O Morro dos Ventos Uivantes é um romance da escritora inglesa Emily Brontë. Apesar de fazer parte do período vitoriano, onde predominou o Realismo, o romance de Brontë apresenta elementos góticos (sobrenaturais e sombrios), além do apelo emocional típicos do Romantismo. A narrativa conta a história de amor entre Heathcliff e Catherine.
De origem social “inferior” para os padrões da época, Heathcliff não podia se casar com Catherine. Assim, Heathcliff, humilhado desde a infância, conseguiu se apoderar dos bens das duas famílias que o fizeram sofrer, os Earnshaw e os Linton. Já a união dos amantes só seria possível após a morte.
Leia também: Frankenstein — obra romântica da escritora inglesa Mary Shelley
Tópicos deste artigo
- 1 - Resumo sobre O Morro dos Ventos Uivantes
- 2 - Análise da obra O Morro dos Ventos Uivantes
- 3 - Características da obra O Morro dos Ventos Uivantes
- 4 - Contexto histórico da obra O Morro dos Ventos Uivantes
- 5 - Qual é a etnia de Heathcliff?
- 6 - Qual foi a vingança de Heathcliff?
- 7 - O que acontece no final de O Morro dos Ventos Uivantes?
- 8 - Emily Brontë, autora de O Morro dos Ventos Uivantes
Resumo sobre O Morro dos Ventos Uivantes
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Na Inglaterra, em 1801, o senhor Lockwood chega à Granja Thrushcross, a qual alugou por alguns meses.
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O dono da granja chama-se Heathcliff, um homem rude, violento e aparentemente malvado.
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A casa de Heathcliff fica em um lugar chamado Morro dos Ventos Uivantes, onde ele mora em companhia da jovem nora e de um rapaz chamado Hareton.
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Na casa de Heathcliff também vivem o rude criado Joseph e a empregada Zillah.
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Na granja, a senhora Nelly Dean, empregada de Heathcliff, fica a serviço de Lockwood e conta-lhe a história das famílias Earnshaw e Linton.
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No passado, quando Nelly era criança, o patrão de sua mãe trouxe um menino moreno, um “cigano” chamado Heathcliff.
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Os filhos de Earnshaw eram a menina Catherine (Cathy) e o adolescente Hindley, o qual passou a humilhar Heathcliff.
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O tempo passou, o senhor Earnshaw faleceu e Hindley herdou a propriedade do Morro dos Ventos Uivantes.
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Catherine casou-se com Edgar Linton, sendo a família Linton dona da Granja Trushcross.
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Após a morte da esposa, Hindley ficou viciado em jogo, e, quando morreu, soube-se que Heathcliff era seu credor, ficando com a propriedade.
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Hareton, filho de Hindley, não herdou nada e ficou morando com Heathcliff, nas piores condições.
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Heathcliff se casou com Isabella Linton, irmã de Edgar, e teve um filho com ela, chamado Linton.
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Catherine, antes de morrer, teve uma filha batizada com o nome da mãe, ou seja, Catherine.
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Mais tarde, a jovem Catherine casou-se com seu frágil primo Linton e perdeu o pai, que estava doente.
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Com a morte de Edgar, Heathcliff também se apossou da Granja Trushcross.
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O filho de Heathcliff morreu depois que o pai, que o desprezava, negou-se a chamar um médico.
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Heathcliff, em sua vingança por ter sido humilhado e rejeitado, ficou com todos os bens das duas famílias e fez a vida de seus descendentes um inferno.
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Antes de morrer, Heathcliff passou a ver o fantasma de sua amada Catherine Earnshaw.
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Após a morte de Heathcliff, pessoas começaram a ver seu fantasma, acompanhado de uma mulher.
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No final, Catherine e Hareton desenvolvem um grande afeto e, finalmente livres do domínio de Heathcliff, planejam se casar.
Análise da obra O Morro dos Ventos Uivantes
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Personagens
- Catherine (Cathy) — filha de Earnshaw e amada de Heathcliff.
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Catherine (Cathy) — filha de Catherine Earnshaw e Edgar Linton.
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Edgar Linton — filho do senhor Linton.
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Frances — esposa de Hindley.
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Hareton — filho de Hindley Earnshaw.
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Heathcliff — senhorio de Lockwood.
