O teatro medieval é composto por obras do gênero dramático, isto é, peças de teatro produzidas durante a Idade Média. Nascido no interior das igrejas medievais, esse tipo de teatro, com o tempo, passou a ser encenado nas praças não só para catequizar e para moralizar, mas também para entreter a população.
Grande parte das obras da época eram encenações sobre vida de santos ou sobre partes da Bíblia, como na peça O mistério de Adão. Porém, também havia peças satíricas, como as farsas, que têm como tema a trapaça, o engano. Assim, criticam atitudes e costumes da época, como se vê em O menino e o cego.
Leia também: Gênero dramático — um gênero literário concebido para ser encenado, no palco do teatro, por atores e por atrizes
Tópicos deste artigo
- 1 - Resumo sobre o teatro medieval
- 2 - O que é o teatro medieval?
- 3 - Características do teatro medieval
- 4 - Origem do teatro medieval
- 5 - Exemplos de teatro medieval
- 6 - Objetivos do teatro medieval
- 7 - Exercícios resolvidos sobre teatro medieval
Resumo sobre o teatro medieval
- O teatro medieval foi produzido durante a Idade Média, período histórico compreendido entre os anos 476 e 1453.
- Apresenta, principalmente, temática religiosa, caráter didático e popular, mas também possui elementos satíricos.
- A origem do teatro medieval é o próprio rito religioso das missas cristãs, sendo tal teatro nascido no interior das igrejas.
- As duas principais obras do teatro medieval são a peça religiosa O mistério de Adão e a farsa O menino e o cego.
- O teatro medieval, além de divertir a população, também tinha a intenção de fortalecer a fé cristã.
O que é o teatro medieval?
O teatro medieval é o teatro produzido durante a Idade Média. Esse período histórico teve início em 476 e término oficial em 1453. Durante a Idade Média, a Igreja Católica detinha grande poder econômico e político. Devido a essa influência, predominava o teocentrismo, ou seja, a visão de que Deus é o centro de tudo.
Acontecimento importante durante esse período foram as Cruzadas, a guerra santa de cristãos contra os muçulmanos (os “mouros”). Outro fato marcante foi a criação do Tribunal do Santo Ofício (a Inquisição), que permitia à Igreja prender, torturar e queimar os hereges (aqueles que não seguiam a fé cristã).
Segundo o pesquisador Eduardo Cristiano Hass da Silva, no período medieval, o “teatro é visto pela igreja como profano e a dramaturgia é adaptada pelos monges e padres com a finalidade de catequizar os cristãos”. Assim, o clero vai usar a dramaturgia para encenar passagens bíblicas.
Características do teatro medieval
Principalmente entre os séculos X e XII, histórias bíblicas eram encenadas no interior das igrejas. De acordo com Eduardo Cristiano Hass da Silva, “entre os séculos XII-XIII o teatro vai para fora da igreja, para as praças, onde emerge o segundo momento do teatro medieval”. O primeiro momento foi o catequético.
Nesse segundo momento, a Igreja não tem mais tanto controle sobre as peças, de forma que elas assumem caráter popular. Assim, essa fase do teatro medieval está relacionada às encenações feitas em praça pública, quando os “atores deixam de ser apenas sacerdotes e, ao longo do período, grupos de teatro organizam-se em confrarias”.
O teatro medieval é predominantemente moral, cristão e detalhista (mostra detalhes da vida de seus personagens). Com temática religiosa, tem aspecto didático e popular. Também apresenta caráter épico (heroico) ao mostrar a vida de santos. Possui elementos como sacrifícios, martírios e demais temáticas cristãs.
De acordo com Anatol Rosenfeld, o teatro medieval era apresentado também em palco simultâneo e cena simultânea:
Existia na Idade Média uma espécie de palco sucessivo, constituído por uma série de carros, cada qual com cenários diversos que representavam lugares diferentes. Os carros sucediam-se, parando um depois do outro em pontos determinados para em cada um ser apresentada uma das cenas da peça. Depois os carros seguiam, numa espécie de procissão dramática.
Mas a grande invenção do teatro medieval foi a cena simultânea, usada a partir do século XII. [...]. Consistia esta invenção em colocar antecipadamente, lado a lado, todos os cenários requeridos, numa série de “mansões” ou casas, ao longo de estrados separados do público por uma barreira. Esta cena podia ter até 50 metros de extensão. Todos os lugares da ação, todos os elementos da cenografia — o crucifixo, o túmulo, a cadeia, o trono de Pilatos, a Galileia, o céu, o inferno etc. — encontravam-se deste modo de antemão justapostos e os personagens iam se deslocando durante o espetáculo de um lugar a outro, de uma casa a outra, segundo as necessidades da sequência cênica.
