores liberalistas de não intervenção do Estado na economia.

Críticas ao sonho americano

O sonho americano, apesar de se basear em conceitos otimistas de ascensão social, funcionava de maneira diferente, na prática. O fundamento de igualdade, independentemente das origens, ignorava as diversas nuances de aspectos raciais, de gênero, religiosos, entre outros, ao mesmo tempo em que sugeria que o fracasso financeiro individual seria resultado da falta de esforço do indivíduo, e não do sistema econômico vigente. Atualmente, centenas de milhares de pessoas moram nas ruas, nos EUA. De acordo com o “sonho americano”, o motivo seria da falta de esforço desses cidadãos, que teriam as mesmas oportunidades dos demais.

O fracasso financeiro seria resultado da falta de esforço do indivíduo, de acordo com a ideologia do sonho americano.[1]

Além disso, o sonho americano fomenta a ideia de que a felicidade só provém da riqueza, do consumo e dos bens materiais; e, no contexto em que foi disseminado, o custo de vida no país norte-americano era extremamente elevado, principalmente em decorrência da Crise de 1929, dificultando a ascensão social para as gerações que vieram após o colapso econômico. Não coincidentemente, os níveis de criminalidade aumentaram no país, provenientes em grande parte de cidadãos frustrados com as perspectivas do sonho americano.

Saiba mais: Como está a imigração nos Estados Unidos atualmente?

Séries e filmes sobre o sonho americano

O sonho americano se tornou um dos temas mais explorados pela indústria cultural, representado em grande parte pelo cinema hollywoodiano, nem sempre de forma direta, mas contextualizado em situações de desilusão e confronto ao american dream. Confira nossas recomendações:

  • Boardwalk Empire (série, 2010-2014): a série da HBO retrata a ascensão dos chefões do crime no leste dos Estados Unidos, entre o fictício “Nucky” Thompson (baseado no personagem real “Nucky” Johnson) e os historicamente reconhecidos “Lucky” Luciano e Al Capone. Os diversos personagens, em grande parte imigrantes, confrontam suas frustrações em relação ao sonho americano se rendendo a carreiras criminosas.
  • Breaking Bad (série, 2008-2013): a premiada série norte-americana narra a história de um professor de química diagnosticado com câncer. No entanto, o seu modo de vida como cidadão honesto e regrado da classe média não é o suficiente para pagar as despesas do tratamento, assim, ele é seduzido e entra no mundo do crime como um dos melhores fabricantes de metanfetamina do país.
  • O Poderoso Chefão – Parte II (filme, 1974): a sequência da adaptação do livro de Mario Puzo demonstra como a promessa por um “sonho americano”, para a comunidade italiana de Nova York, mostrou-se ilusória e estimulou o crescimento do crime organizado no país, apresentando flashbacks da difícil vida que Vito Corleone enfrentou após desembarcar nos Estados Unidos.
  • Cidadão Kane (filme, 1941): o queridinho cult dos cinéfilos foi lançado como crítica quase imediata ao modelo do american dream. O protagonista, Kane, é o produto ideal do sonho americano, mas a construção do personagem é obscura e corrompida. No decorrer da obra, a perda de humanidade do personagem, em decorrência do acúmulo de poder, é cada vez mais perceptível.
  • O Grande Gatsby (filme, 2013): adaptação da obra literária homônima de F. Scott Fitzgerald (1925), o filme protagonizado por Leonardo DiCaprio se passa na fase dos “loucos anos” da década de 1920. Gatsby é um bilionário que representa o produto bem-sucedido do sonho americano, mas que dissimula a sua estrutura moral dúbia e seu envolvimento com uma vida criminosa. Os personagens secundários servem para ilustrar os contrastes de riqueza da sociedade norte-americana e suas futilidades.
  • Scarface (filme, 1983): o cubano Tony Montana, interpretado por Al Pacino, descontente com o governo de Fidel Castro, migrou para os Estados Unidos iludido com o sonho americano. No entanto, sua ascensão social só foi possível com o envolvimento no narcotráfico, que lhe proporcionou riqueza material, mas trouxe graves consequências.
  • O Sol é para todos (filme, 1960): o filme adaptado do romance de Harper Lee, lançado no mesmo ano, desconstrói a premissa do sonho americano. Um homem negro, Tom Robinson, é injustamente acusado de estuprar uma mulher branca, e seu advogado, Atticus Finch, crê no sistema para absolver seu cliente, independentemente de sua cor. O desenvolvimento da trama, no entanto, mostra as falhas da justiça igualitária e os sintomas do racismo estrutural.

Créditos da imagem

[1] eddtoro/ Shutterstock

Fontes

BARBOSA, Kelly de S.; COELHO, Nuno M. M. dos S. A questão étnico-social do sonho americano: o encarceramento dos pobres e negros no Estado policial. Revista Brasileira de Segurança Pública. São Paulo: RIBSP, v.11, n.1, p.164-182, 2017.

COMMAGER, Henry S. The American Mind. New Haven: Yale University Press, 1964.

CULLEN, Jim. The American Dream: A Short History of an Idea That Shaped a Nation. Oxford: Oxford University Press, 2004.

SCHNEIDER, Steven J. (org.) 1001 filmes para ver antes de morrer. Rio de Janeiro: Sextante, 2013.

SENNETT, Richard. A cultura do novo capitalismo. Rio de Janeiro: Record, 2006.

WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Martin Claret, 2013.

Placa com a expressão “the american dream”, o sonho americano, sobre bandeira dos Estados Unidos.
O sonho americano prometia riquezas a qualquer cidadão comprometido com o trabalho.
Crédito da Imagem: Shutterstock
Deseja fazer uma citação?
PAULA, Cassio Remus de. "Sonho americano (American Dream)"; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/historiag/sonho-americano.htm. Acesso em 03 de fevereiro de 2026.

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