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Hindley — filho de Earnshaw.
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Isabella Linton — filha do senhor Linton e esposa de Heathcliff.
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Joseph — criado de Heathcliff.
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Linton — filho de Isabella e de Heathcliff.
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Lockwood — inquilino de Heathcliff.
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Kenneth — médico.
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Nelly Dean — empregada de Heathcliff, a serviço de Lockwood.
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Senhor Earnshaw — o patriarca da família Earnshaw.
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Senhor Green — advogado.
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Senhor Linton — patriarca da família Linton.
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Zillah — empregada de Heathcliff.
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Tempo
O romance apresenta tempo cronológico (narrativa com fatos em sequência temporal linear). Ela tem início em 1801, quando o narrador, Lockwood, conhece o senhor Heathcliff. Em seguida, a narrativa apresenta um flashback, quando a senhora Dean conta a Lockwood a história da família Earnshaw desde o momento em que uma criança de nome Heathcliff passou a integrar essa família.
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Espaço
A história ocorre na Inglaterra, especificamente na Granja Thrushcross e na residência de Heathcliff, localizada no Morro dos Ventos Uivantes. Também há menções à aldeia de Gimmerton.
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Narrador
O romance conta com narrador-personagem (aquele que narra e participa da história narrada). O primeiro narrador é o senhor Lockwood. O segundo narrador é a senhora Dean, empregada da Granja Thrushcross, alugada a Lockwood.
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Enredo
Em 1881, chega à Granja Thrushcross o inquilino senhor Lockwood, o qual decide visitar seu senhorio, o frio e rude senhor Heathcliff. O local onde moram Heathcliff, sua nora, um rapaz chamado Hareton Earnshaw, além de um criado e uma empregada, é conhecido como o Morro dos Ventos Uivantes.
Em outra ocasião, Lockwood vai novamente à casa de Heathcliff. O senhorio foi caçar, de forma que o inquilino é recebido pela fria senhora Heathcliff (jovem viúva, nora de Heathcliff). A princípio, o inquilino pensa que ela é casada com o proprietário, depois descobre que ela é sua nora e que o filho do proprietário já morreu.
O inquilino busca ser sociável, mas as pessoas que vivem no Morro dos Ventos Uivantes são caladas e grosseiras. Acaba assistindo a uma discussão entre o criado Joseph e a senhora Heathcliff, que se diz estudiosa de magia negra e é chamada de “bruxa perversa” por Joseph.
Apesar do ambiente hostil, Lockwood é obrigado a pernoitar no Morro dos Ventos Uivantes, já que uma nevasca o impede de voltar para a granja. A empregada leva o rapaz para um quarto misterioso. Ali, sozinho, ele coloca “a vela sobre uma prateleira [...] coberta de escritos raspados na pintura”.
Esses escritos consistem em um nome, “repetido em todos os tipos de caracteres, grandes e pequenos”. O nome é Catherine Earnshaw, Catherine Heathcliff e Catherine Linton. O mesmo nome, com sobrenomes distintos. No quarto, há velhos livros que pertenceram a Catherine.
O inquilino encontra uma espécie de diário de Catherine. Depois de ler trechos desse diário, ele adormece e tem um pesadelo com Catherine. O grito do hóspede ao acordar de um pesadelo chama a atenção de Heathcliff. Quando amanhece, o senhorio acompanha o inquilino de volta à granja.
Na granja, sendo servido pela senhora Dean, Lockwood resolve perguntar sobre Heathcliff. Descobre que ele é riquíssimo, mas sovina. É por meio dela que Lockwood fica sabendo de toda a trágica história das famílias Earnshaw e Linton. A mãe da senhora Dean tinha sido ama de leite do senhor Hindley Earnshaw, pai de Hareton.
O patriarca da família, o senhor Earnshaw, pai de Hindley e de Catherine (ou Cathy), ficou três dias fora de casa e, quando voltou, trouxe “uma criança morena, suja e esfarrapada, grande o bastante para caminhar e falar”. Era o pequeno Heathcliff. Logo ele e Cathy ficaram amigos.
Mas o jovem Hindley, o irmão mais velho, odiava-o, e passou a maltratar violentamente o pequeno órfão. Porém, o pai de Hindley e Cathy apegaram-se muito a Heathcliff. Isso aumentou o ódio de Hindley, cuja mãe morreu cerca de dois anos depois. Para se defender, Heathcliff, sempre muito calado, passou a ameaçar Hindley, dizendo que contaria todas as suas más ações ao senhor Earnshaw.