Por sua vez, as farsas eram peças satíricas, apresentadas em praça pública. Essa forma de texto dramático faz rir, contesta, critica, o engano ou a trapaça é sua temática principal. Porém, na Idade Média, a farsa também apresentava elementos religiosos. Marcada pela zombaria, a farsa tinha caráter de entretenimento, de divertimento.
Além disso, segundo a pesquisadora Irley Machado:
Uma das características da farsa em seu princípio era, sem dúvida, a misoginia. As mulheres eram seguidamente o motivo de deboches, e a presença feminina em cena assumia caracteres diversos: por vezes eram mostradas como infiéis e sempre prontas a enganar seus maridos — [...]. Há mulheres dominadoras cujos gritos e discussões acabam por exasperar seus maridos, [...]. A mulher controladora é um elemento recorrente na farsa e faz parte da tradição que provoca o riso popular: o marido dominado e espancado é um dos motivos favoritos.
Origem do teatro medieval
Sobre a origem do teatro medieval, o famoso crítico de teatro Anatol Rosenfeld diz que ele “se origina no rito religioso, mais de perto na missa cristã, embora precedendo-o e subsistindo ao lado dele existissem espetáculos de origens e tendências tanto pagãs como profanas”.
Nesse sentido, Rosenfeld parece estar falando do caráter dramático das cerimônias e narrativas religiosas cristãs. Além disso, embora existisse um teatro profano fora das igrejas, a base cristã do teatro medieval parece essencial em sua caracterização. Desse modo, o caráter teatral das narrativas religiosas era proeminente:
a partir do século IX, se acrescentavam na Páscoa ao texto do Evangelho de São Marco certos “tropos” ou paráfrases que dramatizam o encontro das Santas Mulheres com o Anjo (ou Anjos), ao chegarem à sepultura de Jesus. Mais tarde esta pequena narração dramática foi ampliada pela inserção de uma cena no mercado por onde passam as Santas Mulheres e onde compram os produtos para embalsamar o corpo de Jesus.
Anuncie aqui
O aspecto dramático estava presente nas narrativas cristãs que eram contadas no interior das igrejas medievais. Nessa perspectiva, o gesto e a mímica acompanhavam o canto do padre. Porém, com o tempo, “o drama litúrgico já não é apresentado por clérigos e sim por cidadãos da cidade, a ‘peça’ abandona a igreja e deixa de ser um prolongamento do ofício religioso”.
Exemplos de teatro medieval
Do século XII, de autor desconhecido, temos a peça Auto de Adão (ou O mistério de Adão), com temática bíblica:
ORDO: O Paraíso deve estar um pouco elevado no palco, rodeado de cortinas e telas de seda, de modo que os personagens fiquem visíveis apenas dos ombros para cima. No Paraíso deve haver flores perfumadas, folhagens e diversas árvores carregadas de frutas, com aspecto de lugar muito agradável. O Salvador (a Figura) deve entrar vestido com capa dalmática e diante dele situem-se Adão e Eva. Adão usa uma túnica vermelha; Eva, vestes femininas brancas e um manto de seda branco. Os dois postados diante da Figura, mas Adão mais perto. Adão está com um rosto sereno e Eva com um ar um pouco mais humilde. O Adão deve saber bem o momento de suas falas para não ser nem muito rápido nem muito lento. E não só ele, mas todos os personagens devem ser instruídos para falar adequadamente; para fazer os gestos apropriados à fala; para não acrescentar nem suprimir sequer uma sílaba do texto e proferi-lo na ordem prevista. Sempre que alguém mencione o Paraíso deve dirigir a ele o olhar e apontá-lo com o dedo. Começa a leitura: “In principio creavit Deus caelum et terram, et fecit in ea hominem, ad imaginem et similitudinem suam”. Terminada a leitura, o Coro canta: “Formavit igitur Dominus hominem de limo terrae, et inspiravit in faciem eius spiraculum vitae, et factus est homo in animam viventem”. Após o canto:
A FIGURA (DEUS)
Adão!
ADÃO
Senhor!
[...]
Há também a farsa do século XIII, de autor desconhecido, chamada O menino e o cego, escrita em versos. Ela fala sobre a sobrevivência na Idade Média, de forma que a relação entre os protagonistas é marcada pela trapaça. Assim, temos um menino pobre e um homem cego que pede esmolas.
