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Relações entre Venezuela e Colômbia

As relações entre Venezuela e Colômbia são marcadas por períodos de rompimento e reconciliação. Os países ainda convivem com conflitos de grupos armados na sua fronteira.

Quebra-cabeça unindo a bandeira da Colômbia com a bandeira da Venezuela.
Colômbia e Venezuela retomaram as relações diplomáticas em 2022, quatro anos após o rompimento. Os países apresentam um histórico de tensões.
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As relações entre Venezuela e Colômbia foram reestabelecidas no ano de 2022, três anos após o seu rompimento. A principal causa que levou à suspensão do diálogo entre os dois países sul-americanos foi o apoio dado pelo presidente colombiano, Iván Duque, ao autodeclarado presidente interino da Venezuela Juan Guaidó, em 2019, pouco após a posse do presidente eleito Nicolás Maduro.

Os países vivem hoje um problema em comum na região da sua fronteira que é o conflito entre os grupos dissidentes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e o Exército Nacional de Libertação (ENL). As consequências desses conflitos são: aumento do número de refugiados e pessoas que se deslocam em direção a outras regiões dentro do próprio país; maiores despesas com segurança; e grande número de pessoas feridas e mortas entre militares, guerrilheiros e civis.

Veja também: Por que a Rússia invadiu a Ucrânia em 2022?

Tópicos deste artigo

Resumo sobre as relações entre Venezuela e Colômbia

  • Os atuais conflitos que acontecem na fronteira entre a Venezuela e a Colômbia são decorrentes de disputas territoriais entre grupos dissidentes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e o Exército Nacional de Libertação (ENL).

  • Houve uma escalada nas tensões no ano de 2021.

  • No passado, houve a acusação mútua entre os governos venezuelano e colombiano com relação aos conflitos.

  • Venezuela e Colômbia vivem momentos de rompimento e estreitamento dos laços diplomáticos e políticos desde, pelo menos, o final da década de 1990.

  • O rompimento de relações mais recente aconteceu em 2019, quando o então presidente colombiano Iván Duque demonstrou apoio a Juan Guaidó, autodeclarado presidente interino da Venezuela e parte da oposição ao atual governo.

  • Como resposta, o presidente venezuelano eleito Nicolás Maduro decretou a suspensão das relações políticas e diplomáticas entre os países.

  • Venezuela e Colômbia retomaram oficialmente as relações em 28 de agosto de 2022.

  • Os conflitos na fronteira não cessaram, e a garantia de estabilização na região é uma das promessas feitas diante da reabertura do diálogo entre os países.

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Causas dos conflitos entre Venezuela e Colômbia

A Venezuela e a Colômbia são países vizinhos que apresentam um histórico de tensões desencadeadas por motivos como soberania; desavenças político-ideológicas — o que inclui o relacionamento estreito dos colombianos com os Estados Unidos e a forte oposição que os governos venezuelanos mais recentes têm com relação à política e diplomacia dos norte-americanos —; e disputas territoriais desencadeadas na região fronteiriça. Essas disputas territoriais, entretanto, não estão necessariamente ligadas aos governos nacionais propriamente, embora tenham suscitado tensões entre eles.

Mapa apontando a localização da Colômbia e da Venezuela na América do Sul.
Localização da Colômbia e da Venezuela na América do Sul. Trata-se de países vizinhos com mais de 2 mil km de fronteira entre eles.

Os territórios venezuelano e colombiano dividem uma fronteira de 2219 km, situando-se na porção noroeste da América do Sul. Trata-se de uma área historicamente utilizada como rota para o narcotráfico e ocupada por duas guerrilhas rivais desde a década de 1980.

A primeira delas é o Exército de Libertação Nacional (ELN), que atua desde a década de 1960 e se encontra em diversas partes do país, inclusive na fronteira com a Venezuela, notadamente na região do departamento de Arauca, onde houve uma escalada de tensões com a nação vizinha em 2008, e de Apure, no território venezuelano.

A segunda guerrilha ativa na Colômbia é formada por dissidentes das Forças Armadas da Colômbia (Farc). Falamos em dissidentes porque, em 2016, as Farc, depois de muitos anos de intensos conflitos travados internamente no país, assinaram um segundo acordo de paz com o governo colombiano que, diferentemente do primeiro que havia sido proposto poucos anos antes mediante um plebiscito, foi bem-sucedido com a maioria dos membros da guerrilha. Nesse caso, a aprovação dependeu do Congresso, e não da consulta popular.