Por conselho de um pastor, o senhor Earnshaw enviou Hindley para um colégio interno. Três anos depois, com a morte do pai, o jovem Hindley voltou para casa para assistir ao funeral e surpreendeu a todos ao trazer com ele uma esposa. E logo agiu contra Heathcliff:
Expulsou-o para junto dos criados, privou-o das aulas do pastor e determinou que, em vez de estudar, Heathcliff trabalhasse no campo — obrigando-o a trabalhar tão duro quanto qualquer outro empregado da fazenda.
Além disso, Catherine e Hindley ficaram próximos da família Linton. Hindley e a esposa tiveram um filho. Após o parto, Frances morreu, ficando Nelly responsável por criar o bebê Hareton. O violento Hindley, alcoólatra, transformou-se no terror da família, todos o odiavam, inclusive seu filho.
Edgar Linton pediu a mão de Catherine, e ela aceitou. No entanto, Catherine não queria se afastar de Heatcliff:
— Quem é que vai nos separar, me diga? Se alguém tentar, vai ter o mesmo destino de Mílon! Nenhum mortal conseguirá nos separar enquanto eu viver, Ellen. Todos os Linton na face da terra se transformariam em pó, antes que eu consentisse em abandonar Heathcliff. Oh, não é isso que desejo... não é isso que eu quero dizer! Se este for o preço exigido, nunca serei a senhora Linton! Ele continuará sendo para mim o mesmo que tem sido a vida inteira. Edgar terá que se livrar dessa antipatia e tolerá-lo, pelo menos. E ele vai se livrar disso, quando souber dos meus verdadeiros sentimentos por ele. Nelly, estou vendo agora que me considera apenas uma egoísta miserável. Mas nunca lhe ocorreu que se eu e Heathcliff nos casássemos, seríamos dois mendigos? Ao passo que, casando com Linton, posso ajudar Heathcliff a elevar-se e colocá-lo fora do alcance do meu irmão.
Assim, Cathy decidiu se casar a partir de uma perspectiva racional. Ao ouvir sua conversa com Nelly, Heathcliff foi embora daquela casa, ou seja, do Morro dos Ventos Uivantes. Já os Linton viviam na Granja Thrushcross, onde Cathy foi morar ao se casar com Edgar. Porém, um dia Heathcliff voltou, para grande e curta felicidade de Catherine.
Isabella Linton apaixonou-se por Heathcliff, mas não era correspondida. A volta de Heathcliff perturbou o casamento de Cathy, pois Edgar e Heathcliff não se suportavam. Catherine acabou adoecendo mentalmente, ficou fraca, delirava, ficando à beira da loucura. Já Isabella fugiu para viver com Heathcliff.
Logo após o casamento, ela descobriu a total infelicidade no Morro dos Ventos Uivantes, onde era maltratada, principalmente pelo marido. Nessa casa, o ódio e a brutalidade eram reinantes nas figuras de Heathcliff, Hindley Earnshaw, seu filho Hareton e o criado Joseph. Já Edgar Linton preferia manter distância da irmã, ou seja, da família de Heathcliff.
Em meio a todo esse conflito, existia uma paixão imensa entre Catherine e Heathcliff, um amor impossível, mas eterno e forte. Por ordens de Heathcliff, Nelly entregou uma carta a Catherine, em que lhe pedia para se encontrarem. Cathy estava deprimida e amarga. O encontro só aumentou seu delírio.
Estava grávida de sete meses. E, naquela noite em que se encontraram, deu à luz uma menina prematura e depois morreu. Isso gerou a revolta de Heathcliff:
— Pois desejo que desperte em tormento! — exclamou ele, com veemência assustadora, batendo o pé e gemendo, numa súbita explosão de fúria incontrolável. — Pois ela foi uma mentirosa até o fim! Onde ela está? Não está lá... no céu... nem se acabou... onde está então? Oh, Catherine! Você disse que não se importava com os meus sofrimentos! E eu rezo apenas uma oração... e repito essa prece até que minha língua se paralise: Catherine Earnshaw, que você não tenha descanso enquanto eu viver! Disse que eu a matei... venha me assombrar, então! Acredito que os mortos devem assombrar seus assassinos. E eu sei que os fantasmas vagam pela terra. Venha ficar comigo para sempre... tome a forma que quiser, mas enlouqueça-me! Só não me deixe neste abismo, onde não posso encontrá-la! Oh, Deus! É inexprimível! Não posso viver sem a minha vida! Não posso viver sem a minha alma!