O menino torna-se guia desse homem, que não é pobre coisa nenhuma, pois acumulou dinheiro com as esmolas recebidas. Ao saber disso, o menino tem a intenção de roubar o dinheiro que o cego esconde.
A seguir, o início da peça, em tradução livre feita em um tradutor on-line:
O CEGO
Fazei-nos o bem, senhores barões,
que Deus, o filho de Maria,
vos coloque a todos em sua casa.
e em sua companhia!
Ver-vos não posso de modo algum;
por mim vos veja Jesus Cristo,
e todos estes ponha no paraíso
que me derem ajuda!
[...]
AGORA FALA O MENINO à parte
Ah, infeliz, como estou necessitado!
ele percebe o cego
Não me falta mais nada além disso.
[...]
Agora veja o texto original em francês, edição de 1921:
LI AVECLES
Faites nous bien, seingnor baron,
que Diex li fius Marie
vous meche tous en sa maison
et en sa compaignie!
Veoir ne vous puis mie;
pour moi vous voie Jesus Cris,
et tous chiax mete en paradis
ki me feront aïe!
[...]
OR PAROLE LI GARÇONS à part
E! las, con je sui disiteus!
il aperçoit l’aveugle
Il ne me faut plus nule rien.
[...]
Veja também: Auto da barca do inferno — uma peça teatral do escritor português Gil Vicente
Objetivos do teatro medieval
O teatro medieval tinha, principalmente, os seguintes objetivos:
- catequizar (instruir o público acerca da doutrina cristã);
- fortalecer a fé cristã;
- evangelizar (pregar o Evangelho);
- exercer controle moral (ditar regras e costumes, o certo e o errado, segundo a doutrina cristã);
- celebrar datas religiosas importantes.
Já as peças satíricas tinham o intuito de criticar costumes ou pessoas da época, além de ter caráter de entretenimento.
Exercícios resolvidos sobre teatro medieval
Questão 1
Analise as seguintes afirmações:
I- O teatro medieval enaltecia a cultura greco-latina.
II- Édipo rei é uma famosa tragédia do teatro medieval.
III- É predominante, no teatro medieval, a visão teocêntrica.
Está correto o que se afirma no(s) item(ns):
A) I apenas.
B) II apenas.
C) III apenas.
D) I e II apenas.
E) I, II e III.
Resolução:
Alternativa C.
No teatro medieval, predomina o teocentrismo, isto é, a ideia de que Deus está no centro de tudo. Portanto, as peças religiosas, de cunho cristão, são predominantes nesse período. Édipo rei é uma peça do teatro grego, pertencente à Antiguidade clássica e de viés antropocêntrico. O teatro medieval não enaltecia a cultura greco-latina, considerada pagã e profana na Idade Média.
Questão 2
Todas as alternativas abaixo apontam algum objetivo do teatro medieval, EXCETO:
A) Divulgar valores morais condizentes com a fé cristã.
B) Entreter a população, por meio do riso e da zombaria.
C) Instruir a população acerca dos princípios cristãos.
D) Satirizar costumes e pessoas da época por meio do humor.
E) Valorizar o pensamento científico e a racionalidade humana.
Resolução:
Alternativa E.
Durante a Idade Média, a razão e o pensamento científico ficavam em segundo plano. O que predominava eram as crenças, as emoções e a fé.
Fontes
MACHADO, Irley. A farsa: um gênero medieval. OuvirOUver, Uberlândia, n. 5, 2009.
O MISTÉRIO de Adão. Tradução de Jean Lauand. Disponível em: http://www.hottopos.com/videtur22/jean_teatro_mediev.htm.
ROQUES, Mario (ed.). Le garçon et l’aveugle: jeu du XIIIe siècle. [O menino e o cego]. Paris: Librairie Ancienne Honoré Champion, 1921.
ROSENFELD, Anatol. O teatro épico. São Paulo: Perspectiva, 1985.
SCHEIBE, Carina. Augusto Roa Bastos na inspiração de uma dramaturgia ñandutí. 2011. Dissertação (Mestrado em Literatura) – Centro de Comunicação e Expressão, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2011.
SILVA, Eduardo Cristiano Hass da. Entre o medievo e a Idade Moderna: o teatro como transição, aglutinador cultural e gerador do indivíduo moderno. In: ENCONTRO DE PESQUISA EM ARTE DA FUNDARTE, 8., 2015, Montenegro. Anais [...]. Monte Negro: FUNDARTE, 2015.
SILVA-REIS, Dennys. Tradurrindo o sainete L’Ours (1894) de Georges Courteline. Aletria, Belo Horizonte, v. 35, n. 3, p. 115-131, 2025.