O acordo resultou, entre outros, no desarmamento do grupo, na reintegração de centenas de pessoas que pertenciam às Farc às atividades da sociedade civil, além da criação do partido Força Alternativa Revolucionária Comum, que apresenta hoje 10 cadeiras no Congresso colombiano. No entanto, nem todos os membros da guerrilha aceitaram o acordo, permanecendo nos territórios, na fronteira com a Venezuela, onde se localizam os focos dos conflitos mais recentes, escalonados em 2021 e no início de 2022.

Os conflitos na região acontecem pela disputa territorial entre dois diferentes grupos formados por dissidentes das Farc e também entre esses grupos e o ELN, encerrando um acordo estabelecido no início da década passada. Além do controle das terras, os grupos lutam pelo domínio do tráfico e das atividades de garimpo na região.|1|

A chegada do presidente Iván Duque ao poder na Colômbia, em 2018, promoveu um rompimento com os grupos guerrilheiros, além do enfraquecimento das relações com a Venezuela sob o governo de Nicolás Maduro, uma vez que havia a acusação de que o presidente venezuelano protegia e auxiliava no fortalecimento das Farc principalmente.

Desde então houve um aumento na violência na região de fronteira, e, em 2021, o exército venezuelano se deslocou até lá numa tentativa de conter os conflitos, o que acabou resultando em confrontos entre os militares e os grupos guerrilheiros.

Houve morte de soldados venezuelanos, algumas das quais Maduro acusou terem sido causadas por minas terrestres implantadas por grupos que teriam algum tipo de ligação com o presidente colombiano.|2| No início de 2022, os conflitos ganharam maiores proporções do que no ano anterior, ampliando a sensação de medo e insegurança da população que vive nas áreas de fronteira.

Saiba mais: Pablo Escobar — o colombiano que foi o narcotraficante mais famoso do narcotráfico mundial

História das relações entre Venezuela e Colômbia

As tensões diplomáticas entre a Venezuela e a Colômbia não tiveram início recentemente. Pelo contrário, elas acontecem desde, pelo menos, as décadas de 1980 e 1990, com momentos marcados por iminência de guerra entre eles.

O primeiro desses momentos aconteceu, em 1987, em decorrência de uma disputa por territórios marítimos na região do golfo do Caribe, no Atlântico Norte. Embora ambos os países tivessem se preparado para um confronto direto, a solução chegou por vias diplomáticas.

A chegada de Hugo Chávez à presidência da Venezuela, em 1999, já foi marcada por um primeiro ponto de discordância entre os países. Diante de conflitos internos na Colômbia e que já perduravam há décadas, o recém-empossado presidente venezuelano adotou uma posição neutra.

Naquele mesmo ano, o país vizinho assinou o Plano Colômbia — um acordo com os Estados Unidos pela implementação de medidas que auxiliassem na garantia da segurança colombiana diante dos grupos guerrilheiros e do narcotráfico.

Em 2002, uma breve crise diplomática se instalou quando a Colômbia concedeu asilo a Pedro Carmona, empresário venezuelano que assumiu brevemente a presidência no país durante uma tentativa de golpe de Estado. Poucos dias depois dessa tentativa, entretanto, Chávez retomou seu posto.

No início de 2005, houve uma suspensão nas relações comerciais entre os países por parte da Venezuela quando aconteceu a captura do porta-voz das Farc, Rodrigo Granada, na cidade de Caracas, capital venezuelana. Chávez atribuiu esse ato, que não teve anuência do governo venezuelano, aos Estados Unidos, então com forte presença no país vizinho, e retirou o embaixador venezuelano de Bogotá.

O ano de 2006 representou o estreitamento de laços comerciais entre os países, o que gerou resultados muito positivos de ambos os lados. Um ano mais tarde, entretanto, as relações voltaram a se enfraquecer diante da atuação das Farc e da ampliação da presença militar dos Estados Unidos na Colômbia sob a justificativa de combate ao narcotráfico.

Nesse período já havia acusações de auxílio às Farc por parte dos venezuelanos no acesso a armamentos e refúgio, culminando no rompimento diplomático em 2010, após o governo colombiano de Álvaro Uribe ter levado essas acusações a público na cúpula da Organização dos Estados Americanos (OEA). A chegada de Juan Manuel Santos ao poder na Colômbia levou à retomada das relações diplomáticas e comerciais ainda em 2010.

No entanto, a morte de Chávez, em 2013, deu início a um novo período político na Venezuela, agora sob o governo de Nicolás Maduro, e as tensões recomeçaram. Como medida de combate ao contrabando, ao narcotráfico e aos grupos paramilitares, as fronteiras entre os países foram parcialmente fechadas em 2015 e reabertas novamente em 2016.|3|

Entretanto, as eleições venezuelanas seriam epicentro de nova crise diplomática um ano mais tarde, levando ao rompimento mais recente das relações entre os países.