Em seguida, Isabella (senhora Heathcliff) fugiu do Morro dos Ventos Uivantes e nunca mais voltou. Teve um filho meses depois, refugiada perto de Londres. O menino chamava-se Linton. Então, ocorreu outra morte, agora de Hindley, que morreu “bêbado como um lorde”.
A casa do Morro dos Ventos Uivantes não ficou para Hareton, mas para Heathcliff:
Ele tinha a garantia da posse, e provou isso ao advogado. Este, por sua vez, provou a Mr. Linton que Earnshaw tinha hipotecado cada jarda de terra que possuía, em troca do dinheiro para prover seu vício por jogo. E Heathcliff era o credor hipotecário. Dessa maneira, Hareton, que deveria ser agora o primeiro proprietário da região, foi reduzido a um estado de completa dependência do inveterado inimigo do pai.
Então se passaram doze anos. Nesse período, Edgar Linton, pai da menina Catherine, educou a filha em casa. Isabella enviou uma carta para o irmão, disse que ela estava doente e perto da morte, pedia que Edgar cuidasse do jovem Linton. Edgar viajou e voltou com o sobrinho, pois a mãe do menino estava morta.
Ao saber disso, Heathcliff mandou Joseph ir até a Granja Thrushcross para buscar o filho. Passaram-se aproximadamente três anos, e Catherine reecontrou o primo Linton no Morro dos Ventos Uivantes. Ela logo se apaixonou pelo primo. Nelly tentou evitar o romance, e o pai de Catherine contou à filha que o senhor Heathcliff era um inimigo malvado.
Afastada de Linton por algum tempo, Catherine (também chamada de “Cathy”) recebeu a visita de Heathcliff, que dizia que o filho estava doente e temia que ele morresse caso ela se afastasse dele. Com a visita da prima, Linton sentiu-se melhor. Tais acontecimentos ocorreram cerca de um ano antes de Lockwood chegar à granja.
A saúde de Edgar piorou. Mas, antes de sua morte, Heathcliff prendeu Cathy e Nelly no Morro dos Ventos Uivantes e obrigou a moça a se casar com Linton. Ela amava Linton, mas não queria se casar sem falar com o pai, que estava na granja. Linton, o filho de Heathcliff, apoiava o pai, sofria influência da maldade paterna e tinha um caráter fraco.
Nelly conseguiu fugir e voltou à granja. Edgar, muito doente, mandou, por intermédio de Nelly, quatro homens buscarem a filha. Voltaram sem ela: “Trouxeram a notícia de que Catherine estava doente, tão doente que não podia deixar o quarto, e Heathcliff não permitiu que a vissem”.
Nelly ficou brava “com aqueles estúpidos por acreditarem nessa história da carochinha”.
No dia seguinte, Catherine chegou em casa (fugira, com ajuda de Linton), foi até o pai, que faleceu tranquilamente diante dela. Horas depois, o advogado Green apareceu na granja, a mando de Heathcliff, demitiu todos os empregados, deixando apenas Nelly.
Heathcliff não permitiu que o filho e a nora morassem na granja, obrigou-os a viver no Morro dos Ventos Uivantes. A granja seria alugada. Enquanto esperava a nora para levá-la para o Morro dos Ventos Uivantes, Heathcliff contou a Nelly que desenterrara Catherine Earnshaw, sua amada, logo depois de sua morte. Então sentira a presença do fantasma de Cathy e desistira de abrir o caixão.
Logo o jovem Linton adoeceu, e o pai não quis chamar um médico. Apesar dos cuidados da esposa, ele morreu. No testamento de Linton (assinado sob ameaças), todos os bens dele e da esposa eram deixados para Heathcliff. Após ouvir a história, o senhor Lockwood decidiu:
E embora ainda estejamos na segunda semana de janeiro, pretendo, dentro de um ou de dois dias, cavalgar até o Morro dos Ventos Uivantes para informar ao meu senhorio de que passarei os próximos seis meses em Londres. E ele, se quiser, pode procurar outro inquilino a partir de outubro. Não passaria outro inverno aqui por nada no mundo.
Interessante notar como as pessoas se transformavam no Morro dos Ventos Uivantes, todos ficavam rudes e cruéis. Tanto Linton quanto sua jovem esposa Catherine sofreram tal transformação. Desse modo, esse lugar assumia um aspecto de lugar amaldiçoado, onde predominavam a maldade e o sofrimento.
Em setembro de 1802, o senhor Lockwood foi “convidado a devastar a charneca de um amigo que mora no norte, e, na viagem para a sua casa, vi-me, inesperadamente, a quinze milhas de Gimmerton”. Ele então sente um impulso de visitar a Granja Trushcross. É informado de que a senhora Nelly Dean está morando no Morro dos Ventos Uivantes.
Assim, ele vai até lá e fica sabendo da morte de Heatcliff há três meses. Agora é Nelly e Catherine que cuidam dos negócios da família. O clima ali é outro, tranquilo e agradável. Catherine e Hareton, visivelmente enamorados, vão se casar. Nelly revela a Lockwood que, no fim da vida, Heatcliff estava animado e menos agressivo.
Nos últimos dias, ele estava vendo algo invisível para os outros, algo que “lhe transmitia tanto prazer quanto dor, ambas levadas ao extremo. Pelo menos era o que sugeria a expressão angustiada, embora radiante, do seu rosto”. Nelly relata que ela ouviu
distintamente o passo de Mr. Heathcliff, andando impaciente pela sala; muitas vezes rompia o silêncio com um suspiro profundo, que mais parecia um gemido. Também murmurava palavras desconexas. Só consegui entender o nome de Catherine, junto com alguma expressão de amor ou sofrimento. E ele falava em tom baixo e grave, como se ela estivesse ali, presente; como se as palavras lhe viessem do fundo da alma. Não tive coragem de entrar direto no aposento, mas queria desviá-lo do seu devaneio.
Heathcliff parecia pressentir a morte. Não passou muito tempo, Nelly encontrou-o no quarto, morto:
Consegui entrar com uma outra chave, e corri para abrir os painéis da cama, pois o quarto estava vazio. Empurrei-os depressa e espiei. Mr. Heathcliff estava lá, deitado de costas. Seus olhos me encaravam, tão fixos e ferozes que me assustei; mas parecia sorrir. Não achei que estivesse morto, mas seu rosto e a garganta estavam molhados de chuva; a roupa de cama gotejava, e ele estava perfeitamente imóvel. A veneziana, balançando-se de um lado para outro, lhe esfolara uma das mãos que descansava no peitoril. Não havia sangue na pele ferida, e quando o toquei com os dedos, não tive mais qualquer dúvida: estava morto e rígido!
Após sua morte, as pessoas da região passam a ver seu fantasma em companhia de uma mulher, ou seja, de sua amada Catherine.
Leia também: O retrato de Dorian Gray — narrativa fantástica de Oscar Wilde
Características da obra O Morro dos Ventos Uivantes
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Estrutura
O romance inglês O Morro dos Ventos Uivantes é composto por 34 capítulos.
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Estilo literário
Emily Brontë é uma escritora do período vitoriano. Esse período é mais realista, apresenta crítica social e foco em questões morais. A crítica social está presente em O Morro dos Ventos Uivantes, ao analisar a posição social ocupada pelo personagem Heathcliff. Questões morais também são discutidas, já que o amor de Catherine e Heathcliff é socialmente inviável.
Porém, apesar de o período vitoriano ser marcado por elementos realistas, O Morro dos Ventos Uivantes é um romance gótico. Portanto, apresenta características do período romântico, anterior ao período vitoriano. Desse modo, estão em evidência a história de amor impossível, os elementos sobrenaturais ou fantásticos (como o fantasma de Cathy) e o ambiente sombrio (a residência de Heathcliff), o que provoca o terror.
O Romantismo é um estilo literário surgido no final do século XVIII, de caráter antirrealista. Afinal, privilegia os sentimentos e a forte emoção em detrimento da razão. Daí serem recorrentes as histórias de amor impossível, o sofrimento amoroso e os ambientes sombrios e angustiantes.