Rompimento das relações entre Venezuela e Colômbia

No que se refere às relações entre a Venezuela e a Colômbia, o rompimento mais recente aconteceu no início de 2019.

As raízes da nova ruptura se encontram nas eleições presidenciais venezuelanas, realizadas no ano anterior sob muita turbulência política e social e com elevada abstenção, já que somente 46% dos eleitores registrados compareceram às urnas, além de denúncias de fraudes no pleito que reelegeu Nicolás Maduro com quase 68% dos votos válidos.

Pouco tempo depois da posse de Maduro, o líder da oposição e também presidente da Assembleia Nacional, Juan Guaidó, se declarou presidente interino (ou provisório) da Venezuela, angariando o suporte de diversos outros chefes de Estado, sendo um deles Iván Duque, da Colômbia.

O presidente colombiano chegou a dividir palanque com Guaidó na cidade de Cúcuta, na fronteira com a Venezuela. A posição de Duque foi tomada com grande ofensa por Maduro. Assim, ofendido pelo posicionamento de Iván Duque, Maduro decretou o rompimento das relações políticas e diplomáticas entre Venezuela e Colômbia.

Leia também: China x EUA — o que provoca a tensão entre eles?

Impactos dos conflitos entre Venezuela e Colômbia

Venezuelanos cruzando a fronteira da Venezuela para a Colômbia.
A intensificação dos movimentos transfronteiriços e o aumento do número de refugiados são consequências dos conflitos entre Venezuela e Colômbia. [1]

Os conflitos que acontecem na fronteira da Venezuela com a Colômbia entre os grupos guerrilheiros já ocasionaram a morte de 255 pessoas na região somente no ano de 2022, número esse maior do que o registrado em 2021, que foi de 187 óbitos. Entre as vítimas fatais estão militares que foram enviados ao local com o objetivo de mitigar os confrontos, guerrilheiros e também civis.

Os impactos tanto dos conflitos diretos entre os grupos armados quanto das idas e vindas nas relações entre os países são também de ordem econômica e social, conforme listamos abaixo.

  • Maiores gastos governamentais de ambos os lados no combate aos grupos guerrilheiros e também ao narcotráfico e à exploração mineral não autorizada nas fronteiras.

  • Perdas econômicas decorrentes do fechamento das fronteiras e rompimento ou pausa nas relações comerciais.

  • Ampliação do fluxo de refugiados colombianos e venezuelanos em direção a outros países.

  • Aumento no fluxo de pessoas que migram das regiões de fronteira para outras áreas dentro do próprio país, buscando regiões mais seguras para viverem.

  • Impasses diplomáticos com outros países que não estão diretamente envolvidos nos conflitos.

Relações entre Venezuela e Colômbia na atualidade

As relações entre a Venezuela e a Colômbia foram reestabelecidas em 2022, três anos após o anúncio de rompimento dos laços diplomáticos e políticos. O anúncio de uma retomada foi feito no mês de julho, e, em 28 de agosto de 2022, o vice-ministro das relações exteriores da Venezuela, Rander Peña Ramírez, e o embaixador colombiano no país, Armando Benedetti, se reuniram para a oficialização do retorno.

Cabe notar que houve o comprometimento de ambas as partes na atuação em medidas voltadas a cessarem os conflitos entre os grupos dissidentes das Farc e o ELN, em curso na fronteira entre os territórios da Venezuela e da Colômbia.

Crédito de imagem

[1] bgrocker / Shutterstock

Notas

|1| AFP. Violência na fronteira entre Colômbia e Venezuela deixa 255 mortos em 2022. Jornal O Globo, 10 ago. 2022. Disponível aqui.

|2| GONÇALVES, Mariana. Décadas de abandono e relações rompidas criam zona de guerra na fronteira entre Colômbia e Venezuela. O Globo, 06 abr. 2021. Disponível aqui.

|3| REDAÇÃO. Colombia y Venezuela: los momentos clave de una relación tumultuosa que ahora se reanuda. BBC Mundo, 29 ago. 2022. Disponível aqui.

 

Por Paloma Guitarrara
Professora de Geografia

Escritor do artigo
Escrito por: Paloma Guitarrara Licenciada e bacharel em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e mestre em Geografia na área de Análise Ambiental e Dinâmica Territorial também pela UNICAMP. Atuo como professora de Geografia e Atualidades e redatora de textos didáticos.

Gostaria de fazer a referência deste texto em um trabalho escolar ou acadêmico? Veja:

GUITARRARA, Paloma. "Relações entre Venezuela e Colômbia"; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/geografia/relacoes-entre-venezuela-e-colombia.htm. Acesso em 25 de fevereiro de 2024.

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