Contexto histórico da obra O Morro dos Ventos Uivantes
O período vitoriano durou de 1837 a 1901 e corresponde ao reinado da rainha Vitória. A obra de Emily Brontë está inserida nesse período, como eu já falei no tópico anterior. Já o contexto histórico da obra, ou seja, a época em que a narrativa ocorre, é o período romântico, durante o reinado de George III, que governou de 1760 a 1820.
Durante seu reinado, ocorreu a Independência dos Estados Unidos, declarada em 1776. A Inglaterra reconheceu a independência em 1783, dando fim à guerra contra as ex-colônias americanas. Já em 1789, ocorreu a Revolução Francesa, que pôs fim ao absolutismo na França, levando a um gradual enfraquecimento do absolutismo na Europa.
No entanto, o romance O Morro dos Ventos Uivantes não analisa a situação política da época, pois focaliza os sentimentos e as emoções humanas, além de aspectos sobrenaturais. Não sei se a autora teve a intenção consciente de fazer uma narrativa com elementos românticos, ambientada no período romântico, mas foi o que aconteceu.
Como eu já disse anteriormente, a literatura do período vitoriano, da qual a obra de Emily Brontë faz parte, apresenta características realistas. Assim, o período vitoriano sucede o período romântico. Emily Brontë escreveu seu livro por volta de 1847, mas a história é ambientada antes de 1801, ou seja, no período romântico.
Percebo certa genialidade nisso. É como se você, em pleno século XXI, escrevesse um romance brasileiro que se passa em 1843 (o Romantismo no Brasil durou de 1836 a 1881). Já que a história se passa em 1843, você então decide fazer uma história com características do Romantismo, mesmo você não estando no século XIX.
Foi isso que Emily Brontë fez. Escreveu uma história que se passava mais de cinquenta anos antes, isto é, durante o período romântico da literatura inglesa. Então a autora parece ter optado por criar uma obra com traços românticos (caráter sobrenatural e excessivamente sentimental), em vez de puramente realistas.
Devo ressaltar que isso é apenas uma possibilidade de interpretação. Afinal, não posso saber o que a autora pensou quando criava sua famosa obra. E, como Emily Brontë nunca falou dessa possível escolha estética, nós leitores só podemos especular a respeito.
Qual é a etnia de Heathcliff?
No romance, Heathcliff, às vezes, é chamado, pejorativamente, de “cigano”. Isso porque ele tem a pele morena. Não há indicação, na narrativa, de que ele realmente seja cigano.
Amontoamos-nos em volta dele e, por cima da cabeça de Miss Cathy, avistei uma criança morena, suja e esfarrapada, grande o bastante para caminhar e falar. Na verdade, pelo rosto parecia até mais velho do que Catherine. Mas, quando foi colocado de pé, apenas olhou em volta e repetiu várias vezes uma algaravia que ninguém conseguia entender. Eu estava amedrontada, e Mrs. Earnshaw estava pronta para arremessá-lo porta afora. Ergueu-se impetuosamente, perguntando como ele podia ter trazido aquele pirralho de cigano para casa, quando eles tinham seus próprios filhos para alimentar e cuidar. O que ele pretendia com isso? Estava louco? O patrão tentou explicar, mas estava morto de cansaço. Tudo que eu pude entender, por entre as censuras dela, era uma história de que ele o encontrara faminto, abandonado, e parecendo mudo, andando pelas ruas de Liverpool, onde o recolhera e indagara a quem pertencia. Não havia uma só alma que soubesse dizer de quem era o menino, disse o patrão, e como o seu tempo e dinheiro estavam acabando, achou melhor trazê-lo para casa de uma vez do que ficar gastando à toa na cidade. Estava determinado a não deixá-lo lá onde o encontrara.
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Qual foi a vingança de Heathcliff?
Heathcliff, desde criança, era maltratado por Hindley Earnshaw, que ficou endividado devido ao vício em jogo. Heatcliff tornou-se seu credor e, com sua morte, herdou a casa do Morro dos Ventos Uivantes, deixando Hareton, o filho de seu inimigo, sem nada e sob seu poder, sendo maltratado e humilhado.
Além de se vingar da família Earnshaw, ele se vingou também dos Linton, já que Edgar Linton, seu rival no amor, roubara-lhe a amada Catherine. Heathcliff casou-se com a irmã de Edgar, teve um filho com ela e planejou o casamento entre o filho (Linton) e a filha de Edgar (Catherine).
Assim, com a morte de Edgar, todos os bens da família Linton ficaram de posse de Heathcliff, já que seu filho morrera porque o pai se negara a chamar um médico. Ao final, portanto, Heathcliff, o “cigano” rejeitado e maltratado, tornou-se dono de tudo, além de promover a infelicidade de todos os Earnshaw e de todos os Linton.
O que acontece no final de O Morro dos Ventos Uivantes?
No final do romance O Morro dos Ventos Uivantes, o terrível Heathcliff morre. Após sua morte, algumas pessoas acreditam ver o seu fantasma, em companhia de uma mulher, o que indica que, finalmente, os dois amantes puderam se unir após a morte. Durante seus últimos dias de vida, Heatcliff faz essa revelação a Nelly:
— É um final absurdo, depois de todos os esforços que fiz! Uso de alavancas e picaretas para demolir as duas casas, treino para ser capaz de executar trabalhos como os de Hércules, e quando tudo está pronto e em meu poder, descubro que perdi a vontade de retirar uma só telha dos seus telhados! Meus velhos inimigos não me venceram; agora seria a hora certa de me vingar nos seus representantes — e poderia fazê-lo, sem que alguém tentasse me impedir. Mas de que serviria? Não me interessa bater em ninguém: não posso mais me dar ao trabalho de levantar a mão! Falando assim, parece que lutei o tempo inteiro só para exibir um belo gesto de magnanimidade. Nada está mais longe da verdade; apenas perdi o prazer de gozar com a sua destruição, e sou muito preguiçoso para destruir a troco de nada.
No mais, os únicos sobreviventes das famílias Earnshaw e Linton (Catherine e Hareton) estão enamorados e vão se casar. Quando isso acontecer, vão morar na granja, e Joseph ficará encarregado de cuidar da casa do Morro dos Ventos Uivantes. Ao ir-se embora, Lockwood visita o túmulo de Heathcliff.
Emily Brontë, autora de O Morro dos Ventos Uivantes
Emily Brontë é uma escritora inglesa do período vitoriano. Ela nasceu em 30 de julho de 1818, em Thorton, na Inglaterra. Desde cedo, ela e suas duas irmãs (as escritoras Anne e Charlotte Brontë) desenvolveram interesse pelos livros e pelo estudo, estimuladas pelo pai, o clérigo Patrick Brontë.
Além de escritora, Emily Brontë trabalhou como professora por algum tempo (menos de dois anos). Uma coletânea de poemas das irmãs Brontë foi publicada em 1846, com pseudônimos masculinos. A obra não teve êxito. No ano seguinte, a escritora publicou seu único e famoso romance — O Morro dos Ventos Uivantes.
Das três irmãs, era a mais temperamental. Nunca se casou nem teve filhos. E morreu de tuberculose em 19 de dezembro de 1848, em Haworth, na Inglaterra. E se você considerar que, na época, havia poucas mulheres escritoras — pois as mulheres não eram valorizadas pela sua intelectualidade —, a importância de Emily Brontë não é só literária, mas também política e social.
Créditos da imagem
[1] Editora Zahar (reprodução)
Fontes
ALBRECHT, Karina Gebien. Literatura inglesa. Indaial: UNIASSELVI, 2019.
BRONTË, Emily. O Morro dos Ventos Uivantes. Tradução de Doris Goettems. São Paulo: Landmark, 2012.
CAMPIGOTTO, Lucas Monteiro. O arquétipo do medo na literatura gótica: de Walpole a Stoker. 2023. Dissertação (Mestrado em Letras) – Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes, Universidade Estadual de Maringá, Maringá, 2023.
CEVASCO, Maria Elisa; SIQUEIRA, Valter Lellis. Rumos da literatura inglesa. 2. ed. São Paulo: Ática, 1985.
COSTA, Suzana de Noronha Nascimento Leão da Cunha. O efeito do tempo na tradução: marcas do desfasamento temporal em duas traduções de Wuthering Heights. 2000. Dissertação (Mestrado em Estudos de Tradução) – Faculdade de Letras, Universidade do Porto, Porto, 2000.